Muita gente se recusa a
ler os jovens poetas, defendendo que a maioria deles escreve uma poesia “sem pé
nem cabeça” e que não dizem coisa com coisa. Em parte, isso é verdade. Contudo,
não os ler ou esperar que esses imberbes poetas escrevam tal qual um T. S.
Eliot ou um Bob Dylan é algo que beira o nonsense. Na profusão dos inúmeros
poetas que surgem todos os dias, fica muito difícil acompanhar tudo o que tem
sido publicado. Nesse contexto, destaco a poesia de Elimax de Andrade,
publicada em dois livros. O primeiro chama-se Meu fantástico mundo real,
publicado no ano de 2014 pela editora Chiado, na Coleção Prazeres Poéticos, no
Brasil e em Portugal. A obra é constituída de 40 poemas que abordam temáticas,
na sua maioria, de caráter existencial. Entre elas: amor, família, vida, morte.
Enfim, elementos constituintes da condição humana. Embora a poesia de Andrade
ainda se mostre bastante “verde” no livro em questão, já se percebe aqui um
poeta em consonância com a arte da poesia, cabendo a ele amadurecê-la (ou não)
e seguir em frente. No verso de Meu fantástico mundo real, tem-se um
poema de Horácio Dídimo em louvor à poesia de Elimax de Andrade. E isso não é
coisa pouca não, prezado leitor! É Horácio Dídimo falando para o mundo.
O segundo livro, por sua vez, é intitulado IsoladaMente, e foi publicado no ano de 2020, ou seja, seis anos após a publicação do Meu fantástico mundo real. Logo, percebe-se um amadurecimento na poesia produzida pelo poeta de Limoeiro do Norte, interior do Ceará. IsoladaMente é composto de 41 poemas. Se em Meu fantástico mundo real há uma predominância de poemas longos, que reproduzem as rimas e os ritmos do Cordel, em IsoladaMente não é isso que se tem. O que se vê é a recorrência de poemas curtos, que superam em muito os longos. E talvez seja, a nosso ver, na produção de poemas breves que o autor devesse investir mais. Como comprovação do que afirmamos, observemos o poema “Existacionamento” (p. 11) - esse neologismo é maravilhoso! - quando diz: “Quando repousa em meu peito/Do pensamento decolo/Repouso o corpo em teu colo/Me desloco suavemente/Desloucamente/E, ônibus especial afoguetado/Pouso em ti, nave mãe/Estacionado”. E em “complemento” à leitura de “Existacionamento”, o poema “Calma” (p.49) nos diz: “Em minhas veias, estradas desaceleram os carmas/Em transe meus pensamentos transitam lágrimas/Prevalece a calmaria onde já eu-for-ia/Hoje frio e sonolento/Ondas sem vento/Existacionamento”.
Além da qualidade do
texto poético de Andrade, uma outra questão que precisa ser destacada é arte
das capas de ambos os livros, produzidas por Enoque Ferreira Cardozo. No caso
da capa de Meu fantástico mundo real, publicado também em Portugal,
tem-se a intervenção de Ana Curro, a partir, como dito, da capa de Enoque
Cardozo. No mais, que jamais deixemos de ler Bob Dylan e T.S. Eliot, mas que
também leiamos jovens poetas como Elimax de Andrade.