sábado, 29 de março de 2025

IsoladaMente, de Elimax de Andrade

 A aridez do dia a dia empurra a poesia para as mais íngremes estâncias. Da beira do abismo da existência, o poeta a tudo observa com os olhos lassos de quem sente o mundo pesar por sobre seus ombros. E como pesa! O que o poeta não sabe é que o mesmo abismo de beleza e dor para o qual ele olha, também o olha de volta. E dessa união existencial é que brota, sim, a palavra tornada verbo, feita carne, amor e dor.

Muita gente se recusa a ler os jovens poetas, defendendo que a maioria deles escreve uma poesia “sem pé nem cabeça” e que não dizem coisa com coisa. Em parte, isso é verdade. Contudo, não os ler ou esperar que esses imberbes poetas escrevam tal qual um T. S. Eliot ou um Bob Dylan é algo que beira o nonsense. Na profusão dos inúmeros poetas que surgem todos os dias, fica muito difícil acompanhar tudo o que tem sido publicado. Nesse contexto, destaco a poesia de Elimax de Andrade, publicada em dois livros. O primeiro chama-se Meu fantástico mundo real, publicado no ano de 2014 pela editora Chiado, na Coleção Prazeres Poéticos, no Brasil e em Portugal. A obra é constituída de 40 poemas que abordam temáticas, na sua maioria, de caráter existencial. Entre elas: amor, família, vida, morte. Enfim, elementos constituintes da condição humana. Embora a poesia de Andrade ainda se mostre bastante “verde” no livro em questão, já se percebe aqui um poeta em consonância com a arte da poesia, cabendo a ele amadurecê-la (ou não) e seguir em frente. No verso de Meu fantástico mundo real, tem-se um poema de Horácio Dídimo em louvor à poesia de Elimax de Andrade. E isso não é coisa pouca não, prezado leitor! É Horácio Dídimo falando para o mundo.


O segundo livro, por sua vez, é intitulado IsoladaMente, e foi publicado no ano de 2020, ou seja, seis anos após a publicação do Meu fantástico mundo real. Logo, percebe-se um amadurecimento na poesia produzida pelo poeta de Limoeiro do Norte, interior do Ceará. IsoladaMente é composto de 41 poemas. Se em Meu fantástico mundo real há uma predominância de poemas longos, que reproduzem as rimas e os ritmos do Cordel, em IsoladaMente não é isso que se tem. O que se vê é a recorrência de poemas curtos, que superam em muito os longos. E talvez seja, a nosso ver, na produção de poemas breves que o autor devesse investir mais. Como comprovação do que afirmamos, observemos o poema “Existacionamento” (p. 11) - esse neologismo é maravilhoso! - quando diz: “Quando repousa em meu peito/Do pensamento decolo/Repouso o corpo em teu colo/Me desloco suavemente/Desloucamente/E, ônibus especial afoguetado/Pouso em ti, nave mãe/Estacionado”. E em “complemento” à leitura de “Existacionamento”, o poema “Calma” (p.49) nos diz: “Em minhas veias, estradas desaceleram os carmas/Em transe meus pensamentos transitam lágrimas/Prevalece a calmaria onde já eu-for-ia/Hoje frio e sonolento/Ondas sem vento/Existacionamento”.

Além da qualidade do texto poético de Andrade, uma outra questão que precisa ser destacada é arte das capas de ambos os livros, produzidas por Enoque Ferreira Cardozo. No caso da capa de Meu fantástico mundo real, publicado também em Portugal, tem-se a intervenção de Ana Curro, a partir, como dito, da capa de Enoque Cardozo. No mais, que jamais deixemos de ler Bob Dylan e T.S. Eliot, mas que também leiamos jovens poetas como Elimax de Andrade.

terça-feira, 9 de abril de 2024

Aliás, Fausto Nilo completa 80 anos


 Fausto Nilo faz um bruto sucesso não apenas em Quixeramobim, mas no Brasil inteiro. Nascido na terra de Antônio Conselheiro (Fausto morou na casa na qual nasceu Conselheiro) no dia 05 de abril, de 1944, o poeta, autor de mais de seiscentas composições chega aos oitenta anos, reverenciado por todos, mas principalmente por Fortaleza, cidade que o reconhece, agradece, abriga e o abraça. E na noite da cidade, cuja boemia também encantava o poeta Mário Gomes (1947 - 2014), é impossível sentar-se à mesa de um bar e não ouvir alguém cantar uma canção de Fausto Nilo. De todas elas, a que mais se escuta é “Dorothy Lamour”, de sua parceria com Petrúcio Maia (1947 – 1994), um hino constantemente entoado no calor das noites alencarinas, quando “a felicidade corre sem parar”, quase num frenesi.

Cantor, compositor, arquiteto, urbanista e ilustrador, Fausto Nilo é um artista múltiplo surgido no cenário cultural nacional dos anos setenta, com o grupo que viria a ser conhecido como o Pessoal do Ceará, cujos integrantes eram Belchior, Ednardo, Amelinha, Fagner, Téti e Rodger Rogério, entre outros. Como compositor, a poética de Fausto Nilo se destaca pela alta qualidade da sua elaboração, assumindo lugar de destaque entre os grandes compositores da sua geração.

Enquanto escrevo este texto, escuto Nilo cantar “Você se lembra”, letra sua em coautoria com Pippo Spera e Geraldo Azevedo, do disco Esquinas do deserto (2006), parte integrante do Box que contém ainda Verso e Voz (2004) ao vivo, e Casa tudo azul (2002-2006). A referida canção também ficou uma lindeza nas vozes de Geraldo Azevedo e Chico César, no trabalho Violivoz (2023).  Ouvir as canções de Fausto Nilo é como “sonhar em Casablanca e se perder no labirinto de outra história”. Logo, não é exagero dizer, que somente os mestres possuem tamanho dom.

A prezada leitora e o caríssimo leitor podem até pensar que jamais ouviram sequer uma canção desse cara incensado aqui pelo articulista. Ledo engano! Pois já ouviram, com certeza: “Eu também quero beijar” (Moraes Moreira, Pepeu Gomes e Fausto Nilo), “Coisa Acesa” (Moraes Moreira e Fausto Nilo), “Meninas do Brasil” (Moraes Moreira e Fausto Nilo), “Bloco do Prazer” (Moraes Moreira e Fausto Nilo) “Chorando e Cantando” (Geraldo Azevedo e Fausto Nilo), “Pequenino Cão” (Caio Sílvio e Fausto Nilo), “Chão da Praça” (Moraes Moreira e Fausto Nilo), “Pão e Poesia” (Moraes Moreira e Fausto Nilo), “Pedras que cantam” (Dominguinhos e Fausto Nilo) e, entre inúmeras outras, “Zanzibar”, de Fausto Nilo e Armandinho, sucesso com A Cor do Som.

Avis rara da MPB, Fausto Nilo é daqueles compositores que conseguem ir dos temas banais aos mais elaborados, ou seja, consegue mergulhar no erudito sem jamais se descuidar do popular. Eis aí, talvez, um dos segredos do poeta, que assim como o eu lírico de Bilac, inveja o ourives quando escreve, imitando o amor, “com que ele, em ouro, o alto relevo, faz uma flor”. Mas diferentemente de Bilac, Fausto Nilo é um poeta que escreve como quem faz um filme. E assim, tal qual Fellini, olha a vida e entende que dela há sempre algo a se tirar, um poema, uma letra que seja.  O resultado é como se uma caravana de alegria nos atravessasse o coração todas as vezes que o ouvimos cantar, “estranho como a primeira, a primeira Coca-Cola”, descortinando os escaninhos da canção e fazendo pulsar as relações entre o compositor/cantor, a letra e o ouvinte.

No ano de 2016, as edições Demócrito Rocha lançaram o livro Fausto Nilo, da Coleção Terra Bárbara Premium, escrito por Marcos Sampaio. Lá, Fausto Nilo diz: “Quase sessenta anos da minha vida dediquei à minha sensibilidade, a um desejo de um país rico, com distribuição justa de oportunidades sociais e acho que vou morrer com essa esperança. Talvez eu não veja, mas continuo com expectativa de que se reduzam os preconceitos, as diferenças de oportunidades e dignidade...” (SAMPAIO, 2016:72). Nada menos que isso poderíamos esperar de um poeta em consonância com seu tempo. Fausto Nilo comemora oitenta anos. Vida longa ao poeta!

segunda-feira, 6 de março de 2023

O homem do casaco vermelho, de Julian Barnes


John Singer Sargent (1856 – 1925) foi um pintor italiano, tendo sido considerado como um dos melhores da sua época. No ano de 1881concluiu o retrato do Doutor Samuel Pozzi, com o nome de Doutor Pozzi em Casa. Desde o ano de 1991, o quadro pertence ao acervo do Museu Hammer, em Los
Angeles. E é a partir da pintura Doutor Pozzi em Casa, que o escritor Julian Barnes elabora, em seu O homem do casaco vermelho (2021), um maravilhoso painel da cultura francesa e inglesa do começo do século XX. O livro de Barnes foi traduzido para o português por Léa Viveiros de Castro, e publicado pela editora Rocco.

Ao apresentar ao leitor o modelo do quadro de Sargent, Barnes assim o descreve:

O modelo – o plebeu como nome italiano – tem trinta e cinco anos, é bonito, usa barba, e está olhando com um ar confiante por cima do nosso ombro direito. Ele é viril, mas esbelto, e aos poucos, depois do primeiro impacto causado pela pintura, quando podemos pensar que “o importante é mesmo o casaco”, percebemos que não. As mãos são mais importantes. A mão esquerda está no quadril; a direita, no peito. Os dedos são a parte mais expressiva do retrato. Cada um está articulado de forma diferente: totalmente estendido, dobrado até a metade, totalmente dobrado. Se nos pedissem para adivinhar a profissão do homem, poderíamos achar que era um pianista virtuoso.

Mão direita no peito, mão esquerda no quadril. Ou talvez algo mais sugestivo do que isto: mão direita no coração, mão esquerda na virilha. Isso faria parte da intenção do artista? (...). A mão direita brinca com o que parece ser uma presilha. A mão esquerda está enganchada em um dos cordões duplos da cintura, que repetem os cordões que prendem as cortinas ao fundo. O olho os acompanha até um nó complicado, do qual pende um par de borlas peludas, uma por cima da outra. Elas pendem logo abaixo da virilha, como um pênis de boi escarlate. O pintor teve essa intenção? Quem sabe? Ele não deixou nenhum relato da pintura. Mas ele era um pintor malicioso além de magnífico; era também um pintor de ostentação, não tinha medo de polêmica, e talvez, na realidade, fosse atraído por ela.

A pose é nobre, heróica, mas as mãos tornam-na mais sutil e mais complicada. Não as mãos de um pianista, afinal de contas, mas as de um médico, um cirurgião, um ginecologista (...) (BARNES, 2021, P. 7-8)

O livro de Barnes tem 272 páginas e é fartamente ilustrado. Pela pena do autor de O sentido de um fim, obra vencedora do Prêmio Man Booker Prize, de 2011, passam inúmeros nomes de todos os campos das artes e das ciências. Muitas das ações, atitudes e trabalhos dessas pessoas serviram para quebrar paradigmas criativos e comportamentais de uma época e apontar caminhos para as gerações que lhes sucederam.

Assim sendo, a figura de Pozzi é o ponto a partir do qual Barnes tece toda uma teia de relações pessoais e profissionais, que envolve obras, autores e ideias as quais são de fácil reconhecimento para uma grande parcela de leitores. Entre tantos, tem-se: Sarah Bernhardt, que teria sido uma das inúmeras amantes de Pozzi, Adrien e Robert Proust (pai e irmão de Marcel Proust e colegas médicos de Pozzi), enquanto o autor de Em busca do tempo perdido foi seu amigo, assim como também o foi Oscar Wilde, Robert de Montesquiou, Jean Lorrain e Joris-Karl Huysmann.


Na primeira orelha do livro lê-se:

Por intermédio de John Singer Sargent, autor da pintura que dá título ao livro, e do próprio Dr. Pozzi (grande colecionador), Juliana Barnes aborda um dos seus temas preferidos: a arte, cuja análise ele transforma em radiografia de toda a sociedade. E ao analisar as vidas e as obras de outros escritores célebres, como Guy de Maupassant, Barbey d’Aurevilly, Gustave Flaubert e os irmãos Goncourt, ele compõe um esplêndido e irretocável painel da vida cultural da Belle Époque, no qual não faltam os toques dramáticos do modismo dos duelos e dos assassinatos de médicos por pacientes insatisfeitos.

A leitura de O homem do casaco vermelho, de Barnes, exige tempo, paciência e atenção do leitor, tendo em vista o entrelaçamento da imensa quantidade de informações que constitui a narrativa. Isso, no entanto, não diminui em absolutamente nada a grandeza do texto. Quanto mais dele se lê, mais se deseja ler. Barnes é, sem dúvidas, um dos grandes autores do nosso tempo.

 

Para ler Julian Barnes:

1.      BARNES, Julian. O sentido de um fim. Trad. Léa Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.

2.      ______________. Altos vôos e quedas livres. Trad. Léa Viveiros de Castro Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

3.      _____________. O ruído do tempo. Trad. Léa Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

4.      _____________. Mantendo um olho aberto: ensaios sobre arte. Trad. Pedro Süssekind. Rio de Janeiro: Anfiteatro, 2017.