sábado, 25 de março de 2017

SERTÃO: POETAS E PROSADORES

O sertão é quase uma incógnita, uma esfinge. Como popularmente se diz: “o sertão não é para os fracos”. Para se viver no sertão, já dizia Euclides da Cunha, precisa-se ser, antes de tudo, um forte”. E o que será que diria o autor do clássico  Os Sertões (1902 ) sobre viver e escrever no sertão? Na verdade, o sertão nem sempre precisa ser o sertão. Itamar Assumpção, por exemplo, diz: “ São Paulo é meu sertão”.

No Dicionário do Brasil Colonial (1550 – 1808), Ronaldo Vainfas traz um esclarecedor verbete denominado “sertão”. Contudo, o sertão de Vainfas é, em muito, diferente do sertão que nos engole de dia com seu calor infernal, mas que à noite nos agasalha e nos protege contra o frio trazido pelo vento Aracati.  E é das vozes desse sertão que o escritor Bruno Paulino trata em seu mais recente livro intitulado Sertão: poetas e prosadores (2017), publicado pela expressão Gráfica e Editora.

O referido trabalho é constituído por 109 páginas, contendo dezenove perfis de autores que, de uma forma ou outra possuem relação com o sertão, mais especificamente, com a cidade de Quixeramobim, situada no Sertão Central do Estado do Ceará. O livro conta também com um prefácio assinado pelo poeta Rodrigo Marques, professor da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central – FECLESC, da Universidade Estadual do Ceará – UECE. A apresentação ficou por conta do escritor Arievaldo Vianna; enquanto o posfácio, por sua vez, ficou a cargo de Alves de Aquino, o Poeta de Meia-Tigela.

Ao longo de Sertão: poetas e prosadores, Bruno Paulino discorre sobre seus encontros e conversas com importantes nomes da cultura brasileira. Dessa forma, estão presentes no trabalho Audifax Rios (Aqui, tem-se uma bela homenagem à memória de Audifax, quando as páginas estão em preto e a indicação dessas páginas é feita com as letras do nome do artista), Marcos Mairton, Luiz Gonzaga, Geraldo Amâncio, Arievaldo Vianna, Rouxinol do Rinaré, Klévisson Vianna, Luiz Costa Filho, João Eudes Costa, Gordurinha, Alberto Porfírio, Moacir Costa Lopes, Vasco Benício, Claudio Portella, saraiva Júnior, Jards Nobre, Diogo Fontenelle, João Pedro do Juazeiro e J. Bosco Fernandes.  

Bruno Paulino, certamente, fez uma seleção dos poetas e prosadores dos quais gostaria de falar na obra em questão. E, talvez por isso, alguns poetas e prosadores de enorme relevância acabaram ficando de fora. Assim sendo, sentimos falta de um capítulo que fosse dedicado ao Cego Aderaldo (o capítulo “Claudio Portella e ampla visão de Cego Aderaldo”, p. 79 – 84, traz Portella falando sobre Aderaldo), bem como outro dedicado a um dos nossos poetas maiores, Jáder de Carvalho. Nonô da Sanfona (mencionado no capítulo “O rei do baião em Quixeramobim”, p. 30 – 33) também merecia um capítulo só pra ele, assim como o poeta Fausto Nilo, mencionado no mesmo capítulo. Percebemos ainda em Sertão: poetas e prosadores, a ausência de poetisas (o termo “poeta” também pode ser usado no feminino) e prosadoras, as quais, sabemos, existem em grande quantidade pelos nossos sertões; sejam eles “são paulos” ou “quixeramobins”.

E embora os textos que compõem Sertão: poetas e prosadores tenham sido escritos para publicação em jornal; o que poderia caracterizá-los como “perfis jornalísticos”; implicando em uma linguagem mais específica para o veículo, não é isso que se dá. O que se percebe é a linguagem “nua e crua” da crônica dominando todos os textos assinados por Bruno Paulino, o que, de imediato, salta aos olhos do leitor das referidas narrativas.


Assim sendo, Sertão: poetas e prosadores (2017) não deve ser compreendido como um livro de crítica literária ou uma coletânea de perfis, por exemplo, mas como um agradável livro de crônicas que se erigem a partir de uma ideia central, seja um autor, um fato ou uma obra, mas que descambam livremente para outros caminhos, permitindo as mais variadas interpretações que só são possíveis no contexto da abertura proporcionada pela própria obra. 

quarta-feira, 1 de março de 2017

CRAVOS, DE JÚLIA WÄHMANN

O que tem a ver um filhote de elefante, que pula de um trem suspenso, em movimento, com a solidão que dorme silenciosamente no coração humano, os movimentos da dança-teatro, de Pina Bausch e um personagem de David Bowie? Aparentemente, nada. Mas também pode ter tudo, dependendo de como um bom narrador ata tais fios.

Houve um tempo em que algumas pessoas acreditavam piamente, que diferentes formas de arte jamais poderiam habitar o mesmo espaço; devendo cada uma delas se manifestar conforme suas próprias delimitações. É claro que esse tipo de pensamento só se sustenta na cabeça daqueles que não conseguem pensar fora da caixa, ou seja, na cabeça daquelas pessoas que, como diz o poeta Alexander Pope: “nunca aprendem nada, pois entendem tudo muito depressa”. E, (in)felizmente, algumas coisas precisam ser apreciadas e lentamente mastigadas, para que só então possam ser deliciosamente deglutidas. Talvez esteja aí, uma das principais características de uma boa narrativa.

Refiro-me, especificamente, ao romance Cravos (2016), de Júlia Wähmann, publicado pela editora Record. Trata-se do primeiro romance da autora, a qual já havia publicado Diário de Moscou e André quer transar; os quais são do ano de 2015, publicados respectivamente pelas editoras Megamíni / 7Letras e Pipoca Press. Júlia Wähmann nasceu no ano de 1982, coincidentemente o ano de criação da peça Nelken (Cravos), de Pina Bausch.

A coreógrafa alemã Pina Bausch (1940–2009) é um dos principais nomes da dança-teatro (tanztheatre), tendo criado inúmeras peças, que contam histórias baseadas na vida cotidiana, na solidão; bem como nas relações que se dão entre o masculino e o feminino. É claro que o que dizemos é apenas uma brevíssima nota de rodapé ao trabalho de Bausch, tendo em vista que sua obra vai muito além de qualquer tentativa de rotulação ou enquadramento. E é a partir de determinados elementos constituintes da obra de Pina Bausch, que Júlia Wähmann elabora sua narrativa.

Não sabemos quem é exatamente a narradora do referido romance, mas sabemos que ela está na Alemanha e, entre idas e vindas de Wuppertal para Colônia, tomamos conhecimento da saudade que sente daqueles que ficaram no Brasil, assim como a angústia de coisas mal resolvidas. Há, na narrativa de Wähmann, a recorrente presença da solidão, de sentimentos estilhaçados e de algo que se ficou por dizer. Se a narrativa de Cravos fosse pautada apenas por essas questões existenciais, provavelmente o romance nada teria a acrescentar de novidade ao tripé amor, vida e morte; que serve de sustentação, de uma forma ou de outra, à literatura universal. A grande sacada de Wähmann, no entanto, é trazer para sua narrativa os movimentos observáveis na dança de pina Bausch. No caso, Cravos.

Cena da peça Cravos.
A predileção da autora pela peça Cravos acabou por aproximar dança e literatura; palavra e movimento. E se a narradora, citando Spinoza, pergunta “o que pode um corpo?” (p.39), poderíamos parafraseá-la, perguntando o que pode a palavra? Mas não é só Spinoza que passeia pela narrativa de Júlia Wähmann. No decorrer do seu texto, o leitor entra em contato como os diálogos propostos pela narrativa, quando é posto em contato com nomes da cultura mundial, que se apresentam como personagens de um grande painel em movimento. Ora, se a vida não é uma maravilhosa dança-teatro, o que é então? Assim sendo, o leitor encontra Raymond Queneau (p.47) e escuta Jards Macalé cantando “movimento dos barcos”. Relembra a canção popular “Alecrim dourado” e é sacudido pelo  vazio deixado por Pina Bausch e Michael Jackson (p.63). A morte aparece de inúmeras formas, mesmo que seja a morte de personagens fictícios, como o Major Tom (p. 69), o astronauta criado por David Bowie, e que aparece nas canções “Space Oddity”, “Ashes to ashes” e “Hallo Spaceboy!

Cravos (1982), a peça de Pina Bausch, é o que serve de leitmotiv para a construção de Cravos, o romance de Júlia Wähmann. Contudo, outras peças da coreógrafa (logicamente, Pina Bausch é muito mais que uma coreógrafa!) alemã são referenciadas ao alongo da prosa de Wähmann. Ariem (1979), Ten Chi (2004) e Café Müller, de 1978, sendo esta considerada sua obra mais íntima, tida como uma metáfora da solidão e da fragilidade dos relacionamentos humanos.  

Mas é a imagem daqueles cravos tomando o palco, derramados pela narrativa de Wähmann, que invadem os olhos e a imaginação do leitor. É tudo tão vivo e forte, que quase se escuta a narradora parafrasear Bausch e dizer: “Você precisa se assustar”. E ousamos dizer que se a narrativa de Wähmann fosse uma pintura, muito dificilmente seria um dos azuis (ou o rosa) de Yves Klein, mas um Pollock, com certeza. Do meio da plantação de cravos, reverbera uma canção de George e Ira Gershwin. A narradora é tão minúscula perante a Catedral de Colônia! A narrativa segue, assim como segue um baile. E Colônia se torna para a narradora apenas “uma sala de espera úmida e descompassada para o próximo trem”. A narradora consegue um bilhete para a reprise de Nelken. Há cravos à venda. “Não há costura que te possa”, diz o Canto II, de Pele tecido (2010), de Ericson Pires. Segue o baile. Segue a narrativa.

Júlia Wähmann

A narradora encontra Dominique Mercy, que já não dança mais. Aceitar isso é tão difícil quanto amar um elefante ou ver todo ano Michael Jackson morrer de novo.  Cravos, peça e romance, nos impõem um questionamento que se resume na postura do bailarino frente ao vazio, mas que também o é, ao mesmo tempo, da angústia do homem frente aos desafios que lhes são impostos pela contemporaneidade. Na obra, o coreógrafo Merce Cunningham, citado por José Gil, diz: “Perante o vazio, [o bailarino] está só, de uma solidão que o arranca para fora de si. Está só e fora de si. O seu gesto vai na direção dos outros corpos. Como dançar esse gesto? Como fazer? Fazendo-o” (p.121). 

Cravos, o romance de Júlia Wähmann, é uma das mais belas narrativas publicadas no Brasil de 2016. Engana-se, no entanto, aquele leitor que ousar acreditar, que uma ou duas leituras poderão dar conta da simplicidade da narrativa em questão. Embora escrita de maneira bastante acessível, como deve ser toda boa literatura, a narrativa de Wähmann é repleta de informações da cultura mundial, o que exige do leitor diferentes aportes para uma efetiva compreensão do texto em questão. A narrativa de Wähmann também pode ser lida como um poema, mas, antes de tudo, como uma dança em todos os seus movimentos.