quinta-feira, 25 de junho de 2026

Fortaleza amada


Dizer que Fortaleza é uma lindeza é cair na armadilha de uma rima pra lá de pobre. Por outro lado, como dizer de maneira simples e direta que Fortaleza é uma lindeza banhada de sol e mar, que nos abraça com seus ventos e nos acaricia com suas brisas de fim de tarde? Fortaleza é assim, essa cidade-mulher que representa amor e liberdade. Mas como toda cidade, Fortaleza é constituída de paradoxos, belezas e mazelas. Colocar essas contradições no papel foi a maneira que a Universidade Federal do Ceará – UFC encontrou para homenagear a cidade e, como bem disse o reitor da Universidade, professor Custódio Almeida: “Fortaleza é uma cidade que se reconhece nos encontros”.


E é assim que acompanhamos as memórias de Edmilson Alves Maia Júnior, quando discorre em sua crônica “O descanso do semeador” (p.114-117) sobre o senhor Edenilson que, entre inúmeras ouras coisas, costumava alugar DVDs em uma conhecida locadora da Avenida Antonio Sales (quem nunca?). Com Sarah Silva Ipiranga e sua crônica “Verde-Marinho” (p.391-393) acompanhamos a autora que, vinda de outras plagas, travou uma incansável luta contra o sol da cidade até que, por fim, se rendeu aos seus afagos, e tudo indica que não consegue mais viver sem eles.


Assim sendo, a UFC abriu edital e 163 crônicas foram selecionadas e publicadas no livro Fortaleza Amada (2026), com organização de Francisco Silva Cavalcante Júnior. A obra, uma espécie de festschrift para Fortaleza, traz em suas crônicas o olhar de cada autor(a) sobre um detalhe, uma memória, um personagem ou um lugar de afeto da cidade. Ao longo da leitura vamos nos identificando, pelas linhas simples, breves e profundas do gênero crônica, com a história e o cotidiano de uma cidade que completa 300 anos, mas que ainda guarda em si a beleza, as dúvidas e os descontentamentos adolescentes.


Uma das melhores maneiras de conhecer uma cidade é caminhar por ela. Somente assim conseguimos descobrir o que não se mostra, mas que é sempre tão belo quanto o que nos é dado aos olhos. Andar, contudo, dá fome. E é por esse caminho que segue a crônica “Sonhos de padaria” (p. 42-45), de Ana Mary C. Cavalcante, que relembra seu caminhar pela cidade, comendo sonho de padaria. Para a cronista, “Fortaleza é uma metrópole que me serve café com pão, quentinhos. E sonhos de padaria. As coisas mais finas do mundo”. Embora minhas taxas de diabetes batam no teto, quem sou eu para discordar das delicias de um sonho de padaria? 


Fortaleza não é apenas sol e mar. Não é apenas Ceará e Fortaleza, pois amamos o Ferroviário. Fortaleza também é periferia, mangue, rock, maracatu, blues e lutas políticas, “tudo junto e misturado”. Sobre o mangue (a Fortaleza-mangue), a crônica de Hermínia Lima (p.191-193) é um grito de socorro pela vida da praia de Sabiaguaba, pois, como diz a cronista: “... há lutas que não podem ser adiadas. Há lugares que não podem ser perdidos”. Do outro lado da cidade, quem diria, roubaram o portão de alumínio e os números de ferro da casa da família do tradutor Odorico Leal, que nos traz os detalhes na crônica “cidade desaparecida” (p.338-339). Ri bastante, pois já tentaram levar o meu também. São todas essas coisas que nos tornam parte dessa cidade que, ao contrário de NY, sempre tira um cochilo depois do almoço e, sim, sempre dorme. A city that doesn’t sleep é para os fracos.


O livro, presente da UFC para Fortaleza, poderia ter 3 volumes e ainda seria pouco para tentar dar conta de tudo que nossa cidade é. Fortaleza sempre foi cantada em prosa e verso. Nesse sentido, a crônica talvez seja um dos gêneros preferidos de muitos daqueles e daquelas que registraram seu orgulho de amanhecer nesta cidade. E é sobre isso que discorre a crônica “Fortaleza, o que tu és?” (p.386-387), de Ronaldo Salgado, quando lista muitos dos nomes que por Fortaleza “clamam, declamam e cantam”. No feriado do aniversário de Fortaleza não sei o que abre e fecha, mas sei que vou ouvir Kátia Freitas e tomar uns bons drinks em agradecimento por ter nascido e continuar vivendo nessa cidade.   


terça-feira, 23 de junho de 2026

Fortaleza 300 anos: uma cidade de sol, mar e dengo


É aniversário de Fortaleza, a cidade que me abriga e com quem tenho uma eterna relação de amor e ódio. No aniversário da cidade, nos alegramos, mas também choramos de tristeza quando vemos as coisas belas, uma a uma, sumindo, se desmilinguindo, como diz o poeta. Mas Fortaleza teima em resistir, não se deixando engolir por estacionamentos, igrejas, farmácias e mais um supermercado.


As belezas e delicadezas da minha cidade são inúmeras, mas muitas vezes são encobertas pelas indelicadezas dos táxis e carros de aplicativos, que te cobram muito caro para te levar tão perto. Pela letargia das coisas em um mundo cada vez mais rápido. Pelo abandono e pelo desrespeito com a coisa pública. Pela falta de amor ao nosso povo, adormecido sobre papelões debaixo das marquises nas melhores calçadas da cidade. E penso no que diriam Francisco Carvalho e Milton Dias sobre os “centauros urbanos”, metade homem, metade carrinho de geladeira, lutando pela vida, catando garrafas entre a boca da noite e a madrugada. E como não sofrer com as Iracemas diariamente violentadas na nossa cidade-mulher, apenas por serem Iracemas?

As imagens na mídia não dão conta de tudo o que Fortaleza realmente é, pois a cidade pela qual caminho todas as manhãs em direção ao trabalho também é linda graças ao sorriso das tapioqueiras da Paupina, à alegria da garotada que nada na lagoa de Messejana, a mesma lagoa na qual já se banhara a virgem dos lábios de mel. A Fortaleza que me encanta é aquela que se mostra nas canções de Fausto Nilo, minha terra natal, cujas longarinas de seus verdes mares bravios arrebentam na ponte velha, que ainda não caiu. A cidade que me seduz é aquela de Ednardo, mas é também aquela dos meninos e meninas do Bom Jardim, do Poço da Draga e do Curió.Mais que “odiar” essa cidade, amo seus aconchegos, os cafunés que faz em minha cabeça e os dengos em minh’alma. A paz e a liberdade que ela me proporciona conseguem diminuir as dores que me causa, enchendo meus olhos de um verde que apenas nosso mar parece ter. Assim, quando Fortaleza faz aniversário, tento não lembrar que sou “filho da dor” e agradeço as oportunidades que tenho de, sob o sol novo de cada amanhecer, ouvir a jandaia cantar em meu coração.      



sábado, 20 de junho de 2026

Aos 85, Bob Dylan reflete sobre envelhecimento: “Você fica sem ilusões”

O cantor e compositor Bob Dylan, 85, abriu o coração sobre os dilemas do envelhecimento. O astro declarou que o aspecto mais difícil de viver na pele a passagem do tempo é perceber que alguns fatos poderiam ter transformado o passado, caso tivessem surgido quando ainda havia espaço para mudar o rumo dos acontecimentos. 

As declarações foram publicadas em um
artigo de opinião para o jornal The New York Times, marcando o aniversário de 80 anos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, celebrado no domingo (14). Embora o cantor de “Blowin’ In The Wind” não faça referência direta ao republicano, ele compartilhou reflexões sobre essa fase da vida.

“A velha chama em seu coração ainda diz para fazer uma coisa ou outra, mas seu corpo responde: ‘Nós já fizemos isso’. Além disso, nada mais surpreende você. Parece um privilégio, mas não é. E você também fica sem ilusões.”

O ídolo da música acrescentou: “A pior parte de ter 80 anos é descobrir, finalmente, que você tem consciência de algo que poderia ter mudado completamente tudo o que ficou para trás, se esse discernimento tivesse chegado em uma época em que ainda fosse possível mudar alguma coisa. Quando você é jovem, acha que o tempo segue em frente. Aos 80, sabe que ele permanece parado. Somos nós que nos movemos.” 

Entretanto, o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura disse acreditar que a principal vantagem de envelhecer é a liberdade de abandonar algumas cobranças.

“A melhor coisa de ter 80 anos é sobreviver aos relógios que passaram a vida perseguindo você. É a liberdade em relação à mentira de que alguma coisa esteve sob controle em algum momento. Você não corre mais atrás do desfile. Você é um velho rei de algum país desaparecido. Fica mais difícil configurar você.”

 

 

Disponível em:

https://www.osul.com.br/aos-85-bob-dylan-reflete-sobre-envelhecimento-voce-fica-sem-ilusoes/amp/