domingo, 5 de julho de 2026

O baobá do Passeio Público e a Rede de Pesquisadores Negres do Ceará

Na canção “Ploft”, de 1984, Belchior diz no primeiro verso: “O Nordeste sentado na esquina do mapa/... Se mira no Atlântico: América, áfricas, índios, pobres e jovens, tudo um negro blues...”. E por muito tempo o Nordeste foi mantido ali, “no cantinho da disciplina”, com seu povo sendo dizimado pelas recorrentes secas que sempre se abateram sobre a região e que serviram para eleger e enriquecer gerações e gerações de políticos inúteis. As mesmas secas também serviram de matéria-prima para muitas das narrativas dos romances da geração de 30. Mas eis que um dia surge alguém e diz que o problema do Nordeste não era a seca, mas a cerca. Pois é! numa jangada”, seria parte do filme inacabado de Welles intitulado de It’s all true (É tudo verdade).


Voltando no tempo, lembramos que o Ceará, sentado na esquina do mapa do Nordeste, foi o primeiro Estado a libertar “seus” escravizados, tendo Chico da Matilde, o Dragão do Mar, como principal nome a impedir que se embarcassem escravizados em seus portos, tendo sido o Ceará a primeira província do Brasil a abolir a escravidão. Foi no Ceará também, que se fundou a primeira Academia de Letras do Brasil, a Academia Cearense de Letras (ACL), no ano de 1894, muito antes da Academia Brasileira de Letras (ABL), que só viria a ser fundada no ano de 1897.


A Padaria Espiritual, por sua vez, foi um movimento literário e cultural surgido em Fortaleza no ano de 1892, cujas ideias contestadoras, comportamentos progressistas e produções culturais e literárias de vanguarda postas em prática pelos seus membros, os “padeiros”, viriam antecipar em muitos anos aquilo que seria visto posteriormente na Semana de Arte Moderna, de 1922. É ainda no Ceará que o cineasta Orson Welles (1915 – 1985) aportou em 1942, na tentativa de filmar a história dos jangadeiros cearenses que percorreram 2.700 km, de jangada, de Fortaleza até o Rio de Janeiro, em 1941, com a intenção de reivindicar direitos trabalhistas ao então presidente Getúlio Vargas. O registro, chamado de “Quatro homens




Atenta à boa parte desses acontecimentos, uma testemunha permanece como símbolo de memória, bem no coração da nossa cidade de sol e mar. Trata-se do baobá, plantado em 1910, no meio do Passeio Público, e que em 2026 faz aniversário de 115 anos. Diante do avanço descontrolado de farmácias, igrejas e estacionamentos que engolem a cidade, o baobá a tudo observa, tudo vê. E assim, ele sabe muito bem que em sociedades marcadas pela discriminação e pelo preconceito nada é dado às minorias. E muitas vezes, aqueles que lutam por equidade e liberdade acabam sendo perseguidos, “desaparecidos” e mortos, como aqueles que foram fuzilados no Passeio Público, bem antes da chegada do hoje centenário baobá àquele mesmo espaço.

Como quase tudo é negado ao menos favorecidos, é necessário ir à luta para alcançar seus objetivos e ocupar os espaços que nos têm sido negados desde sempre. Assim, para o povo preto, por exemplo, a luta é cotidiana e desigual. O baobá do Passeio Público, que hoje se deleita com a presença de crianças e adultos que se deixam ficar por instantes à sua sombra, não conheceu Ana Triste. O velho baobá também não ouviu os “ganidos de morte vindos daquela janela” vizinha, como nos diz o cantor Ednardo (já disse hoje que amo Ednardo?) na canção “Passeio Público”, de 1976.

Ao completar 115 anos de idade, minha árvore favorita na cidade de Fortaleza (faz algum tempo que não nos vemos, inclusive), vê refletida na soberana beleza dos seus verdes galhos o surgimento da Rede de Pesquisadores Negres do Ceará – Repence, cujo lançamento oficial ocorreu não muito longe dali, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, no dia 13 de junho do corrente ano. A Repence, conforme divulgado na mídia local, reúne mais de 400 estudiosos dos mais diversos campos do conhecimento e tem como objetivo, como publicado pelo jornal O povo em 13/06/26: “fortalecer a produção intelectual e a articulação entre pesquisadores negros, de modo a ampliar a participação nos espaços acadêmicos e de formação de políticas públicas”. A Repence nasce forte, como um baobá, e necessária, da mesma forma como foram necessários e fortes em outros tempos, Ana Triste, os “padeiros”, Dragão do Mar, Tristão de Alencar, Padre Mororó e dona Bárbara, por exemplo. Vida longa à Rede de Pesquisadores Negres do Ceará – Repence! 

 

 


quinta-feira, 25 de junho de 2026

Fortaleza amada


Dizer que Fortaleza é uma lindeza é cair na armadilha de uma rima pra lá de pobre. Por outro lado, como dizer de maneira simples e direta que Fortaleza é uma lindeza banhada de sol e mar, que nos abraça com seus ventos e nos acaricia com suas brisas de fim de tarde? Fortaleza é assim, essa cidade-mulher que representa amor e liberdade. Mas como toda cidade, Fortaleza é constituída de paradoxos, belezas e mazelas. Colocar essas contradições no papel foi a maneira que a Universidade Federal do Ceará – UFC encontrou para homenagear a cidade e, como bem disse o reitor da Universidade, professor Custódio Almeida: “Fortaleza é uma cidade que se reconhece nos encontros”.


E é assim que acompanhamos as memórias de Edmilson Alves Maia Júnior, quando discorre em sua crônica “O descanso do semeador” (p.114-117) sobre o senhor Edenilson que, entre inúmeras ouras coisas, costumava alugar DVDs em uma conhecida locadora da Avenida Antonio Sales (quem nunca?). Com Sarah Silva Ipiranga e sua crônica “Verde-Marinho” (p.391-393) acompanhamos a autora que, vinda de outras plagas, travou uma incansável luta contra o sol da cidade até que, por fim, se rendeu aos seus afagos, e tudo indica que não consegue mais viver sem eles.


Assim sendo, a UFC abriu edital e 163 crônicas foram selecionadas e publicadas no livro Fortaleza Amada (2026), com organização de Francisco Silva Cavalcante Júnior. A obra, uma espécie de festschrift para Fortaleza, traz em suas crônicas o olhar de cada autor(a) sobre um detalhe, uma memória, um personagem ou um lugar de afeto da cidade. Ao longo da leitura vamos nos identificando, pelas linhas simples, breves e profundas do gênero crônica, com a história e o cotidiano de uma cidade que completa 300 anos, mas que ainda guarda em si a beleza, as dúvidas e os descontentamentos adolescentes.


Uma das melhores maneiras de conhecer uma cidade é caminhar por ela. Somente assim conseguimos descobrir o que não se mostra, mas que é sempre tão belo quanto o que nos é dado aos olhos. Andar, contudo, dá fome. E é por esse caminho que segue a crônica “Sonhos de padaria” (p. 42-45), de Ana Mary C. Cavalcante, que relembra seu caminhar pela cidade, comendo sonho de padaria. Para a cronista, “Fortaleza é uma metrópole que me serve café com pão, quentinhos. E sonhos de padaria. As coisas mais finas do mundo”. Embora minhas taxas de diabetes batam no teto, quem sou eu para discordar das delicias de um sonho de padaria? 


Fortaleza não é apenas sol e mar. Não é apenas Ceará e Fortaleza, pois amamos o Ferroviário. Fortaleza também é periferia, mangue, rock, maracatu, blues e lutas políticas, “tudo junto e misturado”. Sobre o mangue (a Fortaleza-mangue), a crônica de Hermínia Lima (p.191-193) é um grito de socorro pela vida da praia de Sabiaguaba, pois, como diz a cronista: “... há lutas que não podem ser adiadas. Há lugares que não podem ser perdidos”. Do outro lado da cidade, quem diria, roubaram o portão de alumínio e os números de ferro da casa da família do tradutor Odorico Leal, que nos traz os detalhes na crônica “cidade desaparecida” (p.338-339). Ri bastante, pois já tentaram levar o meu também. São todas essas coisas que nos tornam parte dessa cidade que, ao contrário de NY, sempre tira um cochilo depois do almoço e, sim, sempre dorme. A city that doesn’t sleep é para os fracos.


O livro, presente da UFC para Fortaleza, poderia ter 3 volumes e ainda seria pouco para tentar dar conta de tudo que nossa cidade é. Fortaleza sempre foi cantada em prosa e verso. Nesse sentido, a crônica talvez seja um dos gêneros preferidos de muitos daqueles e daquelas que registraram seu orgulho de amanhecer nesta cidade. E é sobre isso que discorre a crônica “Fortaleza, o que tu és?” (p.386-387), de Ronaldo Salgado, quando lista muitos dos nomes que por Fortaleza “clamam, declamam e cantam”. No feriado do aniversário de Fortaleza não sei o que abre e fecha, mas sei que vou ouvir Kátia Freitas e tomar uns bons drinks em agradecimento por ter nascido e continuar vivendo nessa cidade.   


terça-feira, 23 de junho de 2026

Fortaleza 300 anos: uma cidade de sol, mar e dengo


É aniversário de Fortaleza, a cidade que me abriga e com quem tenho uma eterna relação de amor e ódio. No aniversário da cidade, nos alegramos, mas também choramos de tristeza quando vemos as coisas belas, uma a uma, sumindo, se desmilinguindo, como diz o poeta. Mas Fortaleza teima em resistir, não se deixando engolir por estacionamentos, igrejas, farmácias e mais um supermercado.


As belezas e delicadezas da minha cidade são inúmeras, mas muitas vezes são encobertas pelas indelicadezas dos táxis e carros de aplicativos, que te cobram muito caro para te levar tão perto. Pela letargia das coisas em um mundo cada vez mais rápido. Pelo abandono e pelo desrespeito com a coisa pública. Pela falta de amor ao nosso povo, adormecido sobre papelões debaixo das marquises nas melhores calçadas da cidade. E penso no que diriam Francisco Carvalho e Milton Dias sobre os “centauros urbanos”, metade homem, metade carrinho de geladeira, lutando pela vida, catando garrafas entre a boca da noite e a madrugada. E como não sofrer com as Iracemas diariamente violentadas na nossa cidade-mulher, apenas por serem Iracemas?

As imagens na mídia não dão conta de tudo o que Fortaleza realmente é, pois a cidade pela qual caminho todas as manhãs em direção ao trabalho também é linda graças ao sorriso das tapioqueiras da Paupina, à alegria da garotada que nada na lagoa de Messejana, a mesma lagoa na qual já se banhara a virgem dos lábios de mel. A Fortaleza que me encanta é aquela que se mostra nas canções de Fausto Nilo, minha terra natal, cujas longarinas de seus verdes mares bravios arrebentam na ponte velha, que ainda não caiu. A cidade que me seduz é aquela de Ednardo, mas é também aquela dos meninos e meninas do Bom Jardim, do Poço da Draga e do Curió.Mais que “odiar” essa cidade, amo seus aconchegos, os cafunés que faz em minha cabeça e os dengos em minh’alma. A paz e a liberdade que ela me proporciona conseguem diminuir as dores que me causa, enchendo meus olhos de um verde que apenas nosso mar parece ter. Assim, quando Fortaleza faz aniversário, tento não lembrar que sou “filho da dor” e agradeço as oportunidades que tenho de, sob o sol novo de cada amanhecer, ouvir a jandaia cantar em meu coração.