terça-feira, 23 de junho de 2026

Fortaleza 300 anos: uma cidade de sol, mar e dengo


É aniversário de Fortaleza, a cidade que me abriga e com quem tenho uma eterna relação de amor e ódio. No aniversário da cidade, nos alegramos, mas também choramos de tristeza quando vemos as coisas belas, uma a uma, sumindo, se desmilinguindo, como diz o poeta. Mas Fortaleza teima em resistir, não se deixando engolir por estacionamentos, igrejas, farmácias e mais um supermercado.


As belezas e delicadezas da minha cidade são inúmeras, mas muitas vezes são encobertas pelas indelicadezas dos táxis e carros de aplicativos, que te cobram muito caro para te levar tão perto. Pela letargia das coisas em um mundo cada vez mais rápido. Pelo abandono e pelo desrespeito com a coisa pública. Pela falta de amor ao nosso povo, adormecido sobre papelões debaixo das marquises nas melhores calçadas da cidade. E penso no que diriam Francisco Carvalho e Milton Dias sobre os “centauros urbanos”, metade homem, metade carrinho de geladeira, lutando pela vida, catando garrafas entre a boca da noite e a madrugada. E como não sofrer com as Iracemas diariamente violentadas na nossa cidade-mulher, apenas por serem Iracemas?

As imagens na mídia não dão conta de tudo o que Fortaleza realmente é, pois a cidade pela qual caminho todas as manhãs em direção ao trabalho também é linda graças ao sorriso das tapioqueiras da Paupina, à alegria da garotada que nada na lagoa de Messejana, a mesma lagoa na qual já se banhara a virgem dos lábios de mel. A Fortaleza que me encanta é aquela que se mostra nas canções de Fausto Nilo, minha terra natal, cujas longarinas de seus verdes mares bravios arrebentam na ponte velha, que ainda não caiu. A cidade que me seduz é aquela de Ednardo, mas é também aquela dos meninos e meninas do Bom Jardim, do Poço da Draga e do Curió.Mais que “odiar” essa cidade, amo seus aconchegos, os cafunés que faz em minha cabeça e os dengos em minh’alma. A paz e a liberdade que ela me proporciona conseguem diminuir as dores que me causa, enchendo meus olhos de um verde que apenas nosso mar parece ter. Assim, quando Fortaleza faz aniversário, tento não lembrar que sou “filho da dor” e agradeço as oportunidades que tenho de, sob o sol novo de cada amanhecer, ouvir a jandaia cantar em meu coração.      



sábado, 20 de junho de 2026

Aos 85, Bob Dylan reflete sobre envelhecimento: “Você fica sem ilusões”

O cantor e compositor Bob Dylan, 85, abriu o coração sobre os dilemas do envelhecimento. O astro declarou que o aspecto mais difícil de viver na pele a passagem do tempo é perceber que alguns fatos poderiam ter transformado o passado, caso tivessem surgido quando ainda havia espaço para mudar o rumo dos acontecimentos. 

As declarações foram publicadas em um
artigo de opinião para o jornal The New York Times, marcando o aniversário de 80 anos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, celebrado no domingo (14). Embora o cantor de “Blowin’ In The Wind” não faça referência direta ao republicano, ele compartilhou reflexões sobre essa fase da vida.

“A velha chama em seu coração ainda diz para fazer uma coisa ou outra, mas seu corpo responde: ‘Nós já fizemos isso’. Além disso, nada mais surpreende você. Parece um privilégio, mas não é. E você também fica sem ilusões.”

O ídolo da música acrescentou: “A pior parte de ter 80 anos é descobrir, finalmente, que você tem consciência de algo que poderia ter mudado completamente tudo o que ficou para trás, se esse discernimento tivesse chegado em uma época em que ainda fosse possível mudar alguma coisa. Quando você é jovem, acha que o tempo segue em frente. Aos 80, sabe que ele permanece parado. Somos nós que nos movemos.” 

Entretanto, o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura disse acreditar que a principal vantagem de envelhecer é a liberdade de abandonar algumas cobranças.

“A melhor coisa de ter 80 anos é sobreviver aos relógios que passaram a vida perseguindo você. É a liberdade em relação à mentira de que alguma coisa esteve sob controle em algum momento. Você não corre mais atrás do desfile. Você é um velho rei de algum país desaparecido. Fica mais difícil configurar você.”

 

 

Disponível em:

https://www.osul.com.br/aos-85-bob-dylan-reflete-sobre-envelhecimento-voce-fica-sem-ilusoes/amp/


sábado, 7 de fevereiro de 2026

O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo, de Daniella Zupo

 

Estou de recesso do trabalho e, sem nenhum tostão no bolso, entreguei-me às "drogas pesadas" lícitas: música, filmes e livros.  Foi em meio a essa vida de excessos que li, entre outros, O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo (2025), de Daniella Zupo. E mesmo assim, sem um centavo na conta, viajei por várias cidades do mundo. Por culpa da Daniella Zupo, fui parar na cidade que é considerada o coração do inverno, situada mais ao norte da Suécia. A cidade chama-se Kiruna e, conforme Zupo está “localizada a 200 quilômetros do Círculo Polar Ártico, na Lapônia. Kiruna tem temperaturas que chegam a 25 graus negativos e pelo menos um mês em que o sol não nasce”. Como dizem nos filmes americanos: “Fuck!”. E se você quiser saber o que a Daniella Zupo foi fazer nesse "fim de mundo", terá que ler seu livro, pois cada página vale muito a pena.



O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo é constituído de 32 crônicas/relatos de viagens e mais um texto introdutório de João Anzanello Carrascoza, que prefere chamar o livro de road book. O livro abre com um breve texto da autora, que diz: “Esta não é uma obra de ficção. Todas estas viagens aconteceram, embora não necessariamente nesta ordem. Qualquer semelhança com paisagens reais terá sido mera coincidência, embora elas não existam. As coincidências”. Dado o recado, é hora de colocar algumas peças de roupa na mochila e embarcar com a autora pelos mais diferentes e interessantes cantos do planeta. Mas se você, leitor/leitora se acha foda porque já pegou sua mochila, entrou num ônibus por três horas e se achou pronto pra desbravar Canoa Quebrada, você não sabe nada, inocente! Ser foda é subir num trenó puxado por cães, sob uma temperatura de 20 graus negativos, em pleno breu, e “correr” sobre um rio congelado. E então, leitora/leitor, você pode achar que isso é uma loucura, ao que a autora responde: “Nunca é tarde para uma certa loucura. E esta loucura é viver sem medo de morrer. Cantar como Janis Joplin e como os pássaros” (p.157).

Nas viagens pelas quais Zupo nos conduz, passamos por Ouro Preto, Arraial da Ajuda, Buenos Aires, Stratford-upon-Avon, Berlim, Munique, Grécia, Florença, Estocolmo, Kiruna, Lisboa, Brighton, Wiltshire e Tintagel, entre outros lugares não menos fabulosos. É através dos relatos das viagens de Zupo que nos embrenhamos pelas ruas da Lisboa de Fernando Pessoa, da Buenos Aires, de Jorge Luis Borges, e pela Ouro Preto, que já foi de Elizabeth Bishop. Concordamos com autora quando afirma que “cidades são como livros” (p.25). E, como dito em “A rua de Jorge Luis Borges” (p.69-70): “Estar em uma cidade é como ler um livro”. Neste sentido, ao lermos o livro de Daniella Zupo sobre as cidades que visitou, lemos ao mesmo tempo vários outros livros, que se constituem como uma espécie de “literatura dos caminhos”.  

Com as crônicas de O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo aprendemos sobre deslocamentos e permanências, sejam de povos e/ou cidades, pois se Kiruna se desloca, seu povo também o faz, assim como o faz a autora ao “pular’ de uma cidade à outra. Aprendemos sobre aquilo que ainda não conseguimos explicar, como as pedras que formam o Stonehenge, “a maravilha do mundo pré-histórico. O círculo concêntrico de pedras que ninguém sabe como foi parar naquela planície no condado de Wiltshire, no sul da Inglaterra, há milhares de anos” (p.91-92). Aprendemos também sobre a ideia do mito que é, ao mesmo tempo, nada e tudo, quando a autora nos conduz à caverna de Merlin e às ruínas do castelo do Rei Arthur, em Tintagel, na Cornualha, lugar que também teria sido o cenário da lendária história de Tristão e Isolda (p. 95-100).

Um dos pontos mais altos do livro é o belíssimo texto, “Para David” (p.80-81), quando a narradora “conversa” com o David, de Michelangelo. Lemos:

(...) a escultura tem mais de 4 metros de altura e pesa 5 toneladas, que levou três anos para ser concluída. De 1501 a 1504, confirmo no texto em inglês e, desde então, já sofreu vários atentados: de pedradas e marteladas. Mas não é isso que faz você tão humano, David. Ser alvo da tolice, da intolerância ou mesmo da inveja. Talvez seja essa humanidade que escapa em seu estranho olhar, ou nas veias dilatadas, ou no franzido da testa. Você me perturba, David (...). Mais que representação da beleza absoluta, é sua humanidade que impressiona. Não é o divino em você que me arrebata, mas o demasiadamente humano, uma dualidade esculpida: delicadeza e força, tensão e calma, corpo e espirito. (Zupo, 2025, p. 80-81)

Ao longo de suas narrativas, Zupo dialoga, intertextualmente, não apenas com David, mas também com Bob Dylan, Leonard Cohen e Patti Smith, que autografou o Linha M, para Zupo. Que inveja! (p. 36-37). E ainda com Nick Cave, Cy Twombly, Robert Burns, Damien Hirst, Joni Mitchel, Raymond Inmon e Gunner Ekelöf entre inúmeros outros. Excetuando-se alguns erros de grafia na impressão de algumas palavras, O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo é uma beleza. E “beleza são coisas acesas por dentro”. Chegando ao final desta breve viagem, retomo Zupo (p.75), quando cita Bashô, o poeta peregrino que dizia: “a viagem mais para fora é a viagem mais para dentro”. 

Não vou nem desfazer as malas, já na expectativa de saber para onde Daniella Zupo nos levará em seu próximo livro.