segunda-feira, 15 de maio de 2017

ACIDADE, DE CARLOS NÓBREGA E POETA DE MEIA -TIGELA

Em As cidades invisíveis (1990), de Ítalo Calvino, a cidade não é apresentada como um conceito geográfico, mas como um organismo vivo e pulsante que em tudo se assemelha ao próprio ser humano. Cada capítulo do livro de Calvino é dedicado a uma determinada cidade. Cada uma dessas cidades possui nome de mulher. Sobre elas, o que se sabe é aquilo que Marco Polo conta ao poderoso Kublai Khan. Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo, quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção do que a qualquer outro de seus enviados ou exploradores (CALVINO, 1990:9).

O que faz com que Khan continue ouvindo Marco Polo talvez resida na maneira como o veneziano faz seus relatos. As cidades, sejam quais forem, são o que são. Contudo, o que se dá aos olhos depende em muito de quem vê. Assim, as cidades podem ser masculinas, femininas ou até genderless. As cidades podem ser feias, belas ou malditas. As cidades também podem ser, como naquela canção de Aroldo e Moraes Moreira, uma representação do amor e da liberdade. A cidade pode ser uma moça. Pode não ter idade. As cidades comportam mundos. Abrigam, agridem, amedrontam. Mas afinal, o que é a cidade? Uma maneira de responder tal questionamento é fugindo dos muros e das grades que nos “protegem” de quase tudo. Mas, Humberto Gessinger já nos alertou que o quase tudo, quase sempre é quase nada. Dessa forma, é necessário sair à rua e ver a cidade fluir, de perto, com seus odores, suas flores e seus desvãos.

E me parece que foi exatamente isso que os escritores Carlos Nóbrega e O Poeta de Meia-Tigela resolveram fazer. O resultado dessa empreitada é o livro Acidade, de 2016, publicado pela Expressão Gráfica e Editora. O livro tem 156 páginas. O prefácio foi escrito por Bárbara Costa Ribeiro, enquanto o posfácio ficou a cargo de Li Lê Santos. O título do trabalho traz em si um trocadilho entre “a cidade” e “acidade” (acidez), ao mesmo tempo em que reconhece na cidade, a acidade.

CAENS DE RUA

A cidade é um lugar anormal,
Uma guerra entre o mau e o mau
Vence quem late mais au
Perde quem perde o sinal. (p.43)

Dizer que Acidade é um livro de poesias seria ignorar todos os recursos multimodais que compõem o referido trabalho, encarcerando-o em apenas uma das inúmeras prateleiras do cânone literário. O livro de Nóbrega e Meia-Tigela vai muito além, fazendo-nos lembrar do icônico Zero – romance pré-histórico, de Ignácio de Loyola Brandão. O romance de Loyola, após ser recusados inúmeras vezes pelas editoras brasileiras, acabou sendo publicado na Itália, no ano de 1974, por Giangiacomo Feltrinelli. Como o Brasil insiste na sua “viralatice”, Zero só foi publicado por aqui no ano seguinte, pela editora Brasília/Rio. As justificativas para não se publicar o Zero se baseavam na alegação de que “dificuldades gráficas” impediriam a boa execução da obra. Ninguém dizia, no entanto, que a obra era revolucionária e questionadora. E um livro que pudesse ser usado como provocação não poderia, obviamente, vir a público naqueles tempos sombrios nos quais o Brasil vivia soterrado.

Zero é considerado, hoje, um romance de caráter pós-moderno. Os tempos, conforme disse Raduan Nassar ao receber o Prêmio Camões, continuam sombrios. Dessa forma, toda e qualquer obra verdadeiramente artística corre seríssimos riscos de enfrentar “dificuldades gráficas”, para que possa chegar ao público leitor. Ainda bem que isso não aconteceu com Acidade, tendo em vista a acidade das decisões político-jurídico-midiáticas que têm assolado o país.
?
aos teus pés
morrem dois
morrem dez
e depois
morrem cem
morrem mil
que que tem?
é brasil
são inúmeros
são antônios
são só números
só anônimos (p.50)

Mas afinal, o que Acidade? A ficha catalográfica do livro “entrega o jogo”. Lá, lê-se: “Acidade é um Livro-Zine, um Livro-Zona, um Livro-Zão, um Livro-Zen como qualquer outra cidade”. Acreditamos que poderia se afirmar que Acidade também pode ser um Zine-Livro, ou seja, um fanzine em forma de livro capaz de abarcar tudo aquilo que não seria possível de ser colocado, por questão de espaço, em um zine tradicional.
CIDADE
   o clube é vizinho do açougue
que é vizinho da igreja
vizinha à cadeia
à esquerda do bordel
que dá frente ao hospício
ao lado do bar
nossa casa no meio
somos todos vizinhos
somos todos vizinhos
de nós mesmos. (p.105)

Mais importante que a forma, a nosso ver, é o conteúdo. Assim, pelas cento e cinquenta e seis páginas de Acidade, a cidade de Fortaleza, habitat dos autores, aparece em situações que são belas, tristes e revoltantes. O descaso com o homem e o meio é denunciado pelos poemas e imagens fotográficas de placas, logomarcas, pichações, monumentos e anúncios que constituem a obra. Mas não é apenas Fortaleza que surge em Acidade. Nesse mais recente trabalho de Nóbrega e Meia-Tigela, está todo um Brasil que não se mostra no horário nobre da tevê. Está o submundo, a vida e o cotidiano das coisas e das pessoas que jamais caberiam numa poesia bela, recatada e do lar. Em Acidade está a poesia propriamente dita. Aquele canto poético torto, feito faca, pronto para desafiar o coro e cortar a carne dos contentes.