sábado, 15 de julho de 2017

O MESTRE E MARGARIDA, DE MIKHAIL BULGÁKOV

Saber contar uma boa história é uma das características que torna um escritor magistral. Nesse quesito, poderíamos elencar milhares de autores e, certamente, entre eles, estariam inúmeros russos. As traduções da literatura russa para o português brasileiro eram feitas a partir dos textos em francês, o que acabava por se perder muita coisa. Hoje elas já são feitas diretamente do russo, o que ajuda bastante no aumento da qualidade dos textos traduzidos. É o caso do romance O mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (1891 – 1940), publicado no ano de 2009, pela editora Alfaguara/Objetiva. Nesse caso, a tradução, diretamente do russo, ficou a critério de Zoia Prestes, tendo sido revisada por Graziela Schneider e Irineu Franco Perpetuo.

Em O mestre e Margarida, Bulgákov nada deixa a dever aos grandes mestres russos da narrativa. A história, ou melhor, as histórias que são contadas no decorrer do romance são resultado da arquitetura de uma narrativa que traz em si toda uma constelação de elementos característicos da mais pura prosa moderna.

A história trata de um personagem pra lá de conhecido, o próprio diabo,  e é ambientada na Moscou comunista dos anos de 1930, em pleno regime stalinista de perseguições, desaparecimentos e mortes. Na comitiva de satanás, recém-chegado a Moscou, há uma feiticeira, um homem com monóculo rachado e um gato negro de proporções fora do comum. A chegada do “ coisa ruim” começa a provocar uma sucessão de acontecimentos pra lá de suspeitos. Algumas pessoas começam a ser traídas pelos seus próprios instintos, desejos e ambições. Outras enlouquecem, adoecem, somem ou morrem. É primavera em Moscou!

De forma extremamente original, Bulgákov traça um panorama político-cultural da sociedade russa submetida à mão de ferro de Stalin, na qual a liberdade escasseia e a população come, desculpe o trocadilho, o pão que o diabo amassou. Bulgákov viu tudo isso de muito perto, o que o deixou bastante insatisfeito. Sua crescente insatisfação, explicitada por meio de sua obra, acabou por transformá-lo em inimigo do Estado, passando a sofrer toda sorte de censura e perseguição.

Bulgákov era contista, dramaturgo e romancista. Entre seus trabalhos tem-se: Os dias dos Turbin (1926), A debandada (1927)e Molière (1936); entre inúmeros outros. A perseguição a qual foi submetido o obrigou a escrever, secretamente,  aquela que viria a ser a sua obra máxima: O mestre e Margarida, publicada primeiramente em forma de fascículos, pela revista soviética Moskva,  entre novembro de 1966 e janeiro de 1967. Note-se que o autor já havia morrido no ano de 1940, mas a censura imposta à sua pessoa e à sua obra não permitiu que o livro viesse à tona mais cedo.

Mikhail Bulgákov
Mikhail Bulgákov levou aproximadamente dez anos para concluir O mestre e Margarida. Costuma-se dizer que ele teria inclusive queimado sua versão inicial. O que se sabe, porém, é que poucos eram aqueles que sabiam da obra que estava sendo gestada. Se descoberto, o regime stalinista certamente o teria condenado à morte. Mas como diz o próprio diabo no livro em questão: “Manuscritos não ardem”. E assim, depois de ter escapado de arder no fogo, O mestre e Margarida teve suas últimas revisões ditadas pelo autor à sua esposa, o que o possibilitou de chegar ao nossos dias e ser considerado uma das obras literárias mais importantes do século XX.

Na constituição de seu romance, Bulgákov lança mãos dos recursos da sátira, como forma de denunciar a vida sob o regime stalinista. Woland, o diabo, é temido por todos. Um mínimo gesto seu é o suficiente para que um homem seja decapitado, considerado insano e, logo, perca sua liberdade. Na Moscou de Woland, a cultura e as arte  são uma ameaça. A literatura, um crime de lesa pátria. Os artistas, subversivos. O amor, proibido. O séquito do demônio não tem aparente controle. Não teme ninguém, a não ser o mestre.

Como obra aberta, muitas são as leituras que podem ser feitas a partir da obra O mestre e Margarida. No decorrer da narrativa, diversos são as temáticas trazidas à tona. Entre tantas: o bem, o mal, a bondade, o amor, a liberdade e a covardia. A maestria de Bulgákov se mostra de várias maneiras, como na construção de um romance dentro do romance; assim como na criação de diálogos e imagens, quando se contrapõem personagens como Jesus, Pôncio Pilatos e o diabo, ou quando são colocadas lado a lado as cidades de Moscou e Jerusalém.

Woland, o diabo, seria uma representação de Stálin? Seu séquito aterrorizador seria sua polícia política? Não temos como afirmar isso. O máximo que podemos dizer, e nisso Jesus e o diabo concordam conosco, é que não existe nem o bem nem o mal, pois nada é absoluto. E, das fraquezas humanas, a pior é a covardia. 




E se numa primavera qualquer, lhe chegarem e disserem algo como: “Please, allow me to introduce myself/I’m a man of wealth and taste...”. Sugiro que você não dê atenção, pois pode ser aquela “parte da força que eternamente deseja o mal e eternamente faz o bem”. Em caso de dúvida, como está dito no primeiro capítulo do romance de Bulgákov: “Nunca falem com estranhos”.

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