domingo, 30 de agosto de 2015

FINN'S HOTEL

James Joyce (1882 – 1941) é uma incógnita. Embora sua obra esteja “finalizada”, tem-se sempre a impressão de que mais cedo ou mais tarde um novo manuscrito será encontrado em um eterno work in progress.  

A editora Companhia das Letras acaba de publicar, no Brasil, Finn’s Hotel (2014), trabalho até então considerado como “o livro perdido de James Joyce”. Sobre essa obra, convém ressaltarmos a apresentação que  traz a edição brasileira na sua “orelha” esquerda:


No início dos anos 1990, o surgimento de um manuscrito causou alvoroço entre os estudiosos de James Joyce. Encontrado em meio a seus papeis e anotações, Finn’s Hotel foi anunciado como embrião daquele que seria o mais enigmático dos livros do irlandês, o gargantuesco e caudaloso Finnegans Wake. Todavia, uma longa briga judicial privou os leitores do acesso ao texto. Apenas agora, mais de duas décadas depois de sua aparição, é que Finn’s Hotel chega às mãos dos fãs de Joyce.
Se Finnegans Wake é um dos escritos mais herméticos de toda a literatura universal, este Finn’s Hotel é um presente aos leitores que tanto o aguardaram. Claro e acessível, é composto de dez pequenos contos, na verdade, quase fábulas, sobre a história da Irlanda.

Não se sabe ao certo quais eram as intenções de Joyce com o manuscrito, nem se essas histórias de fato compõem uma versão anterior de Finnegans Wake. Ainda assim, estão lá Humphrey Chimpdem Earwicker, protagonista do Wake, e um esboço inicial da magnifica carta de Anna Lívia Plurabelle, uma das peças mais belas da língua inglesa.


A referida edição foi traduzida para o português por Caetano W. Galindo. Traz uma nota do tradutor (pp. 7 – 15) e dois textos introdutórios. O primeiro é de Danis Rose (pp. 17 – 31), e o segundo é de Seamus Deane (pp. 32 – 51). Os textos (contos ou fábulas) de Finn’s Hotel são intitulados e listados da seguinte forma: 1.  “A tintinjoss de Irlanda” (p. 57); 2. “Bondade com peixinhos” (p. 61); 3. “Uma história de um tonel” (p.65); 4. “seus encantos dela” (p.69); 5. “O grande beijo” (p.75); 6. “Bordões da memória” (p.85); 7. “Firmamente ao estrelato”; 8. “A casa dos cem cascos”; 9. “Homem comum enfim” (p.105); 10. “Eis que te carto” (p. 115).
A referida edição também traz em anexo o texto Giacomo Joyce (p. 129 – 153). Sobre esse texto, o tradutor afirma:


(...) é um grande prazer poder lançar junto com este Hotel uma nova tradução de Giacomo Joyce, texto bem mais conhecido, que estaria para o Ulysses mais ou menos como seu irmão aqui presente está para o Finnegans Wake.
Mas com uma grande diferença: Giacomo Joyce também nunca foi publicado por Joyce. A primeira edição, aos cuidados de seu biógrafo Richard Ellmann, apareceu apenas em 1968. Mas seu estatuto como obra independente e concluída é um bocado mais claro que o de Finn’s Hotel, pois as oito folhas (frente e verso) que compõem seu texto foram encontradas quando seu irmão organizava a biblioteca que Joyce deixara em Trieste (...). (GALINDO, 2014: 12 – 13)




Para alguns pesquisadores, Finn’s Hotel pode ser compreendido como o preenchimento da lacuna existente entre o Ulysses e o Finnegans Wake. Para outros, no entanto, trata-se de uma obra que se sustenta por conta própria, ou seja, é independente, podendo, no entanto, servir como uma introdução aos temas e personagens do Finnegans Wake. As pequenas fábulas (ou “epiquetos”, como criara Joyce) estão diretamente relacionadas a momentos tanto da história quanto da mitologia da Irlanda. Os referidos epiquetos dão conta do primeiro milênio e meio após a chegada de São Patrício à Irlanda. Conforme Rose, Joyce teria escrito os textos que compõem o Finn’s Hotel no ano de 1923, ou seja, seis meses após concluir o Ulysses e bem antes de conceber o Finnegans Wake.

Sobre a constituição das fábulas presentes no texto em questão, Danis Rose afirma que:


Os episódios de Finn’s Hotel são escritos numa diversidade única de estilos e quase totalmente num inglês normal. Considerados em conjunto, eles formam o verdadeiro (e até aqui desconhecido) precursor do Wake. Joyce compôs os episódios um a um, revisando alguns deles, deixando alguns em esboço, antes de finalmente coloca-los de lado. E ali restaram, praticamente esquecidos, alguns por dezesseis anos (até ele saquear aquele guarda-roupa em busca de material para as últimas seções do Wake a serem escritas), e alguns para sempre, ou seja, até agora. Só um único episódio, a peça referente ao pai (“Homem comum enfim”), se destacou. Perto do fim de 1923, ao pensar sobre ele Joyce viu ali uma abertura, uma linha de desenvolvimento literário que podia seguir e expandir em seu épico irlandês (em oposição ao seu épico de Dublin), o Finnegans Wake. (ROSE, 2014: 20-21)


James Joyce
Dessa forma, Finn’s Hotel é, ao mesmo tempo, tanto uma continuação do Ulysses, quanto uma introdução ao Finnegans Wake. E embora determinados estudiosos afirmem que Finn’s Hotel é de leitura fácil e acessível, não conseguimos, por nossas leituras, comprovar tais assertivas. Por nosso lado, por tratar-se de uma obra seminal, independente, e ao mesmo tempo estar intimamente conectada com as outras grandes obras do autor irlandês, isso não a caracteriza como fácil ou acessível ao leitor não especialista em Joyce. 

Logo, para quem não leu (ou leu e não entendeu) o Ulysses ou o Finnegans Wake, de muito pouco ou quase nada servirá a leitura de Finn’s Hotel. Contudo, sempre é tempo de desbravar grandes obras. E assim sendo, o trabalho de James Joyce, tal qual a Esfinge, continua aguardando quem o decifre. Ao determinado leitor, boa sorte.


Mais: http://www.theguardian.com/books/2013/jun/14/james-joyce-collection-published?CMP=share_btn_tw



sábado, 15 de agosto de 2015

AS ANDORINHAS, DE PAULINA CHIZIANE

No Brasil há um velho ditado que diz que “uma andorinha só não faz verão”. O ditado não diz, no entanto, que uma andorinha só não possa começar um verão. A andorinha, conforme dizem os dicionários, é uma ave pequena, migratória, de asas longas e pontiagudas, que vive em bandos e se alimenta de insetos. Como todo conceito é ao mesmo tempo delimitador e limitador, uma andorinha é isso, mas não apenas isso. Na dúvida, é só nos atermos ao livro As andorinhas, de Paulina Chiziane, publicado no Brasil em 2013, pela editora Nandyala, de Belo Horizonte.

Paulina Chiziane nasceu em Manjacaze (Moçambique), e é autora de inúmeros trabalhos literários, tendo sido a primeira mulher moçambicana a escrever um romance. No caso, Balada de amor ao vento, de 1990. Autora premiada, Chiziane tem vários dos seus trabalhos nos Estados Unidos, Europa, no Brasil e em Cuba; por exemplo. As temáticas exploradas por Chiziane na sua obra não se apartam da sua história de militante política em Moçambique, nem da sua luta pela emancipação da mulher. Em termos bem gerais, a temática maior recorrente na obra da referida autora é a própria condição humana no que diz respeitos aos avanços, entraves e reveses que estão na constituição do homem do século XX.

Da obra de Paulina Chiziane, elencamos ventos do apocalipse (1992), O sétimo juramento (2000), Niketche (2002), O alegre encanto da perdiz (2008), As heroínas sem nome (2008), em parceria com a escritora angolana Dya Kassembe; As andorinhas (2009), Quero ser alguém (2010), Mão de Deus (2012), coprodução com Maria do Carmo da Silva; Por quem vibram os tambores do além (2013) e Eu, mulher... por uma nova visão do mundo(2013), entre outros.



Embora Moçambique não seja tão longe, a literatura de Paulina Chiziane ainda não alcançou, no Brasil, o mesmo “status” que tem alcançado os trabalhos de Pepetela, José Eduardo Agualusa e Mia Couto; por exemplo. Isso, contudo, não é um problema da autora, mas nosso, leitores, que estamos nos privando do contato com obra tão relevante. Mas aos poucos, Paulina Chiziane vai chegando, vai chegando. E, como diz aquela canção de Alan Mendonça, “vou chegando, vou chegando. Trago em mim o mundo inteiro”.

Dos livros de Paulina Chiziane publicados no Brasil, nos chama especial atenção As andorinhas, obra constituída de três contos, sendo o primeiro “Quem manda aqui?”, “Maundlane, o Criador” e “Mutola”. O livro é dedicado à memória de Ricardo Chiziane, e conta, ao final, com um pequeno glossário com termos da cultura Chope. Mas não é apenas da cultura Chope e das tradições do povo africano que falam os textos de Chiziane. Ao longo das suas narrativas, é possível identificar uma escrita em consonância com o amplo espectro da cultura universal, o que põe o conto da autora, não em um patamar meramente local, como possam querer alguns, mas em um nível universal como bem permite a constituição e abertura da obra. Dessa forma, vemos surgirem na contística de Chiziane, referências à guerra de Troia, quando Matibyana, o rei dos Rongas, tal qual o famoso cavalo de Troia, se insere nos domínios do imperador, causando-lhe a derrocada (p.34). As narrativas de As andorinhas são recheadas de referências bíblicas quando, por exemplo, tem-se: “Nguyuza, por que me abandonaste” (p.37), “Faz o ato de contrição e se arrepende (p.37), “... e num barco que caminhou sobre as águas divinas” (p.41), “... de um homem que não morre” (p.42), “De repente, ressuscitou” (p.42); entre outros. Como não lembrar Encontro em Samarra (1963), de John O’Hara, quando lemos: “Vou partir. Para onde? Para um lugar onde a maldição não me alcance” (p.42). E ainda em “O que diferencia aqui e além é a leveza e o peso” (p.75), identificam-se na mesma frase referências à primeira parte do romance A insustentável leveza do ser (1984 ), de Milan Kundera, denominada de “a leveza e o peso”; bem como à primeira proposta “Leveza”, constante das Seis propostas para o próximo milênio (1990), de Italo Calvino (1923 – 1985).


O conto “Quem manda aqui?” (p.9 – 44) já é, a partir do próprio título, um indicativo da figura do imperador que, mesmo tendo o poder de Ngungunhar todos os homens e todas as mulheres do planeta, não sabia que poderia ser ridicularizado, humilhado e destituído do seu trono a partir de uma caganita que uma andorinha resolvera mandar direto no seu olho. A narrativa desenvolvida por Chiziane toma por base a história de Gaza, atual Moçambique, quando esteve sob o reinado do ditador  Frederico Gungunhana (1850 – 1906), cognominado o Leão de Gaza. O reinado de Mundugazi, o Ngungunhana durou de 1884 a 1895, quando foi destituído e feito prisioneiro por Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque (1855 – 1902). O desejo do imperador de se vingar de todas as andorinhas, mantendo-as em silêncio ou exterminando-as é o leitmotiv metafórico que conduz a referida narrativa. O povo chope, tal qual simples andorinhas consegue fazer o verão que até então se acreditava impossível.

“Maundlane, o Criador” (p.45 – 88), por sua vez, tem como figura principal Eduardo Chivambo Mondlane (1920 – 1969), um dos fundadores e primeiro presidente da FRELIMO – Frente de Libertação de Moçambique, grupo do qual a própria Chiziane fez parte, e que lutou pela libertação de Moçambique do domínio português. Em meio às galinhas, Chitlango se assume águia e decide que deve “perseguir a primavera como todas as andorinhas”, pois sabe que “o ser humano não tem asas, mas voa, e a mente foi feita de liberdade”. Dessa forma, a autora conta a história do herói moçambicano desde o seu nascimento, vitória, traição e morte. No que diz respeito às questões estruturais, o referido conto é longo, e a narrativa se mostra lenta e cansativa; uma vez que a autora força a mão, em uma tentativa de liricizar os fatos históricos, não pondo em prática a objetividade e brevidade requeridas quando da narrativa breve, tal qual preconizam Edgar Allan Poe (1809 – 1849) e Anton Tchekhov (1860 – 1904), por exemplo, o que não ajuda na recepção que se tem do referido conto.

O terceiro conto, denominado “Mutola” (p.89 – 95) é uma narrativa na qual Paulina Chiziane retoma a metáfora da águia e da galinha, para nos contar a história de Maria de Lurdes Mutola. A história da águia e da galinha vem da África e, possivelmente, a autora ouviu dos seus antepassados e, por sua vez, contou e recontou para outras gerações. A história da águia e da galinha nos foi também recontada por James Aggrey (1875 – 1927), bem como por Leonardo Boff no seu A águia e a galinha – uma metáfora da condição humana (1997). Na narrativa de Paulina Chiziane, a águia é a atleta moçambicana Maria de Lurdes Mutola, que se tornou campeã de atletismo, tendo sido a primeira moçambicana a conquistar uma medalha de ouro para Moçambique. Nascida em Maputo, no ano de 1972, Mutola é detentora de todos os recordes de Moçambique relativos às categorias em que concorre no atletismo. “As águias, como as andorinhas, são filhas da liberdade” (p.90).

E é assim, pautada pela simbologia da andorinha, que a liberdade perpassa a contística de Paulina Chiziane na obra em questão. No que concerne à qualidade literária, o primeiro conto consegue alcançar todos os detalhes, formais e conteudísticos, que se espera de um grande conto. Os dois contos seguintes, “perdem” no quesito estético-literário, mas ganham no quesito ético e moral; o que enriquece a literatura de Paulina Chiziane. Dessa forma, a literatura da autora de Niketche é um indicativo da boa literatura que vem de Moçambique. Como acessá-la? Simples. É só se inspirar nas andorinhas, correndo às voltas no céu. Como toda boa literatura, a de Paulina Chiziane traz em si o mundo inteiro.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

A CONQUISTA DO BRASIL

João Ramalho é uma daquelas figuras que rendem uma boa biografia. O problema, no caso de Ramalho, é que muito pouco se sabe sobre ele. Não se pode dizer inclusive seu ano de nascimento ou morte. Presume-se, afirma Vainfas, em seu Dicionário do Brasil Colonial (1500 – 1808), publicado pela editora Objetiva em 2000, que viveu no Brasil desde 1512 e faleceu em São Paulo com idade muito provecta. Era, continua Vainfas, provavelmente um náufrago das primeiras viagens portuguesas, talvez um degredado. O interessante é que João Ramalho será, durante o período de colonização do Brasil, uma personagem de extrema relevância. Infelizmente, passamos pela escola e nunca, sequer, em momento algum, alguém fala sobre ele. João Ramalho continua sendo uma incógnita, um homem sem passado, quase um fantasma.

Recentemente, no entanto, alguns autores tem tentado buscar em personagens como João Ramalho, outras formas de ver e contar a História do Brasil. Em sua maioria, não são historiadores, mas jornalistas. O resultado está nas prateleiras das livrarias. Alguns desses trabalhos, embora bem escritos, pecam pela ausência de uma metodologia historiográfica que pode, a nosso ver, comprometer e induzir ao erro, aqueles que se limitarem apenas às suas leituras. O “romancear” dos fatos torna agradável a leitura, mas pode mascarar ou confundir o que deve ser mantido não como ficção, mas como História puramente. Nessa seara, leva vantagem a professora Mary Del Priore, por ter a possibilidade de aliar seus conhecimentos acadêmicos como historiadora à arte de contar fatos sem os ranços academicistas. Da sua pena já saíram, entre inúmeros outros trabalhos, A carne e o sangue (2002), O príncipe maldito (2006), A condessa de Barral (2008) e O castelo de papel (2013). Em 2014, Del Priore lançou Do outro lado – a história do sobrenatural e do espiritismo.

Entre os autores que tem seguido pelo caminho de Mary Del Priore, podemos citar Eduardo Bueno, Laurentino Gomes e Thales Guaracy; entre outros. Convém ressaltar que, excetuando-se Bueno, esses autores tem optado por colocar “subtítulos explicativos” em seus livros, o que constitui não apenas um diferencial, mas um chamamento para o leitor. Isso já havia sido feito por Lira Neto, quando, ao lançar a biografia de José de Alencar (1829 – 1877), a denominou de O inimigo do rei – uma biografia de José de Alencar ou a mirabolante aventura de um romancista que colecionava desafetos, azucrinava D. Pedro II e acabou inventando o Brasil. A referida biografia foi lançada no ano de 2006, pela editora Globo. Desde então, algumas das obras publicadas sobre o Brasil tem trazido essa chamada, a qual nos remete tanto ao discurso do cordelista quanto ao do pícaro. E assim, nessa linha, em 2007, pela editora Planeta, Laurentino Gomes publicou: 1808Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. No ano de 2010, agora pela Nova Fronteira, Laurentino Gomes publica 1822 – Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado. Em 2013, o autor de 1808 e 1822, lança pela Globo Livros, 1889 – Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República do Brasil.

Em 2015 foi a vez de Thales Guaracy fazer uso da mesma fórmula e publicar o seu A conquista do Brasil – 1500 – 1600 – Como um caçador de homens, um padre gago e um exército exterminador transformaram a terra inóspita dos primeiros viajantes no maior país da América Latina. O livro, publicado pela editora Planeta, conta com o prefácio “Para entender o Brasil”, de Laurentino Gomes (p. 9 -11) e uma introdução do autor (p. 15 – 17); estando o livro organizado em três partes, sendo elas: “Os donos da terra (p. 27 – 109), “Palavras na areia” (p. 123 – 164) e “Berço de Sangue” (p. 173 -249). O livro se conclui com uma parte denominada de “leituras” (p. 253 – 254), onde se tem uma espécie de “referências bibliográficas”.

Já na introdução (p. 21), e ao longo do livro, nos chama a atenção às referências feitas aos relatos do padre André Thévet (1516 – 1590), uma vez que é sabido, como bem afirma a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, autora de Antropologia do Brasil – Mito, História e Etnicidade (1986), que Thévet não era confiável. Em artigo publicado na Revista Estudos Avançados da USP (www.revista.usp.br), denominado de Imagens de índios do Brasil: O século XVI. A autora afirma:

É somente a partir da década de 50 que o conhecimento do Brasil se precisará, e agora de maneiras divergentes. Teremos duas linhas divisórias básicas: uma que passa entre autores ibéricos, ligados diretamente à colonização – missionários, administradores, moradores – e autores não ibéricos ligados ao escambo, para que os índios são matéria de reflexão muito mais que de gestão; a outra que separa, nesse período de intensa luta religiosa, autores usados por protestantes de autores usados por católicos.
Nesta última categoria, temos o detestável, pedante, condescendente e – segundo o huguenote Léry – o mentiroso, franciscano André Thévet, que afirma ter visto o que não viu, ter estado onde não esteve e preenche as lacunas com fastidiosos e desconexos exemplos clássicos para cada uma das instituições descritas. Contrapondo-se a Thévet, direta ou indiretamente, temos também dois autores excepcionais que estiveram entre os Tupinambá mais ou menos na mesma época, mas em posições simétricas, um como inimigo destinado a ser comido, outro como aliado: o artilheiro do Hesse, Hans Staden, que viveu prisioneiro dos Tupinambá, e os descreve com inteligência e pragmatismo em livro publicado originalmente em 1557 que conheceu imediato sucesso – quatro edições em um ano -, e o calvinista Jean de Léry que passa alguns meses, em 1557, com os mesmos Tupinambá quando a perseguição que Villegagnon move aos huguenotes os obriga a se instalarem em terra firme (...). (CUNHA, 1990:95-96)

Ainda sobre Thévet, em nota de rodapé à citação anterior, Manuela Carneiro da Cunha afirma:

Thévet conseguiu, com tudo isso, uma consagração invejável: nomeado “cosmógrafo do rei”, conservador do “Cabinet do rei”, ou seja um museu de curiosidades, ele foi comparado por  Ronsard a Ulisses, aliás mais do que Ulisses, por ter visto e por ter escrito o que viu: “Ainsi tu as sur luy um double d’avantage, C’est que tu as plus veu, et nous a ton Voyage Escrit de ta main propre et non pas luy du sien” (apud N. Broc 1984:153). Mas Montaigne não se ilude e publica, nos seus “Canibais”, um trecho ferino provavelmente dirigido a Thévet, preferindo-lhe seu próprio informante, o normando seu empregado que havia passado de dez a doze anos na França Antártica. “Ainsi je me contente de cette information, sans m’enquérir de c eles cosmographes em disent”. (Montaigne, 1952 (1580): 233 – 234).

O livro de Guaracy toma como recorte o período que vai de 1500 até 1600. Sobre esta época, período colonial brasileiro, os dados são discordantes sobre o tamanho da população brasileira, especificamente no ano de 1500. Os números mais aceitos, conforme Oliveira (apud Fragoso e Gouvêa 2014), são os do historiador John Hemming (1978). Hemming, afirma Oliveira, tomou por base tanto as fontes quinhentistas e seiscentistas quanto criou índices de densidade populacional consoante a fertilidade e potencialidade de 28 nichos ecológicos em que dividiu o território brasileiro. Como resultado, as estimativas do referido historiador apontam para uma população de 2,4 milhões de pessoas no Brasil de 1500. Setenta anos depois, em 1570, Oliveira afirma que a população indígena era de aproximadamente 800 mil, ou seja, estava reduzida a um terço de seu volume demográfico do início do século XVI. Em função dessa violenta redução populacional, o pesquisador afirma que o termo descoberta tem sido evitado por estudiosos contemporâneos, como Hemming (1978) e Todorov (1983), por exemplo, que preferem falar em “conquista”, enquanto Marcílio (2000) fala em “holocausto”. Por nosso turno, “extermínio”.

Thales Guaracy, assim como John Hemming em Ouro vermelho- A conquista dos índios brasileiros (2007) e Tzvetan Todorov, em A conquista da América – A questão do outro (2010), opta pelo termo “conquista”. No seu recorte, João Ramalho, o homem sem passado, é o caçador de homens. Manuel da Nóbrega é o padre gago e Mem de Sá é o comandante em chefe do exército exterminador dos nativos brasileiros. Ao longo de toda a narrativa de Guaracy, percebemos o desenrolar das atividades político-econômicas de interesse da Coroa Portuguesa acerca da Colônia, em aliança com a igreja católica, representada pela Companhia de Jesus, especificamente nas figuras do padre Manuel da Nóbrega e de José de Anchieta. A conquista e a dominação da terra e de todas as suas riquezas dependiam em muito da conversão dos gentios. Como nem todos os índios tinham a “síndrome de Tibiriçá”, era preciso “convencê-los”, não importando como. Escreve Anchieta, o apóstolo do Brasil:

Parece-nos agora que estão as portas abertas nesta capitania para a conversão dos gentios, se Deus Nosso Senhor quiser dar maneira com que sejam postos debaixo de jugo, porque para este gênero de gente não há melhor pregação do que  espada e vara de ferro, na qual mais do que em nenhuma outra é necessário que se cumpra o compelle eos intrare”.(GUARACY, 2015: 170)


O compelle eos intrare, mencionado por Anchieta, nos remete ao que Agostinho (354 – 430) acreditava. Para ele, a fé cristã deveria ser espalhada a qualquer custo, ou seja, a igreja deveria usar o medo, a força, e até a dor para conquistar seguidores. Depois de dominados e subjugados é que estariam aptos para receber os ensinamentos divinos. Tal qual Agostinho, Anchieta faz uma leitura equivocada, mas consciente, da parábola do banquete (ou a parábola da grande ceia), conforme Lucas 14:16-24. Dessa forma, se os gentios não aceitavam o jugo pelo bem, o aceitariam pela força. E assim, o poder da Coroa, a determinação da igreja e a força do exército de Mem de Sá, fez com que em esplêndido berço de sangue surgisse o país que somos.
 E, Sabe-se lá de onde, João Ramalho gargalha, gargalha e gargalha. 
Boa leitura!


Outras leituras:

CUNHA, Manuela Carneiro da. História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, Secretaria Municipal de Cultura, 1992.
__________________________. Cultura com aspas e outros ensaios. São Paulo: Cosac Naify, 2009.  

FRAGOSO, João; GOUVEIA, Maria de Fátima (Orgs). O Brasil Colonial: volume 2 (ca. 1580 – ca. 1720). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil (10 vols.). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1945.

MOTA, Lourenço Dantas (Org.). Introdução ao Brasil - um banquete no trópico. São Paulo: SENAC, 2000.

NASH, Roy. The Conquest of Brazil. New York, 1926.

SCHWARCZ, Lilia M; STARLING Heloísa M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.