quinta-feira, 25 de junho de 2026

Fortaleza amada


Dizer que Fortaleza é uma lindeza é cair na armadilha de uma rima pra lá de pobre. Por outro lado, como dizer de maneira simples e direta que Fortaleza é uma lindeza banhada de sol e mar, que nos abraça com seus ventos e nos acaricia com suas brisas de fim de tarde? Fortaleza é assim, essa cidade-mulher que representa amor e liberdade. Mas como toda cidade, Fortaleza é constituída de paradoxos, belezas e mazelas. Colocar essas contradições no papel foi a maneira que a Universidade Federal do Ceará – UFC encontrou para homenagear a cidade e, como bem disse o reitor da Universidade, professor Custódio Almeida: “Fortaleza é uma cidade que se reconhece nos encontros”.


E é assim que acompanhamos as memórias de Edmilson Alves Maia Júnior, quando discorre em sua crônica “O descanso do semeador” (p.114-117) sobre o senhor Edenilson que, entre inúmeras ouras coisas, costumava alugar DVDs em uma conhecida locadora da Avenida Antonio Sales (quem nunca?). Com Sarah Silva Ipiranga e sua crônica “Verde-Marinho” (p.391-393) acompanhamos a autora que, vinda de outras plagas, travou uma incansável luta contra o sol da cidade até que, por fim, se rendeu aos seus afagos, e tudo indica que não consegue mais viver sem eles.


Assim sendo, a UFC abriu edital e 163 crônicas foram selecionadas e publicadas no livro Fortaleza Amada (2026), com organização de Francisco Silva Cavalcante Júnior. A obra, uma espécie de festschrift para Fortaleza, traz em suas crônicas o olhar de cada autor(a) sobre um detalhe, uma memória, um personagem ou um lugar de afeto da cidade. Ao longo da leitura vamos nos identificando, pelas linhas simples, breves e profundas do gênero crônica, com a história e o cotidiano de uma cidade que completa 300 anos, mas que ainda guarda em si a beleza, as dúvidas e os descontentamentos adolescentes.


Uma das melhores maneiras de conhecer uma cidade é caminhar por ela. Somente assim conseguimos descobrir o que não se mostra, mas que é sempre tão belo quanto o que nos é dado aos olhos. Andar, contudo, dá fome. E é por esse caminho que segue a crônica “Sonhos de padaria” (p. 42-45), de Ana Mary C. Cavalcante, que relembra seu caminhar pela cidade, comendo sonho de padaria. Para a cronista, “Fortaleza é uma metrópole que me serve café com pão, quentinhos. E sonhos de padaria. As coisas mais finas do mundo”. Embora minhas taxas de diabetes batam no teto, quem sou eu para discordar das delicias de um sonho de padaria? 


Fortaleza não é apenas sol e mar. Não é apenas Ceará e Fortaleza, pois amamos o Ferroviário. Fortaleza também é periferia, mangue, rock, maracatu, blues e lutas políticas, “tudo junto e misturado”. Sobre o mangue (a Fortaleza-mangue), a crônica de Hermínia Lima (p.191-193) é um grito de socorro pela vida da praia de Sabiaguaba, pois, como diz a cronista: “... há lutas que não podem ser adiadas. Há lugares que não podem ser perdidos”. Do outro lado da cidade, quem diria, roubaram o portão de alumínio e os números de ferro da casa da família do tradutor Odorico Leal, que nos traz os detalhes na crônica “cidade desaparecida” (p.338-339). Ri bastante, pois já tentaram levar o meu também. São todas essas coisas que nos tornam parte dessa cidade que, ao contrário de NY, sempre tira um cochilo depois do almoço e, sim, sempre dorme. A city that doesn’t sleep é para os fracos.


O livro, presente da UFC para Fortaleza, poderia ter 3 volumes e ainda seria pouco para tentar dar conta de tudo que nossa cidade é. Fortaleza sempre foi cantada em prosa e verso. Nesse sentido, a crônica talvez seja um dos gêneros preferidos de muitos daqueles e daquelas que registraram seu orgulho de amanhecer nesta cidade. E é sobre isso que discorre a crônica “Fortaleza, o que tu és?” (p.386-387), de Ronaldo Salgado, quando lista muitos dos nomes que por Fortaleza “clamam, declamam e cantam”. No feriado do aniversário de Fortaleza não sei o que abre e fecha, mas sei que vou ouvir Kátia Freitas e tomar uns bons drinks em agradecimento por ter nascido e continuar vivendo nessa cidade.   


terça-feira, 23 de junho de 2026

Fortaleza 300 anos: uma cidade de sol, mar e dengo


É aniversário de Fortaleza, a cidade que me abriga e com quem tenho uma eterna relação de amor e ódio. No aniversário da cidade, nos alegramos, mas também choramos de tristeza quando vemos as coisas belas, uma a uma, sumindo, se desmilinguindo, como diz o poeta. Mas Fortaleza teima em resistir, não se deixando engolir por estacionamentos, igrejas, farmácias e mais um supermercado.


As belezas e delicadezas da minha cidade são inúmeras, mas muitas vezes são encobertas pelas indelicadezas dos táxis e carros de aplicativos, que te cobram muito caro para te levar tão perto. Pela letargia das coisas em um mundo cada vez mais rápido. Pelo abandono e pelo desrespeito com a coisa pública. Pela falta de amor ao nosso povo, adormecido sobre papelões debaixo das marquises nas melhores calçadas da cidade. E penso no que diriam Francisco Carvalho e Milton Dias sobre os “centauros urbanos”, metade homem, metade carrinho de geladeira, lutando pela vida, catando garrafas entre a boca da noite e a madrugada. E como não sofrer com as Iracemas diariamente violentadas na nossa cidade-mulher, apenas por serem Iracemas?

As imagens na mídia não dão conta de tudo o que Fortaleza realmente é, pois a cidade pela qual caminho todas as manhãs em direção ao trabalho também é linda graças ao sorriso das tapioqueiras da Paupina, à alegria da garotada que nada na lagoa de Messejana, a mesma lagoa na qual já se banhara a virgem dos lábios de mel. A Fortaleza que me encanta é aquela que se mostra nas canções de Fausto Nilo, minha terra natal, cujas longarinas de seus verdes mares bravios arrebentam na ponte velha, que ainda não caiu. A cidade que me seduz é aquela de Ednardo, mas é também aquela dos meninos e meninas do Bom Jardim, do Poço da Draga e do Curió.Mais que “odiar” essa cidade, amo seus aconchegos, os cafunés que faz em minha cabeça e os dengos em minh’alma. A paz e a liberdade que ela me proporciona conseguem diminuir as dores que me causa, enchendo meus olhos de um verde que apenas nosso mar parece ter. Assim, quando Fortaleza faz aniversário, tento não lembrar que sou “filho da dor” e agradeço as oportunidades que tenho de, sob o sol novo de cada amanhecer, ouvir a jandaia cantar em meu coração.      



sábado, 20 de junho de 2026

Aos 85, Bob Dylan reflete sobre envelhecimento: “Você fica sem ilusões”

O cantor e compositor Bob Dylan, 85, abriu o coração sobre os dilemas do envelhecimento. O astro declarou que o aspecto mais difícil de viver na pele a passagem do tempo é perceber que alguns fatos poderiam ter transformado o passado, caso tivessem surgido quando ainda havia espaço para mudar o rumo dos acontecimentos. 

As declarações foram publicadas em um
artigo de opinião para o jornal The New York Times, marcando o aniversário de 80 anos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, celebrado no domingo (14). Embora o cantor de “Blowin’ In The Wind” não faça referência direta ao republicano, ele compartilhou reflexões sobre essa fase da vida.

“A velha chama em seu coração ainda diz para fazer uma coisa ou outra, mas seu corpo responde: ‘Nós já fizemos isso’. Além disso, nada mais surpreende você. Parece um privilégio, mas não é. E você também fica sem ilusões.”

O ídolo da música acrescentou: “A pior parte de ter 80 anos é descobrir, finalmente, que você tem consciência de algo que poderia ter mudado completamente tudo o que ficou para trás, se esse discernimento tivesse chegado em uma época em que ainda fosse possível mudar alguma coisa. Quando você é jovem, acha que o tempo segue em frente. Aos 80, sabe que ele permanece parado. Somos nós que nos movemos.” 

Entretanto, o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura disse acreditar que a principal vantagem de envelhecer é a liberdade de abandonar algumas cobranças.

“A melhor coisa de ter 80 anos é sobreviver aos relógios que passaram a vida perseguindo você. É a liberdade em relação à mentira de que alguma coisa esteve sob controle em algum momento. Você não corre mais atrás do desfile. Você é um velho rei de algum país desaparecido. Fica mais difícil configurar você.”

 

 

Disponível em:

https://www.osul.com.br/aos-85-bob-dylan-reflete-sobre-envelhecimento-voce-fica-sem-ilusoes/amp/


sábado, 7 de fevereiro de 2026

O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo, de Daniella Zupo

 

Estou de recesso do trabalho e, sem nenhum tostão no bolso, entreguei-me às "drogas pesadas" lícitas: música, filmes e livros.  Foi em meio a essa vida de excessos que li, entre outros, O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo (2025), de Daniella Zupo. E mesmo assim, sem um centavo na conta, viajei por várias cidades do mundo. Por culpa da Daniella Zupo, fui parar na cidade que é considerada o coração do inverno, situada mais ao norte da Suécia. A cidade chama-se Kiruna e, conforme Zupo está “localizada a 200 quilômetros do Círculo Polar Ártico, na Lapônia. Kiruna tem temperaturas que chegam a 25 graus negativos e pelo menos um mês em que o sol não nasce”. Como dizem nos filmes americanos: “Fuck!”. E se você quiser saber o que a Daniella Zupo foi fazer nesse "fim de mundo", terá que ler seu livro, pois cada página vale muito a pena.



O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo é constituído de 32 crônicas/relatos de viagens e mais um texto introdutório de João Anzanello Carrascoza, que prefere chamar o livro de road book. O livro abre com um breve texto da autora, que diz: “Esta não é uma obra de ficção. Todas estas viagens aconteceram, embora não necessariamente nesta ordem. Qualquer semelhança com paisagens reais terá sido mera coincidência, embora elas não existam. As coincidências”. Dado o recado, é hora de colocar algumas peças de roupa na mochila e embarcar com a autora pelos mais diferentes e interessantes cantos do planeta. Mas se você, leitor/leitora se acha foda porque já pegou sua mochila, entrou num ônibus por três horas e se achou pronto pra desbravar Canoa Quebrada, você não sabe nada, inocente! Ser foda é subir num trenó puxado por cães, sob uma temperatura de 20 graus negativos, em pleno breu, e “correr” sobre um rio congelado. E então, leitora/leitor, você pode achar que isso é uma loucura, ao que a autora responde: “Nunca é tarde para uma certa loucura. E esta loucura é viver sem medo de morrer. Cantar como Janis Joplin e como os pássaros” (p.157).

Nas viagens pelas quais Zupo nos conduz, passamos por Ouro Preto, Arraial da Ajuda, Buenos Aires, Stratford-upon-Avon, Berlim, Munique, Grécia, Florença, Estocolmo, Kiruna, Lisboa, Brighton, Wiltshire e Tintagel, entre outros lugares não menos fabulosos. É através dos relatos das viagens de Zupo que nos embrenhamos pelas ruas da Lisboa de Fernando Pessoa, da Buenos Aires, de Jorge Luis Borges, e pela Ouro Preto, que já foi de Elizabeth Bishop. Concordamos com autora quando afirma que “cidades são como livros” (p.25). E, como dito em “A rua de Jorge Luis Borges” (p.69-70): “Estar em uma cidade é como ler um livro”. Neste sentido, ao lermos o livro de Daniella Zupo sobre as cidades que visitou, lemos ao mesmo tempo vários outros livros, que se constituem como uma espécie de “literatura dos caminhos”.  

Com as crônicas de O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo aprendemos sobre deslocamentos e permanências, sejam de povos e/ou cidades, pois se Kiruna se desloca, seu povo também o faz, assim como o faz a autora ao “pular’ de uma cidade à outra. Aprendemos sobre aquilo que ainda não conseguimos explicar, como as pedras que formam o Stonehenge, “a maravilha do mundo pré-histórico. O círculo concêntrico de pedras que ninguém sabe como foi parar naquela planície no condado de Wiltshire, no sul da Inglaterra, há milhares de anos” (p.91-92). Aprendemos também sobre a ideia do mito que é, ao mesmo tempo, nada e tudo, quando a autora nos conduz à caverna de Merlin e às ruínas do castelo do Rei Arthur, em Tintagel, na Cornualha, lugar que também teria sido o cenário da lendária história de Tristão e Isolda (p. 95-100).

Um dos pontos mais altos do livro é o belíssimo texto, “Para David” (p.80-81), quando a narradora “conversa” com o David, de Michelangelo. Lemos:

(...) a escultura tem mais de 4 metros de altura e pesa 5 toneladas, que levou três anos para ser concluída. De 1501 a 1504, confirmo no texto em inglês e, desde então, já sofreu vários atentados: de pedradas e marteladas. Mas não é isso que faz você tão humano, David. Ser alvo da tolice, da intolerância ou mesmo da inveja. Talvez seja essa humanidade que escapa em seu estranho olhar, ou nas veias dilatadas, ou no franzido da testa. Você me perturba, David (...). Mais que representação da beleza absoluta, é sua humanidade que impressiona. Não é o divino em você que me arrebata, mas o demasiadamente humano, uma dualidade esculpida: delicadeza e força, tensão e calma, corpo e espirito. (Zupo, 2025, p. 80-81)

Ao longo de suas narrativas, Zupo dialoga, intertextualmente, não apenas com David, mas também com Bob Dylan, Leonard Cohen e Patti Smith, que autografou o Linha M, para Zupo. Que inveja! (p. 36-37). E ainda com Nick Cave, Cy Twombly, Robert Burns, Damien Hirst, Joni Mitchel, Raymond Inmon e Gunner Ekelöf entre inúmeros outros. Excetuando-se alguns erros de grafia na impressão de algumas palavras, O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo é uma beleza. E “beleza são coisas acesas por dentro”. Chegando ao final desta breve viagem, retomo Zupo (p.75), quando cita Bashô, o poeta peregrino que dizia: “a viagem mais para fora é a viagem mais para dentro”. 

Não vou nem desfazer as malas, já na expectativa de saber para onde Daniella Zupo nos levará em seu próximo livro.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Andorinhando, de Valdenia Silva e outras leituras

 

Todo início de ano é quase sempre a mesma coisa: iniciar academia, ler mais, sair com amigos, comer comida saudável, priorizar a família e beber menos. De todas, a única que pretendo cumprir é “ler mais”, e a única que definitivamente não cumprirei é “iniciar academia”. Os livros que lerei no ano de 2026 já estão organizados em três pilhas sobre minha mesa de trabalho. O ano de 2026, sabemos, não será nada fácil. Assim, uma leitura aqui e outra acolá poderá nos ajudar a suportar a leveza e o peso que o novo ano nos reserva.

Nas minhas três pilhas, crônicas, ensaios, contos e biografias. Os romances pretendidos foram lidos ainda em 2025. Isso não quer dizer que no decorrer do ano que se inicia outros romances não venham a surgir. Surgindo, serão acrescentados às pilhas. O negócio é andar para frente, pois como bem nos lembra o astrofísico Chamkaur Ghag: “o tempo avança e nunca retrocede”. Entre os livros na minha mesa, que muito em breve serão quatro, cinco ou seis pilhas, estou com os olhos compridos para o livro A história é uma literatura contemporânea: manifesto pelas ciências sociais (2020), de Ivan Jablonka, na pilha um. Ao seu lado, Letramento racial: uma proposta de reconstrução da democracia brasileira (2025), de Adilson José Moreira, que dialoga muito bem com Como ser um educador antirracista (2023), de Bárbara Carine que, por sua vez, bate um bom papo com Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior: 81 lições do método Sueli Carneiro (2025), de Cidinha da Silva, e Racismo algorítmico: inteligência artificial e discriminação nas redes sociais (2022), de Tarcízio Silva.

Na segunda pilha, descansam Che leitor (2025), livro com textos de Alberto Manguel e outros autores, Ruas biográficas (2025), de Emmanuel Montenegro, Revolucionários da crítica: cinco críticos que mudaram o modo como lemos (2024), de Terry Eagleton e Chomsky e Mujica: sobrevivendo ao século XXI (2025), de Saúl Alvídrez. Entre aqueles que compõem a pilha três, Raoni: memórias do cacique (2025), O Essencial Chomsky (2024), organizado por Anthony Arnove, Os pêssegos e outros contos (2025), de Dylan Thomas e Andorinhando (2022), de Valdenia Silva, livro este que exige nossa atenção.

Andorinhando é um livro de poemas de autoria de Valdenia Silva que, embora tenha sido publicado no ano de 2022, pela editora Radiadora, somente agora “caiu” em minhas mãos. Foi a leitura deste livro que escolhi para inaugurar todas as demais leituras que farei ao longo do ano de 2026. Acertei em cheio, pois trata-se de uma obra de altíssima qualidade literária na qual a autora constrói uma poética cujos versos discutem questões sociais, políticas e culturais sem se afastar da leveza e dos afetos que constituem a boa poesia, como podemos ver nos versos: “Que destino dar à minha coleção de selos, /se não tenho mais teu endereço?” (p.53), “Afetos não sobrevivem com migalhas” (p.59), e a ainda: “Não importa:/ Quem escreve um poema/também salva a si mesmo”.

Além de temáticas como amor, dor, cegueira, feminino, feminicídio, racismo e as demais lutas que travamos cotidianamente, os poemas de Andorinhando estão repletos de intertextualidades, as quais apontam para leituras feitas pela própria poeta. O título Andorinhando já traz em si uma aproximação com a obra As Andorinhas (2009), de Paulina Chiziane. E assim sendo, observamos a poesia de Andorinhando dialogar com a literatura produzida por Carlos Drummond de Andrade (pp. 20, 22, 52, 62, 68, 81), Belchior (p. 34), João Bosco e Aldir Blanc (p.35), Chico Buarque (p.36), Cecília Meireles (p.39), Manuel Bandeira (pp. 50, 86), T.S. Eliot e Adélia Prado (p.63), Clarice Lispector (pp.65, 67), Schopenhauer (p.70), Beatles (p.71), Raul Seixas (p.80), Rachel de Queiroz (p.84) e Shakespeare (p.85) entre vários outros.

A poesia de Valdenia Silva está entre o que de melhor tem sido produzido na literatura brasileira, o que a aproxima da poesia praticada por Orides Fontela, Angélica Freitas, Stephanie Borges e Lupi Prates, por exemplo. Ao traçarmos tal aproximação com autoras estrangeiras, não tenho medo de errar ao afirmar que sua poética dialoga de perto com aquelas produzidas por Pat Parker, Audre Lorde, Claudia Rankine, Adrienne Rich e Jean “Binta” Breeze, entre tantas outras. Em Andorinhando, a poeta Valdenia Silva nos oferece palavras. E isso é tudo. Na sua própria voz, tem-se: “Ofereço-te palavras/como quem borda os acontecimentos”. Depois deste verso, senhoras e senhores, o que quer que ainda se diga aqui se torna completamente irrelevante.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A marcha e a Marsha

 

Ao longo da canção “A cara do Brasil”, Celso Viáfora traça um paradoxo de tudo aquilo que muito bem representa nosso país, ou seja, o Brasil gordo, o Brasil com fome, o pobre, o rico, as ilhas, as favelas, os trens do subúrbio, os trens da alegria de Brasília... Muitos anos se passarão, mas a canção de Viáfora, por tudo o que ela nos diz e da maneira como diz, será sempre atual. E assim será, pois a contradição da qual seus versos tratam nos habita de uma forma que se entranha em nosso ser. 

Penso na contradição que é nosso país, quando converso com meus botões e eles me perguntam que tipo de trabalhador é liberado pelo patrão para empreender uma marcha que deve durar pelo menos seis dias? Rapidamente, lembro das moças que trabalham como caixa em um supermercado próximo à minha casa, as quais só podem ir ao banheiro se o gerente autorizar, trabalhando de domingo a domingo, pois o único dia que a tal senzala, digo, supermercado não funciona é no primeiro dia do ano.

Assim, se você pode fazer uma caminhada de seis dias, de Minas Gerais até Brasília, é porque você se esforçou e mereceu e, parafraseando Tim Maia: “A meritocracia é a coisa mais linda do mundo!” Mas cá entre nós, quem é mesmo que paga as contas de todos esses fofos? Seriam as mesmas pessoas que bancaram com carne, cerveja e gasolina a bandidagem que acampou por meses nas calçadas dos quarteis do exército e que até hoje não sabemos quem são?

E assim, caminhando e tramando, vários parlamentares lideram uma marcha em direção ao Planalto Central, cujo objetivo é “protestar” contra a prisão dos bandidos que tentaram derrubar a democracia brasileira por meio de um golpe de estado. O chefe da quadrilha, preso em uma espécie de apart-hotel, tão doentinho, coitado, continua a insuflar seus seguidores contra as instituições e o Estado Democrático de Direito. Uma vez bandido, sempre bandido! A tal da marcha deverá chegar ao DF no domingo. Meus botões, que acham que marcha de extrema direita é esterco de vagabundo, me relembram que foi num domingo, 08 de janeiro, que tudo aconteceu. Pois sim. Não foi um passeio no parque. É déjà vu, que chama?

No domingo (25), além da marcha dos cidadãos de bem, ocorrerá a 3ª Marsha Trans Brasil, cujo nome é em referência à ativista afro-americana Marsha P. Johnson (1945-1992). A Marsha, conforme Bruna Benevides, presidenta da Antra: “não se apresenta como uma celebração, mas como uma denúncia”. Em entrevista ao Brasil de Fato, em 21 de janeiro, Benevides disse: “O Brasil já era um país extremamente violento com a população trans antes mesmo da extrema direita assumir o poder. Nós já enfrentávamos desemprego, expulsão escolar, dificuldades de acesso à saúde e uma violência cotidiana brutal”. Continua Bruna: “Queremos um Brasil forte, com instituições funcionando, mas que não deixe ninguém para trás. Caso contrário, essa soberania é falha”.

Das duas marchas, caro leitor, de qual delas você não ouviu falar nem leu sequer uma linha na mídia comercial brasileira?  As pessoas que estarão na Marsha não se hospedarão em hotéis de luxo, assim como nenhum helicóptero pousará irregularmente em via pública trazendo-lhes qualquer forma de apoio. Nenhuma participante gastará dinheiro público, pois não recebem emendas parlamentares, por exemplo. Nenhuma delas estará tramando contra o país nem contra a democracia. E sabe a razão? Não? Bruna responde: “Não queremos apenas diminuir a violência. Queremos erradicá-la como projeto político. Retirar a violência de todos os campos, inclusive dos campos progressistas, para construir um futuro possível para todas as existências”. É isso. Existem marchas e existem Marshas. Não é uma escolha difícil.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O QUE (RE)LER EM 2026

 


1. Educação e Felicidade

     Autor: Luiz Oswaldo Sant'Iago Moreira de Souza

     Editora: EdUECE




2. Andorinhando

   Autora: Valdenia Silva

   Editora: Radiadora


3. Aldeota

   Autor: Jáder de Carvalho

    Editora: UFC


4. Boceta encantada e outras historinhas

    Autora: Sarah Forte

    Editora: Patuá


5. Oswald de Andrade: mau selvagem

    Autor: Lira Neto

    Editora: Companhia das Letras


6. A Century of Fiction in The New Yorker (1925 - 2025)

    Editado por Deborah Treisman

    Editora: Alfred A. Knopf


7. Contos dos subúrbios distantes

    Autor: Shaun Tan

    Editora: DarkSide



8. Como ser um educador antirracista

    Autora: Bárbara Carine

    Editora: Planeta


9. Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior: 81 lições do método Sueli Carneiro

    Autora: Cidinha da Silva

    Editora: Rosa dos Tempos


10. Alucinação: minha vó costurou minha mãe uma mulher de costura

      Autor: Samuel Maciel Martins

      Editora: Aluá Sebo & Galeria



11. Hamnet: um romance sobre o luto, a peste e uma das maiores peças de todos os tempos

      Autora: Maggie O'Farrell

     Editora: Intrínseca 


12. A filosofia da música moderna

      Autor: Bob Dylan

      Editora: Companhia das Letras


13. Chomsky & Mujica: sobrevivendo ao século XXI

      Autor: Saúl Alvidrez

      Editora: Civilização Brasileira



14. Revolucionários da crítica: cinco críticos que mudaram o modo como lemos

      Autor: Terry Eagleton

      Editora: Unesp


15. Che Leitor

      Org. Biblioteca Nacional de la República Argentina

      Editora: Expressão Popular


16. Raoni: memórias do cacique

      Pesquisa e organização: Fernando Niemeyer

      Editora: Companhia das Letras


17. Toni at the Random: the iconic writer's legendary editorship

      Autora: Dana A. Williams

      Editora: Amistad



18. Slaves to Fashion: black dandysm and the styling of black diasporic identity

      Autora: Monica L. Miller

     Editora: Duke University Press


19. Um defeito de cor

      Autora: Ana Maria Gonçalves

      Editora: Record


20. Racismo algorítmico: inteligência artificial e discriminação nas redes digitais

      Autor: Tarcízio Silva

      Editora: SESC



21. Ruas biográficas

      Autor: Emmanuel Montenegro

      Editora: BPM