Ao longo da canção “A
cara do Brasil”, Celso Viáfora traça um paradoxo de tudo aquilo que muito bem
representa nosso país, ou seja, o Brasil gordo, o Brasil com fome, o pobre, o
rico, as ilhas, as favelas, os trens do subúrbio, os trens da alegria de Brasília...
Muitos anos se passarão, mas a canção de Viáfora, por tudo o que ela nos diz e
da maneira como diz, será sempre atual. E assim será, pois a contradição da
qual seus versos tratam nos habita de uma forma que se entranha em nosso
ser.
Penso na contradição que
é nosso país, quando converso com meus botões e eles me perguntam que tipo de
trabalhador é liberado pelo patrão para empreender uma marcha que deve durar
pelo menos seis dias? Rapidamente, lembro das moças que trabalham como caixa em
um supermercado próximo à minha casa, as quais só podem ir ao banheiro se o
gerente autorizar, trabalhando de domingo a domingo, pois o único dia que a tal
senzala, digo, supermercado não funciona é no primeiro dia do ano.
Assim, se você pode fazer
uma caminhada de seis dias, de Minas Gerais até Brasília, é porque você se
esforçou e mereceu e, parafraseando Tim Maia: “A meritocracia é a coisa mais
linda do mundo!” Mas cá entre nós, quem é mesmo que paga as contas de todos
esses fofos? Seriam as mesmas pessoas que bancaram com carne, cerveja e
gasolina a bandidagem que acampou por meses nas calçadas dos quarteis do
exército e que até hoje não sabemos quem são?
E assim, caminhando e
tramando, vários parlamentares lideram uma marcha em direção ao Planalto
Central, cujo objetivo é “protestar” contra a prisão dos bandidos que tentaram
derrubar a democracia brasileira por meio de um golpe de estado. O chefe da
quadrilha, preso em uma espécie de apart-hotel, tão doentinho, coitado,
continua a insuflar seus seguidores contra as instituições e o Estado
Democrático de Direito. Uma vez bandido, sempre bandido! A tal da marcha deverá
chegar ao DF no domingo. Meus botões, que acham que marcha de extrema direita é
esterco de vagabundo, me relembram que foi num domingo, 08 de janeiro, que tudo
aconteceu. Pois sim. Não foi um passeio no parque. É déjà vu, que chama?
No domingo (25), além da
marcha dos cidadãos de bem, ocorrerá a 3ª Marsha Trans Brasil, cujo nome é em referência
à ativista afro-americana Marsha P. Johnson (1945-1992). A Marsha, conforme
Bruna Benevides, presidenta da Antra: “não se apresenta como uma celebração,
mas como uma denúncia”. Em entrevista ao Brasil de Fato, em 21 de janeiro,
Benevides disse: “O Brasil já era um país extremamente violento com a população
trans antes mesmo da extrema direita assumir o poder. Nós já enfrentávamos
desemprego, expulsão escolar, dificuldades de acesso à saúde e uma violência
cotidiana brutal”. Continua Bruna: “Queremos um Brasil forte, com instituições
funcionando, mas que não deixe ninguém para trás. Caso contrário, essa
soberania é falha”.
Das duas marchas, caro
leitor, de qual delas você não ouviu falar nem leu sequer uma linha na mídia
comercial brasileira? As pessoas que
estarão na Marsha não se hospedarão em hotéis de luxo, assim como nenhum
helicóptero pousará irregularmente em via pública trazendo-lhes qualquer forma
de apoio. Nenhuma participante gastará dinheiro público, pois não recebem
emendas parlamentares, por exemplo. Nenhuma delas estará tramando contra o país
nem contra a democracia. E sabe a razão? Não? Bruna responde: “Não queremos
apenas diminuir a violência. Queremos erradicá-la como projeto político.
Retirar a violência de todos os campos, inclusive dos campos progressistas,
para construir um futuro possível para todas as existências”. É isso. Existem
marchas e existem Marshas. Não é uma escolha difícil.
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