terça-feira, 19 de maio de 2015

MINHA VIAGEM NOS TRÓPICOS BRASILEIROS

Princesa Teresa da Baviera
O Brasil ainda é um grande desconhecido, para seu próprio povo. Por razões, as mais variadas, inúmeros brasileiros não conhecem seu próprio país, e não demonstram nenhum interesse em conhecê-lo. E nesse misto de ignorância e alienação, muito da cultura nacional vai escorrendo pelas coxias da memória (ou seria da desmemória?) em direção ao fosso do esquecimento. Contudo, aquilo que para alguns é pobre, desnecessário e desinteressante; para outros é culturalmente rico e merecedor de atenções.

Ao longo da história do Brasil, muitos foram os estrangeiros que passaram por essas terras, registrando seus mais íntimos detalhes; fossem eles ligados aos hábitos e costumes dos nativos ou à fauna, flora e riquezas naturais encontradas no paraíso perdido abaixo da linha do Equador. Dessa forma, tem-se os registros dos cronistas e viajantes que por aqui estiveram, no período Colonial, bem como daqueles que, já no período Imperial, também se renderam à cultura, curiosidades e exotismos do país que surgia. Dentre tantos, nos chama a atenção os olhos de Therese von Bayern (1850 – 1925), a princesa da Baviera.

Segundo o texto de A.A. Bispo, hospedado no site http://www.academia.brasil-europa.eu, Therese von Bayern foi uma das mais relevantes estudiosas da natureza e da etnografia do Brasil. Infelizmente, continua o texto, ainda é pouco considerada nos estudos brasileiros. Aos poucos, no entanto, tem adquirido certo reconhecimento em meio aos estudos interculturais e científicos. Essa princesa, conforme A.A. Bispo, é talvez a de maior erudição entre aristocratas alemãs do século XIX, sendo considerada hoje por alguns estudiosos como uma personalidade feminina à altura de  um Alexander von Humboldt.

Ainda, conforme A.A. Bispo, a princesa da Baviera nasceu Therese Charlotte Marianne Auguste, no ano de 1850, tendo sido batizada no dia 14 de novembro do mesmo ano. Era neta do rei Luis 1º da Baviera, única filha entre os quatro filhos de Luitpold (Leopoldo), daquele que seria príncipe-regente da Baviera, e de Auguste Ferdinande, duquesa da Áustria, princesa da Toscana. O seu irmão foi o rei Luis III, da Baviera. Therese von Bayern recebeu uma formação profundamente católica, sendo educada sobretudo pela sua mãe, e, posteriormente, pela mãe da rainha da Baviera. Desde cedo mostrou grande facilidade para aprender línguas, paixão pela natureza, pela etnografia de países não europeus. Adquiriu instrução, sobretudo autodidaticamente, através de leituras. Chegou a dominar vários idiomas, tendo conhecimento de 12 línguas, entre elas o russo e o grego moderno.  De personalidade altiva, movida por um entusiasmo íntimo pelo conhecimento, pela revelação de mundos novos, a sua vida foi dedicada desde cedo a viagens e a estudos. Percorreu toda a Europa, da Escandinávia ao Mediterrâneo, das ilhas britânicas aos territórios balcânicos e ao oriente próximo. Tinha 25 anos quando viajou pela primeira vez ao Norte da África, à Tunísia e Algéria, através da Itália e da Ilha de Malta. No retorno, pela Espanha, Portugal e França, teve contato com o mundo ibérico e latino-ocidental. Dessa viagem, originou-se o seu primeiro relato de viagens, publicado em 1880.

A América do Sul, continua A.A. Bispo, constituiu desde cedo o principal centro de interesse da princesa. Seguia, aqui, a tradição que, desde Spix e Martius, unia cientifico-culturalmente a Baviera ao continente americano. A princesa realizou três expedições à América do Sul, realizando observações em 23 diferentes grupos indígenas até então pouco ou não conhecidos dos cientistas europeus. Percorreu os pampas argentinos, atravessou os Andes e o deserto do Atacama. Visitou regiões de difícil acesso no Amazonas e no Leste do Brasil. Os materiais que trazia das viagens expunha num museu particular. Após a sua morte, em 1925, a coleção passou a fazer parte da Coleção Estatal Científico-Natural da Baviera.
No ano de 1888, a princesa da Baviera visitou o Brasil, no período de 26 de junho a 10 de outubro. Na ocasião, Teresa da Baviera esteve no Pará, Amazonas, Maranhão, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Assim como os outros viajantes que estiveram no Brasil, a princesa da Baviera registrou tudo que pode sobre a fauna, flora, povo, hábitos e costumes. Como resultado, publicou, no ano de 1897, em Berlim, o livro intitulado Meine Reise in den Brasilianischen Tropen, o qual é dedicado a Dom Pedro II, Imperador do Brasil. O único exemplar existente no Brasil encontra-se na biblioteca da USP.

  Embora muito ainda tenha a ser dito (e traduzido para o português) sobre a obra etnográfica publicada pela princesa da Baviera, algumas iniciativas tem se mostrado de muito bom tom. Em 2013, o Arquivo Público do Estado do Espírito Santo – APEES lançou uma edição com a tradução dos três capítulos nos quais a princesa da Baviera discorre sobre o Espírito Santo. A edição traz ainda, o diário do Barão Maximiliano von Speidel, um dos acompanhantes da princesa Teresa da Baviera por terras brasileiras. A edição lançada pelo APEES é parte integrante da linha editorial da Coleção Canaã, tendo sido traduzida por Sara Baldus, e organizada pelo professor Julio Bentivoglio, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
No ano de 2014, a editora Phoenix Cultural, por sua vez, publicou, sob a organização de Maria Clara Medeiros Santos Neves, e com tradução de Ivan Seibel, a obra Viagem pelos trópicos brasileiros: província do Espírito Santo. A referida obra detém-se “apenas” nos três capítulos que tratam do Espírito Santo, uma vez que a intenção da organizadora é contribuir com os estudos acerca da cultura e da história capixabas. Assim sendo, os capítulos abordados são Capítulo XVI, denominado “Espírito Santo”; capítulo XVII “Rio Doce”, e capítulo XVIII, denominado “Costa do Espírito Santo”.

Ainda no ano de 2014, a grande contribuição aos estudos acerca da obra da princesa Teresa da Baviera, é dada pelo pesquisador e tradutor André Frota de Oliveira, quando traz a lume a tradução completa para o português de Meine Reise in den Brasilianischen Tropen, de 1897. Traduzida por ele como Minha viagem nos trópicos brasileiros. A tradução do professor André Frota de Oliveira foi revisada por Christian Heimpel, o qual também ficou responsável pelo estudo introdutório para o leitor brasileiro. Além do texto cuidadosamente traduzido, a edição de André Frota de Oliveira traz dois mapas, quatro pranchas, 18 ilustrações de página inteira e 60 estampas de texto; reproduzindo também fotografias do grupo viajante, bem como desenhos da autora.

A obra traz o prefácio da autora (p. 41), Apêndice (p. 481), bibliografia utilizada (p. 487), índice onomástico e de matérias (p. 506), explicação das pranchas etnográficas (p. 560), notas da autora (p. 566) e notas do tradutor (p. 636).

Tradução de André Frota
Ao todo, são 677 páginas organizadas em 24 capítulos, a saber: O capítulo I é denominado de “Travessia para o Brasil” (pp. 43 – 52). Capítulo II: “Generalidades sobre o Brasil, especialmente sobre as províncias do Amazonas” (pp. 53 – 62); capítulo III: “Pará” (pp. 63 – 90); capítulo IV: “No Amazonas” (pp. 91 – 111); capítulo V: “Rio Negro” (pp. 112 – 130); capítulo VI: “Solimões” (pp. 131 – 143); capítulo VII: “Rio Negro” (pp.144 – 165); capítulo VIII: “No Amazonas” (pp.166 – 184); capítulo IX: “Pará” (pp. 185 – 195); capítulo X: “Maranhão e Ceará” (pp. 196 – 215); capítulo XI: “Quatro províncias do Nordeste do Brasil” (pp.216 – 228); capítulo XII: “Bahia” (pp.229 – 248); capítulo XIII: “Rio de Janeiro” (pp. 249 – 266); capítulo XIV: “Minas Gerais” (pp.267 – 289), capítulo XV: “Rio de Janeiro” (pp.290 – 302); capítulo XVI: “Espírito Santo” (pp.303 – 340), capítulo XVII: “Rio Doce” (pp. 341 – 374); capítulo XVIII: “Costa do Espírito Santo” (pp.375 – 390), capítulo XIX: “Rio de Janeiro” (pp. 391 – 408); capítulo XX: “Petrópolis” (pp. 409 – 420); capítulo XXI: “Rio de Janeiro e Serra dos Órgãos” (pp. 421 – 442); capítulo XXII: “São Paulo” (pp. 443 – 458); capítulo XXIII: “Os últimos dias no Brasil” (pp. 459 – 470); capítulo XXIV: “Travessia para a Europa” (pp.471 – 480).

O trabalho que André Frota de Oliveira coloca à disposição dos pesquisadores, constitui-se como resultado de uma empreitada de fôlego, dedicação e paciência. A contribuição desse trabalho para as pesquisas acerca do Brasil é de extremo valor, tornando-se desde já referência para todo e qualquer estudo que objetive um aprofundamento acerca da história, antropologia e cultura nacionais.


Sobre André Frota, o tradutor: 
http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/natureza-de-pesquisador-1.57803

domingo, 10 de maio de 2015

SOCIEDADE, CIÊNCIA E SERTÃO: REFLEXÕES SOBRE EDUCAÇÃO, HISTÓRIA, CULTURA E TECNOLOGIAS

Houve um tempo em que muitas pessoas acreditavam que os conhecimentos eram estanques e que cada um deles deveria ocupar um local específico, sem jamais se misturar com os outros. Os tempos passaram e muito desse pensamento equivocado já se evanesceu faz tempo. É claro que, entre perdidos e achados, ainda há uns gatos pingados acreditando que a vida só segue em uma única direção.

Sobre os ombros da contemporaneidade incide a necessidade de uma compreensão multidisciplinar do conhecimento. Sobre as fronteiras do conhecimento, Gaston Bachelard levanta os seguintes questionamentos:

O conceito de fronteira do conhecimento científico tem sentido absoluto? Seria possível traçar as fronteiras do pensamento científico? Estamos dentro de um domínio objetivamente fechado? Estamos sujeitos a uma razão imutável? É o espírito uma espécie de instrumento orgânico, invariável como a mão, limitado como a visão? É ele obrigado a uma evolução regular ligada a uma evolução orgânica? Aí estão perguntas, múltiplas e conexas, que questionam a filosofia e que conferem um interesse primordial ao estudo do progresso do pensamento científico. (BACHELARD, 2008:69)

Certamente que o autor de A poética do espaço (2005) já provocava com esses questionamentos reflexões acerca da necessidade do humano de encaixotar saberes dentro de domínios teoricamente fechados, o que nos afastaria da sabedoria, uma vez que, conforme afirma Leonardo Boff, sabedoria é poder saborear todos os saberes, pois todos eles revelam algo do ser.

Assim, comprometida com a ideia de que nenhum saber se exclui, mas se complementa. a Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central – FECLESC, da Universidade Estadual do Ceará – UECE, traz a lume o volume dois do livro Sociedade, ciência e sertão: reflexões sobre educação, história e cultura e tecnologias (2014). O trabalho foi organizado pelos professores Francisco Carlos Carvalho da Silva, Isaíde Bandeira da Silva e Makarius Oliveira Tahim; tendo sido publicado pela editora da própria UECE, com prefácio de Fátima Maria Leitão Araújo.

O trabalho está organizado em duas partes. A primeira parte traz sete artigos, enquanto a segunda apresenta seis. São artigos acadêmicos que tratam dos mais variados assuntos, em uma tentativa de abarcar as diversas áreas de pesquisas que coexistem no âmbito da Universidade e dizem respeito aos campos da educação, história, cultura e tecnologias; bem como das suas interfaces. Dessa forma, na mesma obra, pode-se entrar em contato com a poesia de Linhares Filho (p. 67 – 84), conhecer sobre as relações entre parteiras e parturientes no sertão do Ceará (p. 129 – 144) ou aprender sobre queijo coalho artesanal (p.209 – 222) e ainda a respeito dos supercondutores (p. 223 – 233).

O livro em questão é parte de um projeto que pretende, a cada ano, publicar um volume nos mesmos moldes, tentando unir temas de interesse não apenas da Academia, mas acessíveis a um público não especializado. Assim sendo, a linguagem utilizada na abordagem dessas questões tenta se mostrar o mais próxima possível do leitor comum, sem, no entanto, se afastar do caráter acadêmico-científico. Sobre o caráter multidisciplinar da obra, a professora Fátima Maria Leitão Araújo, afirma:

O livro Sociedade, ciência e sertão: reflexões sobre educação, história, cultura e tecnologias enfrenta o desafio de articular uma infinda diversidade de temas que, pela especificidade inerente a cada um, pode suscitar estranhamento por parte do leitor. Por outro lado, podemos encontrar elos que os unem no aparente labirinto da incoerência: tempo e cultura, conceitos que explícita ou implicitamente se fazem presentes nos estudos aqui abordados, pois, independente de estarem ou não ligados diretamente ao mister historiográfico ou sociológico, todos trazem em suas análises a delimitação temporal e os meandros culturais que se materializam na explicitação dos objetos de estudo, histórica e culturalmente situados em um dado espaço e em um determinado tempo. (ARAÚJO, 2014:10)

Dessa forma, o caráter multidisciplinar presente nos artigos do trabalho em questão aponta para uma concepção de educação e cultura que se pauta pelo mais amplo, pelo mais geral e, consequentemente, por uma visão mais democrática da apreensão do conhecimento.



Serviço:
Editora da Universidade Estadual do Ceará – EdUECE
Av. Dr. Silas Munguba, 1700 – Campus do Itaperi – Reitoria – Fortaleza – CE
Link: http://www.uece.br   E-mail de contato: eduece@uece.br