terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A FESTA DA INSIGNIFICÂNCIA

A insignificância e o insignificante são termos utilizados como referência àquilo que  possui pouco valor, de escassa ou nenhuma importância. Logo, é paradoxal o título do mais recente livro de Milan Kundera, A festa da insignificância (2014), quando o autor tcheco, naturalizado francês, associa o termo “festa” ao termo “insignificância”. No entanto, a aparente contradição que intitula a narrativa de Kundera não é ocasional, mas proposital. A intenção é, exatamente, apontar para a exaltação do vazio que se instalou na vida do século XX, alcançando status de paradigma no século XXI; seja através da arte, da política ou da confusão que se faz do público com o privado, comprovado pela extrema exposição dos “eus” privados como se públicos fossem.


O lançamento de um novo trabalho de um grande escritor é sempre motivo de atenção. Às vezes, no entanto, a ansiedade acaba por nos pregar peças, deixando-nos passar ao largo muitas coisas que, entre uma linha e outra, nos acenam e gritam quase em desespero. E é isso que algumas vezes acontece na narrativa em questão. Com A festa da insignificância, Kundera atira no stalinismo e aproveita para tecer críticas à apatia política, a estupidez e a ignorância que tem sido a marca registrada do Homem em tempos de liquidez. Tão paradoxal quanto o título desse que talvez seja seu último trabalho, uma vez que já está com oitenta e cinco anos, é a própria história de vida de Milan Kundera. No ano de 2008, uma revista tcheca acusou o autor de A insustentável leveza do ser (1984) de ter delatado, no ano de 1950, um jovem estudante à polícia comunista. O jovem rapaz perdeu vinte e dois anos de sua vida na prisão. Dessa forma, é curioso que o autor critique os jovens de hoje por não se posicionarem politicamente, doando suas vidas ao culto da insignificância.

A festa da insignificância, la Fête de l’insignifiance, no original, está publicado no Brasil pela Companhia das Letras, contando com a tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. O livro sai após catorze anos sem que o autor tivesse publicado outras coisas nesse tempo. Seu último trabalho antes de A festa da insignificância tinha sido A ignorância, publicado no ano 2000. Quando A festa da insignificância saiu na Europa, o Le Monde disse tratar-se de um romance “leve como uma pluma de perdiz ou de anjo” (referência às partes cinco e seis do romance pp. 83 e 99), afirmando que Kundera voara alto no romance que acabara de publicar. O romance é realmente leve no que concerne à sua forma, mas é bastante pesado quanto ao conteúdo, tendo em vista discorrer sobre a ignorância generalizada que tem dominado o mundo; permitindo que políticos oportunistas, aliados ao grande Capital, e a extrema direita cresçam a olhos vistos. O romance, no entanto, é limitado, o que nos leva a discordar do La Repubblica, quando afirma tratar-se de “uma pequena e encantadora comédia humana”. Dizemo-lo limitado, uma vez que não traz absolutamente nada de diferente. 


Em A festa da insignificância, Kundera volta a destilar toda sua desilusão (desilusão que não é só sua) acerca da insignificância daquilo que tem sido considerado como o fio condutor da cultura contemporânea. Convém ressaltar que essa inquietação já nos havia sido posta por Guy Debord (1931 - 1994) no seu livro Sociedade do espetáculo, de 1967. Mais recentemente, em 2007, Zygmunt Bauman retomou o assunto na obra Vida para consumo. Em 2013, Mario Vargas Llosa voltou ao tema no trabalho A civilização do espetáculo- uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura, publicado no Brasil pela editora Objetiva, com tradução de Ivone Benedetti. Enquanto os trabalhos anteriormente citados estão estruturados em forma de ensaio, a obra de Kundera está em forma de romance, de ficção. Isso também não constitui novidade, uma vez que outros romancistas “mundialmente desconhecidos” já haviam abordado a questão pelo mesmo viés. Isso não diminui a obra e não nos impede de lermos o romance de Kundera, pois qualquer trabalho seu deve ser sempre visto como “uma festa”, seja ela qual for. Mas precisamos, por outro lado, ter olhos atentos para ver aquilo que, como dito, nos grita e nos acena lá do meio das linhas postas pelo autor.



A festa da insignificância está dividida em sete partes: 1. Os heróis de apresentam; 2. O teatro de marionetes; 3. Alain e Charles pensam muitas vezes na mãe; 4. Estão todos em busca do bom humor; 5. Uma pluminha paira sob o teto; 6. A queda dos anjos; 7. A festa da insignificância. A estrutura em questão segue as regras que o próprio Milan Kundera elenca em seu A arte do romance, de 1986. Assim como ocorre em A festa da insignificância, seus romances costumam ser estruturados, cabalisticamente, em sete capítulos. As personagens principais são: Alain, Ramon, Charles e Calibã. O espaço é Paris, França; especificamente os jardins de Luxemburgo. O enredo se desenvolve a partir da observação que as personagens fazem das pessoas que se acotovelam para ver exposições que, na maioria das vezes, nada lhes dizem; bem como o umbigo das mulheres que podem ser vistas pelas ruas parisienses. O umbigo, esse “senhor” que desbancou, em tempos pós-modernos, os seios e a bunda; até então tidos como preferência mundial no corpo feminino. É claro que o umbigo em questão nada mais é do que uma metáfora utilizada pelo narrador para questionar a relevância da arte na contemporaneidade. Enquanto os seios e a bunda (senti falta de referências à vagina) podem ser compreendidos como exemplos da “alta cultura” (ponho entre aspas por ser uma expressão questionável), ou seja, um Renoir ou um Picasso; o umbigo poderia ser comparado a um Damien Hirst ou a um Romero Brito. Fazendo-se a ressalva de que se trata de uma obra aberta, as possíveis compreensões da obra se mostram infinitas conquanto possam ser comprovadas na narrativa.

A opulência de poucos em relação à miséria e ao (des)lugar de outros pode ser notada na festas, culturalmente vazias, em contraponto à aparência e  a dificuldade de comunicação de Calibã (o nome é bastante sugestivo, por trazer à mente do leitor, a forma física e a dificuldade de comunicação da personagem shakespeariana), personagem que representa o outro, o estrangeiro pária, desempregado, exótico e deslocado;  resultado da exclusão social e das diásporas pós-coloniais. Calibã é ainda um nome relevante na literatura Clássica. Mas o Clássico, na era da insignificância, nada significa. Calibã finge falar paquistanês, enquanto a jovem empregada, tão excluída quanto ele, fala português (p.64-65). Tanto a língua portuguesa quanto o paquistanês falso de Calibã são emblemáticos quando os associamos às línguas de países periféricos faladas por estrangeiros em terras estranhas, impossibilitados de se comunicar. Sem língua, logo, sem identidade. Ao tentar pegar uma garrafa de armanhaque (bebida alcoólica da região de Armagnac, no sul da França), Calibã cai da cadeira, quebrando a garrafa da rara bebida (p.110). Aqui, a queda de Calibã pode ser entendida como a “queda” da própria cultura clássica.

Dois pilares servem de sustentação para A festa da insignificância: a ironia e a sátira. Embora Kundera não alcance o status de ironista de um  Machado de Assis (1839 – 1908), nem o caráter satírico de Jonathan Swift (1667 – 1745); ironia e sátira estão tanto na forma quanto no conteúdo da narrativa em análise. Por exemplo, a opção pelo romance curto constitui, a nosso ver, uma crítica àqueles que não conseguem mais se dedicar à leitura de grandes (no que diz respeito ao tamanho) romances, daqueles de inúmeras páginas. Ao ironizar sobre o que realmente é tido como relevante na sociedade atual, o narrador afirma que ser brilhante hoje em dia é inútil e que, mais que inutilidade, é nocividade (p.23). Sobre a presença da insignificância na atualidade, observa-se um imenso e inútil discurso sobre a urina (p.40-41), por exemplo. Na quinta parte do romance, denominada de “uma pluminha paira sob o teto” (p.83 – 84), o narrador usa e abusa da repetição e da tautologia em uma clara crítica a repetição e a mesmice na contemporaneidade. Nota-se ainda certo vazio na própria escritura da narrativa (p.86), ou seja, a própria estrutura é usada como forma de questionar o vazio que se instalou no contexto cultural contemporâneo. Um exemplo do que afirmamos é o primeiro parágrafo da página 47, quando o autor inicia o capítulo de forma simples (quase simplória) e banal, da maneira que é possível ver na maioria das obras literárias puramente comerciais tornadas sucesso imediato de vendas. A ironia e a sátira costumam estar acompanhadas do humor, formando uma tríade. Dessa forma, como não é mais possível mudar o mundo, afirma o narrador, resta apenas rir dele (p.18). E ainda: “Nós compreendemos há muito tempo que não era mais possível mudar o mundo, nem remodelá-lo, nem impedir sua infeliz trajetória para a frente. Havia uma única resistência possível: não levá-lo a sério” (p.88), pois: “ somente das alturas do infinito bom humor é que você pode observar abaixo de si a eterna tolice dos homens e rir dela (p.90).


A festa da insignificância, como já aludimos, não traz nada de extraordinário, uma vez que está ancorada em um enredo bastante convencional. São os seus possíveis “desenrolares” que nos põem, enquanto leitores, a pensar e ver a vida para além dos nossos próprios umbigos, sem nos descuidarmos dos valores que a insignificância traz.


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