terça-feira, 15 de novembro de 2016

AS PEÇAS DE SAMUEL BECKETT, DE EUGENE WEBB



Ancorado em uma poética do absurdo, o teatro de Samuel Beckett (1906 – 1989) revoluciona grande parte do drama produzido no Ocidente, no período do pós-guerra. Impactante, a obra dramatúrgica beckettiana opta por uma linguagem que privilegia a elipse, o silêncio, o corte e a imobilidade; o que a coloca em oposição ao chamado “teatro convencional”, uma vez que esse se pauta, entre outras coisas, pela ação.

Embora as obras do autor irlandês, no que concerne à sua poesia, contística e romance, sejam consideradas de altíssimo nível literário; são suas peças que nos parecem mais representativas de um período histórico assolado pelo medo, a solidão e o isolamento causados pela constante ameaça de destruição da humanidade, as quais se apresentam como elementos basilares do drama produzido no pós-guerra. Dessa forma, são exemplos da sua produção as peças Esperando Godot (1952), Fim de Partida (1957) e Dias Felizes (1962).

Como não costuma ser muito fácil se iniciar no texto dramatúrgico de Samuel Beckett, o livro As peças de Samuel Beckett (do original The plays of Samuel Beckett, de 1972), de Eugene Webb, apresenta-se como uma alternativa agradavelmente didática de se mergulhar no universo do referido escritor.

O livro foi publicado no ano de 2012, pela editora Realizações, e se insere na Coleção Ensaios, da Biblioteca Teatral. A tradução para o português foi feita por Pedro Sette-Câmara. O trabalho contém catorze capítulos. No primeiro, o autor faz uma introdução na qual discorre sobre Samuel Beckett e a tradição filosófica do Absurdo (p. 13 – 30). Cada um dos doze capítulos seguintes é dedicado a análise de cada uma das peças de Samuel Beckett, numa ordem que basicamente corresponde à sua cronologia de publicação. O livro se inicia com uma nota de agradecimentos (p. 9 – 10), seguida por uma nota do tradutor (p. 11 – 12). O capítulo XIV é denominado por Webb de “Visão Geral, no qual o autor opta por fazer uma espécie de “revisão” dos principais aspectos de cada uma das peças examinadas (p. 161 – 174). Na sequência, tem-se uma “Lista das primeiras montagens” (p. 175 – 176), a bibliografia (p. 177 – 184) e, finalizando, tem-se o índice analítico (p. 178 – 185).

A nota do tradutor tem como objetivo deixar claro que ao longo do trabalho, as peças  serão referidas por seu nome em português. Isso só não ocorrerá quando o autor fizer referências mais específicas. Assim sendo, o capítulo II é dedicado à análise de Esperando Godot (p. 31 – 50); o terceiro a Todos os que caem (p. 51 – 64); o quarto a Fim de Partida (p. 65 – 80); o quinto A última gravação de Krapp (p. 81 – 92) e, na sequência, Cinzas (p. 93 – 104); Duas pantomimas: Ato sem Palavras I e Ato sem Palavras II (p. 105 – 110); Dias Felizes (p. 111 – 124); Letra e Música (p. 125 – 132); Cascando (p. 133 – 138); Trios: Comédia e Vai e Vem (p. 139 – 146); Filme (147 – 156) e Eh Joe (p. 157 – 160).

Sobre Samuel Beckett e sua obra, Webb afirma:

Samuel Beckett conhece bem não só o desespero do homem moderno, mas também a longa história intelectual que desemboca nele. Suas obras contêm referências a filósofos que vão dos pré-socráticos a Heidegger, Sartre e Wittgenstein. Essa extensiva familiaridade com as raízes intelectuais da mente moderna é uma das principais fontes da grande abrangência e da força de Beckett.

Sua obra pode representar o desespero, mas ela não se entrega a ele. O desespero é parte da realidade do nosso tempo, e como artista sincero Beckett teve de ser fiel a essa realidade. Para encontrar um caminho além do absurdo é preciso atravessá-lo. É isso que as peças de Beckett tentam fazer.

Foi provavelmente por isso que Beckett disse em Berlim, em 1967, enquanto se preparava para dirigir uma produção de Fim de Partida, que a maneira de entender seus textos teatrais é falar “não de filosofia, mas de situações”. As peças são explorações do sentido da vida humana em sua realidade plena, e esse sentido não é uma ideia abstrata do tipo que pode ser conhecido objetivamente com o intelecto, mas um mistério vivido com o eu total. Por isso, embora tratem, em parte, de problemas filosóficos, elas estão ainda mais interessada na psicologia – usando esse termo num sentido bastante amplo – de indivíduos concretos. Suas peças tomam situações e perscrutam-nas a fim de revelar a realidade humana que jaz em suas profundezas. (WEBB, 2012)


Posto isso, surge o seguinte questionamento: Como o leitor pode fazer para “se iniciar” no trabalho de Samuel Beckett? Assim como a obra beckettiana não aponta saídas e muito menos dá respostas, o mais importante talvez seja mergulhar nos seus textos, sejam quais forem, e esperar que os caminhos lhe sejam revelados. Caminhos que podem conduzir ao longe ou “apenas” ao labirinto da espera por dias felizes, enquanto o jogo não acaba.


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