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domingo, 7 de abril de 2019

Cancioneiro Belchior, de José Gomes Neto


Organizado por José Gomes Neto, começa a circular no mercado o livro Cancioneiro Belchior (s/d), que tem como objetivo principal o estabelecimento de todas as letras escritas pelo poeta cearense. É claro, como tem sido dito por muitos estudiosos, a obra do compositor Belchior não cabe no conceito de “letra”, constituindo-se, na verdade, de poesia de raro esplendor. No entanto, não é esse o objetivo do referido Cancioneiro, mas colocar num só lugar, como dito, todas as letras produzidas pelo autor de “Como os nossos pais”.

Há muitos trabalhos como esse no mercado editorial brasileiro, como os de Lou Reed e Bob Dylan, por exemplo, publicados pela Companhia das Letras. Mas ainda não tínhamos nenhum sobre a poética de Belchior. Dessa forma,  Cancioneiro Belchior vem  preencher uma lacuna acerca da obra de um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira – MPB.  Livros como o de Gomes Neto se inserem na linha de trabalhos como Like a Rolling Stone: Bob Dylan na encruzilhada, de Greil Marcus, Strange Fruit: Billie Holiday e a biografia de uma canção, de David Margolick ou ainda A love supreme: the story of John Coltrane’s signature album, de Ashley Kahn. Algumas dessas obras deitam olhos sobre a análise interpretativa de algumas composições, o que não é o caso de um cancioneiro que, conforme sua definição, é uma coleção de canções ou poesias de um determinado tempo ou autor.




O trabalho que agora é entregue ao público leitor começou a ser gestado ainda nos idos de 1980. Sobre esse começo, convém observarmos o que diz nos diz o organizador.


Já no início de 1980 começamos a pensar na realização do  projeto. Belchior trataria de enviar-me as letras, que deveriam ser digitadas e “trabalhadas” em  meus momentos de folga acadêmica. Sempre que tivesse espaço na apertada agenda de shows, Belchior viria a Floripa para discutirmos e estabelecermos a versão definitiva de cada letra. Às vezes, quando em férias ou durante as longas greves universitárias, conseguia acompanha-lo em suas viagens, adiantando a tarefa conjunta. (GOMES NETO, s/d:47)


O Cancioneiro Belchior está organizado em três blocos, a saber: Canções de estrada, Noutras estradas e A voz nas estradas. No primeiro bloco foram agrupadas as composições divulgadas em obras autorais, os chamados “discos de carreira”, sejam elas compostas ou não em parceria. O segundo bloco, por sua vez, contém as canções escritas por Belchior e parceiros, que, conforme, Gomes Neto, gravaram em seus respectivos discos de carreira. No último bloco, tem-se as composições que Belchior fez para trilha sonora de peça teatral, assim como os trabalhos realizados com obras poéticas, como a de Carlos Drummond de Andrade (As várias caras de Drummond) e a de Cruz e Sousa (Belchior canta Cruz e Sousa). José Gomes Neto registra que a análise exaustiva e minuciosa de cada texto foi realizada por ele e por Belchior, tendo começado no início de 1980 e se estendido até 2005, com pequenos ou grandes intervalos ditados pela agenda dos dois. O Cancioneiro Belchior conta ainda com um Índice Discográfico e um Índice Alfabético das composições, a que se associa o verso inicial delas. O índice geral do livro segue a seguinte ordem: Índice alfabético das letras (p.7-16), Índice discográfico (p.17-26), Apresentação (texto de Jorge Mello, parceiro e amigo de Belchior, p.27-40), Introdução (p.41-68), Canções da estrada (p.69-230), Noutras estradas (p.231-258), A voz das estradas (p.259-282).

José Gomes Neto, respeitando os direitos dos herdeiros de Belchior, não incluiu no referido Cancioneiro, embora, segundo ele, fosse vontade de Belchior, algumas letras originais do poeta, tendo em vista pertencerem ao espólio que tramita na justiça. Gomes Neto mantém essas letras sob sua guarda. Além dessas, não constam do referido Cancioneiro, devido a questões legais, algumas poucas letras inéditas feitas em coautoria com Belchior, sejam elas traduções ou versões.

O Cancioneiro Belchior é, desde já, referência indispensável para todos aqueles que se dedicam a estudar a obra poética de Belchior, bem como para aqueles que ouvem suas canções, amam e mudam as coisas.

José Gomes Neto é também autor de A sagração da matéria e Opivm de vidro. Atualmente prepara em livro a correspondência que manteve com Belchior, por mais de 40 anos.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

CEGO ADERALDO: O HOMEM, O POETA E O MITO, DE ROSEMBERG CARIRY

Cego Aderaldo é homem do Crato, interior do Ceará. Nasceu no dia 24 de junho de 1878, na Rua da Pedra Lavrada, também conhecida como  Rua da Vala. Filho de Joaquim Rufino de Araújo e Maria Olímpia de Araújo. Sua história é feita de tristezas, perdas e alegrias, como são tecidas as histórias de todos os viventes. Os muitos detalhes da sua existência foram contados pelo próprio Aderaldo ao amigo Eduardo Campos que, durante mais de seis meses registrou as informações que lhe eram ditas, assim como os versos que o velho Cego lhe soprava. Isso lá pelos idos de 1962, quando escreviam  o livro Eu sou o Cego Aderaldo, publicado no ano de 1994, pela editora Maltese, com apresentação de Rachel de Queiroz.

Cego Aderaldo alcançou o reconhecimento em vida, tendo se tornado uma lenda da cantoria nordestina, muitas vezes comparado a Homero ou Tirésias. Ao ser privado da visão, Cego Aderaldo tornou-se voz e fez-se referência e exemplo no imaginário nordestino. Não passou muito tempo após a sua morte, para que o homem e  poeta Cego Aderaldo também se tornasse o mito Cego Aderaldo. É essa história com a riqueza de detalhes que uma boa pesquisa exige que é publicada agora pela editora Interarte, de Fortaleza, com o apoio institucional do Instituto Dragão do Mar, SECULT e Governo do Estado do Ceará. Trata-se de um trabalho de fôlego organizado pelo cineasta e poeta Rosemberg Cariry.
Rosemberg Cariry

Ricamente ilustrado e abundante em fontes de pesquisa, a obra em questão recebeu o nome de Cego Aderaldo – O homem, o poeta e o mito (2017). Na ficha catalográfica, no entanto, a obra está registrada como Cego Aderaldo: o homem, o cantador e o mito, o que nos remete ao filme de Cariry com o mesmo nome. O livro está organizado em três partes, a saber: a primeira parte é denominada de “o homem e o mito” e está subdividida em Ato I (p. 39 – 118), Ato II (p. 119 – 380) e Ato III (p. 381 – 644).  A segunda parte não recebeu denominação. É composta das notas do organizador e obra de Cego Aderaldo (p. 647 – 760). A terceira e última parte está dedicada à cronologia e à bibliografia consultada (p. 763 – 779).

Ao organizar um livro sobre a vida e a obra de Cego Aderaldo, Cariry não apenas presta merecida homenagem ao grande mestre da cantoria nordestina, como contribui de forma inquestionável para a manutenção do reconhecimento cultural das artes que são produzidas no âmbito dos homens e mulheres do povo. Dessa forma, o livro de Rosemberg Cariry, além de manter acesas as luzes  sobre a obra de Aderaldo, também abre caminho para que as novas gerações tenham a oportunidade de vivenciar a riqueza da sua poética. Se farão bom uso de tudo que ali está dito, aí já não se sabe. Os dados estão lançados. As obras, de Aderaldo e de Cariry, estão circulando por aí. Resta-nos descobrir pra que lado é o nascente e seguir, seguir sempre.

Casa de Saberes Cego Aderaldo - Quixadá, Ceará

Em tempo:
Um ano após seu nascimento, Aderaldo, que só ficaria cego aos dezoito anos de idade, no ano de 1896, se estabelece com sua família na cidade de Quixadá, no sertão central do Ceará. Hoje, em sua homenagem, a cidade de Quixadá mantém a Casa de Saberes Cego Aderaldo.

Filme: Cego Aderaldo – o cantador e  o mito, de Rosemberg Cariry, mais informações http://www.imdb.com/title/tt2356076/

Sobre a Casa de Saberes Cego Aderaldo > http://mapa.cultura.ce.gov.br/espaco/891/

sábado, 25 de março de 2017

SERTÃO: POETAS E PROSADORES

O sertão é quase uma incógnita, uma esfinge. Como popularmente se diz: “o sertão não é para os fracos”. Para se viver no sertão, já dizia Euclides da Cunha, precisa-se ser, antes de tudo, um forte”. E o que será que diria o autor do clássico  Os Sertões (1902 ) sobre viver e escrever no sertão? Na verdade, o sertão nem sempre precisa ser o sertão. Itamar Assumpção, por exemplo, diz: “ São Paulo é meu sertão”.

No Dicionário do Brasil Colonial (1550 – 1808), Ronaldo Vainfas traz um esclarecedor verbete denominado “sertão”. Contudo, o sertão de Vainfas é, em muito, diferente do sertão que nos engole de dia com seu calor infernal, mas que à noite nos agasalha e nos protege contra o frio trazido pelo vento Aracati.  E é das vozes desse sertão que o escritor Bruno Paulino trata em seu mais recente livro intitulado Sertão: poetas e prosadores (2017), publicado pela expressão Gráfica e Editora.

O referido trabalho é constituído por 109 páginas, contendo dezenove perfis de autores que, de uma forma ou outra possuem relação com o sertão, mais especificamente, com a cidade de Quixeramobim, situada no Sertão Central do Estado do Ceará. O livro conta também com um prefácio assinado pelo poeta Rodrigo Marques, professor da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central – FECLESC, da Universidade Estadual do Ceará – UECE. A apresentação ficou por conta do escritor Arievaldo Vianna; enquanto o posfácio, por sua vez, ficou a cargo de Alves de Aquino, o Poeta de Meia-Tigela.

Ao longo de Sertão: poetas e prosadores, Bruno Paulino discorre sobre seus encontros e conversas com importantes nomes da cultura brasileira. Dessa forma, estão presentes no trabalho Audifax Rios (Aqui, tem-se uma bela homenagem à memória de Audifax, quando as páginas estão em preto e a indicação dessas páginas é feita com as letras do nome do artista), Marcos Mairton, Luiz Gonzaga, Geraldo Amâncio, Arievaldo Vianna, Rouxinol do Rinaré, Klévisson Vianna, Luiz Costa Filho, João Eudes Costa, Gordurinha, Alberto Porfírio, Moacir Costa Lopes, Vasco Benício, Claudio Portella, saraiva Júnior, Jards Nobre, Diogo Fontenelle, João Pedro do Juazeiro e J. Bosco Fernandes.  

Bruno Paulino, certamente, fez uma seleção dos poetas e prosadores dos quais gostaria de falar na obra em questão. E, talvez por isso, alguns poetas e prosadores de enorme relevância acabaram ficando de fora. Assim sendo, sentimos falta de um capítulo que fosse dedicado ao Cego Aderaldo (o capítulo “Claudio Portella e ampla visão de Cego Aderaldo”, p. 79 – 84, traz Portella falando sobre Aderaldo), bem como outro dedicado a um dos nossos poetas maiores, Jáder de Carvalho. Nonô da Sanfona (mencionado no capítulo “O rei do baião em Quixeramobim”, p. 30 – 33) também merecia um capítulo só pra ele, assim como o poeta Fausto Nilo, mencionado no mesmo capítulo. Percebemos ainda em Sertão: poetas e prosadores, a ausência de poetisas (o termo “poeta” também pode ser usado no feminino) e prosadoras, as quais, sabemos, existem em grande quantidade pelos nossos sertões; sejam eles “são paulos” ou “quixeramobins”.

E embora os textos que compõem Sertão: poetas e prosadores tenham sido escritos para publicação em jornal; o que poderia caracterizá-los como “perfis jornalísticos”; implicando em uma linguagem mais específica para o veículo, não é isso que se dá. O que se percebe é a linguagem “nua e crua” da crônica dominando todos os textos assinados por Bruno Paulino, o que, de imediato, salta aos olhos do leitor das referidas narrativas.


Assim sendo, Sertão: poetas e prosadores (2017) não deve ser compreendido como um livro de crítica literária ou uma coletânea de perfis, por exemplo, mas como um agradável livro de crônicas que se erigem a partir de uma ideia central, seja um autor, um fato ou uma obra, mas que descambam livremente para outros caminhos, permitindo as mais variadas interpretações que só são possíveis no contexto da abertura proporcionada pela própria obra. 

sábado, 21 de janeiro de 2017

COLEÇÃO AIRTON QUEIROZ: O LIVRO

A aquisição de obras arte no Brasil (mas não só no Brasil) costuma ser usada para muitos fins, entre eles a lavagem de dinheiro. Assim sendo, muitas obras são mantidas reféns, penduradas nas paredes de uns poucos privilegiados. Tais obras jamais serão expostas, não podendo ser apreciadas por outros que não sejam os amigos íntimos dos proprietários. Isso sem falarmos naquelas obras, principalmente esculturas do período colonial, que têm desaparecido “misteriosamente” de algumas igrejas Brasil afora, sem que nunca mais se tenha notícias delas.

Outro viés dessa questão diz respeito aos acervos que estão em museus públicos, sofrendo, quase sempre, o desgaste da falta de restauro, aliada ao descaso dos governos para com a coisa pública. Poucas são as exceções nesse sentido. É claro que o Brasil ainda se ressente de políticas públicas que deitem olhos sobre a cultura, em geral, e a arte brasileira, em específico. Enquanto isso não se der de maneira séria e efetiva, muito pouco ou quase nada mudará neste cenário. Há, por outro lado, alguns colecionadores que compreendem muito bem os prazeres do ato de colecionar arte e sabem que esse prazer se torna ainda maior, quando seus itens podem ser apreciados por outros colecionadores, estudiosos e críticos ; bem como pelo cidadão comum. É por esse caminho que Airton Queiroz tem enveredado, proporcionando à cidade de Fortaleza e, obviamente ao Brasil, a oportunidade de apreciar o melhor da arte, presente na sua rica coleção.

A presente resenha, no entanto, não objetiva discutir pormenorizadamente tais questões. A intenção aqui é proceder a uma breve apresentação do livro de arte Coleção Airton Queiroz, publicado pela editora Pinakotheke, no ano de 2016, sob a organização de Camila Perlingeiro. A publicação da referida obra se dá ao mesmo tempo em que o chanceler Airton Queiroz expõe sua coleção particular, no Espaço Cultural Unifor, da Universidade de Fortaleza, no Ceará. A exposição conta com mais de 250 trabalhos, contendo obras raríssimas de artistas como Frans Post, Rugendas, Debret, Aleijadinho, Chagall, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti; entre inúmeros outros. Contudo, não discorreremos sobre a exposição especificamente, mas sobre o livro em si, uma vez que uma publicação nesses moldes é de extrema relevância para se mapear a localização de obras tão singulares.

O livro abre com um texto do colecionador Airton Queiroz, denominado de “A arte de colecionar arte” (p.23), seguido da apresentação feita por Max Perlingeiro (p. 25- 27). Na sequência, tem-se “A história de uma coleção” (p. 29 – 59), de José Roberto Teixeira Leite, seguido do texto “Arte moderna e contemporânea na coleção Airton Queiroz” (p. 61 – 109), de Fábio Magalhães.

Ao todo, o livro de arte Coleção Airton Queiroz conta com 444 páginas. A página 412 traz notas explicativas de Pedro Corrêa do Lago. Da página 413 até 441 tem-se a versão em inglês dos textos do livro. A publicação lista, ao todo, 250 obras de 115 artistas, sendo 24 estrangeiros. Em uma tentativa de se mostrar didático, o livro está organizado por períodos históricos, situando os artistas e as obras da Coleção em seus respectivos tempos e espaços.

Mulher  sentada, de Fernando Botero.
A coleção começa com o século XVII, com obras de dois artistas: Albert Eckhout e Frans Post. Do século XVIII, Aleijadinho. Do século XIX são vinte e três artistas. Neste bloco, no entanto, nos chama a atenção a presença de Raimundo Cela, que comparece com sete obras, mas que não deveria, a nosso ver, está listado como sendo do século XIX. O bloco dedicado ao Modernismo contém vinte e três, dos mais representativos artistas do período. Na sequência, tem-se o bloco “Abstração” (p.291), sob o qual estão albergados os artistas ligados aos grupos: Atelier Abstração, Grupo Ruptura e Concretismo, Grupo Frente e Neoconcretismo, Abstração Informal, Arte Cinética e Artistas geométricos não vinculados a grupos; somando ao todo vinte e cinco artistas. O bloco seguinte é dedicado à Arte contemporânea (p. 347), contando dezessete artistas. Por fim, tem-se o bloco intitulado “Presença Estrangeira”, constituído por vinte e quatro artistas. Entre eles: Chagall, Botero, Renoir, Monet, Matisse, Dalí e Diego Rivera; entre muitos outros.

A coleção Airton Queiroz é de imenso valor, constituindo-se referência para as artes no Brasil. A publicação do livro, com o detalhamento das obras da Coleção vem se estabelecer como fonte de pesquisa e referência bibliográfica para pesquisadores, estudiosos e amantes da arte. A iniciativa de Airton Queiroz é louvável, tendo em vista que, cada vez mais, o Brasil carece de trabalhos desse porte. De leitura indispensável, o livro em questão já nasce referencial, vindo preencher uma lacuna na bibliografia das artes plásticas no Brasil.

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Serviço:
O livro está à venda no hall do Espaço Cultural Unifor. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

XVIII PRÊMIO IDEAL DE LITERATURA - PRÊMIO BARROS PINHO

Muito se tem falado a respeito do desaparecimento do livro. No trabalho intitulado Não contem com o fim do livro  (2010), publicado pela editora Record, com tradução de André Telles, Jean-Philippe de Tonnac é o responsável por coordenar uma conversa a esse respeito, entre Umberto Eco e Jean-Claude Carrière. No bate-papo, os dois grandes autores falam do papiro ao arquivo eletrônico, abordando os cinco mil anos da história do livro, culminando no óbvio, ou seja, que as revoluções tecnológicas não acabarão com o livro. 

Recorro ao Não contem com o fim do livro, com o intuito de  apontar que embora o livro, tal qual o conhecemos hoje, esteja assumindo uma outra forma de suporte, está longe de deixar de existir. Uma prova do que afirmo é que nunca se publicou tanto mundo afora. Dentre os vários tipos de publicações, pululam por todo o Brasil, coletâneas, antologias e premiações diversas; o que acabam por impulsionar o mercado editorial, assim como dar certo destaque para novos autores. Sabemos, no entanto, que não basta publicar sem que haja um plano de divulgação, principalmente para aqueles autores que não são "grandes" ou que não são indicados por aqueles que já são "grandes". Ser um novo escritor em um país onde ainda se lê muito pouco e no qual as editoras se agarram com unhas e dentes à mesmice, ou ainda onde os clássicos não lêm os contemporâneos, nem os contemporâneos lêm os clássicos,  fica tudo muito complicado.

Alguns autores têm conseguido se destacar, quando são agraciado em premiações literárias, principalmente naquelas de relevância nacional. Muitas vezes, no entanto, as premiações se resumem à uma edição tímida e, quando envolve dinheiro, a soma é mais tímida ainda. Seria de muito bom tom que esse tipo de premiação passasse por uma repaginada, deixando de ser apenas mais uma atividade social  na agenda de um Clube, de uma associação ou de uma universidade, por exemplo, passando a ser algo de caráter mais relevante. 

Essa  questão me vem à mente, enquanto leio a mais recente edição do Prêmio Ideal de Literatura, um dos prêmios mais prestigiados no meio literário cearense. A edição em questão, de 2016, foi dedicada à poesia e recebeu o nome de "Prêmio Barros Pinho", consistindo em uma homenagem ao poeta recentemente falecido. O grande vencedor da edição deste ano foi o poeta Felipe de Abreu Fortaleza, com o poema intitulado "Somente a vida" (p. 31 - 32) . Além do primeiro colocado, quinze poetas foram agraciados com menção honrosa e trinta e três como destaques.

A comissão julgadora do referido Prêmio foi composta pelos poetas Regine Limaverde, Dimas Carvalho e Hermínia Lima. A consultoria ficou sob a responsabilidade da poetisa Aíla Sampaio, enquanto a coordenação foi feita pelo poeta, membro da Academia Cearense de Letras, Carlos Augusto Viana. A edição do XVIII Prêmio Ideal de Literatura já está devidamente publicada e em circulação. 

Embora ainda engessadas, tais premiações são necessárias para que se mantenha certa movimentação cultural, especificamente literária, nas cidades do país. Dessa forma, é possível provocar diálogos entre escritores  municipais, estaduais e federais, sem a preocupação de se saber quem tira ou deixa de tirar ouro do nariz.









quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

IRACEMA: 150 ANOS

Todo bom leitor de literatura brasileira tem certa predileção por um ou outro trabalho de José de Alencar. Você pode até nem gostar. Pode até ser indiferente, mas isso não diminuirá a relevância da obra alencarina. Ao contrário, só depõe contra você enquanto leitor. Ouso dizer que, quem não gosta de José de Alencar, bom sujeito não é.

Brincadeiras à parte, não se pode compreender a dimensão da literatura produzida em língua portuguesa sem passar pela compreensão do que significa a obra de Alencar na constituição da nossa literatura, bem como da própria língua portuguesa que, para Alencar, seria, na verdade, a língua brasileira, uma vez que essa era a sua intenção, e pela qual foi duramente criticado.

Mas Alencar, como todo grande gênio, era um homem à frente do seu tempo. Ser um gênio, no entanto, não retira de ninguém a qualidade humana. Daí, o romancista ter se equivocado em determinadas questões relativas à escravidão, por exemplo, que, de forma alguma, o exime de responsabilidades. Alencar só viveu quarenta e oito anos. Durante sua maturidade como escritor e político viveu sob intenso bombardeio dos críticos e opositores. 

Quando da sua famosa querela com o Imperador, por exemplo, é Machado de Assis (1839 - 1908) quem sai em sua defesa, afirmando: “contra a conspiração da indiferença um aliado invencível: a conspiração da posteridade”. Admirador declarado de José de Alencar, Machado de Assis já registra aí que o autor cearense seria um clássico. Como o autor de Dom Casmurro (1899) não costumava errar, Alencar se fez clássico. E um clássico, em termos bem objetivos, é aquela obra literária que permanece na história por seu caráter universal e atemporal. 

Sua principal obra é, sem sombra de dúvidas, Iracema (1865). Não temo em dizer, inclusive, que, de uma forma ou outra, somos todos Iracemas, pois, de alguma maneira, guardamos parentescos e aproximações com essa obra que tem sido ao longo da História do Brasil (quando falo em História do Brasil, me refiro a todas as formas de manifestações culturais nacionais, ou seja, literatura, artes plásticas, música, arquitetura etc.) um mito em constante reestruturação, uma referência perene da cultura brasileira, assim como também o é a Carta, de Pero Vaz de Caminha, o Abaporu, da Tarsila do Amaral ou as Bachianas brasileiras, de Villa-Lobos.

Embora haja uma insistente e recorrente tentativa de se discutir a forma, a estrutura organizacional de Iracema, uma vez que alguns dizem ser, um romance, um poema ou uma lenda, como afirmara o próprio Alencar. Assim sendo, não nos deteremos nesse aspecto por considerarmos uma questão menor, quase desnecessária. Sigo, no entanto, Andrade Furtado, quando classificou Iracema, como um romance-poema (o maior poema em prosa da literatura brasileira), rico em tudo, especialmente em musicalidade. Como comprovação do que afirmo, não é preciso ir tão longe, bastando apenas atentarmos para a maneira como o romance-poema se inicia: "Verdes mares bravios de minha terra natal,onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba.Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros...". Dessa forma, reafirmo que, mais importante que a forma, é o conteúdo. É claro que uma obra-prima requer uma relação de simetria entre conteúdo e estrutura. E isso, não se pode negar, também foi alcançado por Alencar, ao elaborar Iracema, obra com a qual finca no coração da cultura brasileira, o livro fundador da literatura nacional.

 A palavra Iracema é um anagrama, ou seja, a partir de uma reordenação das suas letras,é possível se construir a palavra América, e é ingênuo querer acreditar que isso se dá por mera coincidência do acaso. Claro que não. Com Iracema, Alencar pretendia não apenas fundar as bases da literatura brasileira, mas também da literatura americana. Daí o novo mundo, a América, está embutida em Iracema e vice-versa, como forma de nascimento e simbiose. Note-se ainda que, ao unir as línguas nativas (representadas por Iracema) com a língua portuguesa (com Martim), Alencar, de uma tacada só, proporciona questionamentos acerca da multiculturalidade que, somente meio século depois, seriam sociologicamente levantados por Gilberto Freyre (1900 - 1987),  em seu livro Casa Grande & Senzala (1933).

A miscigenação cultural apresentada por Alencar, na maioria dos seus romances indianistas, fez com que muitos dos seus críticos o acusassem de ter se apropriado das ideias literárias de outros autores. Do francês François-René de Chateaubriand (1768 - 1848), por exemplo, o qual havia escrito a novela Atala (1801), que  tem como enredo, a história de Atala, filha de um europeu e uma índia que se envenena para não ceder ao desejado amor de Chactas, uma vez que prometera à mãe moribunda, morrer virgem. Outros, por sua vez,  viam em seus trabalhos da fase indianista, aproximações com os trabalhos do escritor norte-americano, James Fenimore Cooper (1789 – 1851), especificamente sua obra mais conhecida, O último dos moicanos, de 1726. Contudo, se José de Alencar recorre à figura dos nativos e, através da sua narrativa, aponta para uma separação intelectual do Brasil em relação a Portugal, Cooper vê, nos índios peles vermelhas, a possibilidade de liberação intelectual dos Estados Unidos em relação à Inglaterra. Seja como for, os dois nomes representativos do Indianismo nas Américas são Alencar, no Brasil, e Cooper, nos Estados Unidos. Dessa forma, falar em plágio ou apropriação é para lá de descabido.

Disse anteriormente que não se deve insistir em discussões acerca da forma, mas no conteúdo de Iracema. Digo isso, pois, assim como Jorge Luis Borges (1899 - 1986), vejo o livro como um instrumento diferente de todos os outros já criados pelo homem. 

Era o ano de 1978, quando Jorge Luis Borges foi convidado a proferir cinco palestras na Universidade de Belgano, na Argentina. Na ocasião, o autor falou sobre cinco temas pelos quais sempre teve grande paixão: o livro, a imortalidade, Emanuel Swendenborg, Edgar Allan Poe e o tempo. Essas palestras resultaram no livro Cinco visões pessoais, publicado no Brasil no ano de 2002. 

Sobre o livro, afirma Borges:

“Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem, o mais espetacular é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio são extensões de sua visão; o telefone é a extensão de sua voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões de seu braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação”. (BORGES, 2002:13)

 E continua ele:

“Se lemos um livro antigo é como se lêssemos durante todo o tempo que transcorreu entre o dia em que foi escrito e nós. Por isso convém manter o culto ao livro. O livro pode conter muitos erros, podemos não concordar com as opiniões expendidas pelo autor, mas ainda assim, ele conserva algo sagrado, algo divino, não como um tipo de respeito supersticioso, mas com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria”. (BORGES, 2002:20) 


Dessas falas de Jorge Luis Borges ressalto o trecho que diz: “o livro é uma extensão da memória e da imaginação”. E retomo Iracema, para perguntar o quanto da “índia dos lábios de mel” se mantém na nossa memória, individual ou coletiva, todas aquelas vezes que ouvimos o nome de José de Alencar, caminhamos pelo calçadão da Praia de Iracema ou simplesmente pelos atos de estar ou viver em Fortaleza, terra defortes ventos, sol intenso e verdes mares bravios.  Mas o livro, nos lembra o escritor argentino, também é uma extensão da imaginação. E assim sendo, Iracema é um “prato cheio” (Umberto Eco chama esse meu “prato cheio” de obra aberta) para que se possa imaginar o ambiente social no qual a índia tabajara  estava inserida, sua função social na tribo, a beleza do seu corpo, seu caráter, sua identidade feminina, bem como da sua capacidade de se deslocar da serra do Ipu até o mar de Fortaleza. Nestes termos, Iracema é um desses livros sagrados, divinos, propiciadores da alegria, da felicidade, da sabedoria e do deleite.Iracema faz 150 anos, mas nem parece.


Leia também:

1. ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS. Alencar 100 depois. Fortaleza: ACL, 1977.

2. _____________________________.José de Alencar e Euclides da Cunha. Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2010.

3.BORGES, jorge Luis. Cinco visões pessoais. Trad. Maria Rosinda Ramos da Silva. Brasília:editora Universidade de Brasília, 2002.

4. NETO, Lira. O inimigo do rei: uma biografia de José de Alencar, ou, a mirabolante aventura de um romancista que colecionava desafetos, azucrinava Dom Pedro II e acabou inventando o Brasil. São Paulo: Globo, 2006.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

RACHEL DE QUEIROZ E XOSÉ NEIRA VILAS: TERRAS, PALAVRAS E MAR

Rachel de Queiroz
Em tempos em que se discutem novas definições para o que até então temos compreendido pelo termo “fronteira”, a literatura tem atravessado mundos e feito travessias que acabam por aproximar aquilo que por muito tempo se acreditou distantes e inaproximáveis. Nesse ínterim, os estudos pós-coloniais contribuíram para que muitos autores, antes “limitados” a um determinado espaço geográfico-cultural, pudessem ser lidos e apreciados além das suas fronteiras. É claro que isso demandou muito tempo, empoderamentos e estudos, para que se percebesse que todo e qualquer cânone literário não é capaz de dar conta da diversidade de obras e autores existentes.

Xosé Neira Vilas
Por muito tempo seria impensável a existência de um cânone que não contemplasse autores outros que não Dante, Shakespeare, Cervantes, Goethe etc. Mulheres, negros, gays, latinos e outras minorias? Nem pensar. O cânone era necessariamente masculino, branco e europeu. Contudo, os deslocamentos sociais e as narrativas resultantes das diásporas e das novas compreensões culturais e políticas empurraram o mundo literário para fora da sua zona de conforto. Se antes o sertão, por exemplo, era apenas uma definição para  algo “local”; da noite para o dia ele se tornou mundial, não cabendo mais, para qualquer que seja o autor ou a obra, a definição de local ou regional. Tudo o que é produzido hoje está, de uma forma ou de outra, arraigado (ou conectado) no âmago do universal.

O advento da literatura comparada contribuiu em muito para a aproximação das diversas formas de arte. Se no inicio a literatura comparada era, como afirma Tânia Carvalhal (1992), uma forma de investigação literária que confronta duas ou mais literaturas, com o passar do tempo percebeu-se que o bojo dos “estudos literários comparados” era muito mais amplo, tendo-se não apenas a literatura como objeto de análise, mas a literatura e suas relações com outras formas de arte.

Cleudene Aragão
 No Brasil, no entanto, o que tem sido mais recorrente é a análise comparativa entre duas (ou mais) obras literarias, observando o que essas obras trazem em comum entre si ou ainda naquilo que as distancia. Assim, nos chama especial atenção o trabalho escrito pela professora Cleudene de Oliveira Aragão, quando coloca em análise os trabalhos da escritora cearense Rachel de Queiroz (1910 - 2003), lado a lado com as obras do ficcionista galego Xosé Neira Vilas.

Vencedor do Prêmio Osmundo Pontes de Literatura, de 2011, o ensaio Rachel de Queiroz e Xosé Neira Vilas: Vidas feitas de terras e palavras (2012) é um bom exemplo daquilo que pode a literatura comparada. 

Ao discorrer sobre o trabalho de Aragão, Angela Gutiérrez afirma:

Em seu ensaio, construído dentro do melhor uso da teoria e dos instrumentos dos estudos de literatura comparada, a pesquisadora cearense analisa, a partir do delineamento das duas entidades geográficas e culturais – Hispania e Terra Brasilis -, as semelhanças possíveis e as diferenças complementares entre as nações literárias dos dois ficcionistas, representadas pela imagem do quebra-cabeça Brasil, formado por suas regiões distintas, entre elas, o Nordeste de Rachel; e do mosaico Espanha, composto por diferentes comunidades lingüísticas desse país, entre elas, a Galícia de Xosé. (GUTIÉRREZ apud ARAGÃO, 2012: 12)


A respeito do seu trabalho, Aragão afirma:

Rachel de Queiroz e Xosé Neira Vilas, no conjunto de suas obras, brindam-nos com inúmeras possibilidades de análise. Um estudo comparativo de sua produção literária revela grandes pontos de encontro entre as culturas de que são incontestáveis transmissores, permitindo-nos, através dessa comparação, conhecer melhor tanto o Ceará, a Galícia, quanto outras terras (...). (ARAGÃO, 2012:23)

O trabalho de Aragão (2012), por meio dos fabuladores, sejam eles sedentários, migrantes ou artífices, objetiva uma aproximação das obras O Quinze (1930) e Dôra Doralina (1975), de Rachel de Queiroz, com Memorias Dun Neno Labrego (1961) e Querido Tomás (1980), de Xosé Neira Vilas. E assim sendo, de forma magistral, a ensaísta transforma o Atlântico em uma ponte a unir o Ceará e a Galícia por meio de uma literatura que é  toda ela feita de terras e palavras.

O livro se organiza, então, em três grandes capítulos. O primeiro denomina-se de “testemunhas de seu tempo e de seu povo: a cearense Rachel de Queiroz e o Galego Xosé Neira Vilas” (p. 25 – 97), enquanto o segundo chama-se “Vidas feitas de terra e palavra: O Quinze e Memorias Dun Neno Labrego (p.99 – 153). O capitulo terceiro, por sua vez, denomina-se de “Vidas feitas de terra, mar e palavra (p. 155 – 199). O trabalho ainda é enriquecido com imagens dos autores e reprodução das capas das obras analisadas (p. 237 – 241).

Para aqueles interessados nos estudos de literatura comparada ou nos trabalhos de um dos dois autores (de lá ou de cá), o atlântico não constitui mais obstáculo para a apreensão das suas literaturas, uma vez que o ensaio de Cleudene Aragão possibilitou essa desejada aproximação. No mais, é mergulhar no texto e comemorar a eliminação de mais uma fronteira.

domingo, 10 de maio de 2015

SOCIEDADE, CIÊNCIA E SERTÃO: REFLEXÕES SOBRE EDUCAÇÃO, HISTÓRIA, CULTURA E TECNOLOGIAS

Houve um tempo em que muitas pessoas acreditavam que os conhecimentos eram estanques e que cada um deles deveria ocupar um local específico, sem jamais se misturar com os outros. Os tempos passaram e muito desse pensamento equivocado já se evanesceu faz tempo. É claro que, entre perdidos e achados, ainda há uns gatos pingados acreditando que a vida só segue em uma única direção.

Sobre os ombros da contemporaneidade incide a necessidade de uma compreensão multidisciplinar do conhecimento. Sobre as fronteiras do conhecimento, Gaston Bachelard levanta os seguintes questionamentos:

O conceito de fronteira do conhecimento científico tem sentido absoluto? Seria possível traçar as fronteiras do pensamento científico? Estamos dentro de um domínio objetivamente fechado? Estamos sujeitos a uma razão imutável? É o espírito uma espécie de instrumento orgânico, invariável como a mão, limitado como a visão? É ele obrigado a uma evolução regular ligada a uma evolução orgânica? Aí estão perguntas, múltiplas e conexas, que questionam a filosofia e que conferem um interesse primordial ao estudo do progresso do pensamento científico. (BACHELARD, 2008:69)

Certamente que o autor de A poética do espaço (2005) já provocava com esses questionamentos reflexões acerca da necessidade do humano de encaixotar saberes dentro de domínios teoricamente fechados, o que nos afastaria da sabedoria, uma vez que, conforme afirma Leonardo Boff, sabedoria é poder saborear todos os saberes, pois todos eles revelam algo do ser.

Assim, comprometida com a ideia de que nenhum saber se exclui, mas se complementa. a Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central – FECLESC, da Universidade Estadual do Ceará – UECE, traz a lume o volume dois do livro Sociedade, ciência e sertão: reflexões sobre educação, história e cultura e tecnologias (2014). O trabalho foi organizado pelos professores Francisco Carlos Carvalho da Silva, Isaíde Bandeira da Silva e Makarius Oliveira Tahim; tendo sido publicado pela editora da própria UECE, com prefácio de Fátima Maria Leitão Araújo.

O trabalho está organizado em duas partes. A primeira parte traz sete artigos, enquanto a segunda apresenta seis. São artigos acadêmicos que tratam dos mais variados assuntos, em uma tentativa de abarcar as diversas áreas de pesquisas que coexistem no âmbito da Universidade e dizem respeito aos campos da educação, história, cultura e tecnologias; bem como das suas interfaces. Dessa forma, na mesma obra, pode-se entrar em contato com a poesia de Linhares Filho (p. 67 – 84), conhecer sobre as relações entre parteiras e parturientes no sertão do Ceará (p. 129 – 144) ou aprender sobre queijo coalho artesanal (p.209 – 222) e ainda a respeito dos supercondutores (p. 223 – 233).

O livro em questão é parte de um projeto que pretende, a cada ano, publicar um volume nos mesmos moldes, tentando unir temas de interesse não apenas da Academia, mas acessíveis a um público não especializado. Assim sendo, a linguagem utilizada na abordagem dessas questões tenta se mostrar o mais próxima possível do leitor comum, sem, no entanto, se afastar do caráter acadêmico-científico. Sobre o caráter multidisciplinar da obra, a professora Fátima Maria Leitão Araújo, afirma:

O livro Sociedade, ciência e sertão: reflexões sobre educação, história, cultura e tecnologias enfrenta o desafio de articular uma infinda diversidade de temas que, pela especificidade inerente a cada um, pode suscitar estranhamento por parte do leitor. Por outro lado, podemos encontrar elos que os unem no aparente labirinto da incoerência: tempo e cultura, conceitos que explícita ou implicitamente se fazem presentes nos estudos aqui abordados, pois, independente de estarem ou não ligados diretamente ao mister historiográfico ou sociológico, todos trazem em suas análises a delimitação temporal e os meandros culturais que se materializam na explicitação dos objetos de estudo, histórica e culturalmente situados em um dado espaço e em um determinado tempo. (ARAÚJO, 2014:10)

Dessa forma, o caráter multidisciplinar presente nos artigos do trabalho em questão aponta para uma concepção de educação e cultura que se pauta pelo mais amplo, pelo mais geral e, consequentemente, por uma visão mais democrática da apreensão do conhecimento.



Serviço:
Editora da Universidade Estadual do Ceará – EdUECE
Av. Dr. Silas Munguba, 1700 – Campus do Itaperi – Reitoria – Fortaleza – CE
Link: http://www.uece.br   E-mail de contato: eduece@uece.br

terça-feira, 30 de setembro de 2014

A RELAÇÃO DA MISSÃO DA SERRA DE IBIAPABA

Por iniciativa de Inácio de Loyola (1491 – 1556), a Companhia de Jesus foi criada no ano de 1534. Contudo, somente por volta de 1537, juntamente com mais seis estudantes da Universidade de Paris, é que Loyola vai para Roma solicitar ao papa Paulo III autorização para criar a Societas Iesu, a Ordem dos Jesuítas. Autorização concedida, Inácio de Loyola para de peregrinar pelo mundo e se estabelece em Roma em 1538, tornando-se Superior-Geral da Companhia que acabara de criar. O referido religioso redige, então, as Constituições, documentos esses que regerão a Companhia a partir de 1554. Sob a liderança de Loyola, os missionários são enviados para os quatro cantos do mundo com o objetivo de levar a palavra de Jesus aos mais recônditos lugares. Contudo, o contato entre os missionários e seus superiores deveria ser mantido a qualquer custo. E assim, tendo em vista as dificuldades de comunicação, escolheram a carta como forma de contato. Embora os assuntos tratados nas cartas fossem os mais variados, com o tempo a carta se torna a principal forma de relatar os acontecimentos nas chamadas missões. Era através dela, da missiva, que todos deveriam compartilhar seus sucessos e suas dificuldades. Uma vez tratar-se a carta de um verdadeiro relatório, recebeu oficialmente o nome de Relação.

As narrativas produzidas sobre o Brasil colonial são caracterizadas por discorrerem sempre sobre os mesmo aspectos, ou seja, os hábitos dos nativos, as riquezas naturais, a fauna e a flora. E assim sendo, os documentos produzidos pelos jesuítas que por terras cearenses estiveram não fogem a regra. Entre eles, podemos citar a Relação do Maranhão, do padre Luiz Figueira e a Relação da Missão da Serra de Ibiapaba, cuja autoria, embora sem comprovação, seja atribuída ao padre Antonio Vieira.
Relação da Ibiapaba (pág. 1)
Existem duas versões conhecidas da Relação da Missão da Serra de Ibiapaba: a versão da Revista do Instituto Histórico, Geográfico e Antropológico do Ceará (www.institutodoceara.org.br) e a versão publicada em livro, no ano de 2006, pela editora portuguesa Almedina, com o nome de A Missão de Ibiapaba. A edição da Relação da Missão da Serra da Ibiapaba, do Instituto, constitui-se de cinquenta e três páginas impressas, numeradas do número oitenta e seis ao número cento e trinta e oito, disponíveis no tomo XVIII da referida Revista. Os assuntos a serem abordados ao longo do documento são previamente apresentados, uma vez que o corpo da Relação traz dezessete subdivisões, indicando cada um dos assuntos a serem tratados. O texto de Padre Antonio Vieira se inicia com a seguinte observação, posta logo abaixo do título do documento: “primeiros Missionários da Companhia de Jesus que no Brazil passarão por terra ao Maranhão: seus trabalhos. Morre na empreza o venerável padre Francisco pinto, e outros” (p.86). Tendo em vista os negócios entre a Igreja Católica e a coroa portuguesa, não é com bons olhos que nosso narrador vê a presença dos holandeses em território nacional, bem como sua relação como os nativos tabajaras. Mas não eram apenas os holandeses a ocupar terras nordestinas. A gênese da formação do povo brasileiro, a miscigenação, algo que só bem mais tarde seria observado por Gilberto Freyre, já era devidamente notada por Vieira, o qual mais uma vez não vê com bons olhos a tal miscigenação. Deduz-se que, para ele, toda essa presença estrangeira em nada contribuía para a efetivação dos objetivos da Companhia em terras nordestinas. Eis o que afirma o religioso:

... eram verdadeiramente aquellas aldeãs uma composição infernal ou mistura abominável de todas as seitas e de todos os vícios, formada de rebeldes, traidores, ladrões, homicidas, adúlteros, judêos, hereges, gentios, atheus, e tudo isto debaixo de nome de Christãos, e das obrigações de Catholicos. (VIEIRA, 1904:94).

Certamente que o posicionamento do Padre Antonio Vieira não é apenas seu, mas de toda uma Europa sedenta por conquistar cada vez mais espaço e de uma Igreja descobridora das benesses advindas das conquistas. Assim sendo, a história do Ceará e a cultura daí surgida estão impregnadas pelos resquícios da ambição eurocêntrica, a derrama do sangue nativo e a imposição de uma fé que nem de longe era a desejada. Embora não se justifique, o povo nativo cearense não foi o único “bárbaro” a sofrer tal violação. Por toda a América Latina, muitos povos foram invadidos, violados, extirpados de suas famílias e expropriados de seus bens e, muitas vezes exterminados em nome de uma cultura que não desejavam para si e em nome de uma fé que não era a sua. Documentos como a Relação da Missão da Serra da Ibiapaba, se lidos detidamente, dizem muito dessa dominação histórico-léxico-cultural a qual o povo cearense especificamente, e o povo latino-americano, genericamente, esteve submetido.
Além dos aspectos históricos e culturais, a Relação da Missão da Serra da Ibiapaba também possibilita o estudo da língua sob suas mais variadas vertentes. Que sejam: a fonética, a morfologia, a sintaxe e o léxico. Em relação ao documento mais antigo, a versão da editora Almedina mantém o mesmo texto e dá textualmente ao padre Antonio Vieira a autoria do documento. Convém ressaltar que o documento original não traz a assinatura do referido religioso. Excetuando-se esse detalhe, a edição se notabiliza por trazer um valioso prefácio de autoria de Eduardo Lourenço e um posfácio não menos relevante, assinado por João Viegas.

          Chegado ao século XXI o homem ainda luta para conseguir ter seus direitos respeitados; seja no que diz respeito à sua liberdade individual, à liberdade de expressão ou à assunção da sua identidade. Isso, contudo, não tem se mostrado tão simples assim. A civilização do espetáculo tal qual analisada por Vargas Llosa (2013), mas já anunciada como sociedade do espetáculo, por Guy Debord (1967) tem causado intrigante interferência naquilo que se convencionou chamar de cultura. Se o conceito de cultura estava ligado ao ato de cultivar, como bem nos lembra Raymond Williams (2007), não nos parece mais ser bem assim. Instaurou-se, na verdade, uma cultura do efêmero, do descartável, que acaba por impedir que se perceba o que é realmente relevante para a constituição de um estado que se pretenda nação, ou seja, de um povo que se pretenda cidadão.

Padre Antonio Vieira
Analisando por essa ótica, percebe-se que um documento como a Relação da Missão da Serra de Ibiapaba é de relevante importância para a compreensão da gênese do povo cearense, por possibilitar seu estudo através de diferentes áreas do conhecimento. É, certamente, objeto para a Linguística, a História, a Historiografia, a Etnografia e a Filologia; somente para citarmos algumas áreas.
Ao longo dessa breve resenha, tentamos fazer algumas considerações acerca do referido documento, mas cientes da impossibilidade de abarcá-lo como um todo, tendo em vista sua amplitude. A Relação da Missão da Serra de Ibiapaba é um documento proporcionador de aberturas para inúmeros estudos que contemplem a língua, a linguagem, o discurso, a história, a cultura, bem como suas múltiplas acepções, ações, atividades, ressignificações e usos. 



Sobre Padre Vieira na Ibiapaba:

 http://www.opovo.com.br/app/colunas/anamiranda/2012/07/28/noticiasanamiranda,2886802/padre-vieira-na-ibiapaba.shtml