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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O QUE (RE)LER EM 2026

 


1. Educação e Felicidade

     Autor: Luiz Oswaldo Sant'Iago Moreira de Souza

     Editora: EdUECE




2. Andorinhando

   Autora: Valdenia Silva

   Editora: Radiadora


3. Aldeota

   Autor: Jáder de Carvalho

    Editora: UFC


4. Boceta encantada e outras historinhas

    Autora: Sarah Forte

    Editora: Patuá


5. Oswald de Andrade: mau selvagem

    Autor: Lira Neto

    Editora: Companhia das Letras


6. A Century of Fiction in The New Yorker (1925 - 2025)

    Editado por Deborah Treisman

    Editora: Alfred A. Knopf


7. Contos dos subúrbios distantes

    Autor: Shaun Tan

    Editora: DarkSide



8. Como ser um educador antirracista

    Autora: Bárbara Carine

    Editora: Planeta


9. Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior: 81 lições do método Sueli Carneiro

    Autora: Cidinha da Silva

    Editora: Rosa dos Tempos


10. Alucinação: minha vó costurou minha mãe uma mulher de costura

      Autor: Samuel Maciel Martins

      Editora: Aluá Sebo & Galeria



11. Hamnet: um romance sobre o luto, a peste e uma das maiores peças de todos os tempos

      Autora: Maggie O'Farrell

     Editora: Intrínseca 


12. A filosofia da música moderna

      Autor: Bob Dylan

      Editora: Companhia das Letras


13. Chomsky & Mujica: sobrevivendo ao século XXI

      Autor: Saúl Alvidrez

      Editora: Civilização Brasileira



14. Revolucionários da crítica: cinco críticos que mudaram o modo como lemos

      Autor: Terry Eagleton

      Editora: Unesp


15. Che Leitor

      Org. Biblioteca Nacional de la República Argentina

      Editora: Expressão Popular


16. Raoni: memórias do cacique

      Pesquisa e organização: Fernando Niemeyer

      Editora: Companhia das Letras


17. Toni at the Random: the iconic writer's legendary editorship

      Autora: Dana A. Williams

      Editora: Amistad



18. Slaves to Fashion: black dandysm and the styling of black diasporic identity

      Autora: Monica L. Miller

     Editora: Duke University Press


19. Um defeito de cor

      Autora: Ana Maria Gonçalves

      Editora: Record


20. Racismo algorítmico: inteligência artificial e discriminação nas redes digitais

      Autor: Tarcízio Silva

      Editora: SESC



21. Ruas biográficas

      Autor: Emmanuel Montenegro

      Editora: BPM

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Bob Dylan aos 80

 

Maio já começa dar adeus. O mês se vai, mas ficam as tristezas acumuladas que começaram a se espalhar por aqui no começo do ano de 2020. Em meio a tanta tristeza e dor, uma pausa se faz necessária para comemorarmos o aniversário de 80 anos de Bob Dylan, um dos maiores poetas do século XX, cuja existência e contribuição às artes é imensurável.




Robert Allen Zimmerman nasceu no dia 24 de maio de 1941, adotando tempos depois o pseudônimo de Bob Dylan em homenagem ao poeta galês Dylan Thomas (1914 – 1953). Ao longo da sua carreira, Dylan recebeu todos os prêmios que um artista pode almejar, o que significa o reconhecimento de público e crítica pelo trabalho que desenvolveu em todas as áreas nas quais esteve, a saber, cinema, literatura, música, artes plásticas etc. No ano de 2016, o autor de Like a rolling stone foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura por ter, segundo a Academia sueca, “criado novas expressões poéticas dentro da enorme tradição da música americana”. Dylan é, continuou a Academia, “provavelmente o maior poeta vivo”. A decisão de premiar Dylan com o Nobel de Literatura foi pra lá de acertada. Não o fazer seria como ter a oportunidade de premiar Homero ou Walt Whitman e, simplesmente, ignorar.

Mas por qual razão, em meio a uma pandemia que devasta a terra, tecer loas a Bob Dylan? Numa resposta simples e rápida seria, basicamente, por que Bob Dylan importa. E importa em todos os sentidos que dizem respeito ao estar-no-mundo, como ser humano e como poeta comprometido com a condição humana. Assim, a canção de Dylan ultrapassou há tempos os limites da própria canção, atingindo o status de poesia, fazendo com que o autor de Tarântula (1971) se tornasse referência indispensável para a compreensão sócio-histórica, política e cultural do século XX, uma vez que sua poesia é toda ela permeada não apenas por lirismo, mas por temáticas mais cruas e ácidas que abordam os direitos civis, religião, política, direitos humanos, assim como variados aspectos dos movimentos de contracultura e além. Em outras palavras, a poesia de Bob Dylan tornou-se, pela qualidade que a engendra, uma arte atemporal e universal.

Bob Dylan é um poeta contemporâneo, e como tal mantém todos os seus sentidos voltados para a observação e apreensão daquilo que constitui e transforma o ser humano. Pois, como bem define Giorgio Agamben na obra O que é o contemporâneo? E outros ensaios (2009): “contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro. Todos os tempos são, para quem deles experimenta contemporaneidade, obscuros. Contemporâneo é, justamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente (...). Pode-se dizer contemporâneo apenas quem não se deixa cegar pelas luzes do século e consegue entrever nessas a parte da sombra, a sua íntima obscuridade (...). O contemporâneo é aquele que percebe o escuro do seu tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interpelá-lo, algo que, mais do que toda luz, dirige-se direta e singularmente a ele. Contemporâneo é aquele que recebe em pleno rosto o facho de trevas que provém do seu tempo”. Assim sendo, a contemporaneidade do pensamento poético de Bob Dylan pode ser notada já nas suas primeiras produções. Como admirador de Woody Guthrie (na guitarra de Guthrie estava escrito: “essa máquina mata fascistas”), Bob Dylan já sabia muito bem por quais caminhos sua poesia deveria seguir.

Em “Blowin’ in the Wind” (1963), por exemplo, o poeta faz ecoar uma pergunta que se mantém bastante atual, embora em contexto diferente. Diz (tradução livre): “...quantas pessoas ainda terão que morrer, para que ele perceba que já se matou demais?”. Em “The Times They Are a Changing” (1964), por sua vez, o poeta conclama todos a abrirem os olhos e ficarem atentos, pois “os tempos estão mudando, ou aprendemos a nadar ou afundaremos feito pedras”. Já em “Like a rolling stone” (1965) o questionamento é sobre aqueles que possuem tudo, mas que de repente perdem. E então? “Como é se sentir assim, sem destino, como uma pedra que rola?” Os aspectos surreais observáveis em “Mr. Tambourine man”, por seu turno, aproximam-se do que se vive hoje, no que concerne ao vazio, a insônia e ao cansaço dos dias, como se estivéssemos eternamente presos em um filme de Fellini. Tem-se: “... não estou dormindo e não há nenhum lugar onde eu possa ir, pois todos os meus sentidos foram destroçados...”.

Concluímos, retomando Agamben (2009), quando diz que o poeta, enquanto contemporâneo, é uma espécie de fratura que impede o tempo de compor-se e, simultaneamente, o sangue de suturar a quebra. O poeta – o contemporâneo – continua Agamben, deve manter fixo o olhar no seu tempo. Mas o que vê quem vê o seu tempo, o sorriso demente do século? A resposta, meu amigo, está logo ali, em cada verso da poética de Bob Dylan que, aos oitenta anos, ainda tem muito a nos dizer.

 

 

sábado, 24 de outubro de 2020

A poesia de Alejandra Pizarnik

 



Alejandra Pizarnik


A poesia de Alejandra Pizarnik (1936-1972) ainda não é conhecida do grande público do Brasil. Só recentemente é que sua obra começou a ser traduzida para o português brasileiro, com edições publicadas pela editora Relicário, em tradução de Davis Diniz. Com maestria, Pizarnik transitou pela poesia e pela prosa, com a mesma desenvoltura. 

Antes das publicações da poesia de Árvore de Diana (2018) e Os trabalhos e as noites (2018), apenas a narrativa A condessa sangrenta (2011) havia sido publicada no Brasil. No caso, pela editora Tordesilhas, com tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro. Sobre a obra da poeta argentina, segue o texto "a cerimônia: os trabalhos e as noites, de Alejandra Pizarnik", de Ana Martins Marques, na apresentação do livro Os trabalhos e as noites.

 

* A CERIMÔNIA

Ana Martins Marques

 

Promovendo uma inversão no título clássico de Hesíodo, Os trabalhos e os dias, poema épico composto entre o final do século 8 e o começo do século 7 a.C., Proust publicou, em 1896, Os prazeres e os dias, uma reunião de contos e poemas de juventude. Outra é a inversão operada no belo título deste livro de Alejandra Pizarnik, Os trabalhos e as noites.

 

É possível que não haja melhor título para um livro de poemas de Pizarnik, ou, talvez, para qualquer livro de poemas. Como indica o verso de Emily Dickinson, “Good morning, Midnight!”, o poeta é trabalhador da noite; seu labor é noturno, prefere o silêncio e a sombra.

 

Noite, silêncio, sombra são palavras-chave no vocabulário da poesia de Pizarnik. Trata-se, aliás, de um vocabulário bastante restrito; os poemas de Pizarnik giram em torno de um catálogo limitado de palavras e imagens: pássaro, cinza, pedra, noite, alba, infância, vento, chuva, sombra, silêncio, lilás… A partir de uma série reduzidíssima de elementos, Pizarnik compõe, como num jogo combinatório, seus poemas quase sempre muito breves, extremamente depurados, de uma terrível limpidez.

 

Alejandra Pizarnik nasceu Flora Pizarnik em 1936, em Avellaneda, cidade localizada na área metropolitana de Buenos Aires. Era filha de imigrantes russos judeus que haviam chegado à Argentina três anos antes. Seu primeiro livro de poemas, La tierra más ajena (que assinou como Flora Alejandra Pizarnik), foi publicado em 1955. A ele se seguiram La última inocencia, de 1956, e Las aventuras perdidas, de 1958. Em 1960, mudou-se para Paris, onde viveria durante quatro anos e onde manteve contato com escritores como Julio Cortázar e Octavio Paz, que escreveu uma introdução para seu livro seguinte, Árvore de Diana (igualmente lançado pela Relicário Edições em tradução de Davis Diniz).

 


Os trabalhos e as noites foi publicado em 1965, logo após o retorno de Pizarnik à Argentina. O livro é dividido em três partes, indicadas por números romanos. Ao contrário de Árvore de Diana, em que os poemas são apenas numerados, nesse livro todos os poemas têm título.

 

Encontram-se aqui vários dos elementos que marcam a poética de Pizarnik: a extrema brevidade; poemas construídos em torno de um número reduzido de palavras, quase sempre “nobres”, sem concessões ao coloquialismo ou ao pop; a ausência quase total de lugares identificáveis, referências históricas ou geográficas, cenas cotidianas; a atmosfera noturna (e soturna); uma radical negatividade.

 

É “NO”, afinal, a palavra única, com sua única sílaba, que a “dama pequeníssima/moradora no coração de um pássaro”, no poema Relógio, sai à alba para pronunciar. NO de “Não”; NO de “Noche”. O fascínio da negatividade marca a poesia de Pizarnik, em que a morte, o silêncio, o esquecimento, a sombra estão insistentemente presentes, em que a própria ausência está presente, e deixa, tatuada, sua marca no espaço: o ar é “tatuado por um ausente”, o lugar é “de ausências”, o silêncio fala, fala como a noite, fala do que não é.

 

É uma poética que não recusa o sujeito, ao contrário, mas, ao mesmo tempo, mostra-o sempre cindido, deslocado, nunca coincidente consigo mesmo: “entre mim e a que me creio” (lê-se no poema Invocações deste livro); “Dei o salto de mim à alba” (lê-se no primeiro poema de Árvore de Diana). Ou ainda partindo de si mesmo, como neste poema do livro Árvore de Diana que poderia ser tomado quase como uma definição da poesia e de sua relação com o sujeito que escreve: “explicar com palavras deste mundo/que partiu de mim um barco levando-me”.

 

Essa espécie de despossessão do sujeito de si mesmo se traduz frequentemente numa duplicação (de que são emblema os numerosos espelhos que se encontram na poesia de Pizarnik) ou numa descoincidência entre o “eu” e seu corpo, ou o “eu” e seu nome: “Eu deixei meu corpo junto à luz” (poema 1 de Árvore de Diana).

 

Além do “eu”, encontramos na poesia de Pizarnik uma série de personas, figuras nas quais frequentemente se identificaram figurações da própria poeta: a viajante, a menina muda, a adormecida, a princesa na torre mais alta, a pequena morta, a pequena esquecida, a silenciosa no deserto, além de toda uma série de bonecas, manequins e náufragas... Entre essas personas está Alice, a célebre personagem de Lewis Carroll, que aparece neste livro explicitamente no poema Infância, e também se insinua em outros poemas da autora, em especial em textos de sua última fase, por exemplo nas referências a jardins e à rainha louca nos Textos de sombra, publicados postumamente.

 

Aliás, se a de Pizarnik é uma poética muito própria, ela não se furta, no entanto, ao diálogo com outros textos e autores, o que se revela neste livro nas muitas dedicatórias (a Eva Durrell, Cristina Campo, Antonio Porchia, Jorge Gaitán Durán, Ivonne A. Bordelois, Théodore Fraenkel…), nas epígrafes (de Quevedo e Cervantes) e em alguns títulos (além da relação com Hesíodo no poema que dá nome ao livro, o título Os passos perdidos é provavelmente uma alusão a Nadja, de André Breton, que segundo César Aira era o livro preferido da autora, a ponto de ele sugerir que toda a poesia de Pizarnik poderia ser vista como “uma Nadja em primeira pessoa, escrita por sua personagem, não pelo autor”, como afirma César Aira na biografia Alejandra Pizarnik).

 

Em seu livro dedicado à poeta argentina, Aira critica veementemente o uso, muito frequente na crítica, de epítetos como “a pequena náufraga” ou “a menina extraviada” para se referir à autora. Se Pizarnik não poupou metáforas autobiográficas em sua poesia, diz Aira, isso, no entanto, “não é desculpa para usá-las contra ela, sobretudo porque ao fazê-lo se está confundindo a poesia já feita e a poesia em vias de se fazer”. As figuras são para Alejandra motor para a escrita, um modo de continuar fazendo poesia; identificá-las à poeta já morta, diz Aira, impede a visão do seu processo de escrita e é um modo de reduzi-la “a uma espécie de bibelô decorativo na estante da literatura”.

 

Em Os trabalhos e as noites, essas figurações autobiográficas dividem a cena da escrita com um “tu” insistente a que muitos poemas do livro se dirigem. Um “tu” que parece oscilar entre alguém a quem o poema se endereçaria (frequentemente num modo amoroso, muito acentuado neste livro), o próprio enunciador, o leitor (que pela força do dêitico vem ocupar o lugar daquele a quem o poema se destina) e o próprio poema.

 

“Tu” é, aliás, a primeira palavra do primeiro texto do livro Poema. Um “tu” que, aqui, parece referir-se ao próprio poema (o título funcionando então como uma espécie de vocativo): “Tu fazes de minha vida/ esta cerimônia demasiado pura”. A demanda/exigência de pureza parece atravessar a escrita de Pizarnik, com seus versos concisos, rigorosos, reduzidos a uma espécie de limpidez elementar: pedras preciosas. Que aqui essa exigência, associada à vida, pareça “demasiada”, é indicativo do caráter sempre problemático da relação entre literatura e vida, o que, no caso de Pizarnik, adquire um viés trágico, se se leva em conta seu suicídio, em 1972, aos 36 anos.

 

A tentação biográfica em que frequentemente recaem as leituras de sua obra é compreensível: a morte está no centro da poesia de Pizarnik. “O desejo de morrer é rei”, lê-se no segundo poema deste livro, Revelações. Em Infância, “alguém entra na morte/com os olhos abertos/como Alice no país do já visto”. E em Silêncios, a morte, “sempre ao lado”, é afinal identificada à própria voz que fala no poema: “A morte sempre ao lado/Escuto seu dizer/Só me ouço”. Em Os trabalhos e as noites, no entanto, a morte divide a cena com o amor, ainda que ausente, ainda que apenas evocado ou lembrado…

 

Nomear o ausente parece ser a tarefa, sempre malograda, a que esta poesia se lança. Não por acaso, grande parte dos poemas gira em torno da própria linguagem, e sua contraparte, o silêncio (numa dinâmica de contrastes e inversões que também abarca outros pares na poesia de Pizarnik: memória/olvido, morte/vida, presença/ausência, liberdade/prisão, pássaro/gaiola...). O poema como cerimônia de nomeação (e como seu fracasso). Recusando a bela formulação de Breton – Les mots font l’amour (As palavras não fazem amor) –, Alejandra, que tanto bebeu do surrealismo, dirá, no poema intitulado En esta noche, en este mundo, que “las palabras/ no hacen el amor/ hacen la ausencia/ si digo agua ¿beberé?/ si digo pan ¿comeré?”.

 

Essa dinâmica de presença/ausência, palavra/silêncio encontra na poesia da autora, e em especial neste livro, uma imagem poderosa no repetido elemento “muro”. O muro é superfície da escrita (e do desenho, ainda que feito pelo tempo, como “a cor do tempo em um muro abandonado” no poema que encerra este livro, como as fissuras que em Quarto só formam, em uma velha parede, “rostos, esfinges/ mãos, clepsidras”...), mas também parece ser o obstáculo contra o qual a linguagem se bate (“é muro é mero muro é mudo mira morre”, lê-se no poema que toma seu título do poema anterior, A verdade desta velha parede). No poema Madrugada (para além da noite, há neste livro muitas alusões a essas horas de transição ou passagem entre o dia e a noite: a alba, o crepúsculo, a madrugada...), é o próprio apagamento do “eu” que se identifica ao apagamento da escrita, ao apagamento do poema escrito num muro:

 

[...]

 

O vento e a chuva me apagaram

como a um fogo, como a um poema

escrito num muro

 

Numa entrevista, o poeta norte-americano Ben Lerner afirma que o fracasso do poema em alcançar a margem direita da página é para ele uma forma quase definidora do modo como a poesia faz com que a ausência seja sentida como presença. Essa capacidade de presentificar a ausência pelo vazio da página se faz sentir radicalmente nos brevíssimos poemas de Pizarnik: a abertura de espaços em branco, a “aeração da página” (como diz Barthes do haicai), o espaçamento em torno desses poemas sempre reduzidos parece funcionar como materialização, presente, de algo ausente (desaparecido ou inexistente), que os próprios poemas se esforçam por nomear.

 

O que se oferece, aqui, a nós, leitores, nestas primeiras edições brasileiras da poesia de Pizarnik, é, como no poema Em teu aniversário, uma espécie de presente negativo, presente de ausências. Agora nossa solidão não está só.

 

*Texto de apresentação de Os trabalhos e as noites, escrito para a edição da Relicário Edições (2018), por Ana Martins Marques. 


terça-feira, 8 de outubro de 2019

Carlos de Assumpção: Protesto, um filme de Alberto Pucheu


Alberto Pucheu
26 de setembro de 2019

Pesquisando para compor, a convite de Daysi Bregantini, a revista CULT Antologia Poética, no dia 2 de junho, cheguei, pelo Youtube, ao poema “Protesto”, de Carlos de Assumpção, falado por ele mesmo em gravação caseira. Fiquei inteiramente impactado por aquele poema grandioso lido daquela forma igualmente grandiosa por aquele poeta, que eu desconhecia completamente. Na mesma hora, incluí-o na revista, postei o link – para poder divulgá-lo – e comecei a procurar seus livros, tarefa das mais árduas.
Com ajuda de Marta Resende, acabei por encontrar um deles; depois, vieram os outros. Minha surpresa se deu ainda pelo fato de inúmeros poetas, professores e críticos com quem me relaciono tampouco o conhecerem. Depois, descobri que ele e seu poema “Protesto” eram conhecidos, sobretudo, pelas pessoas mais velhas participantes do movimento negro e por alguns poetas negros subsequentes. Quem era aquele poeta, de 92 anos, negro, desconhecido por mim e pela grande maioria das pessoas, mesmo das que lidam diretamente com poesia? Consegui contatá-lo e, no dia 19 de julho, eu e minha companheira, a poeta Danielle Magalhães, estávamos na casa dele. Filmamos nossas conversas com esse imenso poeta por três dias, para fazer o que viria a ser “Carlos de Assumpção: Protesto”, que, com o apoio da mesma revista CULT, disponibilizamos agora para ser visto. De volta da viagem à Franca até dia 6 de agosto, editei incessantemente o filme.
Por generosidade do cineasta e produtor de cinema Cavi Borges, fomos convidados por ele a passar duas sessões do filme, no dia 30 de agosto, em uma pequena sala do Estação Net Botafogo. No dia 13 de agosto, com alguma sorte, por indicação de Eucanaã Ferraz, Marco Rodrigo Miranda Almeida, jornalista da Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, me procurou para que eu escrevesse sobre Manoel de Barros. Em um congresso em Aracaju, eu não tinha como atender a solicitação, mas contrapropus um texto sobre Carlos de Assumpção, a quem vinha me dedicando e tinha o firme propósito em torná-lo conhecido por um público maior, que foi logo aceita. Marco ainda enviou Ricardo Benichio para fotografar o poeta, que tirou fotografias lindíssimas dele. A repercussão do texto na Folha foi muito maior do que eu, ao partir para fazer o filme com ele poucos meses antes, poderia sonhar. No dia seguinte à publicação da matéria, uma grande editora me ligou, querendo publicá-lo em março de 2020, e o contrato com ele está em vias de ser assinado.
Voltamos à Franca para passar o filme para ele, seus amigos e admiradores nos dias 14 e 15 de setembro, em sessões muito comoventes. No domingo, dia 15, saiu no jornal da cidade, Comércio, uma matéria intitulada “Carlos de Assumpção, o filme”. No momento, em uma de minhas turmas de Teoria Literária na UFRJ, venho estudando, com os alunos, a poesia de Carlos de Assumpção. A convite de alguns professores, o filme tem sido passado algumas vezes, neste mês, na Faculdade de Letras. Tenho recebido convites para passar o filme em centros culturais, bibliotecas etc. Saibam, entretanto, que não se trata de maneira alguma de um filme de cineasta, mas de um filme amador, de um apaixonado pela poesia, de um poeta, de um professor, de um crítico literário. Nesses filmes que tenho feito, meu objetivo é tanto resguardar a memória de poetas, guardá-las em conversa e falando seus poemas, quanto, na medida do possível, intervir em nosso meio de poesia e, se possível, para além dele. Assista o documentário na íntegra abaixo:

Alberto Pucheu é poeta e professor de Teoria Literária na UFRJ. Publicou, entre outros, de Que porra é essa – poesia?, A fronteira desguarnecida e Para que poetas em tempos de terrorismo?

sábado, 20 de abril de 2019

À CIDADE, DE MAILSON FURTADO


E a cidade, o que é? Para mim pode ser uma coisa, para o leitor, outra. Para um poeta, ainda outra e mais outra, dependendo de quem entrar na conversa. Cada olhar percebe a cidade de forma diferente. Muitas vezes é possível ver, na cidade, o que quase ninguém vê. Há, na cidade, o que se esconde e o que se dá aos olhos. E é assim que Marco Polo fala ao grande Kublai Khan das cidade que visitou, nas narrativas constituintes do livro As cidades invisíveis (1972), de Ítalo Calvino.

As cidades de Calvino têm nomes de mulheres. Cada uma de suas cidades possuem características que são apenas suas. Características que as tornam únicas, belas e invejáveis. A cidade é, na narrativa de Calvino, um símbolo que nos remete, como faz com o próprio autor, à reflexões, experiências e conjecturas. De todas as cidades constantes na referida narrativa, nos chama particular atenção a cidade de Tecla, que se constrói constantemente sem jamais se concluir, sendo esse seu projeto de existência.

Partimos das cidades invisíveis de Calvino, para apresentarmos uma breve análise da poesia que nos é apresentada pelo poeta Maílson Furtado (vencedor do Prêmio Jabuti de Poesia, de 2018) no seu À Cidade (2017). O livro está organizado em quatro partes, que podem ser compreendidas como quatro grandes poemas que se entrelaçam e dialogam em simbiose. A primeira parte chama-se “Presente” (p. 9 – 20), a segunda, “Pretérito” (p. 21 – 36), a terceira é denominada de “Pretérito mais-que-perfeito” (p. 37 – 50), enquanto a quarta parte chama-se “Futuro do pretérito” (p. 51 – 61). O livro traz um texto de Oswald Barroso (nas “orelhas”) e o posfácio “a cidade pelo “arquivo dos pés” (p. 63 – 69), de Décio Braúna. A última página do livro (p.70) traz os dados biobliográficos do autor.

A estrutura escolhida por Furtado para a organização do seu À Cidade conduz o leitor pelas ruas e pelo cotidiano de uma cidade que, assim como poderia ser Varjota, no interior do Ceará, poderia ser qualquer outra cidade (Campo Grande, Santa Cruz, Sinimbu...). Ao contrário do ocorre na narrativa de Calvino, a poesia de Maílson Furtado não parece tratar de nenhuma cidade invisível, mas de uma das muitas cidades observáveis no Brasil. Claro que a poesia em questão não trata das grades metrópoles, daquelas que engolem o ser humano e o cospe como se não fosse mais que uma bagaço, um nada. A poesia de Furtado, pelo contrário, deita olhos sobre as cidades que ainda acordam com o galo e dormem quando se apagam as luzes dos postes. A máxima “fale de sua aldeia”, de Tolstoi, é levada ao pé da letra pelo poeta cearense, quando traz para seus versos o velho rio Acaraú (“... e tudo vale para namorar o acaraú ...”), os meninos, os mosquitos, o quintal, os cachorros, as cacimbas, as cadeiras na calçada e todos os elementos que constituem a paisagem de uma pequena cidade de um interior qualquer, onde, como já havia dito Drummond, tudo passa devagar.

Os poemas que compõem a obra de Maílson Furtado são dedicados à cidade “e aos que nunca dedicarei nada”, dedicou o poeta. O uso dos tempos verbais como títulos de cada uma das quatro partes do livro servem como marcação da maneira como o tempo se dá na cidade, objeto da poesia do autor. Assim, “tudo sai”, “a noite vai”, “a noite adentra”, “o poste acende”, “noutro dia/vem outro sol”, “a cidade acorda”, “a manhã deságua”, “a vida segue”. 

E a cidade, o que é?

Maílson Furtado
A cidade é uma representação do abrigo, do abraço e do aconchego. Mas também pode ser a esfinge que, de forma diferente, observa o filho / morador e o viajante / forasteiro. Conhecê-la é também decifrá-la ou por ela ser devorado. O eu lírico da poesia de Maílson Furtado parece não correr o risco de ser engolido pela cidade, aparentando haver entre ambos uma certa cumplicidade. 

Como um imenso e belo monstro a se metamorfosear dia e noite, a cidade move-se lentamente, mas também descansa. Do topo de uma colina imaginária, o eu lírico observa sua transmutação. Às vezes desce, caminha por suas ruas, por seu dorso, brinca com os meninos, se lacera, se desvirgina, mas a cidade não se define.

Jáder de Carvalho, José Alcides Pinto e Francisco Carvalho são poetas cearenses/universais que, entre outros, também foram telúricos e cantaram a cidade, suas cidades, em versos de alta qualidade poética . Contudo, depois de um longo período de estagnação, sem que aparecesse uma grande poesia em terras de Alencar, eis que surgem os versos de Maílson Furtado que, tal qual um Marco Polo, apresenta aos leitores a cidade transformada em poesia. Para concebê-la, no entanto, é necessário acompanhar a imaginação do poeta e tirar os pés do lugar-comum, pois “... a cidade é uma fotografia / que nunca é a mesma / uma hoje / outra amanhã...”, tal qual Tecla, de Calvino. À Cidade (2017), de Maílson Furtado já pode ser considerado um acontecimento poético no âmbito da literatura brasileira. Da cidade, dela mesma, não sei.


Maílson Furtado, acompanhado dos poetas Alan Mendonça, Bruno Paulino, Dércio Braúna e Renato Pessoa, participa do trabalho intitulado Cinco inscrições da mortalidade (2018). Maílson Furtado também é autor de Sortimento (2012), Conto a Conto (2013), e Versos Pingados, de 2014.









domingo, 7 de abril de 2019

Cancioneiro Belchior, de José Gomes Neto


Organizado por José Gomes Neto, começa a circular no mercado o livro Cancioneiro Belchior (s/d), que tem como objetivo principal o estabelecimento de todas as letras escritas pelo poeta cearense. É claro, como tem sido dito por muitos estudiosos, a obra do compositor Belchior não cabe no conceito de “letra”, constituindo-se, na verdade, de poesia de raro esplendor. No entanto, não é esse o objetivo do referido Cancioneiro, mas colocar num só lugar, como dito, todas as letras produzidas pelo autor de “Como os nossos pais”.

Há muitos trabalhos como esse no mercado editorial brasileiro, como os de Lou Reed e Bob Dylan, por exemplo, publicados pela Companhia das Letras. Mas ainda não tínhamos nenhum sobre a poética de Belchior. Dessa forma,  Cancioneiro Belchior vem  preencher uma lacuna acerca da obra de um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira – MPB.  Livros como o de Gomes Neto se inserem na linha de trabalhos como Like a Rolling Stone: Bob Dylan na encruzilhada, de Greil Marcus, Strange Fruit: Billie Holiday e a biografia de uma canção, de David Margolick ou ainda A love supreme: the story of John Coltrane’s signature album, de Ashley Kahn. Algumas dessas obras deitam olhos sobre a análise interpretativa de algumas composições, o que não é o caso de um cancioneiro que, conforme sua definição, é uma coleção de canções ou poesias de um determinado tempo ou autor.




O trabalho que agora é entregue ao público leitor começou a ser gestado ainda nos idos de 1980. Sobre esse começo, convém observarmos o que diz nos diz o organizador.


Já no início de 1980 começamos a pensar na realização do  projeto. Belchior trataria de enviar-me as letras, que deveriam ser digitadas e “trabalhadas” em  meus momentos de folga acadêmica. Sempre que tivesse espaço na apertada agenda de shows, Belchior viria a Floripa para discutirmos e estabelecermos a versão definitiva de cada letra. Às vezes, quando em férias ou durante as longas greves universitárias, conseguia acompanha-lo em suas viagens, adiantando a tarefa conjunta. (GOMES NETO, s/d:47)


O Cancioneiro Belchior está organizado em três blocos, a saber: Canções de estrada, Noutras estradas e A voz nas estradas. No primeiro bloco foram agrupadas as composições divulgadas em obras autorais, os chamados “discos de carreira”, sejam elas compostas ou não em parceria. O segundo bloco, por sua vez, contém as canções escritas por Belchior e parceiros, que, conforme, Gomes Neto, gravaram em seus respectivos discos de carreira. No último bloco, tem-se as composições que Belchior fez para trilha sonora de peça teatral, assim como os trabalhos realizados com obras poéticas, como a de Carlos Drummond de Andrade (As várias caras de Drummond) e a de Cruz e Sousa (Belchior canta Cruz e Sousa). José Gomes Neto registra que a análise exaustiva e minuciosa de cada texto foi realizada por ele e por Belchior, tendo começado no início de 1980 e se estendido até 2005, com pequenos ou grandes intervalos ditados pela agenda dos dois. O Cancioneiro Belchior conta ainda com um Índice Discográfico e um Índice Alfabético das composições, a que se associa o verso inicial delas. O índice geral do livro segue a seguinte ordem: Índice alfabético das letras (p.7-16), Índice discográfico (p.17-26), Apresentação (texto de Jorge Mello, parceiro e amigo de Belchior, p.27-40), Introdução (p.41-68), Canções da estrada (p.69-230), Noutras estradas (p.231-258), A voz das estradas (p.259-282).

José Gomes Neto, respeitando os direitos dos herdeiros de Belchior, não incluiu no referido Cancioneiro, embora, segundo ele, fosse vontade de Belchior, algumas letras originais do poeta, tendo em vista pertencerem ao espólio que tramita na justiça. Gomes Neto mantém essas letras sob sua guarda. Além dessas, não constam do referido Cancioneiro, devido a questões legais, algumas poucas letras inéditas feitas em coautoria com Belchior, sejam elas traduções ou versões.

O Cancioneiro Belchior é, desde já, referência indispensável para todos aqueles que se dedicam a estudar a obra poética de Belchior, bem como para aqueles que ouvem suas canções, amam e mudam as coisas.

José Gomes Neto é também autor de A sagração da matéria e Opivm de vidro. Atualmente prepara em livro a correspondência que manteve com Belchior, por mais de 40 anos.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

TEACHING MY MOTHER HOW TO GIVE BIRTH, DE WARSAN SHIRE

Ainda sem tradução para o português brasileiro Teaching my mother how to give birth (2011), de Warsan Shire, é uma das melhores produções poéticas dos últimos anos. Em tradução livre seria algo como “Ensinando minha mãe a dar a luz”. No caso da poesia desenvolvida por Shire, “dar a luz” implica não em ter um filho, em parir; mas abrir a cabeça e o coração para compreender coisas que foram negadas à seguidas gerações de mulheres. 

Teaching my mother how to give birth foi publicado no Reino Unido pela Flipped Eye Publishing, contendo vinte e um poemas. A frase que abre o livro é: “I have my mother’s mouth and my father’s eyes; on my face they are still together” (Tenho a boca da minha mãe e os olhos do meu pai, no meu rosto eles continuam juntos). 

A frase que inicia o trabalho também se constitui como uma das principais temáticas que perpassam toda a obra. Originários da Somália, os pais da poetisa acabam por se tornarem uma representação de todo o povo somali na poesia de Shire. Embora tenha sido criada na Inglaterra, Warsan Shire optou por trabalhar temáticas poéticas que, de uma forma ou de outra, estivessem ligadas aos seus parentes e amigos que ficaram na Somália.

Nesse sentido, percebe-se na sua poesia um compromisso em denunciar o resultado traumático que se abateu sobre seu povo, quando do final da guerra civil que brutalizou seu país. Em consequência, se deu a diáspora, com impacto devastador, principalmente sobre as mulheres. Por meio de seus versos, Warsan Shire consegue apontar o dedo para as contradições, os conflitos, os ditos e os não ditos da experiência diaspórica. Nesse contexto, Shire aborda assuntos como o amor, a diáspora, a ausência do homem na família, a violência sexual contra a mulher e os refugiados somalis,  bem como as relações entre mães e filhas.

Warsan Shire é uma daquela poetas que escreve não apenas a partir daquilo que sente ou vive, mas também das experiências de todos aqueles que a circundam. Nas suas próprias palavras: “... eu sou cada uma das pessoas sobre as quais escrevo...”.  Em termos gerais, a poesia de Warsan Shire pretende ser a voz daqueles que não são ouvidos, ou seja, os imigrantes, refugiados e outros grupos marginalizados.


Shire recorre à sua poesia como forma de se manter em conexão com sua terra natal, a Somália, onde, na verdade, ela nunca esteve. Para tanto, utiliza sua própria posição de imigrante. Dessa maneira, todos, parentes e amigos, acabam por se constituírem como matéria-prima da sua poesia.
Os poemas que compõem Teaching my mother how to give birth são: “What your mother told you after your father left”, “Your mother’s first kiss”, “Things we had lost in the summer”, “Maymuun’s mouth”, “Grandfather’s hands”, “Bone”, “Snow”, “Birds”, “Beauty”, “The kitchen”, “Fire”, “When we last saw your father”, “You were conceived”, “Trying to swim with God”, “Questions for Miriam”, “Conversations about home”, “Old spice”, “My foreign wife is dying and does not want to be touched”, “Ugly”, “Tea with our grandmothers” and “In love and in war”.
Warsan Shire


A poesia de Warsan Shire dialoga com a poesia de Rupi Kaur, assim como com a canção de Beyoncé, a qual declama alguns de seus poemas no seu álbum visual “Lemonade”. Warsan Shire, no entanto, não faz alarde, nem se deixa dominar pela vaidade, pois sua poesia é feita de silêncios. Silêncios que gritam e dilaceram os ouvidos daqueles que a leem.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

COLAR DE PEDRAS FALSAS, DE FRANCISCO CARVALHO

Francisco Carvalho (1927-2013) é daqueles poetas que se inserem na amplitude da literatura produzida em língua portuguesa, tendo em vista a extensão e a qualidade da sua obra poética. Autor de mais de trinta livros, Carvalho soube como poucos cultivar a palavra, moldando-a a seu bel prazer. Como produzia muito, é bem possível que ainda surjam trabalhos inéditos do autor de Centauros urbanos (2003), o que em muito agradaria seus leitores e pesquisadores.

De todos os seus trabalhos, há um que é pouco conhecido, mas que nem por isso pode ser considerado menor. Trata-se do livro Colar de pedras falsas (2005), publicado pela editora Guararapes – EGM, de Jaboatão, Pernambuco. Durante as nossas pesquisas, não conseguimos localizar o livro no seu formato tradicional, se é que ele existe nesse formato. Explico: a versão que temos desse livro é uma espécie de “edição artesanal”,  de aproximadamente 6cm, tendo seus paratextos sido montados manualmente.




O corpo do livro é composto de um poema longo de 155 estrofes, impressas em uma folha de papel, respeitando o tamanho de 6cm. Cada página corresponde a uma dobradura dessa folha única. O poema se inicia com a estrofe que diz: “A leveza dos abutres / faz lembrar certos rodeios / de alguns próceres ilustres” e se conclui com: “ As cabras vão embora / fica na relva o perfume dos seios da pastora”. Registre-se que o referido trabalho não é mencionado em nenhuma das fontes que trazem a lista de obras do poeta. A única referência que conseguimos localizar diz respeito ao poema escrito por Horácio Dídimo, constante dos arquivos da Academia Cearense de Letras – ACL. Ei-lo:


Colar de pedras falsas  
                        Para Francisco Carvalho
                          Horácio Dídimo
                          Exercícios de admiração

Caro Francisco Carvalho,
Cordialmente agradeço
E confirmo o meu apreço
Por esse belo trabalho.

A poesia que produz
Tão primoroso adereço
Traz sempre um novo começo,
Nova cor e nova luz

Ao reler a sua obra
Acrescento este capítulo
Onde nada falta ou sobra:

As palavras são certeiras,
É falso apenas o título,

As pedras são verdadeiras. 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

ACIDADE, DE CARLOS NÓBREGA E POETA DE MEIA -TIGELA

Em As cidades invisíveis (1990), de Ítalo Calvino, a cidade não é apresentada como um conceito geográfico, mas como um organismo vivo e pulsante que em tudo se assemelha ao próprio ser humano. Cada capítulo do livro de Calvino é dedicado a uma determinada cidade. Cada uma dessas cidades possui nome de mulher. Sobre elas, o que se sabe é aquilo que Marco Polo conta ao poderoso Kublai Khan. Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo, quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção do que a qualquer outro de seus enviados ou exploradores (CALVINO, 1990:9).

O que faz com que Khan continue ouvindo Marco Polo talvez resida na maneira como o veneziano faz seus relatos. As cidades, sejam quais forem, são o que são. Contudo, o que se dá aos olhos depende em muito de quem vê. Assim, as cidades podem ser masculinas, femininas ou até genderless. As cidades podem ser feias, belas ou malditas. As cidades também podem ser, como naquela canção de Aroldo e Moraes Moreira, uma representação do amor e da liberdade. A cidade pode ser uma moça. Pode não ter idade. As cidades comportam mundos. Abrigam, agridem, amedrontam. Mas afinal, o que é a cidade? Uma maneira de responder tal questionamento é fugindo dos muros e das grades que nos “protegem” de quase tudo. Mas, Humberto Gessinger já nos alertou que o quase tudo, quase sempre é quase nada. Dessa forma, é necessário sair à rua e ver a cidade fluir, de perto, com seus odores, suas flores e seus desvãos.

E me parece que foi exatamente isso que os escritores Carlos Nóbrega e O Poeta de Meia-Tigela resolveram fazer. O resultado dessa empreitada é o livro Acidade, de 2016, publicado pela Expressão Gráfica e Editora. O livro tem 156 páginas. O prefácio foi escrito por Bárbara Costa Ribeiro, enquanto o posfácio ficou a cargo de Li Lê Santos. O título do trabalho traz em si um trocadilho entre “a cidade” e “acidade” (acidez), ao mesmo tempo em que reconhece na cidade, a acidade.

CAENS DE RUA

A cidade é um lugar anormal,
Uma guerra entre o mau e o mau
Vence quem late mais au
Perde quem perde o sinal. (p.43)

Dizer que Acidade é um livro de poesias seria ignorar todos os recursos multimodais que compõem o referido trabalho, encarcerando-o em apenas uma das inúmeras prateleiras do cânone literário. O livro de Nóbrega e Meia-Tigela vai muito além, fazendo-nos lembrar do icônico Zero – romance pré-histórico, de Ignácio de Loyola Brandão. O romance de Loyola, após ser recusados inúmeras vezes pelas editoras brasileiras, acabou sendo publicado na Itália, no ano de 1974, por Giangiacomo Feltrinelli. Como o Brasil insiste na sua “viralatice”, Zero só foi publicado por aqui no ano seguinte, pela editora Brasília/Rio. As justificativas para não se publicar o Zero se baseavam na alegação de que “dificuldades gráficas” impediriam a boa execução da obra. Ninguém dizia, no entanto, que a obra era revolucionária e questionadora. E um livro que pudesse ser usado como provocação não poderia, obviamente, vir a público naqueles tempos sombrios nos quais o Brasil vivia soterrado.

Zero é considerado, hoje, um romance de caráter pós-moderno. Os tempos, conforme disse Raduan Nassar ao receber o Prêmio Camões, continuam sombrios. Dessa forma, toda e qualquer obra verdadeiramente artística corre seríssimos riscos de enfrentar “dificuldades gráficas”, para que possa chegar ao público leitor. Ainda bem que isso não aconteceu com Acidade, tendo em vista a acidade das decisões político-jurídico-midiáticas que têm assolado o país.
?
aos teus pés
morrem dois
morrem dez
e depois
morrem cem
morrem mil
que que tem?
é brasil
são inúmeros
são antônios
são só números
só anônimos (p.50)

Mas afinal, o que Acidade? A ficha catalográfica do livro “entrega o jogo”. Lá, lê-se: “Acidade é um Livro-Zine, um Livro-Zona, um Livro-Zão, um Livro-Zen como qualquer outra cidade”. Acreditamos que poderia se afirmar que Acidade também pode ser um Zine-Livro, ou seja, um fanzine em forma de livro capaz de abarcar tudo aquilo que não seria possível de ser colocado, por questão de espaço, em um zine tradicional.
CIDADE
   o clube é vizinho do açougue
que é vizinho da igreja
vizinha à cadeia
à esquerda do bordel
que dá frente ao hospício
ao lado do bar
nossa casa no meio
somos todos vizinhos
somos todos vizinhos
de nós mesmos. (p.105)

Mais importante que a forma, a nosso ver, é o conteúdo. Assim, pelas cento e cinquenta e seis páginas de Acidade, a cidade de Fortaleza, habitat dos autores, aparece em situações que são belas, tristes e revoltantes. O descaso com o homem e o meio é denunciado pelos poemas e imagens fotográficas de placas, logomarcas, pichações, monumentos e anúncios que constituem a obra. Mas não é apenas Fortaleza que surge em Acidade. Nesse mais recente trabalho de Nóbrega e Meia-Tigela, está todo um Brasil que não se mostra no horário nobre da tevê. Está o submundo, a vida e o cotidiano das coisas e das pessoas que jamais caberiam numa poesia bela, recatada e do lar. Em Acidade está a poesia propriamente dita. Aquele canto poético torto, feito faca, pronto para desafiar o coro e cortar a carne dos contentes.

sábado, 22 de abril de 2017

OUTROS JEITOS DE USAR A BOCA, DE RUPI KAUR

Tem-se tido a impressão de que o mundo está ficando cada vez mais hostil. Comportamentos que acreditávamos estarem mortos e sepultados surgem da tumba, para aterrorizar uma humanidade já para lá de aterrorizada. Em meio a tudo isso, sempre estiveram etnias, grupos e indivíduos para os quais esses tempos de ódio, perseguição e violência não consistem em nenhuma forma de surpresa, uma vez que sempre foram vítimas preferenciais de sistemas sócio-políticos pautados pela predominância do maior sobre o menor, do mais forte sobre o mais fraco. Dessa forma, ao longo da história da humanidade, a imposição da violência enquanto forma de dominação tem sido uma constante.

Na tentativa de confrontar tais forças hegemônicas, a Arte tem se mostrado uma grande aliada em uma guerra que não tem previsão de chegar ao seu final. O pior de tudo nessa guerra talvez seja a dificuldade de se precisar de onde virá o inimigo, o qual, inesperadamente, pode saltar de uma trincheira, de um avião, vir por meio de um drone ou estar tranquilamente acomodado na sua cama. De todos, o inimigo íntimo é, certamente, o mais letal. Seja como for, a Arte, especificamente a literatura, tem servido para dar voz aos silenciados. Contudo, a batalha não é nada fácil e, muitas vezes, é preciso lutar consigo mesmo para, só então, seguir adiante.

Nesse sentido, autores como Zygnunt Bauman, Chimamanda Ngozi Adiche, W.G. Sebald, Mia Couto, Svetlana Aleksiévitch e Teju Cole, por exemplo, são alguns dos autores cujas obras deitam olhos sobre questões que nem todo mundo deseja ver. Em meio a ensaios sociológicos, romances e novelas; a poesia tem apresentado suas armas. E assim, dos lugares mais diversos, geograficamente falando, poesias vão surgindo e vozes vão sendo ouvidas. Assim o é com a poesia de Angélica Freitas, Wislawa Szymborska, Warsan Shire e Rupi Kaur; entre muitas outras.

De Rupi Kaur, por exemplo, acaba de sair em português brasileiro o livro Outros jeitos de usar a boca (2017), publicado pela editora Planeta, com tradução de Ana Guadalupe. O referido trabalho foi publicado primeiramente de forma independente, tendo sido depois publicado nos Estados Unidos por Andrews McMeel, quando alcançou o primeiro lugar na lista do The New York Times, tendo vendido mais de um milhão de exemplares impressos. O que fez o livro de Kaur se tornar um best seller dificilmente foi o gênero poesia, mas provavelmente os temas dos quais trata a poeta, a saber: amor, sexo, liberdade, abuso, feminilidade, perda, trauma, superação etc. Assim, em um mundo de crescente misoginia e violência, a fortaleza da poesia simples de Rupi Kaur se constitui, certamente, como um diferencial para que sua leitura continue se espalhando por vários países, em diferentes idiomas.

Em língua inglesa, o livro de Kaur chama-se Milk and Honey, título que contém em si toda uma gama de significações históricas, bíblicas e mitológicas que, infelizmente, se perdem na tradução para o português brasileiro. De Leite e Mel para Outros jeitos de usar a boca, convenhamos, há uma distância bem grande. Ao longo da obra, as palavras “leite” e “mel” surgem em diversos poemas (p.66, p.99, p. 101, p.108, p. 199). A expressão “leite e mel” é bastante recorrente em textos do Oriente Médio antigo, bem como também o é na Índia, terra natal da poetisa. Para ficarmos apenas em um exemplo, na Bíblia, há passagens que fazem referência à “terra que mana leite e mel”. Em Êxodos, lê-se:

Disse ainda o SENHOR: Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento; por isso, desci a fim de livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-los subir daquela terra boa e ampla, terra que mana leite e mel (...). (ÊXODOS, 3.7-12)

E em Números, tem-se:

(...) por ventura, é coisa de somenos que nos fizeste subir de uma terra que mana leite e mel, para fazer-nos morrer neste deserto, senão que também queres fazer-se de príncipe sobre nós?
Nem tampouco nos trouxeste a uma terra que mana leite e mel, nem nos deste campos e vinhas em herança (...). (NÚMEROS, 16. 13-14)

Contudo, sabemos nós, que os meandros da tradução se dão em conformidade com uma série de questões editoriais das quais não temos interesse em tratar aqui. Dessa forma, o título que dá nome ao trabalho em português é adaptado do poema “Você fala demais” (os poemas não possuem títulos. Nesse caso, o título passa a ser o primeiro verso). Diz o poema: “Você fala demais/ele sussurra no meu ouvido/conheço jeitos melhores de se usar essa boca” (p.68). No Brasil, “Leite e Mel” não seria, convenhamos, tão “vendável” quanto Outros jeitos de usar a boca.
 
O livro de Rupi Kaur está dividido em quatro (04) partes: “a dor” (p. 9-42), “o amor” (p.43-78), “a ruptura” (p.79-144) e “a cura” (p.145-207). Ao todo são 186 poemas, distribuídos da seguinte forma: em “a dor” tem-se 31 poemas. Nas demais partes, respectivamente, tem-se: 33, 63 e 59. Os poemas de Kaur são geralmente curtos, alguns de apenas dois versos, mas carregados de uma força de considerável valor poético. Para tanto, a poeta não se esmerou em formas ricas ou raras; em vez disso, optou por uma escrita bastante simples, clara e objetiva sem, no entanto, perder de vista a essência subjetiva da poesia.  E embora o livro possa ser lido por partes, também pode ser lido como se fosse um único grande poema, uma vez que as temáticas tratadas se relacionam e se mostram como uma unidade. Quase todos os poemas são acompanhados de ilustrações feitas pela própria autora, as quais dialogam com o texto escrito, fazendo uma grande diferença no todo do trabalho.

Os poemas de Outros jeitos de usar a boca abrangem muitos dos questionamentos acerca do empoderamento feminino no turbulento contexto do século XXI. Dessa maneira, o eu-lírico se multifaceta, embebendo-se em solilóquios, fazendo referências às figuras do pai, da mãe, do homem, e da mulher enquanto sujeito da sua vida, do seu corpo e dos seus atos. 

A leitura da poesia de Rupi Kaur é necessária, entre outras coisas, para a discussão das relações humanas na contemporaneidade. 

Boa leitura!