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domingo, 6 de dezembro de 2020

SISTER LOVE: AS CARTAS DE AUDRE LORDE E PAT PARKER 1974-1989

 

Já circulava em português brasileiro algumas traduções esparsas da obra de Audre Lorde (1934-1992) e Pat Parker (1944-1989). No entanto, só recente mente é que se começou a traduzir e publicar os trabalhos de Audre Lorde de forma mais efetiva. Entre vários já publicados tem-se o Sister outsider: essays & speeches, de 1984, considerado seu trabalho em prosa mais importante. No caso de Parker, o mercado editorial brasileiro ainda não atentou para a falta de traduções da obra desta, que é uma das mais importantes escritoras do século XX. Na postagem que se segue, no entanto, não falaremos sobre a obra de Lorde nem de Parker, mas das cartas que ambas trocaram no período de 1974 até 1989.

Sem tradução no Brasil, a obra chama-se Sister Love: The Letters of Audre Lorde and Pat Parker, publicada pela Sapphic Classics, no ano de 2018. A referida publicação só foi possível devido ao apoio da filha de Parker, Anastasia Dunham-Parker-Brady e de Elizabeth Lorde-Rollins e Jonathan Rollins, herdeiros de Lorde. O livro conta com uma introdução de Mecca Jamilah Sullivan, e edição de Julie R. Enszer. Sobre como surgiu a ideia da publicação das cartas das duas poetas, procedemos à uma tradução livre daquilo que diz a editora. Tem-se:

Quando encontrei pessoalmente Marty Dunham (já tínhamos trocado e-mails), ela me falou sobre as cartas entre Pat Parker e Audre Lorde. Ela disse que se tratava de uma correspondência linda e que parte das cartas tinha sido lida em alguns eventos em homenagem a Parker e Lorde. Fiquei intrigada. Na ocasião, ela não tinha cópias para que eu pudesse ler. Dois anos depois, volteia a San Francisco, para ajudar Marty a organizar o material de Parker para a Biblioteca Schlesinger e para a pesquisa de preparação para a obra completa de Parker (The Complete Works of Pat Parker). Uma das primeiras coisas que fiz foi ler essas cartas. Eram mágicas. Encantadoras. Hipnotizantes. Estas cartas apresentam a oportunidade para que os leitores possam vislumbrar os corações e mentes de duas extraordinárias e talentosas poetas e escritoras. Tem sido um enorme prazer dedicar tempo à essas cartas e editá-las neste livro.

Parker e Lorde se encontraram pela primeira vez em 1969, quando Lorde fazia um tour literário pela Costa Oeste. Wendy Cadden, artista gráfica e membra do Women’s Press Colective, as apresentou. Lorde tinha 35 anos de idade (nascida em 18 de fevereiro de 1934) e Parker tinha 25 (nascida em 20 de janeiro de 1974). As 26 cartas dessa correspondência (27 ao todo, pois há uma última carta, de Lorde para Marty Dunham) começam em outubro de 1974 após outra visita de Lorde à Costa Oeste. A amizade de vinte e seis anos entre Parker e Lorde, que se conclui com a morte de Parker, cobre os anos mais produtivos da produção poética e intelectual das duas autoras.


Uma indicação da força da amizade das duas poetas é a dedicatória de trabalhos de uma para a outra. O poema de Parker “For Audre” (The Complete Works of Pat Parker, p.177) captura a vibração da amizade entre ambas. Lorde dedicou à Parker sua coletânea final The Marvelous Arithmetics of Distance, publicado postumamente em 1993, com as seguintes palavras: “Para minha irmã Pat Parker, poeta e camarada-em-armas In Memoriam”. A coletânea inclui o poema “Girlfriend” (namorada), que também capta algo do lúdico que havia entre elas, assim como o sentido da amizade para Lorde. Esses poemas e cartas aludem à rica amizade entre estas duas poetas. (Tradução minha da Nota da Editora, p. 115-116).

 


sexta-feira, 27 de setembro de 2019

POESIA NÃO É UM LUXO, DE AUDRE LORDE



A qualidade da luz pela qual escrutinamos nossas vidas tem impacto direto sobre o produto que vivemos, e sobre as mudanças que esperamos trazer por essas vidas. É dentro dessa luz que nós formamos aquelas ideias pelas quais alcançamos nossa mágica e a fazemos realizada. Isso é poesia como iluminação, pois é pela poesia que nós damos nome àquelas ideias que estão – até o poema – inominadas e desformes, ainda por nascer, mas já sentidas. Essa destilação da experiência da qual brota poesia verdadeira pare pensamento como sonho pare conceito, como sentimento pare ideia, e conhecimento pare (precede) entendimento.
Conforme nós aprendemos a sustentar a intimidade do escrutínio e florescer dentro dela, conforme aprendemos a usar os produtos daquele escrutínio para poder dentro de nossa vida, aqueles medos que comandam nossas vidas e formam nossos silêncios começam a perder o controle sobre nós.
Para cada de nós como mulheres, há um lugar escuro por dentro, onde escondido e crescendo nosso espírito verdadeiro se ergue, “lindo / e firme como uma castanha / opondo-se colunar ao (v)nosso pesadelo de fraqueza”[1] e impotência.
Esses lugares de possibilidade dentro de nós são escuros porque são ancestrais e escondidos; eles sobreviveram e cresceram fortes através daquela escuridão. Dentro desses lugares profundos, cada uma de nós mantém uma reserva incrível de criatividade e poder, de emoção e sentimento não examinado e não registrado. O lugar de poder de mulher dentro de cada uma de nós não é branco nem superfície; é escuro, é ancestral, e é profundo.
Quando vemos a vida no modelo europeu unicamente como um problema a ser solucionado, nós contamos somente com nossas ideias para nos deixar livres, pois isso foi o que os patriarcas brancos nos disseram que era precioso.
Mas quanto mais vamos entrando em contato com nossa consciência de vida ancestral, não europeia, como uma situação a ser experienciada e com a qual interagir, nós aprendemos mais e mais a cultivar nossos sentimentos, e a respeitar aquelas fontes secretas de nosso poder de onde vem conhecimento verdadeiro e, portanto, ações duradouras vêm.
Nesse ponto no tempo, acredito que as mulheres carregamos dentro de nós mesmas a possibilidade de fusão dessas duas abordagens tão necessárias à sobrevivência, e chegamos perto dessa combinação em nossa poesia. Eu falo aqui de poesia como uma destilação revelatória da experiência, não o jogo de palavras estéril que, muitas vezes, os patriarcas brancos distorceram a palavra poesia para significar – para cobrir um desejo desesperado por imaginação sem vislumbre.

Para mulheres, então, poesia não é um luxo. Ela é uma necessidade vital de nossa existência. Ela forma a qualidade da luz dentro da qual predizemos nossas esperanças e sonhos em direção a sobrevivência e mudança, primeiro feita em linguagem, depois em ideia, então em ação mais tocável. Poesia é a maneira com que ajudamos a dar nome ao inominado, para que possa ser pensado. O horizonte mais distante de nossas esperanças e medos é calçado por nossos poemas, talhado das experiências pétreas de nossas vidas diárias.



Conforme eles se tornam conhecidos e aceitos por nós, nossos sentimentos e a exploração honesta deles se tornam santuários e solo polinizado para o mais radical e audaz de ideias. Eles se tornam um abrigo para aquela diferença tão necessária à mudança e a conceituação de qualquer ação significativa. Agora mesmo, eu poderia nomear pelo menos dez ideias que eu teria achado intoleráveis ou incompreensíveis e assustadoras, exceto se tivessem vindo depois de sonhos e poemas. Isso não é fantasia tola, mas uma atenção disciplinada ao verdadeiro significado de “isso parece certo para mim.” Nós podemos nos treinar a respeitar nossos sentimentos e transpô-los em uma linguagem para que possam ser compartilhados. E onde aquela linguagem ainda não existe, é nossa poesia que ajuda a tecê-la. Poesia não é só sonho e visão; ela é a estrutura óssea de nossas vidas. Ela lança as fundações para um futuro de mudança, uma ponte entre nossos medos do que nunca aconteceu antes.
Possibilidade não é para sempre nem instante. Não é fácil sustentar crença em sua eficácia. Às vezes podemos trabalhar muito e duro para estabelecer uma primeira trincheira de resistência real às mortes que esperam que vivamos, só para ter essa trincheira roubada ou ameaçada por aquelas calúnias que fomos socializadas a temer, ou pela retirada daquelas aprovações que fomos alertadas a buscar por segurança. Mulheres nos vemos diminuídas ou abrandadas pelas falsamente benignas acusações de infantilidade, de não-universalidade, de mutabilidade, de sensualidade. E quem pergunta a questão: eu estou alterando sua aura, suas ideias, seus sonhos, ou eu estou meramente movendo você a atos temporários e reativos? E mesmo que a segunda não seja má tarefa, é uma que deve ser vista no contexto de uma necessidade de verdadeira alteração das fundações mesmas de nossas vidas.
Os patriarcas brancos nos disseram: penso, logo existo. A mãe Negra dentro de nós – a poeta – sussurra em nossos sonhos: eu sinto, portanto eu posso ser livre. Poesia cunha a linguagem para expressar e empenhar essa demanda revolucionária, a implementação daquela liberdade.
Contudo, a experiência nos ensinou que ação no agora é também necessária, sempre. Nossas crianças não podem sonhar a não ser que elas vivam, elas não podem viver a não ser que estejam nutridas, e quem mais vai alimentá-las da comida verdadeira sem a qual seus sonhos não serão nada diferentes dos nossos? “Se você quer que nós mudemos o mundo algum dia, nós ao menos tempos que viver tempo o bastante para crescer!”, grita a criança.
Às vezes nos drogamos com sonhos de ideias novas. A cabeça vai nos salvar. O cérebro sozinho vai nos libertar. Mas não há ideias novas ainda esperando nas asas para nos salvar como mulheres, como humanas. Só há aquelas velhas e esquecidas, novas combinações, extrapolações e reconhecimentos desde dentro nós mesmas – junto à renovada coragem para tenta-las. E nós temos que encorajar constantemente a nós mesmas e a cada outra para tentarmos as ações heréticas que nossos sonhos implicam, e que tantas das nossas velhas ideias desprezam. Na linha de frente de nossa movimentação até mudança, só há poesia para aludir à possibilidade feita real. Nossos poemas formulam as implicações de nós mesmas, o que sentimos dentro e ousamos fazer realidade (ou trazer ação de acordo com), nossos medos, nossas esperanças, nossos terrores mais cultivados.
Pois dentro de estruturas vivas definidas pelo lucro, pelo poder linear, pela desumanização institucional, nossos sentimentos não foram feitos para sobreviver. Mantidos por perto como adjuntos inevitáveis ou passatempos prazenteiros, era esperado que sentimentos se curvassem a pensamento como era esperado que mulheres se curvassem a homens. Mas as mulheres temos sobrevivido. Como poetas. E não há sofrimentos novos. Nós já os sentimos todos. Nós escondemos tal fato no mesmo lugar em que nós escondemos nosso poder. Eles emergem em nossos sonhos, e são nossos sonhos que apontam o caminho para liberdade. Aqueles sonhos se tornam realizáveis por nossos poemas que nos dão a força e coragem para ver, sentir, falar, e ousar.
Se o que precisamos para sonhar, para mover nossos espíritos mais profunda e diretamente até o encontro e através de promessa, é menosprezado como luxo, então nós desistimos do cerne – a fonte – de nosso poder, nossa mulheridade; nós desistimos do futuro de nossos mundos.
Pois não há ideias novas. Só há novas maneiras de fazê-las sentidas – de examinar como nos parecem aquelas ideias sendo vividas no domingo de manhã às 7 A.M, depois do café da manhã, durante amor voraz, fazendo guerra, parindo, chorando nossxs mortxs – enquanto nós sofremos as velhas esperas, combatemos os velhos conselhos e medos de sermos silentes e impotentes e sós, enquanto nós provamos nossas possibilidades e forças.





[1] Traduzido por tatiana nascimento, novembro de 2012. dissonante@gmail.com / traduzidas.wordpress.com
[2] Publicado pela primeira vez em Chrysalis: A Magazine of Female Culture, n. 3 (1977). Nota da autora.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

O QUE (RE)LER EM 2019



1. Literatura cearense: outra história 
Autor: Rodrigo Marques 
Ed. Dummar




2. Fascismo: um alerta
Autora: Madeleine Albright 
Ed. Crítica



3. Samuel Beckett e seus duplos: espelhos, abismos e outras vertigens literárias 
Autora: Cláudia Maria de Vasconcellos 
Ed. Iluminuras 

4. Valsa brasileira: do boom ao caos econômico 
Autora: Laura Carvalho 
Ed. Todavia 

5. Capítulos de história social dos sertões 
Tyrone Apollo Pontes Cândido e Frederico de Castro Neves (Org.)
Ed. Plebeu gabinete de leitura 

6. O ano do pensamento mágico 
Autora: Joan Didion 
Ed. Harper Collins


7. Maria bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço 
Autora: Adriana Negreiros 
Ed. Objetiva 

8. Quem tem medo do feminismo negro? 
Autora: Djamila Ribeiro 
Ed. Companhia das Letras 

9. A mãe de todas as perguntas: reflexões sobre os novos feminismos 
Autora: Rebecca Solnit 
Ed Companhia das Letras 

10. Essays & speeches 
Autora: Audre Lorde 
Ed. Crossing Press 

11. Bibliotecas do mundo  
Autor: Lionel Casson 
Ed. Vestígio 

12. Dicionário da escravidão e liberdade 
Autores: Lilian Moritz Schwarcz e Flávio Gomes 
Ed. Companhia das Letras


13. Manuscritos notáveis
Autor: Christopher De Hamel 
Ed. Companhia das Letras 

14. O livro dos livros perdidos 
Autor: Stuart Kelly 
Ed. Record 

15. Shakespeare and Company: uma livraria na Paris do entre-guerras 
Autora: Sylvia Beach 
Ed. Casa da Palavra 

16. Um livro por dia: minha temporada parisiense na Shakespeare and Company 
Autor: Jeremy Mercer 
Ed. Casa da Palavra 

17. Com Borges 
Autor: Alberto Manguel 
Ed. Âyné 

18. Ele que o abismo viu: epopeia de Gilgamesh 
Tradução e comentários: Jacyntho Lins Brandão 
Ed. Autêntica


19. Aqueles que queimam livros
Autor: George Steiner 
Ed. Âyné 

20. Tempos de cigarro sem filtro 
Autor: José Maschio
Ed. Kan


21. As consequências do amor 
Autor: Sulaiman Addonia 
Ed. Record


22. Antologia poética 
Autora: Anna Akhmátova 
Ed: L&PM 

23. Úrsula 
Autora: Maria Firmina dos Reis 
Ed. Zouk 

24. Quarto de despejo 
Autora: Carolina Maria de Jesus 
Ed. Ática 

25. A vontade radical 
Autora: Susan Sontag 
Ed. Companhia de Bolso


26. Confissões de um jovem romancista 
Autor: Umberto Eco 
Ed. Record 

27. Amoras 
Autor: Emicida 
Ed. Companhia das Letrinhas 

28. O amor pega feito um bocejo
Autor: Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira 
Ed. Companhia das Letrinhas


29. Subcidadania brasileira: para entender o país além do jeitinho brasileiro
Autor: Jessé de Souza 
Ed. Leya 

30. Da Angústia ao Pânico: sonhos, sintomas e desamparo 
Autor: Carlos Eduardo de Sousa Lyra 
Ed. Appris


31. Brazen: Rebel ladies who rocked the world 
Autora: Pénélope Bagieu 
Ed. First Second 

32. Lost in Translation: an illustrated compendium of unstranslatable words from around the world 
Autora: Ella Francis Sanders 
Ed. Tem Speed Press 

33. Respostas breves para grandes questões 
Autor: Stephen Hawking 
Ed. Intrínseca 

34. O feminismo é para todo mundo 
Autora: Bell Hooks 
Ed. Rosa dos tempos

35. A cidade 
Autor: Mailson Furtado 
Ed. Expressão Gráfica e Editora


36. Nas tuas mãos 
Autora: Inês Pedrosa 
Ed. Publicações Dom Quixote 

37. Deus ajude essa criança 
Autora: Toni Morrison 
Ed. Companhia das Letras 

38. My Lesbian Experience with Loneliness 
Autora: Nagata Kabi 
Ed. East Press 

39. The Letters of Sylvia Plath, vol 1 (1940-1956) 
Editores: Peter K. Steinberg e Karen V. Kukil 
Ed. Harper Collins 

40. Niketche: uma história de poligamia 
Autora: Paulina Chiziane 
Ed. Companhia das Letras