terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Augusto Pontes: o amigo genial

 

Belchior era amigo de Ednardo que é amigo de Fausto que é amigo de Fagner e de Rodger Rogério, Téti e Pedro que é amigo de Ricardo que é amigo de Ibiapina que é amigo de Mariano e Alano que são amigos de Paulo que é amigo de Alexandre que é amigo de Isabel que é amiga de Bruno que é amigo de Edvardo que é amigo de Campelo e Chica, Dedé, Leny, Mércia, Sérgio e Jorge que é amigo de Mônica que é amiga de Ataliba que é amigo de Graco que é amigo de Barbosa que é amigo de Caio que é amigo de Beatriz que é amiga de Frederico e de Cláudio que era amigo de Gilmar que era amigo de Celso que é amigo de Eugenio e Daniel e Luciano e Mário e Romeu que é amigo de Galba que é amigo de Wagner que é amigo de Cid e Lúcio que são amigos de Patrícia que é amiga de Solon que é amigo de Ana que é amiga de Fernando e Roberto.

Pode ser que nem todo mundo que é citado como “era/é amigo ou amiga de” nem o seja, mas o que todas essas pessoas têm  em comum é que tiveram, sim, um amigo genial chamado Francisco Augusto Pontes, conhecido também como Augusto Pontes ou apenas Chico Pontes. Augusto pontes (1935 – 2009) é tido por aquelas pessoas que partilharam do seu convívio, como uma figura inteligente, culta e marcante tanto no âmbito pessoal quanto profissional. E é exatamente sobre ele que trata o livro Augusto Pontes: o amigo genial (2022), organizado por Ricardo F. Bezerra e publicado pela Expressão Gráfica e Editora, de Fortaleza.

O livro possui 285 páginas. As orelhas são assinadas por Rachel Gadelha, Diretora-presidenta do Instituto Dragão do Mar e por Fabiano dos Santos Piúba, Secretário de Cultura do Ceará, que dizem:

(...) Augusto é incomparável. Espírito audacioso sustentado sobre uma sólida formação intelectual foi personagem determinante nos movimentos artísticos do Ceará desde a década de 1960, sobretudo na música popular que projetou tantos parceiros e amigos seus no cenário nacional (...). Suas concepções sobre cultura, comunicação, democracia e liberdade ainda hoje são referências para muitos: através de amigos, artistas, professores, comunicadores, formadores de opinião, e toda uma geração de pessoas que, posteriormente, vieram inclusive a ocupar cargos na gestão pública e tiveram nele uma espécie de “guru”. O próprio Augusto foi secretário de Cultura do estado do Ceará (1991 – 1993) e deixou um legado importante sobre um pensamento não só de cultura, mas de política cultural, ampliando a noção de cultura para além das artes e inserindo a agenda da formação como uma pauta estratégica. O que vieram de projetos, experiências e instituições de formação cultural em nosso estado são legados de seu pensamento pulsante (...).  Não é por acaso que o lema que o guiava à frente da SECULT era: “Vá ao teu povo, ame-o, aprende com ele, sirva-o, comece com o que ele sabe, construa sobre o que ele tem” (...).

 

A obra é constituída de depoimentos das amigas e amigos de Pontes e, por tal razão, muitas vezes as informações se repetem, por se tratarem de memórias relativas aos acontecimentos que foram vivenciados coletivamente na rua, na Praça do Ferreira ou no Bar do Anísio, por exemplo, quando muitos desses amigos e amigas compartilhavam as conversas e as noitadas numa Fortaleza que já não existe mais. Há, e isso o leitor perceberá, informações contraditórias, quando se compara o mesmo fato mencionado por amigos diferentes. Isso, no entanto, não diminui a qualidade e a relevância do trabalho, uma vez que tais detalhes podem ser confirmados ou refutados a partir de outras fontes disponíveis.

O livro está organizado em oito grandes partes, a saber, “Pontes por nós” (p.7), “Pontes para o teatro” (p.228), “Carta íntima do tempo” (p. 244), “Pontes para as canções” (p. 247), “Humor: uma marca pessoal” (p. 264), “Um pós-fácil para Pontes” (p. 274), “Adjetivário e Agradecemos” (p. 281) e “Índice de autores” (p. 285). Augusto Pontes não deixou trabalhos escritos em formato de livro, por exemplo. Logo, não há uma sistematização dos seus pensamentos e ideias a não ser a partir do que dizem seus amigos. O livro deixa claro, em mais de uma ocasião, que há sob os cuidados da família um grande arquivo com suas anotações, desenhos, projetos etc. Dos seus escritos, o livro traz um texto (p. 244 – 246) intitulado “Carta íntima do tempo” e que havia sido confiado por ele a Ieda Estergilda, nos anos 1970. O texto traz algumas reflexões, que podem apontar caminhos aqueles que desejem se aprofundar na vida e na obra do autor em questão.

A organização, catalogação e consequente publicação do arquivo de Augusto Pontes seria de enorme valia para todas as pessoas que tem interesse em seu trabalho, bem como dos tantos pesquisadores que se debruçam sobre  movimentos como o Massafeira e o Pessoal do Ceará, dos quais Pontes foi ator. Isso, no entanto, demanda tempo, interesse público e dinheiro; coisas sempre difíceis quando o assunto é cultura. Mas seguimos esperando, tristes, como dizia Pontes, como um peixe afogado.


sábado, 1 de outubro de 2022

Luiz Oswaldo: artesão de palavras

 


Somente hoje consegui tempo para retomar a leitura do livro Luiz Oswaldo: artesão de palavras (2021), de Maizé Trindade. Trata-se da biografia de um dos maiores educadores do país, o homem responsável por levar a educação de nível superior, especificamente cursos de formação de professores, ao sertão central cearense. Todo o livro é conectado pela lexia “palavra”, e é dividido em sete partes, a saber, I. Primeiras palavras, II. A palavra desafiadora, III. A palavra evangelizadora, IV. A palavra criadora, V. A palavra cuidadora, VI. A palavra libertadora e VII. Outras palavras.

Retomar a leitura da biografia de Luiz Oswaldo, em um momento tão importante na história do Brasil, é ler o que já tivemos a grata satisfação de ouvir de sua própria boca. É relembrar, entre muitas coisas, sua amizade com Lula da Silva e com Paulo Freire. É reconhecer sua dedicação infinita em prol da educação, como forma de acreditar no melhor do ser humano, na necessidade de se formarem professores e professoras comprometidas e comprometidos não apenas com o estar-no-mundo, mas como agir para transformar nosso mundo em um lugar inclusivo, acolhedor e igualitário. Lutar com palavras, nos diz Drummond, é a luta mais vã. Entanto, continua o poeta, lutamos mal rompe a manhã. E assim o são Oswaldo, Lula e Freire, que em meio a palavras fortes como javalis, são muitas vezes tidos como loucos, e acredito até mesmo que o sejam, pois possuem o poder de encantá-las. Lula, por exemplo, até aos “ratos” encanta.



Há, contudo, aqueles de quem as palavras fogem, uma vez que lhes foi permitido apenas o balbucio e a vociferação da sua ignomínia regurgitada quase sempre em ataques ao próximo, ao diferente. E foi assim que no dia 16 de setembro do ano corrente, durante um evento em Londrina, no Paraná, o senhor que ocupa a cadeira da Presidência da República disse: “... Somos um país que não tem problemas outros. O único problema que nós temos aqui é o PT, composto de pessoas que vieram dos rincões, dos grotões, daqueles locais onde nada poderia sair dali a não ser esse tipo de gente”. O discurso do candidato em questão certamente encheu de orgulho Joseph Goebbels. Além disso, serviu para confirmar a impressão de David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan, quando ao elogiar o referido mandatário, disse: “ele soa como nós”.

Luiz Oswaldo nasceu em Natal, Paulo Freire em Recife e Lula da Silva em Garanhuns, no agreste de Pernambuco. Pode-se dizer, então, que são todos eles oriundos dos rincões e grotões do Brasil, de onde sai esse maravilhoso tipo de gente. O compromisso desses três homens na luta por um Brasil democrático e livre possibilitou que se encontrassem sempre, e com fé renovada na esperança por dias melhores. Quanto a isso, o livro de Maizé Trindade é rico em imagens. Entre tantas, tem-se Oswaldo e Lula em um carro (p.287), quando da visita de Lula a Quixadá, Ceará, durante a campanha presidencial de 1989. No mesmo dia, após apresentação de Luiz Oswaldo, Lula discursou em Quixadá para um público estimado em 10 mil pessoas (p.287). Há também duas imagens que mostram os amigos Luiz Oswaldo e Lula da Silva juntos. A primeira registra a visita que o Presidente Lula fez ao Banco do Brasil, em Brasília, em 2006, quando Luiz Oswaldo ocupava a Vice-Presidência do referido Banco. E a segunda é quando do aniversário do PT em Brasília, no mesmo ano (p.288).

Sobre os encontros entre Luiz e Paulo (é assim que Oswaldo sempre se refere ao amigo Freire), a obra disponibiliza dois registros. No primeiro, Luiz Oswaldo e Paulo Freire dividem uma mesa com Cristiano Goes e Nita Freire, durante o Curso de Formação de Educadores do BB-Educar, realizado no centro de treinamento do DESED em Brasília, em 1994. Na outra imagem, no Encontro de educadores do BB-Educar, em Fortaleza, Ceará, em 1996, tem-se Luiz Oswaldo, Maria Ruth Barreto e Paulo Freire (p.289). A apresentação da obra ficou a cargo da educadora Nita Freire. O posfácio, por sua vez, foi escrito pela deputada Erika Kokay. Há uma orelha assinada por Sérgio Riede e, na contracapa, um texto de Frei Betto.

O livro é sobre a vida do educador Luiz Oswaldo Sant’Iago Moreira de Souza, mas é também sobre Luiz Inácio Lula da Silva, Paulo Reglus Neves Freire e o Brasil dos rincões, grotões e metrópoles. Assim, no momento em que o Brasil se vê na urgência de decidir entre a civilização e a barbárie, a leitura do livro de Maizé Trindade é indispensável, uma vez que a pena da autora, ao descortinar a vida e as lutas de Luiz Oswaldo, mantém acesa a esperança que reside em todos nós, pois “quando a gente perde a esperança, perde tudo. A esperança é o princípio da vida. A esperança liberta. É aquilo que ainda não é, mas que pode vir a ser”. Na correria da vida, sigamos brigando por ideias, pois “o destino da palavra é criar a liberdade”.

 


segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

O QUE (RE)LER EM 2022

              

1.      A filha perdida

Elena Ferrante

Intrínseca

 

2.      Viver é melhor que sonhar: os últimos caminhos de Belchior

Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti

Editora Sonora

 

3.      Torto arado

Itamar Vieira Júnior

Todavia

 

4.      Pelão: a revolução pela música


Celso de Campos Jr.

Garoa Livros

 

5.      Anos de chumbo e outros contos

Chico Buarque

Companhia das Letras

 

6.      Como ler os russos

Irineu Franco Perpétuo

Todavia

 

7.      Quanto ao futuro, Clarice

Júlio Diniz (Org.).

Bazar do Tempo/PUC

 

8.      Lupicínio e a dor de cotovelo

Rosa Dias

Língua Geral

 

9.      The collected poems 1956-1998

Zbigniew Herbert

Harper Collins

 

10.  Um bárbaro no jardim

Zbigniew Herbert

Editora Âyiné

 

11.  Garota, mulher, outras

Bernardine Evaristo

Companhia das Letras

 

12.  Meu caro Chico

Augusto Lins Soares (Org.).

Francisco Alves

 

13.  Chico Buarque, o romancista: ensaios

Rinaldo de Fernandes (Org.).

Garamond

 

14.  Lina: uma biografia

Francesco Perrotta-Bosch

Todavia

 

15.  Lina Bo Bardi: o que eu queria era ter história

Zeuler r. M. de A. Lima

Companhia das Letras

 

16.  Collected poems 1950-2012

Adrienne Rich

W.W. Norton & Company

 

17.  Just Us – an american conversation

Claudia Rankine

Graywolf Press

 

18.  Cidadã – uma lírica americana

Claudia Rankine

Edições Jabuticaba

 

19.  O papel de parede amarelo e outras histórias

Charlotte Perkins Gilman

Bazar do Tempo

 

20.  Rastejando até Belém

Joan Didion

Todavia

 

21.  O álbum branco

Joan Didion

Harper Collins

 

22.  Jards Macalé – eu só faço o que quero

Fred Coelho

Numa

 

23.  Castas: as origens de nosso mal-estar

Isabel Wilkerson

Zahar

 

24.  Black and British: a forgotten history

David Olusoga

Pan Books

 

25.  Os jacobinos negros: Toussaint L’Ouverture e a revolução de São Domingos

C.L.R. James

Boitempo

 

26.  Aporofobia, a aversão ao pobre: um desafio para a democracia

Adela Cortina

Editora Contracorrente

 

 27. Notas sobre o luto

Chimamanda Ngozi

Companhia das Letras


28. Cartas a uma negra

Françoise Ega

Todavia