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sábado, 1 de outubro de 2022

Luiz Oswaldo: artesão de palavras

 


Somente hoje consegui tempo para retomar a leitura do livro Luiz Oswaldo: artesão de palavras (2021), de Maizé Trindade. Trata-se da biografia de um dos maiores educadores do país, o homem responsável por levar a educação de nível superior, especificamente cursos de formação de professores, ao sertão central cearense. Todo o livro é conectado pela lexia “palavra”, e é dividido em sete partes, a saber, I. Primeiras palavras, II. A palavra desafiadora, III. A palavra evangelizadora, IV. A palavra criadora, V. A palavra cuidadora, VI. A palavra libertadora e VII. Outras palavras.

Retomar a leitura da biografia de Luiz Oswaldo, em um momento tão importante na história do Brasil, é ler o que já tivemos a grata satisfação de ouvir de sua própria boca. É relembrar, entre muitas coisas, sua amizade com Lula da Silva e com Paulo Freire. É reconhecer sua dedicação infinita em prol da educação, como forma de acreditar no melhor do ser humano, na necessidade de se formarem professores e professoras comprometidas e comprometidos não apenas com o estar-no-mundo, mas como agir para transformar nosso mundo em um lugar inclusivo, acolhedor e igualitário. Lutar com palavras, nos diz Drummond, é a luta mais vã. Entanto, continua o poeta, lutamos mal rompe a manhã. E assim o são Oswaldo, Lula e Freire, que em meio a palavras fortes como javalis, são muitas vezes tidos como loucos, e acredito até mesmo que o sejam, pois possuem o poder de encantá-las. Lula, por exemplo, até aos “ratos” encanta.



Há, contudo, aqueles de quem as palavras fogem, uma vez que lhes foi permitido apenas o balbucio e a vociferação da sua ignomínia regurgitada quase sempre em ataques ao próximo, ao diferente. E foi assim que no dia 16 de setembro do ano corrente, durante um evento em Londrina, no Paraná, o senhor que ocupa a cadeira da Presidência da República disse: “... Somos um país que não tem problemas outros. O único problema que nós temos aqui é o PT, composto de pessoas que vieram dos rincões, dos grotões, daqueles locais onde nada poderia sair dali a não ser esse tipo de gente”. O discurso do candidato em questão certamente encheu de orgulho Joseph Goebbels. Além disso, serviu para confirmar a impressão de David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan, quando ao elogiar o referido mandatário, disse: “ele soa como nós”.

Luiz Oswaldo nasceu em Natal, Paulo Freire em Recife e Lula da Silva em Garanhuns, no agreste de Pernambuco. Pode-se dizer, então, que são todos eles oriundos dos rincões e grotões do Brasil, de onde sai esse maravilhoso tipo de gente. O compromisso desses três homens na luta por um Brasil democrático e livre possibilitou que se encontrassem sempre, e com fé renovada na esperança por dias melhores. Quanto a isso, o livro de Maizé Trindade é rico em imagens. Entre tantas, tem-se Oswaldo e Lula em um carro (p.287), quando da visita de Lula a Quixadá, Ceará, durante a campanha presidencial de 1989. No mesmo dia, após apresentação de Luiz Oswaldo, Lula discursou em Quixadá para um público estimado em 10 mil pessoas (p.287). Há também duas imagens que mostram os amigos Luiz Oswaldo e Lula da Silva juntos. A primeira registra a visita que o Presidente Lula fez ao Banco do Brasil, em Brasília, em 2006, quando Luiz Oswaldo ocupava a Vice-Presidência do referido Banco. E a segunda é quando do aniversário do PT em Brasília, no mesmo ano (p.288).

Sobre os encontros entre Luiz e Paulo (é assim que Oswaldo sempre se refere ao amigo Freire), a obra disponibiliza dois registros. No primeiro, Luiz Oswaldo e Paulo Freire dividem uma mesa com Cristiano Goes e Nita Freire, durante o Curso de Formação de Educadores do BB-Educar, realizado no centro de treinamento do DESED em Brasília, em 1994. Na outra imagem, no Encontro de educadores do BB-Educar, em Fortaleza, Ceará, em 1996, tem-se Luiz Oswaldo, Maria Ruth Barreto e Paulo Freire (p.289). A apresentação da obra ficou a cargo da educadora Nita Freire. O posfácio, por sua vez, foi escrito pela deputada Erika Kokay. Há uma orelha assinada por Sérgio Riede e, na contracapa, um texto de Frei Betto.

O livro é sobre a vida do educador Luiz Oswaldo Sant’Iago Moreira de Souza, mas é também sobre Luiz Inácio Lula da Silva, Paulo Reglus Neves Freire e o Brasil dos rincões, grotões e metrópoles. Assim, no momento em que o Brasil se vê na urgência de decidir entre a civilização e a barbárie, a leitura do livro de Maizé Trindade é indispensável, uma vez que a pena da autora, ao descortinar a vida e as lutas de Luiz Oswaldo, mantém acesa a esperança que reside em todos nós, pois “quando a gente perde a esperança, perde tudo. A esperança é o princípio da vida. A esperança liberta. É aquilo que ainda não é, mas que pode vir a ser”. Na correria da vida, sigamos brigando por ideias, pois “o destino da palavra é criar a liberdade”.

 


domingo, 10 de maio de 2015

SOCIEDADE, CIÊNCIA E SERTÃO: REFLEXÕES SOBRE EDUCAÇÃO, HISTÓRIA, CULTURA E TECNOLOGIAS

Houve um tempo em que muitas pessoas acreditavam que os conhecimentos eram estanques e que cada um deles deveria ocupar um local específico, sem jamais se misturar com os outros. Os tempos passaram e muito desse pensamento equivocado já se evanesceu faz tempo. É claro que, entre perdidos e achados, ainda há uns gatos pingados acreditando que a vida só segue em uma única direção.

Sobre os ombros da contemporaneidade incide a necessidade de uma compreensão multidisciplinar do conhecimento. Sobre as fronteiras do conhecimento, Gaston Bachelard levanta os seguintes questionamentos:

O conceito de fronteira do conhecimento científico tem sentido absoluto? Seria possível traçar as fronteiras do pensamento científico? Estamos dentro de um domínio objetivamente fechado? Estamos sujeitos a uma razão imutável? É o espírito uma espécie de instrumento orgânico, invariável como a mão, limitado como a visão? É ele obrigado a uma evolução regular ligada a uma evolução orgânica? Aí estão perguntas, múltiplas e conexas, que questionam a filosofia e que conferem um interesse primordial ao estudo do progresso do pensamento científico. (BACHELARD, 2008:69)

Certamente que o autor de A poética do espaço (2005) já provocava com esses questionamentos reflexões acerca da necessidade do humano de encaixotar saberes dentro de domínios teoricamente fechados, o que nos afastaria da sabedoria, uma vez que, conforme afirma Leonardo Boff, sabedoria é poder saborear todos os saberes, pois todos eles revelam algo do ser.

Assim, comprometida com a ideia de que nenhum saber se exclui, mas se complementa. a Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central – FECLESC, da Universidade Estadual do Ceará – UECE, traz a lume o volume dois do livro Sociedade, ciência e sertão: reflexões sobre educação, história e cultura e tecnologias (2014). O trabalho foi organizado pelos professores Francisco Carlos Carvalho da Silva, Isaíde Bandeira da Silva e Makarius Oliveira Tahim; tendo sido publicado pela editora da própria UECE, com prefácio de Fátima Maria Leitão Araújo.

O trabalho está organizado em duas partes. A primeira parte traz sete artigos, enquanto a segunda apresenta seis. São artigos acadêmicos que tratam dos mais variados assuntos, em uma tentativa de abarcar as diversas áreas de pesquisas que coexistem no âmbito da Universidade e dizem respeito aos campos da educação, história, cultura e tecnologias; bem como das suas interfaces. Dessa forma, na mesma obra, pode-se entrar em contato com a poesia de Linhares Filho (p. 67 – 84), conhecer sobre as relações entre parteiras e parturientes no sertão do Ceará (p. 129 – 144) ou aprender sobre queijo coalho artesanal (p.209 – 222) e ainda a respeito dos supercondutores (p. 223 – 233).

O livro em questão é parte de um projeto que pretende, a cada ano, publicar um volume nos mesmos moldes, tentando unir temas de interesse não apenas da Academia, mas acessíveis a um público não especializado. Assim sendo, a linguagem utilizada na abordagem dessas questões tenta se mostrar o mais próxima possível do leitor comum, sem, no entanto, se afastar do caráter acadêmico-científico. Sobre o caráter multidisciplinar da obra, a professora Fátima Maria Leitão Araújo, afirma:

O livro Sociedade, ciência e sertão: reflexões sobre educação, história, cultura e tecnologias enfrenta o desafio de articular uma infinda diversidade de temas que, pela especificidade inerente a cada um, pode suscitar estranhamento por parte do leitor. Por outro lado, podemos encontrar elos que os unem no aparente labirinto da incoerência: tempo e cultura, conceitos que explícita ou implicitamente se fazem presentes nos estudos aqui abordados, pois, independente de estarem ou não ligados diretamente ao mister historiográfico ou sociológico, todos trazem em suas análises a delimitação temporal e os meandros culturais que se materializam na explicitação dos objetos de estudo, histórica e culturalmente situados em um dado espaço e em um determinado tempo. (ARAÚJO, 2014:10)

Dessa forma, o caráter multidisciplinar presente nos artigos do trabalho em questão aponta para uma concepção de educação e cultura que se pauta pelo mais amplo, pelo mais geral e, consequentemente, por uma visão mais democrática da apreensão do conhecimento.



Serviço:
Editora da Universidade Estadual do Ceará – EdUECE
Av. Dr. Silas Munguba, 1700 – Campus do Itaperi – Reitoria – Fortaleza – CE
Link: http://www.uece.br   E-mail de contato: eduece@uece.br