
O que faz com que Khan
continue ouvindo Marco Polo talvez resida na maneira como o veneziano faz seus
relatos. As cidades, sejam quais forem, são o que são. Contudo, o que se dá aos
olhos depende em muito de quem vê. Assim, as cidades podem ser masculinas,
femininas ou até genderless. As
cidades podem ser feias, belas ou malditas. As cidades também podem ser, como
naquela canção de Aroldo e Moraes Moreira, uma representação do amor e da
liberdade. A cidade pode ser uma moça. Pode não ter idade. As cidades comportam
mundos. Abrigam, agridem, amedrontam. Mas afinal, o que é a cidade? Uma maneira
de responder tal questionamento é fugindo dos muros e das grades que nos
“protegem” de quase tudo. Mas, Humberto Gessinger já nos alertou que o quase
tudo, quase sempre é quase nada. Dessa forma, é necessário sair à rua e ver a
cidade fluir, de perto, com seus odores, suas flores e seus desvãos.
E me parece que foi
exatamente isso que os escritores Carlos Nóbrega e O Poeta de Meia-Tigela
resolveram fazer. O resultado dessa empreitada é o livro Acidade, de 2016, publicado pela Expressão Gráfica e Editora. O
livro tem 156 páginas. O prefácio foi escrito por Bárbara Costa Ribeiro,
enquanto o posfácio ficou a cargo de Li Lê Santos. O título do trabalho traz em
si um trocadilho entre “a cidade” e “acidade” (acidez), ao mesmo tempo em que
reconhece na cidade, a acidade.
CAENS
DE RUA
A
cidade é um lugar anormal,
Uma
guerra entre o mau e o mau
Vence
quem late mais au
Perde
quem perde o sinal. (p.43)

Zero é considerado, hoje, um romance de caráter pós-moderno. Os
tempos, conforme disse Raduan Nassar ao receber o Prêmio Camões, continuam
sombrios. Dessa forma, toda e qualquer obra verdadeiramente artística corre
seríssimos riscos de enfrentar “dificuldades gráficas”, para que possa chegar
ao público leitor. Ainda bem que isso não aconteceu com Acidade, tendo em vista a acidade das
decisões político-jurídico-midiáticas que têm assolado o país.
?
aos
teus pés
morrem
dois
morrem
dez
e
depois
morrem
cem
morrem
mil
que
que tem?
é
brasil
são
inúmeros
são
antônios
são
só números
só
anônimos (p.50)
Mas afinal, o que Acidade?
A ficha catalográfica do livro “entrega o jogo”. Lá, lê-se: “Acidade é um
Livro-Zine, um Livro-Zona, um Livro-Zão, um Livro-Zen como qualquer outra
cidade”. Acreditamos que poderia se afirmar que Acidade também
pode ser um Zine-Livro, ou seja, um fanzine em forma de livro capaz de abarcar
tudo aquilo que não seria possível de ser colocado, por questão de espaço, em
um zine tradicional.
CIDADE
o clube é vizinho do açougue
o clube é vizinho do açougue
que
é vizinho da igreja
vizinha
à cadeia
à
esquerda do bordel
que
dá frente ao hospício
ao
lado do bar
nossa
casa no meio
somos
todos vizinhos
somos
todos vizinhos
de
nós mesmos. (p.105)
