Todo início de ano é
quase sempre a mesma coisa: iniciar academia, ler mais, sair com amigos, comer
comida saudável, priorizar a família e beber menos. De todas, a única que
pretendo cumprir é “ler mais”, e a única que definitivamente não cumprirei é “iniciar
academia”. Os livros que lerei no ano de 2026 já estão organizados em três
pilhas sobre minha mesa de trabalho. O ano de 2026, sabemos, não será nada
fácil. Assim, uma leitura aqui e outra acolá poderá nos ajudar a suportar a
leveza e o peso que o novo ano nos reserva.
Nas minhas três pilhas,
crônicas, ensaios, contos e biografias. Os romances pretendidos foram lidos
ainda em 2025. Isso não quer dizer que no decorrer do ano que se inicia outros
romances não venham a surgir. Surgindo, serão acrescentados às pilhas. O
negócio é andar para frente, pois como bem nos lembra o astrofísico Chamkaur
Ghag: “o tempo avança e nunca retrocede”. Entre os livros na minha mesa, que
muito em breve serão quatro, cinco ou seis pilhas, estou com os olhos compridos
para o livro A história é uma literatura contemporânea: manifesto pelas
ciências sociais (2020), de Ivan Jablonka, na pilha um. Ao seu lado, Letramento
racial: uma proposta de reconstrução da democracia brasileira (2025), de
Adilson José Moreira, que dialoga muito bem com Como ser um educador
antirracista (2023), de Bárbara Carine que, por sua vez, bate um bom papo
com Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior: 81 lições do
método Sueli Carneiro (2025), de Cidinha da Silva, e Racismo algorítmico:
inteligência artificial e discriminação nas redes sociais (2022), de Tarcízio
Silva.
Na segunda pilha,
descansam Che leitor (2025), livro com textos de Alberto Manguel e
outros autores, Ruas biográficas (2025), de Emmanuel Montenegro, Revolucionários
da crítica: cinco críticos que mudaram o modo como lemos (2024), de Terry
Eagleton e Chomsky e Mujica: sobrevivendo ao século XXI (2025), de Saúl
Alvídrez. Entre aqueles que compõem a pilha três, Raoni: memórias do
cacique (2025), O Essencial Chomsky (2024), organizado por Anthony
Arnove, Os pêssegos e outros contos (2025), de Dylan Thomas e Andorinhando
(2022), de Valdenia Silva, livro este que exige nossa atenção.
Andorinhando
é um livro de poemas de autoria de Valdenia Silva que, embora tenha sido
publicado no ano de 2022, pela editora Radiadora, somente agora “caiu” em
minhas mãos. Foi a leitura deste livro que escolhi para inaugurar todas as
demais leituras que farei ao longo do ano de 2026. Acertei em cheio, pois
trata-se de uma obra de altíssima qualidade literária na qual a autora constrói
uma poética cujos versos discutem questões sociais, políticas e culturais sem
se afastar da leveza e dos afetos que constituem a boa poesia, como podemos ver
nos versos: “Que destino dar à minha coleção de selos, /se não tenho mais teu
endereço?” (p.53), “Afetos não sobrevivem com migalhas” (p.59), e a ainda: “Não
importa:/ Quem escreve um poema/também salva a si mesmo”.
Além de temáticas como
amor, dor, cegueira, feminino, feminicídio, racismo e as demais lutas que
travamos cotidianamente, os poemas de Andorinhando estão repletos de
intertextualidades, as quais apontam para leituras feitas pela própria poeta. O
título Andorinhando já traz em si uma aproximação com a obra As Andorinhas
(2009), de Paulina Chiziane. E assim sendo, observamos a poesia de Andorinhando
dialogar com a literatura produzida por Carlos Drummond de Andrade (pp. 20, 22,
52, 62, 68, 81), Belchior (p. 34), João Bosco e Aldir Blanc (p.35), Chico
Buarque (p.36), Cecília Meireles (p.39), Manuel Bandeira (pp. 50, 86), T.S.
Eliot e Adélia Prado (p.63), Clarice Lispector (pp.65, 67), Schopenhauer
(p.70), Beatles (p.71), Raul Seixas (p.80), Rachel de Queiroz (p.84) e
Shakespeare (p.85) entre vários outros.
A poesia de Valdenia
Silva está entre o que de melhor tem sido produzido na literatura brasileira, o
que a aproxima da poesia praticada por Orides Fontela, Angélica Freitas,
Stephanie Borges e Lupi Prates, por exemplo. Ao traçarmos tal aproximação com
autoras estrangeiras, não tenho medo de errar ao afirmar que sua poética
dialoga de perto com aquelas produzidas por Pat Parker, Audre Lorde, Claudia
Rankine, Adrienne Rich e Jean “Binta” Breeze, entre tantas outras. Em Andorinhando,
a poeta Valdenia Silva nos oferece palavras. E isso é tudo. Na sua própria voz,
tem-se: “Ofereço-te palavras/como quem borda os acontecimentos”. Depois deste
verso, senhoras e senhores, o que quer que ainda se diga aqui se torna
completamente irrelevante.
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