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domingo, 11 de fevereiro de 2018

CEGO ADERALDO: O HOMEM, O POETA E O MITO, DE ROSEMBERG CARIRY

Cego Aderaldo é homem do Crato, interior do Ceará. Nasceu no dia 24 de junho de 1878, na Rua da Pedra Lavrada, também conhecida como  Rua da Vala. Filho de Joaquim Rufino de Araújo e Maria Olímpia de Araújo. Sua história é feita de tristezas, perdas e alegrias, como são tecidas as histórias de todos os viventes. Os muitos detalhes da sua existência foram contados pelo próprio Aderaldo ao amigo Eduardo Campos que, durante mais de seis meses registrou as informações que lhe eram ditas, assim como os versos que o velho Cego lhe soprava. Isso lá pelos idos de 1962, quando escreviam  o livro Eu sou o Cego Aderaldo, publicado no ano de 1994, pela editora Maltese, com apresentação de Rachel de Queiroz.

Cego Aderaldo alcançou o reconhecimento em vida, tendo se tornado uma lenda da cantoria nordestina, muitas vezes comparado a Homero ou Tirésias. Ao ser privado da visão, Cego Aderaldo tornou-se voz e fez-se referência e exemplo no imaginário nordestino. Não passou muito tempo após a sua morte, para que o homem e  poeta Cego Aderaldo também se tornasse o mito Cego Aderaldo. É essa história com a riqueza de detalhes que uma boa pesquisa exige que é publicada agora pela editora Interarte, de Fortaleza, com o apoio institucional do Instituto Dragão do Mar, SECULT e Governo do Estado do Ceará. Trata-se de um trabalho de fôlego organizado pelo cineasta e poeta Rosemberg Cariry.
Rosemberg Cariry

Ricamente ilustrado e abundante em fontes de pesquisa, a obra em questão recebeu o nome de Cego Aderaldo – O homem, o poeta e o mito (2017). Na ficha catalográfica, no entanto, a obra está registrada como Cego Aderaldo: o homem, o cantador e o mito, o que nos remete ao filme de Cariry com o mesmo nome. O livro está organizado em três partes, a saber: a primeira parte é denominada de “o homem e o mito” e está subdividida em Ato I (p. 39 – 118), Ato II (p. 119 – 380) e Ato III (p. 381 – 644).  A segunda parte não recebeu denominação. É composta das notas do organizador e obra de Cego Aderaldo (p. 647 – 760). A terceira e última parte está dedicada à cronologia e à bibliografia consultada (p. 763 – 779).

Ao organizar um livro sobre a vida e a obra de Cego Aderaldo, Cariry não apenas presta merecida homenagem ao grande mestre da cantoria nordestina, como contribui de forma inquestionável para a manutenção do reconhecimento cultural das artes que são produzidas no âmbito dos homens e mulheres do povo. Dessa forma, o livro de Rosemberg Cariry, além de manter acesas as luzes  sobre a obra de Aderaldo, também abre caminho para que as novas gerações tenham a oportunidade de vivenciar a riqueza da sua poética. Se farão bom uso de tudo que ali está dito, aí já não se sabe. Os dados estão lançados. As obras, de Aderaldo e de Cariry, estão circulando por aí. Resta-nos descobrir pra que lado é o nascente e seguir, seguir sempre.

Casa de Saberes Cego Aderaldo - Quixadá, Ceará

Em tempo:
Um ano após seu nascimento, Aderaldo, que só ficaria cego aos dezoito anos de idade, no ano de 1896, se estabelece com sua família na cidade de Quixadá, no sertão central do Ceará. Hoje, em sua homenagem, a cidade de Quixadá mantém a Casa de Saberes Cego Aderaldo.

Filme: Cego Aderaldo – o cantador e  o mito, de Rosemberg Cariry, mais informações http://www.imdb.com/title/tt2356076/

Sobre a Casa de Saberes Cego Aderaldo > http://mapa.cultura.ce.gov.br/espaco/891/

sábado, 25 de março de 2017

SERTÃO: POETAS E PROSADORES

O sertão é quase uma incógnita, uma esfinge. Como popularmente se diz: “o sertão não é para os fracos”. Para se viver no sertão, já dizia Euclides da Cunha, precisa-se ser, antes de tudo, um forte”. E o que será que diria o autor do clássico  Os Sertões (1902 ) sobre viver e escrever no sertão? Na verdade, o sertão nem sempre precisa ser o sertão. Itamar Assumpção, por exemplo, diz: “ São Paulo é meu sertão”.

No Dicionário do Brasil Colonial (1550 – 1808), Ronaldo Vainfas traz um esclarecedor verbete denominado “sertão”. Contudo, o sertão de Vainfas é, em muito, diferente do sertão que nos engole de dia com seu calor infernal, mas que à noite nos agasalha e nos protege contra o frio trazido pelo vento Aracati.  E é das vozes desse sertão que o escritor Bruno Paulino trata em seu mais recente livro intitulado Sertão: poetas e prosadores (2017), publicado pela expressão Gráfica e Editora.

O referido trabalho é constituído por 109 páginas, contendo dezenove perfis de autores que, de uma forma ou outra possuem relação com o sertão, mais especificamente, com a cidade de Quixeramobim, situada no Sertão Central do Estado do Ceará. O livro conta também com um prefácio assinado pelo poeta Rodrigo Marques, professor da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central – FECLESC, da Universidade Estadual do Ceará – UECE. A apresentação ficou por conta do escritor Arievaldo Vianna; enquanto o posfácio, por sua vez, ficou a cargo de Alves de Aquino, o Poeta de Meia-Tigela.

Ao longo de Sertão: poetas e prosadores, Bruno Paulino discorre sobre seus encontros e conversas com importantes nomes da cultura brasileira. Dessa forma, estão presentes no trabalho Audifax Rios (Aqui, tem-se uma bela homenagem à memória de Audifax, quando as páginas estão em preto e a indicação dessas páginas é feita com as letras do nome do artista), Marcos Mairton, Luiz Gonzaga, Geraldo Amâncio, Arievaldo Vianna, Rouxinol do Rinaré, Klévisson Vianna, Luiz Costa Filho, João Eudes Costa, Gordurinha, Alberto Porfírio, Moacir Costa Lopes, Vasco Benício, Claudio Portella, saraiva Júnior, Jards Nobre, Diogo Fontenelle, João Pedro do Juazeiro e J. Bosco Fernandes.  

Bruno Paulino, certamente, fez uma seleção dos poetas e prosadores dos quais gostaria de falar na obra em questão. E, talvez por isso, alguns poetas e prosadores de enorme relevância acabaram ficando de fora. Assim sendo, sentimos falta de um capítulo que fosse dedicado ao Cego Aderaldo (o capítulo “Claudio Portella e ampla visão de Cego Aderaldo”, p. 79 – 84, traz Portella falando sobre Aderaldo), bem como outro dedicado a um dos nossos poetas maiores, Jáder de Carvalho. Nonô da Sanfona (mencionado no capítulo “O rei do baião em Quixeramobim”, p. 30 – 33) também merecia um capítulo só pra ele, assim como o poeta Fausto Nilo, mencionado no mesmo capítulo. Percebemos ainda em Sertão: poetas e prosadores, a ausência de poetisas (o termo “poeta” também pode ser usado no feminino) e prosadoras, as quais, sabemos, existem em grande quantidade pelos nossos sertões; sejam eles “são paulos” ou “quixeramobins”.

E embora os textos que compõem Sertão: poetas e prosadores tenham sido escritos para publicação em jornal; o que poderia caracterizá-los como “perfis jornalísticos”; implicando em uma linguagem mais específica para o veículo, não é isso que se dá. O que se percebe é a linguagem “nua e crua” da crônica dominando todos os textos assinados por Bruno Paulino, o que, de imediato, salta aos olhos do leitor das referidas narrativas.


Assim sendo, Sertão: poetas e prosadores (2017) não deve ser compreendido como um livro de crítica literária ou uma coletânea de perfis, por exemplo, mas como um agradável livro de crônicas que se erigem a partir de uma ideia central, seja um autor, um fato ou uma obra, mas que descambam livremente para outros caminhos, permitindo as mais variadas interpretações que só são possíveis no contexto da abertura proporcionada pela própria obra.