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sábado, 20 de junho de 2026

Aos 85, Bob Dylan reflete sobre envelhecimento: “Você fica sem ilusões”

O cantor e compositor Bob Dylan, 85, abriu o coração sobre os dilemas do envelhecimento. O astro declarou que o aspecto mais difícil de viver na pele a passagem do tempo é perceber que alguns fatos poderiam ter transformado o passado, caso tivessem surgido quando ainda havia espaço para mudar o rumo dos acontecimentos. 

As declarações foram publicadas em um
artigo de opinião para o jornal The New York Times, marcando o aniversário de 80 anos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, celebrado no domingo (14). Embora o cantor de “Blowin’ In The Wind” não faça referência direta ao republicano, ele compartilhou reflexões sobre essa fase da vida.

“A velha chama em seu coração ainda diz para fazer uma coisa ou outra, mas seu corpo responde: ‘Nós já fizemos isso’. Além disso, nada mais surpreende você. Parece um privilégio, mas não é. E você também fica sem ilusões.”

O ídolo da música acrescentou: “A pior parte de ter 80 anos é descobrir, finalmente, que você tem consciência de algo que poderia ter mudado completamente tudo o que ficou para trás, se esse discernimento tivesse chegado em uma época em que ainda fosse possível mudar alguma coisa. Quando você é jovem, acha que o tempo segue em frente. Aos 80, sabe que ele permanece parado. Somos nós que nos movemos.” 

Entretanto, o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura disse acreditar que a principal vantagem de envelhecer é a liberdade de abandonar algumas cobranças.

“A melhor coisa de ter 80 anos é sobreviver aos relógios que passaram a vida perseguindo você. É a liberdade em relação à mentira de que alguma coisa esteve sob controle em algum momento. Você não corre mais atrás do desfile. Você é um velho rei de algum país desaparecido. Fica mais difícil configurar você.”

 

 

Disponível em:

https://www.osul.com.br/aos-85-bob-dylan-reflete-sobre-envelhecimento-voce-fica-sem-ilusoes/amp/


sábado, 7 de fevereiro de 2026

O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo, de Daniella Zupo

 

Estou de recesso do trabalho e, sem nenhum tostão no bolso, entreguei-me às "drogas pesadas" lícitas: música, filmes e livros.  Foi em meio a essa vida de excessos que li, entre outros, O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo (2025), de Daniella Zupo. E mesmo assim, sem um centavo na conta, viajei por várias cidades do mundo. Por culpa da Daniella Zupo, fui parar na cidade que é considerada o coração do inverno, situada mais ao norte da Suécia. A cidade chama-se Kiruna e, conforme Zupo está “localizada a 200 quilômetros do Círculo Polar Ártico, na Lapônia. Kiruna tem temperaturas que chegam a 25 graus negativos e pelo menos um mês em que o sol não nasce”. Como dizem nos filmes americanos: “Fuck!”. E se você quiser saber o que a Daniella Zupo foi fazer nesse "fim de mundo", terá que ler seu livro, pois cada página vale muito a pena.



O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo é constituído de 32 crônicas/relatos de viagens e mais um texto introdutório de João Anzanello Carrascoza, que prefere chamar o livro de road book. O livro abre com um breve texto da autora, que diz: “Esta não é uma obra de ficção. Todas estas viagens aconteceram, embora não necessariamente nesta ordem. Qualquer semelhança com paisagens reais terá sido mera coincidência, embora elas não existam. As coincidências”. Dado o recado, é hora de colocar algumas peças de roupa na mochila e embarcar com a autora pelos mais diferentes e interessantes cantos do planeta. Mas se você, leitor/leitora se acha foda porque já pegou sua mochila, entrou num ônibus por três horas e se achou pronto pra desbravar Canoa Quebrada, você não sabe nada, inocente! Ser foda é subir num trenó puxado por cães, sob uma temperatura de 20 graus negativos, em pleno breu, e “correr” sobre um rio congelado. E então, leitora/leitor, você pode achar que isso é uma loucura, ao que a autora responde: “Nunca é tarde para uma certa loucura. E esta loucura é viver sem medo de morrer. Cantar como Janis Joplin e como os pássaros” (p.157).

Nas viagens pelas quais Zupo nos conduz, passamos por Ouro Preto, Arraial da Ajuda, Buenos Aires, Stratford-upon-Avon, Berlim, Munique, Grécia, Florença, Estocolmo, Kiruna, Lisboa, Brighton, Wiltshire e Tintagel, entre outros lugares não menos fabulosos. É através dos relatos das viagens de Zupo que nos embrenhamos pelas ruas da Lisboa de Fernando Pessoa, da Buenos Aires, de Jorge Luis Borges, e pela Ouro Preto, que já foi de Elizabeth Bishop. Concordamos com autora quando afirma que “cidades são como livros” (p.25). E, como dito em “A rua de Jorge Luis Borges” (p.69-70): “Estar em uma cidade é como ler um livro”. Neste sentido, ao lermos o livro de Daniella Zupo sobre as cidades que visitou, lemos ao mesmo tempo vários outros livros, que se constituem como uma espécie de “literatura dos caminhos”.  

Com as crônicas de O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo aprendemos sobre deslocamentos e permanências, sejam de povos e/ou cidades, pois se Kiruna se desloca, seu povo também o faz, assim como o faz a autora ao “pular’ de uma cidade à outra. Aprendemos sobre aquilo que ainda não conseguimos explicar, como as pedras que formam o Stonehenge, “a maravilha do mundo pré-histórico. O círculo concêntrico de pedras que ninguém sabe como foi parar naquela planície no condado de Wiltshire, no sul da Inglaterra, há milhares de anos” (p.91-92). Aprendemos também sobre a ideia do mito que é, ao mesmo tempo, nada e tudo, quando a autora nos conduz à caverna de Merlin e às ruínas do castelo do Rei Arthur, em Tintagel, na Cornualha, lugar que também teria sido o cenário da lendária história de Tristão e Isolda (p. 95-100).

Um dos pontos mais altos do livro é o belíssimo texto, “Para David” (p.80-81), quando a narradora “conversa” com o David, de Michelangelo. Lemos:

(...) a escultura tem mais de 4 metros de altura e pesa 5 toneladas, que levou três anos para ser concluída. De 1501 a 1504, confirmo no texto em inglês e, desde então, já sofreu vários atentados: de pedradas e marteladas. Mas não é isso que faz você tão humano, David. Ser alvo da tolice, da intolerância ou mesmo da inveja. Talvez seja essa humanidade que escapa em seu estranho olhar, ou nas veias dilatadas, ou no franzido da testa. Você me perturba, David (...). Mais que representação da beleza absoluta, é sua humanidade que impressiona. Não é o divino em você que me arrebata, mas o demasiadamente humano, uma dualidade esculpida: delicadeza e força, tensão e calma, corpo e espirito. (Zupo, 2025, p. 80-81)

Ao longo de suas narrativas, Zupo dialoga, intertextualmente, não apenas com David, mas também com Bob Dylan, Leonard Cohen e Patti Smith, que autografou o Linha M, para Zupo. Que inveja! (p. 36-37). E ainda com Nick Cave, Cy Twombly, Robert Burns, Damien Hirst, Joni Mitchel, Raymond Inmon e Gunner Ekelöf entre inúmeros outros. Excetuando-se alguns erros de grafia na impressão de algumas palavras, O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo é uma beleza. E “beleza são coisas acesas por dentro”. Chegando ao final desta breve viagem, retomo Zupo (p.75), quando cita Bashô, o poeta peregrino que dizia: “a viagem mais para fora é a viagem mais para dentro”. 

Não vou nem desfazer as malas, já na expectativa de saber para onde Daniella Zupo nos levará em seu próximo livro.


terça-feira, 19 de agosto de 2025

Arte é desacordo: o ensaio de Bob Dylan

 


Quando políticos autoritários assumem o poder, cultura e educação são as primeiras áreas atacadas. Não poderia ser diferente, uma vez que são os artistas e os educadores que doam suas vidas em defesa da formação do pensamento crítico, sendo a principal barreira capaz de deter o avanço de políticas extremistas. A arte é subversiva e, na cabeça dessas pessoas, deve ser destruída. Não custa lembrar o que Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, disse: “a arte alemã da próxima década será heroica e imperativa”, o que resultou na queima de milhares de livros, bem como na perseguição, tortura e morte de inúmeros artistas, pois, aqueles que queimam livros, mais cedo ou mais tarde começam a queimar pessoas.

Não faz muito tempo, do lado de baixo do equador, o secretário nacional da cultura daquele (des)governo extremista, cujo líder máximo é hoje réu no STF por ter tramado um golpe de estado, fez um discurso medonho em tudo semelhante ao do nazista Goebbels. Em sua asquerosa fala, o “cidadão de bem” (Alma White gargalha) afirmou que a “arte brasileira da próxima década será heroica e imperativa”. Certamente que todas as semelhanças entre os dois discursos não passam de mera coincidência retórica. Aham!

Recentemente, Donald Trump censurou os museus do país e ordenou que as exposições exaltem a “grandeza americana”. Estaria o “grande irmão” falando da imposição de uma arte nacional, heroica e imperativa?  Não sei. Só sei que já vimos esse filme antes e sabemos bem como termina. No caso, o nazismo foi derrotado, o tal do secretário de cultura voltou para a lata do lixo da qual nunca deveria ter saído, e seu chefe está prestes a puxar uns trinta anos de cana. Quanto ao pato manco, a derrocada parece vir a galope. O “laranjão” desceu pra brincar no parquinho, mas não combinou com os chineses.  

A arte sempre incomodou e continuará incomodando essa gente autoritária e tacanha, que costuma puxar o revólver sempre que se fala em cultura, uma vez que todos os seus acordos e conchavos são baseados em dinheiro, não em arte. Arte é desacordo. E é falando sobre arte (e política) que Bob Dylan inicia o ensaio sobre a música “Money Honey” (p.35-38), de Bob Miller. Diz ele: “Arte é desacordo. Dinheiro é acordo. Eu gosto de Caravaggio, você gosta de Basquiat. Nós gostamos de Frida Kahlo, e Warhol não nos toca. E é assim que a arte prospera, com embates espirituosos. É por isso que não pode haver uma forma nacional de arte. Se houver tentativas de fazer isso, as arestas se dissolvem – o esforço para considerar todas as opiniões, a vontade de não ofender ninguém. Em pouco tempo, tudo se transforma em propaganda ou comercialismo”.

O texto em questão é apenas um dos 66 ensaios constituintes do livro A filosofia da música moderna (2022), publicado no Brasil no ano de 2023, com tradução de Bruna Beber e Julia Debasse. Trata-se do primeiro livro que Dylan publica depois de receber o prêmio Nobel de literatura em 2016. A obra, como afirmam as tradutoras, é “uma aula magistral sobre a arte e o ofício da composição”, cujos textos abarcam canções de Elvis Presley, Nina Simone, The Who, Hank Williams, The Clash e Johnny Cash, por exemplo. Além disso, os ensaios de Dylan discorrem sobre como o compositor pode fugir da armadilha das rimas fáceis, e ensina como uma única sílaba pode causar um impacto para melhor ou para pior na letra de uma canção. Como se isso fosse pouco, o autor de Tarântula (1970) e Crônicas (2004) ainda discorre sobre as relações observáveis entre o bluegrass e o heavy metal, costurando tudo isso com informações que comprovam seu amplo conhecimento sobre os mais variados assuntos da cultura universal. 

Como a arte, e mais especificamente a música, não está “perdida no espaço” nem brota no canteiro da rua, antes de mergulhar nas análises Bob Dylan contextualiza a canção a ser abordada, traçando conexões com a realidade e tomando com eixo de sustentação tudo aquilo que implica naquilo que se compreende por condição humana. E assim sendo, não é nenhum exagero afirmar que A filosofia da música moderna é uma obra de arte em todos os seus aspectos, inclusive os gráficos, escrita na prosa inconfundível de Bob Dylan. Ao final da leitura de cada texto, percebe-se que aqueles ensaios não são “apenas” ensaios, mas poemas em prosa paridos pela mente única de um dos artistas mais relevantes de todos os tempos.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Bob Dylan aos 80

 

Maio já começa dar adeus. O mês se vai, mas ficam as tristezas acumuladas que começaram a se espalhar por aqui no começo do ano de 2020. Em meio a tanta tristeza e dor, uma pausa se faz necessária para comemorarmos o aniversário de 80 anos de Bob Dylan, um dos maiores poetas do século XX, cuja existência e contribuição às artes é imensurável.




Robert Allen Zimmerman nasceu no dia 24 de maio de 1941, adotando tempos depois o pseudônimo de Bob Dylan em homenagem ao poeta galês Dylan Thomas (1914 – 1953). Ao longo da sua carreira, Dylan recebeu todos os prêmios que um artista pode almejar, o que significa o reconhecimento de público e crítica pelo trabalho que desenvolveu em todas as áreas nas quais esteve, a saber, cinema, literatura, música, artes plásticas etc. No ano de 2016, o autor de Like a rolling stone foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura por ter, segundo a Academia sueca, “criado novas expressões poéticas dentro da enorme tradição da música americana”. Dylan é, continuou a Academia, “provavelmente o maior poeta vivo”. A decisão de premiar Dylan com o Nobel de Literatura foi pra lá de acertada. Não o fazer seria como ter a oportunidade de premiar Homero ou Walt Whitman e, simplesmente, ignorar.

Mas por qual razão, em meio a uma pandemia que devasta a terra, tecer loas a Bob Dylan? Numa resposta simples e rápida seria, basicamente, por que Bob Dylan importa. E importa em todos os sentidos que dizem respeito ao estar-no-mundo, como ser humano e como poeta comprometido com a condição humana. Assim, a canção de Dylan ultrapassou há tempos os limites da própria canção, atingindo o status de poesia, fazendo com que o autor de Tarântula (1971) se tornasse referência indispensável para a compreensão sócio-histórica, política e cultural do século XX, uma vez que sua poesia é toda ela permeada não apenas por lirismo, mas por temáticas mais cruas e ácidas que abordam os direitos civis, religião, política, direitos humanos, assim como variados aspectos dos movimentos de contracultura e além. Em outras palavras, a poesia de Bob Dylan tornou-se, pela qualidade que a engendra, uma arte atemporal e universal.

Bob Dylan é um poeta contemporâneo, e como tal mantém todos os seus sentidos voltados para a observação e apreensão daquilo que constitui e transforma o ser humano. Pois, como bem define Giorgio Agamben na obra O que é o contemporâneo? E outros ensaios (2009): “contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro. Todos os tempos são, para quem deles experimenta contemporaneidade, obscuros. Contemporâneo é, justamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente (...). Pode-se dizer contemporâneo apenas quem não se deixa cegar pelas luzes do século e consegue entrever nessas a parte da sombra, a sua íntima obscuridade (...). O contemporâneo é aquele que percebe o escuro do seu tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interpelá-lo, algo que, mais do que toda luz, dirige-se direta e singularmente a ele. Contemporâneo é aquele que recebe em pleno rosto o facho de trevas que provém do seu tempo”. Assim sendo, a contemporaneidade do pensamento poético de Bob Dylan pode ser notada já nas suas primeiras produções. Como admirador de Woody Guthrie (na guitarra de Guthrie estava escrito: “essa máquina mata fascistas”), Bob Dylan já sabia muito bem por quais caminhos sua poesia deveria seguir.

Em “Blowin’ in the Wind” (1963), por exemplo, o poeta faz ecoar uma pergunta que se mantém bastante atual, embora em contexto diferente. Diz (tradução livre): “...quantas pessoas ainda terão que morrer, para que ele perceba que já se matou demais?”. Em “The Times They Are a Changing” (1964), por sua vez, o poeta conclama todos a abrirem os olhos e ficarem atentos, pois “os tempos estão mudando, ou aprendemos a nadar ou afundaremos feito pedras”. Já em “Like a rolling stone” (1965) o questionamento é sobre aqueles que possuem tudo, mas que de repente perdem. E então? “Como é se sentir assim, sem destino, como uma pedra que rola?” Os aspectos surreais observáveis em “Mr. Tambourine man”, por seu turno, aproximam-se do que se vive hoje, no que concerne ao vazio, a insônia e ao cansaço dos dias, como se estivéssemos eternamente presos em um filme de Fellini. Tem-se: “... não estou dormindo e não há nenhum lugar onde eu possa ir, pois todos os meus sentidos foram destroçados...”.

Concluímos, retomando Agamben (2009), quando diz que o poeta, enquanto contemporâneo, é uma espécie de fratura que impede o tempo de compor-se e, simultaneamente, o sangue de suturar a quebra. O poeta – o contemporâneo – continua Agamben, deve manter fixo o olhar no seu tempo. Mas o que vê quem vê o seu tempo, o sorriso demente do século? A resposta, meu amigo, está logo ali, em cada verso da poética de Bob Dylan que, aos oitenta anos, ainda tem muito a nos dizer.

 

 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

BELCHIOR - APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO, DE JOTABÊ MEDEIROS

Ele é o autor dos versos mais bonitos da Música Popular Brasileira: “estava mais angustiado / que um goleiro na hora do gol / quando você entrou em mim/ como um sol no quintal”. São os versos que abrem a canção “Divina comédia humana”. Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenele Fernandes (1946 – 2017) está, sem sombra de dúvidas, entre os grandes nomes da MPB, embora nem seja esse o seu nome verdadeiro, mas apenas uma brincadeira que o artista inventou e, como muitas outras, acabou se tornando quase uma verdade.

São informações como essa que foram garimpadas pelo jornalista Jotabê Medeiros, resultando na primeira biografia do artista cearense, autor de um dos mais importantes disco já produzidos no Brasil: Alucinação, de 1976. A biografia recebeu o título de Belchior – Apenas um rapaz latino-americano, publicada no ano de falecimento do cantor, em 2017, pela editora Todavia.  Apesar de ser um título que aponta para o mais do mesmo, ou seja, limitar Belchior a “um rapaz latino”, também se deve compreender que é um título que abarca muito bem a proposta do autor de “A palo seco”, uma vez que é notório em toda sua obra o empoderamento que faz da América Latina. Obviamente que sua erudição o coloca como um artista do mundo, autor de uma poesia que ultrapassa, em muito, as delimitações geográficas.

E aqui nos vem a inevitável discussão acerca das diferenças e limites que dizem respeito aquilo que deva ser compreendido como canção, poesia ou poema-canção; da mesma forma como as questões que se dão acerca do que seja um letrista, um compositor e um poeta. Não é, no entanto, objetivo dessa brevíssima resenha discutir tais meandros. Contudo, na nossa concepção, defendemos Belchior como poeta e suas letras como poemas-canções, por entendermos que a poética de Belchior está no mesmo nível de qualidade daquela desenvolvida por Bob Dylan.

Medeiros (2017, p. 145) registra que, no ano de 1990, no Hollywood Rock, no Morumbi, Gilberto Gil apresentou Belchior a Bob Dylan, dizendo: "Bob, esse é o Belchior, o Bob Dylan brasileiro". Ao que Bob Dylan respondeu: "Dylan brasileiro? É mais provável que eu seja você na América". Bob Dylan sabe das coisa!

Embora Belchior tenha sido uma referência na MPB, ninguém ainda havia se decidido por escrever sua biografia. E eis que Jotabê Medeiros foi lá e fez. Depois de escrita e posta à venda, surgiram alguns questionamentos por parte de determinados membros da família do artista, incluindo-se uma ameaça de se retirar a biografia de circulação, contrariando, inclusive, recente decisão do Supremo Tribunal Federal a esse respeito. A quem realmente interessam biografias do tipo “chapa branca”? Certamente que não aos fãs do biografado e muito menos aos pesquisadores da sua obra (no caso de Belchior, muitos já são os trabalhos acadêmicos produzidos. Alguns serão citados no final da resenha). 

Jotabê Medeiros
A referida biografia segue a seguinte ordem estrutural: “Apresentação” (p. 9 – 11). Daí seguem dezesseis capítulos, que se desenvolvem da página 12 (doze) até a página 192 (cento e noventa e dois). Da página 193 (cento e noventa e três) até a 210 (duzentos e dez) o leitor é brindado com uma série de imagens do artista, com sua família, amigos, músicos, fãs, bem como do artista em ação durante seus shows. São imagens de diferentes épocas da vida de Belchior, as quais enriquecem em muito o trabalho de Jotabê Medeiros. Na sequência, Medeiros presta uma enorme contribuição aos pesquisadores da obra de Belchior ao elencar toda a discografia (p. 211 – 216) do cantor. O trabalho se conclui com as referências bibliográficas (p. 217 – 219), O índice onomástico (p. 220 – 236) e os créditos das imagens (p. 237). Jotabê Medeiros alcançou seu objetivo, mostrando o Belchior homem, pai, marido e gênio. Certamente, outros trabalhos virão e, se elaborados com o rigor, a responsabilidade e o respeito, tal qual fez Medeiros, serão todos muito bem-vindos.


Outras leituras:


1. BARBOSA, Lucílio Sérgio Bezerra. Pequeno perfil de um discurso (in)comum: do sonho à queda na real na poética de Belchior. Natal: UFRN, 2004. 158 pp. Dissertação (Mestrado em Literatura Comparada).

2. CARLOS, Josely Teixeira. Muito além de um rapaz latino-americano: investimentos interdiscursivos das canções de Belchior. Fortaleza: UFC, 2007. 276 pp. Dissertação (Mestrado em Linguística).

3. __________. Fosse um Chico, um Gil, um Caetano: uma análise retórico-discursiva das relações polêmicas na construção da identidade do cancionista Belchior. São Paulo: FFLCH-USP, 2014. 690 pp. Tese (Doutorado em Letras). 


4. KELMER, Ricardo (Org.) Para Belchior com amor. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2016. Resenha do blog aqui.

5. ROGÉRIO, Pedro. Pessoal do Ceará – habitus e campo musical na década de 1970. Fortaleza: Edições UFC, 2008.

domingo, 16 de outubro de 2016

UM NOBEL PARA O POETA BOB DYLAN

Em diferentes regiões do Brasil se utiliza muito a lexia “demorô”, corruptela de “demorou”, para se referir a situações que, finalmente aconteceram, mas que deveriam ter acontecido bem antes. Embora se trate de uma expressão tipicamente brasileira, provavelmente outras línguas devam ter expressões que sirvam para a mesma situação. E se assim o for, boa parte do mundo disse “demorô”, hoje, quando Sara Daniues, secretária permanente da Academia Sueca, anunciou o nome de Bob Dylan, como o vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 2016. Para a referida Academia, o autor de “Like a Rolling Stone” mereceu o prêmio de 2016 “por ter criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição norte-americana da canção”.

A Academia sueca poderia ter dito “qualquer coisa”, como justificativa para premiar Dylan, pois tudo o que pudesse dizer resvalaria na constatação do óbvio, uma vez que a obra de Bob Dylan ultrapassa o campo meramente musical, se espalhando pelo campo da literatura propriamente dita. Em outras palavras, é simplório conceber as letras do referido artista como “letras”, simplesmente, pois Bob Dylan é, na verdade, um dos mais relevantes poetas do século XX, destilando sua poesia por meio da canção. Dessa maneira, assim como Chico Buarque e Belchior, Bob Dylan rompe os limites dos gêneros literários, produzindo letras que são menos letras, e mais poemas.

É claro que alguns pesquisadores, engessados que estão (ou “que são”?), ainda não conseguem (ou não querem) compreender as relações que se dão entre a música e a poesia. Para muitos, são coisas que não se pode misturar; sequer aproximar, tendo em vista letra de música ser algo que se encontra em um plano muito inferior ao da poesia. Dessa forma, a premiação de Bob Dylan vem mexer com posicionamentos antigos, sólidos e conservadores a esse respeito. De 2016 em diante, contudo, uma nova maneira de se conceber a poesia passa a ser indispensável, uma vez que Bob Dylan está agora, oficialmente, ao lado de T.S. Eliot, Yeats e Wislawa Szymborska; por exemplo.

Deixemos claro, no entanto, que não é um Nobel para Dylan que o torna um grande poeta. Na verdade, é exatamente o contrário. É a qualidade, o alcance e o reconhecimento da sua obra poética que culminou na premiação. Dylan não precisava de prêmio algum. No entanto, o reconhecimento de Bob Dylan como merecedor do prêmio Nobel de Literatura do ano de 2016 aponta também para uma, mesmo que seja aparente e momentânea, nova perspectiva da Academia sueca em relação a diferentes manifestações da literatura. Talvez fosse o momento do próprio Prêmio se reestruturar e admitir que existem muitas formas de representações artísticas que mereceriam receber um prêmio de tal envergadura, mas que simplesmente não cabem nas categorias estabelecidas pela Academia.

Ao optar por premiar Dylan, a Academia acaba por premiar indiretamente todos os trovadores, repentistas, folk singers, professores e artistas que têm insistido na luta em defesa de uma cultura que possa ser cada vez mais abrangente e inclusiva, independentemente de língua, rótulo ou gênero.

O Nobel para Bob Dylan acaba também por ser uma premiação aos poetas da Geração Beat, aos heróis conhecidos e anônimos da década de 60 e, especialmente, ao poeta e ativista Woody Guthrie, sem o qual, possivelmente, Robert Zimmerman não teria se tornado Bob Dylan. E, como bem afirmou Leonard Cohen: "dar um Nobel ao Bob Dylan é como dar uma medalha ao Everest por ele ser a montanha mais alta da Terra". Melhor dedução, impossível!

O prêmio Nobel para Bob Dylan “demorô”, mas veio. Com ele, o mestre de “Blowin in the Wind” e “The times they are a changing” coroa uma carreira de sucesso, ativismo e poesia que dificilmente veremos surgir nos próximos cem anos. Por essas e outras razões, nos alegramos por Bob Dylan, pois descobrimos, baby Blue, que nem tudo está perdido.

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