sábado, 7 de fevereiro de 2026

O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo, de Daniella Zupo

 

Estou de recesso do trabalho e, sem nenhum tostão no bolso, entreguei-me às "drogas pesadas" lícitas: música, filmes e livros.  Foi em meio a essa vida de excessos que li, entre outros, O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo (2025), de Daniella Zupo. E mesmo assim, sem um centavo na conta, viajei por várias cidades do mundo. Por culpa da Daniella Zupo, fui parar na cidade que é considerada o coração do inverno, situada mais ao norte da Suécia. A cidade chama-se Kiruna e, conforme Zupo está “localizada a 200 quilômetros do Círculo Polar Ártico, na Lapônia. Kiruna tem temperaturas que chegam a 25 graus negativos e pelo menos um mês em que o sol não nasce”. Como dizem nos filmes americanos: “Fuck!”. E se você quiser saber o que a Daniella Zupo foi fazer nesse "fim de mundo", terá que ler seu livro, pois cada página vale muito a pena.



O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo é constituído de 32 crônicas/relatos de viagens e mais um texto introdutório de João Anzanello Carrascoza, que prefere chamar o livro de road book. O livro abre com um breve texto da autora, que diz: “Esta não é uma obra de ficção. Todas estas viagens aconteceram, embora não necessariamente nesta ordem. Qualquer semelhança com paisagens reais terá sido mera coincidência, embora elas não existam. As coincidências”. Dado o recado, é hora de colocar algumas peças de roupa na mochila e embarcar com a autora pelos mais diferentes e interessantes cantos do planeta. Mas se você, leitor/leitora se acha foda porque já pegou sua mochila, entrou num ônibus por três horas e se achou pronto pra desbravar Canoa Quebrada, você não sabe nada, inocente! Ser foda é subir num trenó puxado por cães, sob uma temperatura de 20 graus negativos, em pleno breu, e “correr” sobre um rio congelado. E então, leitora/leitor, você pode achar que isso é uma loucura, ao que a autora responde: “Nunca é tarde para uma certa loucura. E esta loucura é viver sem medo de morrer. Cantar como Janis Joplin e como os pássaros” (p.157).

Nas viagens pelas quais Zupo nos conduz, passamos por Ouro Preto, Arraial da Ajuda, Buenos Aires, Stratford-upon-Avon, Berlim, Munique, Grécia, Florença, Estocolmo, Kiruna, Lisboa, Brighton, Wiltshire e Tintagel, entre outros lugares não menos fabulosos. É através dos relatos das viagens de Zupo que nos embrenhamos pelas ruas da Lisboa de Fernando Pessoa, da Buenos Aires, de Jorge Luis Borges, e pela Ouro Preto, que já foi de Elizabeth Bishop. Concordamos com autora quando afirma que “cidades são como livros” (p.25). E, como dito em “A rua de Jorge Luis Borges” (p.69-70): “Estar em uma cidade é como ler um livro”. Neste sentido, ao lermos o livro de Daniella Zupo sobre as cidades que visitou, lemos ao mesmo tempo vários outros livros, que se constituem como uma espécie de “literatura dos caminhos”.  

Com as crônicas de O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo aprendemos sobre deslocamentos e permanências, sejam de povos e/ou cidades, pois se Kiruna se desloca, seu povo também o faz, assim como o faz a autora ao “pular’ de uma cidade à outra. Aprendemos sobre aquilo que ainda não conseguimos explicar, como as pedras que formam o Stonehenge, “a maravilha do mundo pré-histórico. O círculo concêntrico de pedras que ninguém sabe como foi parar naquela planície no condado de Wiltshire, no sul da Inglaterra, há milhares de anos” (p.91-92). Aprendemos também sobre a ideia do mito que é, ao mesmo tempo, nada e tudo, quando a autora nos conduz à caverna de Merlin e às ruínas do castelo do Rei Arthur, em Tintagel, na Cornualha, lugar que também teria sido o cenário da lendária história de Tristão e Isolda (p. 95-100).

Um dos pontos mais altos do livro é o belíssimo texto, “Para David” (p.80-81), quando a narradora “conversa” com o David, de Michelangelo. Lemos:

(...) a escultura tem mais de 4 metros de altura e pesa 5 toneladas, que levou três anos para ser concluída. De 1501 a 1504, confirmo no texto em inglês e, desde então, já sofreu vários atentados: de pedradas e marteladas. Mas não é isso que faz você tão humano, David. Ser alvo da tolice, da intolerância ou mesmo da inveja. Talvez seja essa humanidade que escapa em seu estranho olhar, ou nas veias dilatadas, ou no franzido da testa. Você me perturba, David (...). Mais que representação da beleza absoluta, é sua humanidade que impressiona. Não é o divino em você que me arrebata, mas o demasiadamente humano, uma dualidade esculpida: delicadeza e força, tensão e calma, corpo e espirito. (Zupo, 2025, p. 80-81)

Ao longo de suas narrativas, Zupo dialoga, intertextualmente, não apenas com David, mas também com Bob Dylan, Leonard Cohen e Patti Smith, que autografou o Linha M, para Zupo. Que inveja! (p. 36-37). E ainda com Nick Cave, Cy Twombly, Robert Burns, Damien Hirst, Joni Mitchel, Raymond Inmon e Gunner Ekelöf entre inúmeros outros. Excetuando-se alguns erros de grafia na impressão de algumas palavras, O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo é uma beleza. E “beleza são coisas acesas por dentro”. Chegando ao final desta breve viagem, retomo Zupo (p.75), quando cita Bashô, o poeta peregrino que dizia: “a viagem mais para fora é a viagem mais para dentro”. 

Não vou nem desfazer as malas, já na expectativa de saber para onde Daniella Zupo nos levará em seu próximo livro.


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