Estou de recesso do
trabalho e, sem nenhum tostão no bolso, entreguei-me às "drogas pesadas" lícitas: música, filmes
e livros. Foi em meio a essa vida de excessos
que li, entre outros, O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo (2025), de Daniella Zupo. E mesmo assim, sem um centavo na conta,
viajei por várias cidades do mundo. Por culpa da Daniella Zupo, fui parar na
cidade que é considerada o coração do inverno, situada mais ao norte da Suécia.
A cidade chama-se Kiruna e, conforme Zupo está “localizada a 200 quilômetros do
Círculo Polar Ártico, na Lapônia. Kiruna tem temperaturas que chegam a 25 graus
negativos e pelo menos um mês em que o sol não nasce”. Como dizem nos filmes
americanos: “Fuck!”. E se você quiser saber o que a Daniella Zupo foi fazer
nesse "fim de mundo", terá que ler seu livro, pois cada página vale muito a pena.
Nas viagens pelas quais Zupo
nos conduz, passamos por Ouro Preto, Arraial da Ajuda, Buenos Aires, Stratford-upon-Avon,
Berlim, Munique, Grécia, Florença, Estocolmo, Kiruna, Lisboa, Brighton,
Wiltshire e Tintagel, entre outros lugares não menos fabulosos. É através dos
relatos das viagens de Zupo que nos embrenhamos pelas ruas da Lisboa de
Fernando Pessoa, da Buenos Aires, de Jorge Luis Borges, e pela Ouro Preto, que
já foi de Elizabeth Bishop. Concordamos com autora quando afirma que “cidades
são como livros” (p.25). E, como dito em “A rua de Jorge Luis Borges” (p.69-70):
“Estar em uma cidade é como ler um livro”. Neste sentido, ao lermos o livro de Daniella
Zupo sobre as cidades que visitou, lemos ao mesmo tempo vários outros livros,
que se constituem como uma espécie de “literatura dos caminhos”.
Com as crônicas de O dia
em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo aprendemos sobre
deslocamentos e permanências, sejam de povos e/ou cidades, pois se Kiruna se
desloca, seu povo também o faz, assim como o faz a autora ao “pular’ de uma cidade
à outra. Aprendemos sobre aquilo que ainda não conseguimos explicar, como as
pedras que formam o Stonehenge, “a maravilha do mundo pré-histórico. O círculo
concêntrico de pedras que ninguém sabe como foi parar naquela planície no
condado de Wiltshire, no sul da Inglaterra, há milhares de anos” (p.91-92). Aprendemos
também sobre a ideia do mito que é, ao mesmo tempo, nada e tudo, quando a
autora nos conduz à caverna de Merlin e às ruínas do castelo do Rei Arthur, em
Tintagel, na Cornualha, lugar que também teria sido o cenário da lendária
história de Tristão e Isolda (p. 95-100).
Um dos pontos mais altos
do livro é o belíssimo texto, “Para David” (p.80-81), quando a narradora “conversa”
com o David, de Michelangelo. Lemos:
(...)
a escultura tem mais de 4 metros de altura e pesa 5 toneladas, que levou três
anos para ser concluída. De 1501 a 1504, confirmo no texto em inglês e, desde
então, já sofreu vários atentados: de pedradas e marteladas. Mas não é isso que
faz você tão humano, David. Ser alvo da tolice, da intolerância ou mesmo da
inveja. Talvez seja essa humanidade que escapa em seu estranho olhar, ou nas
veias dilatadas, ou no franzido da testa. Você me perturba, David (...). Mais
que representação da beleza absoluta, é sua humanidade que impressiona. Não é o
divino em você que me arrebata, mas o demasiadamente humano, uma dualidade
esculpida: delicadeza e força, tensão e calma, corpo e espirito. (Zupo, 2025,
p. 80-81)
Ao longo de suas narrativas, Zupo dialoga, intertextualmente, não apenas com David, mas também com Bob Dylan, Leonard Cohen e Patti Smith, que autografou o Linha M, para Zupo. Que inveja! (p. 36-37). E ainda com Nick Cave, Cy Twombly, Robert Burns, Damien Hirst, Joni Mitchel, Raymond Inmon e Gunner Ekelöf entre inúmeros outros. Excetuando-se alguns erros de grafia na impressão de algumas palavras, O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo é uma beleza. E “beleza são coisas acesas por dentro”. Chegando ao final desta breve viagem, retomo Zupo (p.75), quando cita Bashô, o poeta peregrino que dizia: “a viagem mais para fora é a viagem mais para dentro”.
Não vou nem desfazer as malas, já na
expectativa de saber para onde Daniella Zupo nos levará em seu próximo livro.

Nenhum comentário:
Postar um comentário