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terça-feira, 19 de agosto de 2025

Arte é desacordo: o ensaio de Bob Dylan

 


Quando políticos autoritários assumem o poder, cultura e educação são as primeiras áreas atacadas. Não poderia ser diferente, uma vez que são os artistas e os educadores que doam suas vidas em defesa da formação do pensamento crítico, sendo a principal barreira capaz de deter o avanço de políticas extremistas. A arte é subversiva e, na cabeça dessas pessoas, deve ser destruída. Não custa lembrar o que Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, disse: “a arte alemã da próxima década será heroica e imperativa”, o que resultou na queima de milhares de livros, bem como na perseguição, tortura e morte de inúmeros artistas, pois, aqueles que queimam livros, mais cedo ou mais tarde começam a queimar pessoas.

Não faz muito tempo, do lado de baixo do equador, o secretário nacional da cultura daquele (des)governo extremista, cujo líder máximo é hoje réu no STF por ter tramado um golpe de estado, fez um discurso medonho em tudo semelhante ao do nazista Goebbels. Em sua asquerosa fala, o “cidadão de bem” (Alma White gargalha) afirmou que a “arte brasileira da próxima década será heroica e imperativa”. Certamente que todas as semelhanças entre os dois discursos não passam de mera coincidência retórica. Aham!

Recentemente, Donald Trump censurou os museus do país e ordenou que as exposições exaltem a “grandeza americana”. Estaria o “grande irmão” falando da imposição de uma arte nacional, heroica e imperativa?  Não sei. Só sei que já vimos esse filme antes e sabemos bem como termina. No caso, o nazismo foi derrotado, o tal do secretário de cultura voltou para a lata do lixo da qual nunca deveria ter saído, e seu chefe está prestes a puxar uns trinta anos de cana. Quanto ao pato manco, a derrocada parece vir a galope. O “laranjão” desceu pra brincar no parquinho, mas não combinou com os chineses.  

A arte sempre incomodou e continuará incomodando essa gente autoritária e tacanha, que costuma puxar o revólver sempre que se fala em cultura, uma vez que todos os seus acordos e conchavos são baseados em dinheiro, não em arte. Arte é desacordo. E é falando sobre arte (e política) que Bob Dylan inicia o ensaio sobre a música “Money Honey” (p.35-38), de Bob Miller. Diz ele: “Arte é desacordo. Dinheiro é acordo. Eu gosto de Caravaggio, você gosta de Basquiat. Nós gostamos de Frida Kahlo, e Warhol não nos toca. E é assim que a arte prospera, com embates espirituosos. É por isso que não pode haver uma forma nacional de arte. Se houver tentativas de fazer isso, as arestas se dissolvem – o esforço para considerar todas as opiniões, a vontade de não ofender ninguém. Em pouco tempo, tudo se transforma em propaganda ou comercialismo”.

O texto em questão é apenas um dos 66 ensaios constituintes do livro A filosofia da música moderna (2022), publicado no Brasil no ano de 2023, com tradução de Bruna Beber e Julia Debasse. Trata-se do primeiro livro que Dylan publica depois de receber o prêmio Nobel de literatura em 2016. A obra, como afirmam as tradutoras, é “uma aula magistral sobre a arte e o ofício da composição”, cujos textos abarcam canções de Elvis Presley, Nina Simone, The Who, Hank Williams, The Clash e Johnny Cash, por exemplo. Além disso, os ensaios de Dylan discorrem sobre como o compositor pode fugir da armadilha das rimas fáceis, e ensina como uma única sílaba pode causar um impacto para melhor ou para pior na letra de uma canção. Como se isso fosse pouco, o autor de Tarântula (1970) e Crônicas (2004) ainda discorre sobre as relações observáveis entre o bluegrass e o heavy metal, costurando tudo isso com informações que comprovam seu amplo conhecimento sobre os mais variados assuntos da cultura universal. 

Como a arte, e mais especificamente a música, não está “perdida no espaço” nem brota no canteiro da rua, antes de mergulhar nas análises Bob Dylan contextualiza a canção a ser abordada, traçando conexões com a realidade e tomando com eixo de sustentação tudo aquilo que implica naquilo que se compreende por condição humana. E assim sendo, não é nenhum exagero afirmar que A filosofia da música moderna é uma obra de arte em todos os seus aspectos, inclusive os gráficos, escrita na prosa inconfundível de Bob Dylan. Ao final da leitura de cada texto, percebe-se que aqueles ensaios não são “apenas” ensaios, mas poemas em prosa paridos pela mente única de um dos artistas mais relevantes de todos os tempos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

CFCH aprova concessão de título Doutora Honoris Causa a Carolina de Jesus


O Conselho de Coordenação do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) aprovou por unanimidade, em sua 880ª reunião ordinária, realizada na última segunda (09/11), o título de Doutora honoris causa à escritora Carolina Maria de Jesus. A homenagem póstuma foi sugerida pela Direção do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (Ifcs) da UFRJ. O parecer é assinado pela Comissão Acadêmica do Conselho, composta pelos conselheiros Maria Muanis, Maria de Fátima Galvão, Jeane Alves da Silva, Miriam Krenzinger e Vantuil Pereira. 

Na justificativa, a comissão destaca a relevância da escritora, nascida na década de 1910 e falecida em 1977, que é tema de 58 teses e dissertações nos últimos seis anos, de acordo com o Portal da Capes. As motivações apresentadas enfatizam ainda que Carolina Maria de Jesus é uma autora “fundamental na luta antirracista”, tendo enfrentado em vida “questões relacionadas ao que se denominou ‘racismo estrutural’ que, dentre as suas mais variadas formas de produzir o apagamento do negro da história nacional, procurou silenciar mulheres como Carolina Maria de Jesus como parte da produção da literatura brasileira”.

O documento afirma a importância da concessão do título honorífico pela necessária “reparação histórica do apagamento não de uma personalidade, mas de um segmento étnico que historicamente foi negado o lugar na cultura nacional”. Ainda de acordo com as justificativas apresentadas, o papel da Universidade, neste sentido, seria “não apenas no reconhecimento de injustiças do passado”, mas sobretudo, o da “construção de novas possibilidades e percursos para mulheres negras, cuja marca de subalternidade que alijou Carolina Maria de Jesus do espaço público e literário ainda precisa ser superada”. 

O parecer da Comissão Acadêmica concorda com a concessão do título “pelo incentivo a pesquisas que visem a elevação de figuras nacionais representativas da cultura negra; a valorização de ações culturais, no campo de ensino e da extensão, que sigam na mesma direção”. Desta forma, os conselheiros reconhecem “o apagamento das figuras negras da memória nacional”, que contou com a colaboração das próprias instituições acadêmicas, e afirmam a necessidade de “reparação que se inicia no interior da Universidade e deverá se espraiar para a sociedade com a concessão do título de Doutora Honoris Causa para toda a sociedade”. 

O parecer da Comissão Acadêmica do Conselho de Coordenação do CFCH será submetido ao Conselho Universitário (Consuni) para a concessão do título.

Clique aqui para ler o parecer da Comissão Acadêmica na íntegra.

Disponível em: http://www.cfch.ufrj.br/index.php/27-noticias/1388-cfch-aprova-concessao-de-titulo-doutora-honoris-causa-a-carolina-de-jesus


segunda-feira, 23 de setembro de 2019

O TRISTE FIM DE JAIR MESSIAS BOLSONARO, POR JOSÉ EDUARDO AGUALUSA


Jair acordou a meio da noite. Mandara colocar uma cama dentro do closet e era ali que dormia. Durante o dia tirava a cama, instalava uma secretária e recebia os filhos, os ministros e os assessores militares mais próximos.
Alguns estranhavam. Entravam tensos e desconfiados no armário, esforçando-se para que os seus gestos não traíssem nenhum nervosismo. Interrogado a respeito pela Folha de São Paulo, o deputado Major Olimpio, que chegou a ser muito próximo de Jair, tentou brincar: “Não estou sabendo, mas não vou entrar em armário nenhum. Isso não é hétero.” Michelle, que também se recusava a entrar no armário, fosse de dia ou de noite, optou por dormir num outro quarto do Palácio da Alvorada.
Aliás, o edifício já não se chamava mais Palácio da Alvorada. Jair oficializara a mudança de nome: “Alvorada é coisa de comunista!” — Esbravejara: “Certamente foi ideia desse Niemeyer, um esquerdopata sem vergonha.”
O edifício passara então a chamar-se Palácio do Crepúsculo. O Presidente tinha certa dificuldade em pronunciar a palavra, umas vezes saía-lhe grupúsculo, outras prepúcio, mas achava-a sólida, máscula, marcial. Ninguém se opôs.
Naquela noite, pois, Jair Messias Bolsonaro despertou dentro de um closet, no Palácio do Crepúsculo, com uma gargalhada escura rompendo das sombras. Sentou-se na cama e com as mãos trêmulas procurou a glock 19, que sempre deixava sob o travesseiro.
— Largue a pistola, não vale a pena!
A voz era rouca, trocista, com um leve sotaque baiano. Jair segurou a glock com ambas as mãos, apontando-a para o intenso abismo à sua frente:
— Quem está aí?
Viu então surgir um imenso veado albino, com uma armação incandescente e uns largos olhos vermelhos, que se fixaram nos dele como uma condenação. Jair fechou os olhos. Malditos pesadelos.
Vinha tendo pesadelos há meses, embora fosse a primeira vez que lhe aparecia um veado com os cornos em brasa. Voltou a abrir os olhos. O veado desaparecera. Agora estava um índio velho à sua frente, com os mesmos olhos vermelhos e acusadores:
— Porra! Quem é você?
— Tenho muitos nomes. — Disse o velho. — Mas pode me chamar Anhangá.
— Você não é real!
— Não?
— Não! É a porra de um sonho! Um sonho mau!
O índio sorriu. Era um sorriso bonito, porém nada tranquilizador. Havia tristeza nele. Mas também ira. Uma luz escura escapava-lhe pelas comissuras dos lábios:
— Em todo o caso, sou seu sonho mau. Vim para levar você.
— Levar para onde, ô paraíba? Não saio daqui, não vou para lugar nenhum.
— Vou levar você para a floresta.
— Já entendi. Michelle me explicou esse negócio dos pesadelos. Você é meu inconsciente querendo me sacanear. Quer saber mesmo o que acho da Amazónia?! Quero que aquela merda arda toda! Aquilo é só árvore inútil, não tem serventia. Mas no subsolo há muito nióbio. Você sabe o que é nióbio? Não sabe porque você é índio, e índio é burro, é preguiçoso. O pessoal faz cordãozinho de nióbio. As vantagens em relação ao ouro são as cores, e não tem reação alérgica. Nióbio é muito mais valioso que o ouro.
O índio sacudiu a cabeça, e agora já não era um índio, não era um veado — era uma onça enfurecida, lançando-se contra o presidente:
— Acabou!
Anhangá colocou um laço no pescoço de Jair, e no instante seguinte estavam ambos sobre uma pedra larga, cercados pelo alto clamor da floresta em chamas. Jair ergueu-se, aterrorizado, os piscos olhos incrédulos, enquanto o incêndio avançava sobre a pedra:
— Você não pode me deixar aqui. Sou o presidente do Brasil!
— Era. — Rugiu Anhangá, e foi-se embora.
Na manhã seguinte, o ajudante de ordens entrou no closet e não encontrou o presidente. Não havia sinais dele. “Cheira a onça”, assegurou um capitão, que nascera e crescera numa fazenda do Pantanal. Ninguém o levou a sério.
Ao saber do misterioso desaparecimento do marido, Michelle soltou um fundo suspiro de alívio.
Os generais soltaram um fundo suspiro de alívio. Os políticos (quase todos) soltaram um fundo suspiro de alívio.
Os artistas e escritores soltaram um fundo suspiro de alívio. Os gramáticos e outros zeladores do idioma, na solidão dos respetivos escritórios, soltaram um fundo suspiro de alívio.
Os cientistas soltaram um fundo suspiro de alívio. Os grandes fazendeiros soltaram um fundo suspiro de alívio.
Os pobres, nos morros do Rio de Janeiro, nas ruas cruéis de São Paulo, nas palafitas do Recife, soltaram um fundo suspiro de alívio.
As mães de santo, nos terreiros, soltaram um fundo suspiro de alívio.
Os gays, em toda a parte, soltaram um fundo suspiro de alívio.
Os índios, nas florestas, soltaram um fundo suspiro de alívio.
As aves, nas matas, e os peixes, nos rios e no mar, soltaram um fundo suspiro de alívio.
O Brasil, enfim, soltou um fundo suspiro de alívio — e a vida recomeçou, como se nunca, à superfície do planeta Terra, tivesse existido uma doença chamada Jair Messias Bolsonaro.

Publicado originalmente na revista Visão de Portugal. 
Disponível em:  https://blogdojuca.uol.com.br/2019/09/o-triste-fim-de-jair-messias-bolsonaro/



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

LITERATURA E CINEMA: ALGUMAS REFLEXÕES

Houve um tempo em que se pensava que as artes não poderiam “conversar” entre si, devendo cada uma permanecer em seu espaço delimitado. Aqueles que defendiam tal estado de coisas não conseguiam perceber que há muito de uma arte em outra arte, sendo bastante saudável que elas interajam sempre que possível. Vítimas dessa desnecessária polêmica, a literatura e o cinema acabaram por romper as correntes do atraso, passando a caminhar cada vez mais juntas, assim como também já o fazem a literatura e a música, a música e as artes plásticas, as artes plásticas e a dança...

Partindo desse princípio, o livro Literatura e cinema: algumas reflexões (2017) proporciona a discussão acerca de algumas visões contemporâneas no que diz respeito a aproximação (ou seria a simbiose?) entre literatura e cinema a partir de sete artigos escritos por pesquisadores das duas áreas. Assim sendo, Bruna Belmont de Oliveira discorre sobre “Cinema e poesia: apontamento sobre um encontro”. Jamile Pequeno Soares escreve “Faces para a criatura de Frankenstein: o que os filmes fazem que o romance não pode fazer (e vice-versa)”. A discussão acerca de “A representação da violência na literatura e no cinema” foi o assunto sobre o qual escreveu Francisco Romário Nunes, que também ficou responsável por escrever a Introdução, abordando a adaptação fílmica como prática cultural.

Juliana Goldfarb de Oliveira, por sua vez, escreveu “Um outro olhar para A história do olho”, enquanto Maria Bevenuta Sales de Andrade e Charles Albuquerque Ponte discorreram sobre as “Especificidades do verbal e do visual: duas narrativas de Estômago. “Da literatura ao cinema: a narrativa poética em O conto  da princesa Kaguya” foi analisado por Francisca Lailsa Ribeiro Pinto. Maria Graciele de Lima se deteve “Sobre versos que costuram El cuerpo de Cristo: quando a carne e a alma estão desterradas”.

O livro em questão foi organizado por Jamile Pequeno Soares e Maria Graciele de Lima, tendo sido publicado pela editora Queima-Bucha, de Mossoró, em 2017. O trabalho contém ao todo 111 páginas e conta com a apresentação “Tão longe, tão perto” (que nos remete automaticamente ao filme de mesmo nome, de Wim Wenders, de 1993), feita por Cícera Graciele Cajazeiras. Na sequência, tem-se a Introdução (p. 9-18) feita por Romário Nunes, pesquisador das relações entre literatura e cinema, tendo desenvolvido pesquisas a partir das adaptações da obra de Cormac McCarthy para o cinema. 

Os sete artigos que compõem a coletânea, assim como todo e qualquer artigo, não se propõem encerrar as discussões sobre literatura e cinema, o que seria, obviamente, impossível. O objetivo desse tipo de trabalho é trazer à tona, por intermédio de novos olhares, outras apreensões acerca de assuntos muitas vezes exaustivamente debatidos. Isso, contudo, não consiste em nenhuma forma de problema, uma vez que umas das funções do pesquisador é continuamente levantar questionamentos e fazer conjecturas, estando sempre pronto e aberto às possíveis refutações.

Os artigos constituintes do livro Literatura e cinema: algumas reflexões dialogam entre si seja pela temática geral que os une, bem como pela base teórica  recorrente na maioria deles. Contudo, ao  lermos os artigos, deixamos de saber qual é a compreensão de literatura e cinema sob o ponto de vista do oriental, por exemplo, uma vez que as bases teóricas são quase todas ocidentais. Isso também não é um problema, mas é sempre produtivo quando buscamos a compreensão do mesmo pelos olhos do outro. E aqui registro uma pergunta: a transposição de um texto literário para a tela deve ser compreendida como uma adaptação, uma tradução ou uma narrativa simplesmente?

Literatura e cinema: algumas reflexões não pretende, como já dissemos, encerrar algo que não se pode encerrar. E, como posto no próprio título do trabalho, tratam-se apenas de “algumas reflexões”. Reflexões tais que gerarão outras reflexões e mais outras, fazendo com que esse excelente trabalho de pesquisa alcance seu objetivo proposto. As escolhas das obras analisadas foram bastante acertadas, com obras clássicas e modernas investigadas em consonância com questões que são muito caras aos nossos tempos de liquidez. Sobre a consciência das relações que se dão entre texto / leitor / espectador, convém observar o que afirma Nunes, quando diz que: “as narrativas construídas a partir do encontro entre literatura e cinema avançam na contemporaneidade. Isso demonstra que esse contato não esgotou as possibilidades de envolver o leitor/espectador na interação com as histórias” (pp.16-17). O texto introdutório do professor Nunes é assertivo, quando reforça que:

(...) a ideia de intertextualidade levantada por Julia Kristeva e por uma série de outros autores atesta o caráter plural da literatura, por exemplo, e concebe o processo de produtividade da obra literária como uma rede de sentidos que interpela, a partir de múltiplas tradições, a presença de um texto em outro. Essa relação nem sempre indica harmonia, mas também produz tensão, subversão, mutação, entre outras formas de contatos. (NUNES: 2017, p. 9)

Ao colocar em análise as relações intertextuais entre literatura e cinema, das quais trata Nunes, o pesquisador precisar ficar atento às exigências da abordagem que será feita, tendo em vista que ao propor uma investigação de um obra literária transposta para o cinema, um mundo de proposições teóricas se descortina. Em outras palavras, o pesquisador deverá estar atento às idiossincrasias e epistemologias (epistemologia no sentido utilizado por Boaventura de Sousa Santos, 2010) culturais que adaptações como as tratadas no presente livro, requerem.

Embora todos os autores tenham conseguido manter esse foco, considero que entre todos os artigos constituintes do livro Literatura e cinema: algumas reflexões (2017), muito me agradaram os artigos “Faces para a criatura de Frankenstein: o que os filmes fazem que o romance não pode fazer (e vice-versa)”, de Jamile Pequeno Soares, “A representação da violência na literatura e no cinema”, de Francisco Romário Nunes, “Um outro olhar para A História do olho”, de Juliana Goldfarb de Oliveira e “Da literatura para o cinema: a narrativa poética em O conto da princesa Kaguya”, de Francisca Laílsa Ribeiro Pinto. Tratam-se de escolhas meramente pessoais desse resenhista e, portanto, questionáveis.

Em termos gerais, o trabalho que vem a público por intermédio da editora Queima-Bucha é de inestimável valor para todos aqueles  que se dedicam a pesquisar as relações entre literatura, cinema e outros sistemas, vindo portanto, contribuir para uma discussão que se amplia cada vez mais. E que cada vez mais se faz necessária.

Que venha o próximo!

sábado, 25 de abril de 2015

MUTIRÃO: CONTEMPORÂNEO, UNITÁRIO E PLURAL

               A cena literária de Fortaleza não se diferencia em nada da cena literária nacional, no que diz respeito à reprodução da mesmice, ou seja, há sempre um livrinho medíocre sendo lançado, para o encantamento falseado dos corroídos membros das mesmas velhas igrejinhas. Dificilmente se vislumbra no horizonte algo que se mostre de relevante valor literário. Há sempre muito barulho por nada. Talvez isso seja apenas reflexo da arte produzida na contemporaneidade, mas que, com certeza, faz Adolfo Caminha (1867 - 1897) se remexer na cova.
Poeta de Meia-Tigela
       
              A felicidade daqueles que apreciam um bom texto se faz quando, vez ou outra, um Quixote resolve combater os moinhos das eternas inutilidades literárias locais, provocando o nosso adormecido senso de compreensão da arte, seja ela literária ou não. No bojo dos trabalhos que conseguem furar o cerco e sair da área de conforto estabelecida pelo mainstream acangapebista, nos chama a atenção o trabalho organizado pelo maestro de obras, o Poeta de Meia-Tigela (pseudônimo usado para Alves de Aquino), com os “aos-cílios generosos” de vários autores. Ao todo, são vinte e quatro quixotes.

           E eis que surge o Mutirão, um livreto contendo poesia, prosa, pintura, fotografia e muitas outras formas de se dizer a arte. A reflexão proposta pelo trabalho segue a mesma linha dos livretos Dentes amarelos e  Risque seu nome do meu caderno, de autoria de Manoel Carlos e Deribaldo Santos. O trabalho, acertadamente, se chama Mutirão, publicado em Fortaleza, no ano de 2014, pela Expressão Gráfica e Editora. A capa, a folha de rosto e o ratinho da página 11 ficaram a critério da artista Nataly Pinho; enquanto (um por) todos (e todos por um) dividiram a revisão, como acontece em qualquer mutirão que se preze.

           Inicialmente o Mutirão reuniria apenas o Poeta de Meia-Tigela, Frederico Régis, Nataly Pinho e Lúcio Cleto. Contudo, outros autores foram se chegando e foram ficando. Quanto mais mãos, melhor o Mutirão! A ideia é abrir espaço para trabalhos inéditos, apresentando novos autores. Daí o seu caráter unitário e plural, tendo em vista a diversidade de textos e imagens que apresenta. Convém observar que o aspecto aleatório do livreto é apenas aparente, uma vez que possui toda uma lógica na sua organização. Note-se, por exemplo, que a cada três textos escritos, tem-se uma imagem, um desenho, uma pintura ou uma fotografia; o que faz do referido trabalho um significativo repertório de relações intersemióticas.

           Um livro organizado nos moldes do Mutirão mostra-se em consonância com o tempo presente, ou seja, um tempo de fraturas, onde tudo precisa necessariamente ocorrer de forma concatenada, conforme exige a arte na contemporaneidade; embora tudo isso possa parecer contraditório. Dessa forma, lembramos Agamben (2009), quando afirma que o contemporâneo que se pode entrever na temporalidade do presente é sempre retorno que não cessa de se repetir, portanto, nunca funda uma origem e, com isso, se aproxima da noção de poesia. Percebemos aqui, a poesia como representação da abertura que toda obra de arte possui; abertura essa que pode ser estendida à própria compreensão de contemporaneidade.

              Embora o Mutirão tenha nascido com o intuito de ser “apenas” um livreto coletivo, uma reunião, sua presença provocadora já está garantida, uma vez que no quarto mês de cada semestre um novo exemplar aportará em terras alencarinas e tigelíricas. Assim, embora saibamos que as publicações de revistas e livretos na cidade de Fortaleza apresentam alto índice de mortalidade e desaparecimento, esperamos que o Mutirão consiga escapar à maldição do descarte e do esquecimento e tenha vida longa e próspera.



Sugestão de leituras:
AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Trad. Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó, SC: Argos, 2009.
MEIA-TIGELA, o poeta de. Concerto nº 1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema: combinação de realidades puramente imaginárias. Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2010.
 _______________________. Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas. Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2011.