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domingo, 31 de agosto de 2025

O RISO FEITO FACA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE COISAS ENGRAÇADAS DE NÃO SE RIR, DE RAYMUNDO NETTO

 


Atores e atrizes costumam dizer que é muito mais fácil fazer chorar do que rir. Eles estão certos, pois fazer rir é uma arte que exige de todos aqueles que a exercem uma mestria que beira um dom, uma dádiva. No campo da literatura, o riso costuma exigir muito mais dos autores do que as construções semânticas que podem causar no leitor sensações de dor, nojo, indignação e cortes na carne de fazer espirrar sangue. E é esse tipo de riso que observamos nos contos “tortos” de Raymundo Netto, em seu Coisas engraçadas de não se rir (2024) que, feito faca, “cortam a carne” de leitoras e leitores, tirando-os de suas zonas de conforto e jogando-lhes na cara situações engraçadas de rir, mas também de não se rir.

Coisas engraçadas de não se rir foi publicado no ano de 2024, com revisão de Mayara Freitas, projeto gráfico de Dhara Sena, Raymundo Netto e Welton Travassos, com ilustrações de Guabiras e design de Welton Travassos.  O livro é constituído de 43 contos, sendo alguns mais breves que outros, mas que seguem de muito próximo aquilo que nos diz Edgar Allan Poe (1809 – 1849) em seu ensaio Filosofia da composição, de 1846, ou seja, observam as questões relativas ao tamanho, unidade de efeito e método lógico. É claro que os escritores não têm a obrigação de saber ou seguir tais direcionamentos, mas escrever da melhor maneira que conseguir, colocando no papel ou na tela aquilo que desejam, pois, como muito bem nos diz Sérgio Sant’Anna (2021:157): “o conto não existe”. Assim, não deve ser preocupação do contista dizer “o conto é isso”, “o conto é aquilo”. Mick Jagger, acrescenta Sant’Anna, não fala sobre as coisas: ele é a própria coisa acontecendo. E assim, mais importante que qualquer teorização, é fazer literatura que esteja sempre na vanguarda e em conexão com a realidade que insiste em esmagar o ser humano. No entanto, ainda conforme Sant’Anna (2021:160), não adianta fazer arte de vanguarda se tiranizo as pessoas ao meu redor e colaboro com o fascismo. Fazer literatura também é sobre isso.

Raymundo Netto é sabedor dos caminhos que atravessam a cultura, a arte e a literatura. É um escritor consciente das mudanças e dos impactos que um bom texto pode causar. Logo, ao trançar suas narrativas com o fio do riso, Netto o faz com a semelhante habilidade com a qual Dalton Trevisan costurava seus contos com o fio da dor, da faca no coração. Assim, ao mergulhar nas histórias que compõem o livro de contos em questão, percebe-se nitidamente o domínio da narrativa curta que o autor de Os Acangapebas adquiriu ao longo do tempo. Percebe-se, a partir de Coisas engraçadas de não se rir, um salto qualitativo na sua escrita, que o coloca entre os melhores autores cearenses contemporâneos. Por ser cronista (leiam do autor o livro Crônicas Absurdas de Segunda), Raymundo Netto traz para o seu conto as minúcias que os olhos treinados do cronista e do jornalista (o autor também é jornalista) conseguem capturar de maneira leve, objetiva e sutil, fazendo com que suas histórias pareçam aquelas conversas que ainda se dão a bordo de cadeiras na calçada.  

E é usando de sua habilidade enquanto escritor, que Raymundo Netto recorre ao riso como o élan necessário para costurar as narrativas do seu mais recente trabalho. Dessa forma, em Coisas engraçadas de não se rir, o riso se apresenta como forma de subversão e corta tal qual a faca só lâmina de João Cabral de Melo Neto, ou como na releitura de A palo seco, de Belchior, quando diz: “e eu quero é que esse canto torto/feito faca corte a carne de vocês”. A subversão é, conforme o dicionário Aurélio (2010), o ato ou o efeito de subverter (-se). É ainda a insubordinação às leis ou às autoridades constituídas. É a revolta contra elas. É a destruição, a transformação da ordem política, social e econômica estabelecida. É uma revolução. Assim sendo, o verbo subverter abriga o sentido de voltar de baixo para cima; revolver, agitar e, entre outros, revolucionar. E é também pra isso que serve a literatura.

No conto de Raymundo Netto, essa subversão se dá aos olhos do leitor quando o autor se utiliza do cômico e do riso, unindo tudo aquilo a que se propõe na construção dos contos que compõem o livro. Assim sendo, é preciso lembrar que conforme Henri Bergson (1859 – 1941), em seu livro O Riso – Ensaio sobre a significação da comicidade, de 1899, que apenas o humano é cômico. Uma paisagem, afirma ele, poderá ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia; mas nunca será risível. Bergson lembra que é bastante comum ouvirmos a expressão “o homem é o único animal que sabe rir”. Para ele, essa expressão ficaria mais completa se a ela fosse acrescido outra que diz “um animal que faz rir”. E assim teríamos: O homem é o único animal que ri e que faz rir. Ainda conforme Bergson, o riso é sempre “o riso de um grupo” e “tem uma função social”. Mas afinal, o que devemos compreender pela palavra “riso”? O riso consiste no ato ou efeito de rir. Também pode ser compreendido como alegria, satisfação ou coisa ridícula. Rir também significa zombar ou ridicularizar. Destarte, o riso é por natureza, subversivo, ou seja, é algo capaz de transformar ou destruir o que está posto, estabelecido.

Por muito tempo na história da humanidade, o riso foi considerado pecado, coisa do diabo. Isso ocorria, certamente, pela capacidade que tem o riso de ridicularizar; subvertendo valores estabelecidos e tidos como imutáveis. Assim sendo, o riso foi por muito tempo considerado não apenas um pecado mortal, mas imoral e destruidor do Estado e da fé, por exemplo. Dessa forma, o riso foi censurado, sendo punidos com a morte todos aqueles que ousassem desafiar a Inquisição. Lembremos, por exemplo, das passagens nas quais os monges copistas são assassinados no livro O Nome da Rosa (1980), de Umberto Eco por, teoricamente estarem rindo a partir da leitura que faziam do livro A comédia, supostamente o segundo livro da Poética, escrito por Aristóteles.  Em tempos outros, sob sistemas autoritários, o riso continuou a ser perseguido e criminalizado. Muitos artistas, no entanto, utilizaram sua arte para fazer frente aos desmandos das elites políticas, ao arcaísmo da sociedade, bem como ao Estado e seus aparelhos ideológicos constituídos. Assim sendo, é possível afirmar que o autor de Coisas engraçadas de não se rir se utiliza do riso como forma de subverter determinados valores socioculturais observáveis no espaço e no tempo da produção dos seus contos. O riso, tal como está dito no livro de Umberto Eco, mata o temor.

E é por essa razão, entre inúmeras outras, que Coisas engraçadas de não se rir, de Raymundo Netto, mostra-se em consonância com seu tempo por seu caráter universal, contestatório e atemporal, e assim o será enquanto houver alguém que, mesmo pelos cantos da boca, insista em rir do que quer que seja.

domingo, 10 de julho de 2016

NILTO MACIEL ENTRE MACHADOS E PERDIDOS

Os escritores, com raríssimas exceções, gostam muito de conversar. E se as conversas puderem ser acompanhadas de comida e bebida, o que não faltará é assunto. Às vezes os encontros entre escritores são meras reuniões sem a necessidade de aprofundamentos de cunho academicista, o que não impede que, tendo em vista, o nível que se espera daqueles que trabalham com a palavra, discussões aprofundadas acerca de questões universais tomem palco. Um exemplo do que afirmamos, foram as reuniões que congregavam inúmeros escritores e intelectuais na casa, especificamente na biblioteca, do bibliófilo Plínio Doyle (1906 - 2000), no Rio de Janeiro. Por essa razão e por ocorrem sempre aos sábados, as reuniões receberam o apelido de "Sabadoyles". Os encontros daquilo que se convencionou denominar de " o último salão literário do Brasil" começaram como que por acaso, no dia 25 de dezembro do ano de 1964, encerrando suas atividades no ano de 1998. Deles participaram, entre outros, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Pedro Nava e Gilberto Mendonça Telles. 

Reuniões como os "Sabadoyles" são importantes à medida que podem aproximar autores mais jovens daqueles já estabilizados no mercado editorial. Não se deve desconsiderar, contudo, a necessidade de alguns autores em ter, em alguns casos, jovens candidatos a escritores gravitando em sua órbita. Seja lá como for, encontros como aqueles promovidos por Doyle, não constituíam (nem constituem) exceção no mundo literário brasileiro. 

No Ceará, por exemplo, reuniões com o objetivo de reunir jovens (e velhos ?) escritores, costumavam acontecer na casa do escritor Nilto Maciel (1945 - 2014). O referido escritor, quase sempre por intermédio do contista Pedro Salgueiro (ou Sangreiro?), costumava abrir as portas da sua casa, para receber todos aqueles que desejavam trocar umas ideias que fossem acerca da literatura, da vida e, claro, das mulheres. Tudo, como não poderia deixar de ser, acompanhado de uns petiscos, boas doses de cerveja e, para alguns apenas, Whisky. O registro dos encontros de Nilto Maciel com seus colegas escritores está devidamente registrado na obra Como me tornei imortal - Crônicas da vida literária, publicada pela editora Armazém da cultura, no ano de 2013, em Fortaleza. Mais que um "diário de bordo" mantido por um dos autores mais representativos da literatura cearense, a obra em questão consiste em um fonte indispensável para todos aqueles que desejem conhecer a literatura produzida em terras de Alencar.

Como me tornei imortal - Crônicas da vida literária (2013) é composto de uma apresentação, escrita por Paulo Bentancur, seguida de 32 (trinta e duas crônicas).  O volume se encerra com algumas notas sobre o autor. Das trinta e duas crônicas em questão, 28 (vinte e oito) delas são perfis de escritores cearenses vistos pela ótica pra lá de particular do autor de Luz vermelha que azula (2011), quando opta por apresentar tais escritores a partir de características que lhes são bastante peculiares, ou seja, há aqueles escritores que se destacam por sua idiossincrasia sexual, aqueles dados às teorias de perseguição e desconexão discursiva; assim como aqueles (a maioria) que não resistem a uma boa cerveja gelada, não importando a hora ou local.

Nilto Maciel 
Pelo agradabilíssimo e muito bem escrito texto de Nilto Maciel, surgem Moreira Campos, Francisco Carvalho, Sânzio de Azevedo, Raymundo Netto, Carlos Nóbrega, Gilmar de Carvalho e José Alcides Pinto; entre outros. No entanto, nos chama a atenção, que apenas duas escritoras tenham recebido a atenção do cronista. São elas: Tércia Montenegro (p. 96 - 101) e Carmélia Aragão (p. 130 - 133). O que se pode deduzir a partir daí? Que o meio literário cearense ainda é dominado por escritores, ignorando que há uma enorme quantidade de mulheres (Natércia Campos, Ana Miranda, Socorro Acioli, Natércia Pontes, Fernanda Meireles, Vânia Vasconcelos), produzindo excelente literatura ou que o cronista só manteve contato mais próximo com as duas autoras citadas? A questão está posta!

As quatro crônicas que não tratam especificamente de perfis de escritores cearenses são: "Como me tornei imortal" (p. 9 - 12), "Meus amigos pelo Brasil (p. 13 - 17 ), "A velha guarda da literatura cearense" (p. 18 - 22) e "Esse mato baixo" (p. 143 - 147). Com exceção da crônica "Mestre Moreira Campos" (p. 23 - 26), sem data, todas as outras estão datadas, com local (Fortaleza), dia, mês e ano; estando todas compreendidas entre os anos de 2009 e 2011. Dessa forma, 10 (dez) crônicas são do ano de 2009, 08 (oito) de 2010, 01 (uma) sem data e 13 (treze) de 2011; perfazendo um total de 32 crônicas.

Também nos chama atenção que as crônicas da obra em análise não obedeçam uma ordenação cronológica. O que nos causa certo estranhamento, tendo em vista que, além de escritor, Nilto Maciel conhecia, como poucos, os meandros dos processos de edição de um livro. Logo, não nos é claro a razão que levou Maciel, um dos criadores da revista O Saco e membro do grupo Siriará  organizar as crônicas de Como me tornei imortal da seguinte forma: As 03 (três) primeiras crônicas são de 2010. A quarta não traz a data. Da quinta até a nona , 2009. A décima é de 2010. 11ª e 12ª são de 2009. Da 13ª até a 18ª, 2011. As 03 (três) seguintes são de 2010. As outras 03 (três), de 2009. Da 25ª até a 31ª, 2011. A 32ª, fechando o livro, é de 2010.

A ordem pensada por Nilto Maciel, para a composição estrutural das suas "crônicas da vida literária", por mais anárquica que possa parecer, não impede que tenhamos, enquanto leitores, uma compreensão da literatura cearense da segunda metade de século XX pra cá.

Trata-se de um livro leve, proporcionador de deleite e crescimento intelectual do inicio ao fim. Como me tornei imortal - Crônicas da vida literária além de indispensável, já nasceu imortal. Os leitores, os escritores, os pesquisadores e os bares, agradecidos, dizem amém!

segunda-feira, 15 de junho de 2015

CRÔNICAS ABSURDAS DE SEGUNDA

As segundas-feiras costumam ser dias horríveis para muitas pessoas. Principalmente para aquelas que adorariam que os domingos fossem mais longos e que o fim da noite jamais chegasse. Entre essas pessoas talvez esteja a figura do cronista de jornal, aquele que deve estar com seu texto prontinho para que, já no café da manhã da segunda-feira, o leitor possa se deleitar com as noticias trazidas pelo jornal. É claro que me refiro aqui, especificamente, àqueles leitores que ainda não abandonaram de todo sua relação com o folhetim impresso, não desconsiderando que o mesmo ocorre com o leitor que lê o jornal em outro tipo de suporte. Esse, assim como eu, provavelmente lê o que lhe interessa já na noite anterior.

O leitor, certamente, não sabe das peripécias e malabarismo que o cronista às vezes precisa fazer para entregar seu texto, mesmo em tempos de Internet. E, convenhamos, o leitor não dá a mínima pra isso. O cronista que se vire, pois para o leitor, é o resultado final que realmente interessa. Mas o jornal. Ah! O jornal! Houve um tempo em que o jornal que trazia a crônica de hoje, estaria embrulhando peixe amanhã. Os tempos mudaram e, hoje, poucas são as pessoas que comeriam peixe embrulhado em jornal. Mas para onde vai o jornal que carrega aquela crônica que levou um bom tempo para ser escrita? Vai para os confins da rede e, provavelmente, para as nuvens. E, como se diz no interior, a nuvem é bem aí!

Raymundo Netto
Como nem todo mundo acessa a web e nem sabe o que é essa tal de nuvem, é sempre bom registrar o que se escreve naquele negócio chamado livro. E é exatamente isso que fez o escritor Raymundo Netto ao publicar uma seleção das crônicas que, entre os anos de 2007 e 2010, escreveu para o jornal O Povo. Conforme o próprio autor: “A maior parte dessas crônicas se desenvolvem a partir de “encontros” com escritores e personalidades cearenses vivos ou mortos – em literatura isso não faz muita diferença -, em um exercício intertextual, contextualizados com acontecimentos na cidade de Fortaleza, palco que serve de frigideira para a maioria dessa omelete”.

A ideia de Raymundo Netto em escrever suas crônicas a partir de “encontros” com escritores e personalidades vivos ou mortos da cena fortalezense, faz com que o leitor, juntamente com o narrador, revisite a Fortaleza, essa cidade que tanto assombra quanto seduz. Essa mesma cidade quase engolida pelos milhares de buracos que invadem suas ruas, devido a incompetência de seus gestores e pelo seu povo entregue à própria sorte. A cidade vista pelos olhos (verdes?) de Raymundo Netto é a “prima pobre” da Paris vista pelos olhos miúdos de Woody Allen, em seu filme Meia-noite em Paris (2011). E aqui tomo a liberdade de apontar uma aproximação da obra de Netto com a de Allen, no que concerne a uma observável exaltação do passado em relação ao presente. Sobre a comédia romântica de Allen, observemos uma das sinopses disponibilizadas na Internet:

Gil (Owen Wilson) é um escritor e roteirista americano que vai com a noiva Inez e a família dela à Paris, cidade que idolatra. Ele realiza vários passeios noturnos e sozinho, quando descobre que, surpreendentemente, ao badalar da meia-noite, é transportado para a Paris de 1920, época e lugar que considera os melhores de todos. Nessas "viagens", Gil vai a várias festas onde conhece inúmeros intelectuais e artistas que admira e que frequentavam a cidade-luz naquela época. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Salvador Dali dentre outros. Até que tenta acabar o seu romance com Inez, pois se apaixonou por Adriana (Marion Cotillard), uma bela moça do passado, e é forçado a confrontar a ilusão de que uma vida diferente (a "época de ouro" francesa) é melhor do que a atualidade.

O narrador de Raymundo Netto seria o nosso Gil, um flâneur a caminhar com atenção pelos mais inusitados espaços da cidade. Nas caminhadas, o narrador encontra e conversa com Rachel de Queiroz, Francisco Carvalho (Que poeta maravilhoso!), Ana Miranda e Mário Gomes; entre inúmeros outros. O resultado dessas conversas e andanças é o livro Crônicas absurdas de segunda (2015), uma vez que o referido cronista escrevia para o jornal exatamente às segundas. Trata-se de uma belíssima edição, publicada pelas edições Demócrito Rocha, composta de trinta e nove crônicas, sendo três inéditas. Há três textos introdutórios, sendo “Crônicas absurdas”, de Ana Miranda, “Crônicas”, de Sânzio de Azevedo e “Duas palavras”, do próprio Raymundo Netto explicando a origem, a construção e os resultados do projeto que acabou por gerar a obra em questão. O livro traz ainda um “posfácio” escrito por Pedro salgueiro, denominado de “Um dândi pós-moderno”, além da biografia do autor, bem como as referências bibliográficas.

A lexia “absurda”, no título da obra de Raymundo Netto, acaba por nos remeter ao Mito de Sísifo - Ensaio sobre o absurdo (1941), de Albert Camus (1913 -1960); bem como ao teatro do absurdo, de Samuel Beckett (1906 – 1989); especificamente sua peça Esperando Godot, de 1952. Embora sejam “absurdos” diferentes, as crônicas de Raymundo Netto acabam por dialogar entre si e com o outro, quando, de uma forma ou outra, discorrem sobre a própria condição humana, tal qual ocorre em Camus e Beckett. A série de crônicas que Netto aqui apresenta, afirma Ana Miranda, tem uma linha mestra, ou seja, é uma agenda de encontros com fantasmas. De repente o cronista se depara com algum autor de livros que ele mesmo leu, e não esqueceu. Os seus fantasmas literários tomam corpo e vida, conversam, zombam, tresvariam, surpreendem e nos fazem rir, mas às vezes de olhos marejados. Há algo mais humano, pergunto, e ao mesmo tempo mais absurdo?

Sobre o narrador de Crônicas absurdas de segunda (2015), Ana Miranda diz:

O narrador me faz lembrar um senhor de chapéu coco e fraque, muito elegante, cortês. Entusiasmado e fervoroso, vaga pelas ruas a olhar tudo e conversar com quem aparece ali. Gosta de conversa. Um narrador carregado de sentimentos, uma afetividade à flor da pele, e um pouquinho de malícia. Fala num tom de certo gracejo inocente, aproveitando todos os momentos para chistes e improvisos. É quase o mesmo narrador do primeiro livro de Netto, Um conto do passado: cadeiras na calçada, romance preciso e admirável, com jeito de crônica, no qual, enquanto se passa uma história de amor, a cidade vai se mostrando e se transformando.

O “se mostrar” e o “se transformar” da cidade, observados pela autora de Semíramis (2014), no romance de Raymundo Netto, também é facilmente identificável na sua crônica. Essa transformação que se dá com a cidade, também se dá com seus habitantes-personagens em uma espécie de simbiose. E assim também o é na relação da personagem de Owen Wilson com a Paris dos anos 20, no Meia-noite em Paris.

Revisitar Fortaleza é sempre um convite irrecusável. Mais uma vez, e com bastante esmero, o escritor Raymundo Netto nos lança o convite a partir das suas Crônicas absurdas de segunda (a nosso ver, crônicas de primeira), tomando ruas, abrindo portas e apresentando gente. 
Que a cidade nos seja tão leve quanto uma crônica 'absurda', de Raymundo Netto!



sábado, 8 de fevereiro de 2014

OS ACANGAPEBAS: NARRATIVAS TOPOFÍLICAS


Das mais variadas formas de narrativas, confesso ser apaixonado, primeiramente pela crônica e, em seguida, pelo conto. Embora a "prima pobre" seja minha grande paixão, o conto se revela ao meu ser como um dos mais belos amantes. E o que é mesmo que mais me atrai no conto? É sua capacidade de dizer tudo o que se pretende com a maior economia possível de palavras. Ora, se não é Tchekhov quem nos diz que se uma determinada  arma não será usada no decorrer da narrativa, por qual razão mantê-la na história?

É claro, porém, que nem todo contista consegue colocar em prática a ideia de Poe (1809-1849), quando discorre sobre a necessidade que dever existir entre o tamanho do conto e a reação que ele consegue causar em quem o lê. Eis a famosa  "unidade de efeito" defendida pelo autor norte-americano. Para ele, a obra precisava ser dosada, para que a excitação provocada pela leitura perdurasse por um determinado espaço de tempo. Dessa forma, se o texto fosse muito longo, o efeito (a excitação) seria diluído. A unidade de efeito seria alcançada, então, quando de uma só assentada, nós, leitores, dessemos conta daquilo a que se propôs o autor. 

Não podemos afirmar que o ponto de vista de Allan Poe não proceda. Contudo, tendo em vista a correria para o nada do nosso dia-a-dia, torna-se quase impossível lermos o que quer que seja duma assentada só, quando dificilmente temos tempo para sequer sentar. Pela teoria proposta pelo contista, O Alienista, de Machado de Assis, jamais seria um conto, como não o é, mas uma novela. E, nem de longe, podemos reproduzir e aceitar a proposição de Mário de Andrade, quando diz que "um conto é aquilo que o autor chama de conto". Mas o conto, e aí concordamos com Cortázar, está para a fotografia assim como o romance está para o cinema. O conto é o instante, narrado com o maior poder de objetividade, sem a necessidade de "floreios" de qualquer espécie. É o que conseguimos perceber nas narrativas contidas em Os Acangapebas (2012), livro de contos do escritor Raymundo Netto.

Raymundo Netto se insere na leva dos autores recentemente surgidos no Ceará. Raymundo Netto incursiona com considerada desenvoltura pela literatura infanto-juvenil, pelo romance e pelo conto. Estaria ele também flertando com a poesia? É bem provável que sim! Vencedor de inúmeros prêmios e figura de extrema relevância na Cultura da cidade de Fortaleza, o referido escritor brindou a todos, em 2012, com as narrativas contidas no seu Os Acangapebas. O livro saiu pelo selo Fundo de Quintal e traz trinta e nove contos, sendo vencedor do Edital de Incentivo à Literatura da Secretária de Cultura de Fortaleza, de 2007 e do Prêmio Osmundo Pontes de Literatura da Academia Cearense de Letras, de 2011. E você, caro leitor, pode estar se perguntando  que diabos significa "acangapebas". Pois bem, para poupar-nos o trabalho de sairmos à caça de tal significado; na abertura da obra, o próprio autor já nos instrui, dizendo tratar-se de um termo oriundo do Tupi-Guarani, sendo, acangapeba  o mesmo que cabeça-chata. De acanga, cabeça; peba, peva, chata. Trata-se, é óbvio, de uma clara alusão a alcunha pela qual são tratados os cearenses mundo afora. Isso, no entanto, não implica em uma geografia, na acepção própria da palavra, seja ela feita de gente, de terra ou de palavras. Longe disso! O que se tem, na verdade, é uma espécie de topofilia, tal qual nos propõe Yi-Fu Tuan, ancorada nas percepções, atitudes e valores do homem cotidiano na sua lida diária com o meio ambiente, com a vida, com as coisas, com a comunicação ou com a ausência dela.

A epígrafe que abre o livro é de Dante Alighieri, contida na Divina Comédia,e diz: "lasciate ogni speranza, voi ch'entrate". Abandonai todas as esperanças, vós que entrais (tradução nossa). A escolha feita pelo contista não foi à toa. Compreendemos que sua mensagem é deixar claro que leitor deverá começar sua leitura de coração aberto, sem o pré-conceito que costuma se ter frente à uma obra nova. Quando diz para entrarmos na leitura sem esperanças, infere-se que não há receitas prontas para a feitura da literatura, cabendo ao leitor descobrir os caminhos propostos pelos imbricamentos da teia narrativa, sendo perfeitamente possível um estranhamento em qualquer um dos sentidos existentes. E assim sendo, a contística de Raymundo Netto discorre sobre o amor, a vida e a morte por meio de uma simbologia que nos remete à mitologia daltoniana. Se por um lado Dalton Trevisan construiu toda uma simbologia que serve de arcabouço para sua literatura, Raymundo Netto parece trilhar caminho semelhante. Dessa forma, o narrador de Os Acangapebas visita espaços-lugares que são tão nossos, enquanto cabeças-chatas que somos. A cidade, O circo (p.102) e A bodega (116), por exemplo. E Vassourando (p.111), bem que poderia se chamar "barrendo". É perceptível a tentativa do autor em fazer com que seu texto dialogue com outras obras, outros autores e outras ideias. Como não lembrar, por exemplo, de Moreira Campos (1914-1994) em Portas fechadas (p.51) ou ainda de Pedro Salgueiro, em Cabelos azuis (p.62)? Ao propor tal aproximação, extremamente profícua, ao nosso ver, Raymundo Netto demonstra estar em dia com as mais novas formas de ver, de sentir e registrar o mundo.

No que diz respeito à presença recorrente de símbolos nas narrativas d'Os Acangapebas, há um mundo deles à espera de decifração. O gato, por exemplo surge em três contos (p.21, p.31 e p.54); a mulher, em dois (p.31, p.34). Há ainda o sótão (p.16), o estandarte (p.80), o espelho (p.83) e o relógio (p.90), entre muitos outros. O próprio termo acancapeba, que dá nome ao livro, é eivado de uma imensa gama de possibilidades de compreensão. Contudo, cabe ao leitor não se limitar àquilo que apenas se mostra, pois, como bem afirma Fernando Pessoa: "tudo que vemos é outra coisa". Assim sendo, cabe a esse leitor mergulhar e descobrir a imensidão do iceberg de interpretações possíveis nas narrativas topofílicas contidas em Os Acangapebas. 

E assim, leitura feita, tal qual acangapebas, vamos nos chegando às janelas da literatura de Raymundo Netto. Através da sua maneira de contar histórias, assistimos à novela, pedimos um cafezinho e quase nos vemos escorados nas portas dos bares e dos cabarezinhos desse mundo de meu Deus. E dessa forma, a leitura d'Os Acangapebas de Raymundo Netto é como aquele amanhecer capaz de despertar os passarinhos adormecidos nas nossas mentes em pífanos alegres, no cheiro quente do cuscuz e do café, proporcionando mais luz, como nos diz Goethe, para que não terminemos nossos dias a tiquetaquear a vida de forma mecânica e quase absurda.

RAYMUNDO NETTO É:


Escritor, designer, quadrinhista e produtor cultural. Autor do romance "Um Conto no Passado: cadeiras na calçada", ganhador do I Edital de Incentivo às Artes da SECULT/CE (2005), da "Cronologia Comentada de Juvenal Galeno" (Secult, 2010) e dos infantojuvenis "A Bola da Vez" (2008), "A Casa de Todos e de Ninguém" (2009), "Os Tributos e a Cidade" (2011) e "Boto Cinza Cor de Chuva" (2013), todos pelas Edições Demócrito Rocha. É cronista convidado do Caderno Vida & Arte do jornal O POVO desde 2007. Foi coeditor das revistas "CAOS Portátil" e da "Para Mamíferos". Mantém o blogue AlmanaCULTURA. Foi Coordenador de Políticas do Livro e de Acervos da SECULT, responsável pela coordenação editorial das suas coleções, membro do Conselho Curador da IX Bienal Internacional do Livro do Ceará, redator e elaborador do Prêmio Literário para Autor Cearense e um dos coordenadores da I Feira do Livro do Ceará em Cabo Verde. Autor de "Os Acangapebas", coletânea de contos, ganhadora do Prêmio Osmundo Pontes da Academia Cearense de Letras (2011) e do Edital de Literatura da SecultFOR (2007). Recebeu a Medalha Boticário Ferreira em 2012, pelos serviços prestados à Cultura Cearense. Atualmente é editor adjunto das Edições Demócrito Rocha.