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domingo, 31 de agosto de 2025

O RISO FEITO FACA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE COISAS ENGRAÇADAS DE NÃO SE RIR, DE RAYMUNDO NETTO

 


Atores e atrizes costumam dizer que é muito mais fácil fazer chorar do que rir. Eles estão certos, pois fazer rir é uma arte que exige de todos aqueles que a exercem uma mestria que beira um dom, uma dádiva. No campo da literatura, o riso costuma exigir muito mais dos autores do que as construções semânticas que podem causar no leitor sensações de dor, nojo, indignação e cortes na carne de fazer espirrar sangue. E é esse tipo de riso que observamos nos contos “tortos” de Raymundo Netto, em seu Coisas engraçadas de não se rir (2024) que, feito faca, “cortam a carne” de leitoras e leitores, tirando-os de suas zonas de conforto e jogando-lhes na cara situações engraçadas de rir, mas também de não se rir.

Coisas engraçadas de não se rir foi publicado no ano de 2024, com revisão de Mayara Freitas, projeto gráfico de Dhara Sena, Raymundo Netto e Welton Travassos, com ilustrações de Guabiras e design de Welton Travassos.  O livro é constituído de 43 contos, sendo alguns mais breves que outros, mas que seguem de muito próximo aquilo que nos diz Edgar Allan Poe (1809 – 1849) em seu ensaio Filosofia da composição, de 1846, ou seja, observam as questões relativas ao tamanho, unidade de efeito e método lógico. É claro que os escritores não têm a obrigação de saber ou seguir tais direcionamentos, mas escrever da melhor maneira que conseguir, colocando no papel ou na tela aquilo que desejam, pois, como muito bem nos diz Sérgio Sant’Anna (2021:157): “o conto não existe”. Assim, não deve ser preocupação do contista dizer “o conto é isso”, “o conto é aquilo”. Mick Jagger, acrescenta Sant’Anna, não fala sobre as coisas: ele é a própria coisa acontecendo. E assim, mais importante que qualquer teorização, é fazer literatura que esteja sempre na vanguarda e em conexão com a realidade que insiste em esmagar o ser humano. No entanto, ainda conforme Sant’Anna (2021:160), não adianta fazer arte de vanguarda se tiranizo as pessoas ao meu redor e colaboro com o fascismo. Fazer literatura também é sobre isso.

Raymundo Netto é sabedor dos caminhos que atravessam a cultura, a arte e a literatura. É um escritor consciente das mudanças e dos impactos que um bom texto pode causar. Logo, ao trançar suas narrativas com o fio do riso, Netto o faz com a semelhante habilidade com a qual Dalton Trevisan costurava seus contos com o fio da dor, da faca no coração. Assim, ao mergulhar nas histórias que compõem o livro de contos em questão, percebe-se nitidamente o domínio da narrativa curta que o autor de Os Acangapebas adquiriu ao longo do tempo. Percebe-se, a partir de Coisas engraçadas de não se rir, um salto qualitativo na sua escrita, que o coloca entre os melhores autores cearenses contemporâneos. Por ser cronista (leiam do autor o livro Crônicas Absurdas de Segunda), Raymundo Netto traz para o seu conto as minúcias que os olhos treinados do cronista e do jornalista (o autor também é jornalista) conseguem capturar de maneira leve, objetiva e sutil, fazendo com que suas histórias pareçam aquelas conversas que ainda se dão a bordo de cadeiras na calçada.  

E é usando de sua habilidade enquanto escritor, que Raymundo Netto recorre ao riso como o élan necessário para costurar as narrativas do seu mais recente trabalho. Dessa forma, em Coisas engraçadas de não se rir, o riso se apresenta como forma de subversão e corta tal qual a faca só lâmina de João Cabral de Melo Neto, ou como na releitura de A palo seco, de Belchior, quando diz: “e eu quero é que esse canto torto/feito faca corte a carne de vocês”. A subversão é, conforme o dicionário Aurélio (2010), o ato ou o efeito de subverter (-se). É ainda a insubordinação às leis ou às autoridades constituídas. É a revolta contra elas. É a destruição, a transformação da ordem política, social e econômica estabelecida. É uma revolução. Assim sendo, o verbo subverter abriga o sentido de voltar de baixo para cima; revolver, agitar e, entre outros, revolucionar. E é também pra isso que serve a literatura.

No conto de Raymundo Netto, essa subversão se dá aos olhos do leitor quando o autor se utiliza do cômico e do riso, unindo tudo aquilo a que se propõe na construção dos contos que compõem o livro. Assim sendo, é preciso lembrar que conforme Henri Bergson (1859 – 1941), em seu livro O Riso – Ensaio sobre a significação da comicidade, de 1899, que apenas o humano é cômico. Uma paisagem, afirma ele, poderá ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia; mas nunca será risível. Bergson lembra que é bastante comum ouvirmos a expressão “o homem é o único animal que sabe rir”. Para ele, essa expressão ficaria mais completa se a ela fosse acrescido outra que diz “um animal que faz rir”. E assim teríamos: O homem é o único animal que ri e que faz rir. Ainda conforme Bergson, o riso é sempre “o riso de um grupo” e “tem uma função social”. Mas afinal, o que devemos compreender pela palavra “riso”? O riso consiste no ato ou efeito de rir. Também pode ser compreendido como alegria, satisfação ou coisa ridícula. Rir também significa zombar ou ridicularizar. Destarte, o riso é por natureza, subversivo, ou seja, é algo capaz de transformar ou destruir o que está posto, estabelecido.

Por muito tempo na história da humanidade, o riso foi considerado pecado, coisa do diabo. Isso ocorria, certamente, pela capacidade que tem o riso de ridicularizar; subvertendo valores estabelecidos e tidos como imutáveis. Assim sendo, o riso foi por muito tempo considerado não apenas um pecado mortal, mas imoral e destruidor do Estado e da fé, por exemplo. Dessa forma, o riso foi censurado, sendo punidos com a morte todos aqueles que ousassem desafiar a Inquisição. Lembremos, por exemplo, das passagens nas quais os monges copistas são assassinados no livro O Nome da Rosa (1980), de Umberto Eco por, teoricamente estarem rindo a partir da leitura que faziam do livro A comédia, supostamente o segundo livro da Poética, escrito por Aristóteles.  Em tempos outros, sob sistemas autoritários, o riso continuou a ser perseguido e criminalizado. Muitos artistas, no entanto, utilizaram sua arte para fazer frente aos desmandos das elites políticas, ao arcaísmo da sociedade, bem como ao Estado e seus aparelhos ideológicos constituídos. Assim sendo, é possível afirmar que o autor de Coisas engraçadas de não se rir se utiliza do riso como forma de subverter determinados valores socioculturais observáveis no espaço e no tempo da produção dos seus contos. O riso, tal como está dito no livro de Umberto Eco, mata o temor.

E é por essa razão, entre inúmeras outras, que Coisas engraçadas de não se rir, de Raymundo Netto, mostra-se em consonância com seu tempo por seu caráter universal, contestatório e atemporal, e assim o será enquanto houver alguém que, mesmo pelos cantos da boca, insista em rir do que quer que seja.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

COLAR DE PEDRAS FALSAS, DE FRANCISCO CARVALHO

Francisco Carvalho (1927-2013) é daqueles poetas que se inserem na amplitude da literatura produzida em língua portuguesa, tendo em vista a extensão e a qualidade da sua obra poética. Autor de mais de trinta livros, Carvalho soube como poucos cultivar a palavra, moldando-a a seu bel prazer. Como produzia muito, é bem possível que ainda surjam trabalhos inéditos do autor de Centauros urbanos (2003), o que em muito agradaria seus leitores e pesquisadores.

De todos os seus trabalhos, há um que é pouco conhecido, mas que nem por isso pode ser considerado menor. Trata-se do livro Colar de pedras falsas (2005), publicado pela editora Guararapes – EGM, de Jaboatão, Pernambuco. Durante as nossas pesquisas, não conseguimos localizar o livro no seu formato tradicional, se é que ele existe nesse formato. Explico: a versão que temos desse livro é uma espécie de “edição artesanal”,  de aproximadamente 6cm, tendo seus paratextos sido montados manualmente.




O corpo do livro é composto de um poema longo de 155 estrofes, impressas em uma folha de papel, respeitando o tamanho de 6cm. Cada página corresponde a uma dobradura dessa folha única. O poema se inicia com a estrofe que diz: “A leveza dos abutres / faz lembrar certos rodeios / de alguns próceres ilustres” e se conclui com: “ As cabras vão embora / fica na relva o perfume dos seios da pastora”. Registre-se que o referido trabalho não é mencionado em nenhuma das fontes que trazem a lista de obras do poeta. A única referência que conseguimos localizar diz respeito ao poema escrito por Horácio Dídimo, constante dos arquivos da Academia Cearense de Letras – ACL. Ei-lo:


Colar de pedras falsas  
                        Para Francisco Carvalho
                          Horácio Dídimo
                          Exercícios de admiração

Caro Francisco Carvalho,
Cordialmente agradeço
E confirmo o meu apreço
Por esse belo trabalho.

A poesia que produz
Tão primoroso adereço
Traz sempre um novo começo,
Nova cor e nova luz

Ao reler a sua obra
Acrescento este capítulo
Onde nada falta ou sobra:

As palavras são certeiras,
É falso apenas o título,

As pedras são verdadeiras. 

domingo, 10 de julho de 2016

NILTO MACIEL ENTRE MACHADOS E PERDIDOS

Os escritores, com raríssimas exceções, gostam muito de conversar. E se as conversas puderem ser acompanhadas de comida e bebida, o que não faltará é assunto. Às vezes os encontros entre escritores são meras reuniões sem a necessidade de aprofundamentos de cunho academicista, o que não impede que, tendo em vista, o nível que se espera daqueles que trabalham com a palavra, discussões aprofundadas acerca de questões universais tomem palco. Um exemplo do que afirmamos, foram as reuniões que congregavam inúmeros escritores e intelectuais na casa, especificamente na biblioteca, do bibliófilo Plínio Doyle (1906 - 2000), no Rio de Janeiro. Por essa razão e por ocorrem sempre aos sábados, as reuniões receberam o apelido de "Sabadoyles". Os encontros daquilo que se convencionou denominar de " o último salão literário do Brasil" começaram como que por acaso, no dia 25 de dezembro do ano de 1964, encerrando suas atividades no ano de 1998. Deles participaram, entre outros, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Pedro Nava e Gilberto Mendonça Telles. 

Reuniões como os "Sabadoyles" são importantes à medida que podem aproximar autores mais jovens daqueles já estabilizados no mercado editorial. Não se deve desconsiderar, contudo, a necessidade de alguns autores em ter, em alguns casos, jovens candidatos a escritores gravitando em sua órbita. Seja lá como for, encontros como aqueles promovidos por Doyle, não constituíam (nem constituem) exceção no mundo literário brasileiro. 

No Ceará, por exemplo, reuniões com o objetivo de reunir jovens (e velhos ?) escritores, costumavam acontecer na casa do escritor Nilto Maciel (1945 - 2014). O referido escritor, quase sempre por intermédio do contista Pedro Salgueiro (ou Sangreiro?), costumava abrir as portas da sua casa, para receber todos aqueles que desejavam trocar umas ideias que fossem acerca da literatura, da vida e, claro, das mulheres. Tudo, como não poderia deixar de ser, acompanhado de uns petiscos, boas doses de cerveja e, para alguns apenas, Whisky. O registro dos encontros de Nilto Maciel com seus colegas escritores está devidamente registrado na obra Como me tornei imortal - Crônicas da vida literária, publicada pela editora Armazém da cultura, no ano de 2013, em Fortaleza. Mais que um "diário de bordo" mantido por um dos autores mais representativos da literatura cearense, a obra em questão consiste em um fonte indispensável para todos aqueles que desejem conhecer a literatura produzida em terras de Alencar.

Como me tornei imortal - Crônicas da vida literária (2013) é composto de uma apresentação, escrita por Paulo Bentancur, seguida de 32 (trinta e duas crônicas).  O volume se encerra com algumas notas sobre o autor. Das trinta e duas crônicas em questão, 28 (vinte e oito) delas são perfis de escritores cearenses vistos pela ótica pra lá de particular do autor de Luz vermelha que azula (2011), quando opta por apresentar tais escritores a partir de características que lhes são bastante peculiares, ou seja, há aqueles escritores que se destacam por sua idiossincrasia sexual, aqueles dados às teorias de perseguição e desconexão discursiva; assim como aqueles (a maioria) que não resistem a uma boa cerveja gelada, não importando a hora ou local.

Nilto Maciel 
Pelo agradabilíssimo e muito bem escrito texto de Nilto Maciel, surgem Moreira Campos, Francisco Carvalho, Sânzio de Azevedo, Raymundo Netto, Carlos Nóbrega, Gilmar de Carvalho e José Alcides Pinto; entre outros. No entanto, nos chama a atenção, que apenas duas escritoras tenham recebido a atenção do cronista. São elas: Tércia Montenegro (p. 96 - 101) e Carmélia Aragão (p. 130 - 133). O que se pode deduzir a partir daí? Que o meio literário cearense ainda é dominado por escritores, ignorando que há uma enorme quantidade de mulheres (Natércia Campos, Ana Miranda, Socorro Acioli, Natércia Pontes, Fernanda Meireles, Vânia Vasconcelos), produzindo excelente literatura ou que o cronista só manteve contato mais próximo com as duas autoras citadas? A questão está posta!

As quatro crônicas que não tratam especificamente de perfis de escritores cearenses são: "Como me tornei imortal" (p. 9 - 12), "Meus amigos pelo Brasil (p. 13 - 17 ), "A velha guarda da literatura cearense" (p. 18 - 22) e "Esse mato baixo" (p. 143 - 147). Com exceção da crônica "Mestre Moreira Campos" (p. 23 - 26), sem data, todas as outras estão datadas, com local (Fortaleza), dia, mês e ano; estando todas compreendidas entre os anos de 2009 e 2011. Dessa forma, 10 (dez) crônicas são do ano de 2009, 08 (oito) de 2010, 01 (uma) sem data e 13 (treze) de 2011; perfazendo um total de 32 crônicas.

Também nos chama atenção que as crônicas da obra em análise não obedeçam uma ordenação cronológica. O que nos causa certo estranhamento, tendo em vista que, além de escritor, Nilto Maciel conhecia, como poucos, os meandros dos processos de edição de um livro. Logo, não nos é claro a razão que levou Maciel, um dos criadores da revista O Saco e membro do grupo Siriará  organizar as crônicas de Como me tornei imortal da seguinte forma: As 03 (três) primeiras crônicas são de 2010. A quarta não traz a data. Da quinta até a nona , 2009. A décima é de 2010. 11ª e 12ª são de 2009. Da 13ª até a 18ª, 2011. As 03 (três) seguintes são de 2010. As outras 03 (três), de 2009. Da 25ª até a 31ª, 2011. A 32ª, fechando o livro, é de 2010.

A ordem pensada por Nilto Maciel, para a composição estrutural das suas "crônicas da vida literária", por mais anárquica que possa parecer, não impede que tenhamos, enquanto leitores, uma compreensão da literatura cearense da segunda metade de século XX pra cá.

Trata-se de um livro leve, proporcionador de deleite e crescimento intelectual do inicio ao fim. Como me tornei imortal - Crônicas da vida literária além de indispensável, já nasceu imortal. Os leitores, os escritores, os pesquisadores e os bares, agradecidos, dizem amém!

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A POESIA POLIÉDRICA DE JÁDER DE CARVALHO

        A literatura brasileira está, sem sombra de dúvidas, inserida no enorme arcabouço da literatura universal. Mesmo que ainda seja formalmente reduzida a presença de autores brasileiros no cânone da literatura mundial, tal questão não diminui a qualidade da literatura produzida por nossos autores, sejam eles clássicos ou modernos. Ao contrário, a produção literária em nosso país continua de vento em popa, sendo produzida desde os mais recônditos sítios às mais desenvolvidas regiões, ou seja, independentemente das limitações decorrentes das diversidades geográficas, culturais, econômicas, políticas e ideológicas; a literatura brasileira tem se firmado como uma das mais expressivas representações culturais do Brasil.

Assim sendo, este trabalho objetiva refletir sobre a literatura brasileira em termos gerais e, sobre a literatura de Jáder de Carvalho, em termos mais específicos. Para tanto, tendo em vista o referido autor
Jáder de Carvalho
ter transitado com destacada relevância pelo jornalismo, a prosa, o ensaio sociológico e a poesia; faz-se necessário um recorte na sua obra com o intuito de não nos afastarmos daquilo que nos propomos no título do presente artigo. Destarte, tomaremos a poesia, mais especificamente seu livro Água da Fonte, de 1966, como objeto de análise, observando o quão multifacetada ela se apresenta. Para tanto, ao discorrermos sobre sua poética, utilizaremos o termo “poliédrica” por reconhecermos as inúmeras faces da sua poesia e acreditarmos que a analise da sua obra poética não cabe em gaiolas conceituais limitadoras e finitas. Mas sim, em estudos que se pautem por uma abrangência mais ampla da concepção poética do autor, vanguardista ao seu tempo, e ainda atual quase noventa anos após a publicação do seu primeiro trabalho O Canto Novo da Raça (1927) em parceria com Sidney Neto, Mozart Firmeza e Franklin Nascimento; trabalho este que inaugura o Modernismo em terras de Alencar.

                 Ao listarmos as obras de Jáder de Carvalho, observamos as datas de publicação que separam uma obra da outra. A proximidade das datas indica o quanto o autor era dedicado ao fazer literário, publicando um livro no período de um ou dois anos, no máximo três.  Ao contrário do que possa parecer, a quantidade de livros produzidos a essa velocidade não interfere de forma negativa na qualidade da obra do autor, a qual se apresenta como de extrema qualidade literária.
Quando veio para Fortaleza, no ano de 1915, Jáder de Carvalho tinha apenas catorze anos de idade. Em 1918, ou seja, contando dezessete anos, o poeta vindo da Serra do Estevão trava contato com o escritor e artista plástico Otacílio de Azevedo (1892-1978). Sobre a qualidade da produção literária de Jáder de Carvalho, afirma Azevedo, em seu livro Fortaleza Descalça (2012):

Frequentava um grupo do qual faziam parte, entre outros, Martins d’Alvarez, Edigar de Alencar, Sobreira Filho e Aldo Prado. Nessa época, Jáder de Carvalho já escrevia muito bem, tanto o verso como a prosa. Mais tarde, seria ele grande jornalista e grande poeta. (AZEVEDO, 2012:291)

Sobre o verso de Jáder de Carvalho, Otacílio de Azevedo aponta:

Seu verso amoldou-se posteriormente à estética Modernista. Mas, ao mesmo tempo em que nos conhecemos, escrevia poemas de sabor simbolista, cheios de musicalidade, evocando noturnos e outonos. Ou então, levemente parnasiano (...). (AZEVEDO, 2012:291)

Como exemplo do que afirma, Otacílio de Azevedo cita o poema “Alma”, do livro Água da Fonte (1966:39).

“Alma de viajor de mil viagens,
sigo, num sonho, naves andarilhas
que se esfumam nas líricas paisagens
de angras azuis e solitárias ilhas.

São-me errantes e tristes as imagens...
À lembrança das velas e das quilhas,
formam golfos e idílicas paisagens
e enchem-me os olhos de asas e de milhas:

Asas – quem sabe? – para as minhas ânsias;
milhas para eu sentir o Inalcançado,
no meu roteiro feito de distâncias,

mas onde eu cante sob um céu mirífico
e sonhe um porto virgem, mergulhado
numa doçura de ilha do Pacífico...”

No que diz respeito ao caráter combativo de Jáder de Carvalho e seu reflexo na obra do poeta, Azevedo afirma:

(...) seu profundo sentimentalismo formava apenas uma faceta do homem, que era igualmente combativo, chegando às raias da temeridade nos terríveis artigos com que atacava os inimigos nas colunas de jornais (...).
Talvez justamente por causa desse espirito de luta, Jáder aderiu ao movimento modernista, passando a escrever poemas bem diferentes daqueles que escrevia antes. Abandonando a rima e a métrica (...). (AZEVEDO, 2012: 292)

Para corroborar o que diz, Otacílio de Azevedo aponta os poemas “Cabocla” e “Poema”. Ambos estão em Água da Fonte (1966). Em “Cabocla” (p.192), lê-se:

“Cheiroso inferno dos violeiros
rainha outrora nos batuques, no xerém:
atordoante,
selvagem,
antiga e morena flor dos sambas sertanejos,
é cabocla, tu és no teu reinado extinto
a fecunda promessa do homem novo.
O homem contemporâneo de Orós
nascerá de ti, cabocla.
(Não ouves o rumor dos passos do teu filho?)”

Em “poema” (p.68), tem-se:

“Laura lê poetas.
Laura declama.
Ontem, ela me procurou:
___ Olha: poema não é o que dizes, isto é, uma poesia qualquer.
Está aqui no dicionário:
“Composição poética, de certa extensão e com enredo.”
___ Pois o livro mente ___ respondi.
E, depois de beijar a Amada e Musa:
___ Poema, Laura, às vezes nem precisa ter versos.
Às vezes, basta um nome. O teu, por exemplo.”

Os poemas citados até aqui estão publicados no livro Água da Fonte, de 1966. A referida obra foi publicada pela editora Instituto do Ceará, em Fortaleza, e é dedicada a Nertan Macedo e F.S. Nascimento. O livro é composto de cinco partes. São elas: “Água da Fonte”, “Canções do Entardecer”, “Terra Bárbara”, “Ilhota do Diabo” e “Terra de Ninguém”. Em nota aos leitores, em Toda a Poesia de Jáder de Carvalho (vol. 1,1973), o autor afirma: “Em ordem cronológica, publiquei Terra de Ninguém, Água da Fonte e Cantos da Morte. Respeitei a integridade do primeiro e do último. Quanto ao segundo, dele extrai Terra Bárbara. Assuntos regionais. Ritmo, feição e sentido modernistas. Fiz cortes e acréscimos”. Assim sendo, Terra Bárbara é relançado em 1982 pela editora Terra de Sol. Na segunda página da obra, logo abaixo do título, lê-se: “ poemas telúricos retirados da primeira edição de Água da Fonte e ora acrescidos de muitos outros do mesmo gênero ainda inéditos”. A orientação do autor é bastante oportuna, uma vez que sua obra ainda está um tanto dispersa, o que causa certa confusão quando se busca fazer um levantamento geral da sua produção.
No que diz respeito à fortuna crítica acerca da obra do referido autor, mesmo ainda tímida, observa-se um crescimento, bem como um interesse crescente por parte de novos pesquisadores. Entre estudiosos já estabelecidos, observamos a análise desenvolvida por Pedro Lyra, em Poesia Cearense e Realidade Atual (1975). Na referida obra, Pedro Lyra discorre sobre os trabalhos de autores dos Grupos Clã e SIN. Do primeiro, o autor selecionou seis escritores e denominou suas análises da seguinte forma: “Antônio Girão Barroso e Angústia”, “Jáder de Carvalho e Rebelião”, Otacílio Colares e Burocratismo”, “Artur Eduardo Benevides e Desessencialização”, “Francisco Carvalho e Reificação” e “Carlos D’Alge e Inquietude”. Quanto ao Grupo SIN, os autores em análise são: “Barros Pinho e Solitarismo”, Rogério Bessa e Desnaturação”, “Yêda Estergilda e Cotidianidade”, “Marly Vasconcelos e Nostalgia”, “Linhares Filho e Fatalismo”, “Horácio Dídimo e Esperança”, “Roberto Pontes e Libertação”.

Ao discorrer sobre poesia e rebelião em Jáder de Carvalho, Pedro Lyra afirma:

Há três faces-fases distintas na poesia de Jáder de Carvalho: a 1ª) telúrica, representada por Terra de Ninguém e identificada com o localismo do movimento modernista de 22; a 2ª) política, representada por Terra Bárbara e identificada com o substancialismo da geração de 30; a 3ª) lírica, representada por Água da Fonte, Cantos da Morte e Temas Eternos, e identificada com o instrumentalismo de 45. As duas primeiras, estilizando a estrutura e a linguagem populares da literatura de cordel, encontram-se num ritmo então original, de feição épica, onde o verso se confunde com a frase, a estrofe com o parágrafo, e a composição, embora nunca desça a um nível prosaico, resulta no que chamarei de poema-conto, - e que a terminologite semiótica poderia chamar de ‘contoema’, e o poema continuaria pagão. A terceira, fruto da maturidade do poeta, já ultrapassada a explosão da juventude, se concentra na forma fixa do soneto, opera um retorno aos temas eternos e, literariamente falando, consiste num regresso. (LYRA, 1975:27)

Para o referido crítico, o aspecto lírico da poesia de Jáder de Carvalho é um retrocesso, considerando mais representativos da poesia do poeta em estudo suas faces / fases telúrica e política. É nessas faces/fases, conforme o crítico: “onde temos, na espontaneidade da linguagem e na epicidade do verso, um poeta identificado com sua terra, seu tempo, sua gente – no que estes têm de mais característicos, - fontes da Arte que faz a História”.
Nosso trabalho, por sua vez, está ancorado basicamente nos termos “canto” e “poliédrica”. Sabendo-se que o canto nada mais é do que cada uma das partes de um poema longo; concebemos a obra poética de Jáder de Carvalho não apartada em livros com temáticas dissociadas entre si, mas como partes integrantes de um poema longo devidamente inter-relacionadas. Poema longo esse que pode ser compreendido como a poética do autor ou como a própria vida. Assim sendo, não podemos concordar com o autor de Poesia Cearense e Realidade Atual (1975), quando enclausura a poesia do poeta de Água da Fonte (1966) em três faces/fases. Para nós, trata-se de uma classificação simplista e reducionista que não abrange as temáticas propostas na poesia do referido escritor. Daí, por consideramos a poesia jaderiana, um manancial de temáticas possibilitadoras das mais profícuas interpretações, é compreendemos sua poesia como poliédrica, uma vez que um poliedro, tal qual a poesia de Jáder de Carvalho, é constituído de muitas faces. Por outro lado, vemos como coerente o uso do termo “rebelião” aplicado à literatura de Jáder de Carvalho, uma vez que o referido termo indica oposição à autoridade estabelecida; podendo significar ainda oposição, insurreição e revolta. Dessa forma, a poesia insubmissa de Jáder de Carvalho, assim como o próprio poeta, estará sempre se rebelando contra toda e qualquer forma de submissão, aprisionamento e limitação. 


 Obs: Esse trecho é parte integrante de um artigo maior, escrito em parceria com Geórgia Gardênia Brito Cavalcante Carvalho, disponível na íntegra em http://encontrosliterarios.ufc.br/ 

quarta-feira, 5 de março de 2014

UNICÓRNIOS, PÁSSAROS E CANÇÕES


               Nos últimos anos muito se tem falado sobre o fim do livro. Curioso, no entanto, é que mesmo com o advento do livro digital nunca se publicou tanto, nunca se leu tanto. Os motivos podem ir desde a vontade de se exilar de um mundo amedrontador, de uma vida cruel ou apenas pelo simples prazer de experimentar o deleite proporcionado pela leitura, independentemente do suporte, seja ele físico ou digital. É bom saber que em algum lugar do mundo há alguém escrevendo para o deleite de outros. Refiro-me especificamente àqueles que produzem ficção, pois, como Todorov, acredito que só a ficção nos salva.

                  E eis que temos mais uma oportunidade de nos deleitarmos com a prosa do escritor Jards Nobre. O mesmo Jards Nobre que nos brindou em 2009 com o romance Curral de Pedras. Narrativa das mais engenhosas, o romance estreante de Jards Nobre, publicado pela editora ABC, reúne vários dos elementos comuns à estética Realista/Naturalista. Assim, caso o leitor desatento caia na "armadilha" do autor, poderá acreditar, de imediato, tratar-se apenas de mais uma história, que se desenvolverá a partir de um suposto triângulo amoroso, tão recorrente nos romances realistas. Contudo, e isso é muito bom, o autor não se limita a revisitar Madame Bovary, O Primo Basílio, Dom Casmurro, O Ateneu ou O Cortiço; mas vai além. Costura a trama que envolve as personagens principais, com os mais relevantes ingredientes constituintes das chamadas narrativas contemporâneas, mostrando-se um exímio contador de uma boa história, capaz de prender a atenção do leitor até o desfecho da narrativa. E essa é, a meu ver, característica indispensável ao bom escritor.
     Passados três anos de maturação desde o lançamento do festejado Curral de pedras, Jards Nobre surge com Pássaros sem canção. Cuidadoso, o autor afirma tratar-se de um romance com características neo-naturalistas e neo-realistas, deixando claro tratar-se de uma narrativa de leitura inadequada para menores de 18 anos. Motivo? A obra contém linguagem obscena, descrição explícita de relações sexuais, homossexualidade e estupro. São elementos “explosivos” que se não forem manuseados com perícia podem explodir na cara do próprio autor. Mas Nobre não é apenas um autor, mas um autor que conhece os meandros da elaboração ficcional, demonstrando isso a cada novo trabalho. A casa da ficção, alerta James Wood, tem muitas janelas, mas só duas ou três portas e, ao analisarmos o romance em questão, parece-nos claro que Jards Nobre sabe exatamente onde estão as tais três portas. Ouso afirmar, inclusive, que ele até encontraria uma quarta se ela existisse. Será que não existe?
     Dos elementos da narrativa de ficção, talvez, dependendo do autor, o mais difícil seja, ainda conforme Wood, a criação das personagens. Em Como funciona a ficção (2011), o referido autor afirma: “o romancista inexperiente se prende ao estático, porque é muito mais fácil descrever do que o móvel: o difícil é tirar as pessoas desse amálgama estagnado e movimentá-los numa cena”. E é com a maestria de um romancista experiente que Jards Nobre conduz suas personagens principais, Renato e Adriano, pelo céu e inferno da narrativa que agora nos apresenta, numa tentativa de se soltarem das amarras do tempo, das armadilhas da vida.

     Pássaros sem canção é uma história de amor, de um amor que até pouco tempo não ousava dizer seu nome. E por ser assim, também é uma história sobre a crueldade do humano, a hipocrisia da sociedade e a mesquinhez do espírito. Por tal ótica, a obra de Jards Nobre parece não apresentar nada de novo. Mas apenas parece. Cabendo a cada um dos seus leitores a compreensão do que é proposto pela narrativa, pela provocação do romancista. E será que todos compreenderão a narrativa? Claro que não. Quantos não tentarão ver chifres em cabeças de cavalos, unicórnios no jardim; ou seja, quantos leitores não se sentirão tentados a confundir autor com narrador, realidade com ficção? O que o leitor fará com a narrativa a partir de agora não cabe mais ao autor responder. Os livros são como filhos, uma vez postos no mundo, devem seguir seu caminho sob os olhares dos outros. Inclusive daqueles que só têm olhares para os outros. Pássaros sem canção é uma obra que traz em si o signo da provocação e a qualidade literária de um autor que se reinventa a cada novo trabalho.

sábado, 1 de março de 2014

RODOLFO TEÓFILO E A SAGA DE JESUÍNO BRILHANTE

Saga é, conforme a maioria dos dicionários, uma narrativa heroica cheia de acontecimentos maravilhosos e extraordinários. Trata-se, conforme Baldick (1990), de um termo de origem nórdica usado para denominar as narrativas em prosa compostas durante a Idade Média, na Escandinávia e na Islândia por volta dos séculos XXII e XIV . É claro que com o decorrer do tempo, o termo "saga" assumiu novas significações e até ressignificações, uma vez que nem toda saga aponta para feitos escandinavos nem tem que ser permeada de acontecimentos maravilhosos e extraordinários se tomarmos ambas as palavras ao pé da letra, principalmente no contexto da literatura fantástica.

Deixando de lado esses pormenores, o que aproxima o cangaceiro Jesuíno Brilhante, o escritor Rodolfo Teófilo e o pesquisador Sânzio de Azevedo? As respostas podem até ser as mais variadas (até absurdas), mas a que aqui nos interessa é aquela proposta pelo professor Sânzio de Azevedo ao escrever seu ensaio sobre o livro de Rodolfo Teófilo, Os Brilhantes (1895), analisando a saga de Jesuíno Brilhante, o cangaceiro que virou lenda  no Rio Grande do Norte. 

Sânzio de Azevedo
Sânzio de Azevedo nasceu em Fortaleza no dia 11 de fevereiro de 1938, tendo sido professor da Universidade Federal do Ceará por trinta anos. Autor de mais de vinte livros de ensaio e poesia, Azevedo é a principal referência em literatura cearense em todo o país. Seu livro Literatura Cearense, publicado pela Academia Cearense de Letras, em 1976, embora esgotado, ainda é referência para os estudos da literatura cearense. É impossível pesquisar a literatura cearense sem fazer menção aos trabalhos de Sânzio de Azevedo. E eis que o incansável pesquisador, ocupante da cadeira número 1 da Academia Cearense de Letras, cujo patrono é Adolfo Caminha, publica Rodolfo Teófilo e a Saga de Jesuíno Brilhante (2013). A publicação se dá em decorrência do autor ter sido contemplado com o prêmio Braga Montenegro de ensaio/crítica literária, da Secretária da Cultura do Estado do Ceará.

Na obra em questão, o autor discorre sobre o já citado livro de Rodolfo Teófilo, autor reconhecidamente importante para a compreensão da literatura cearense. Por literatura cearense, concebemos não apenas aquela publicada no Ceará, mas também aquela produzida por um cearense independentemente de onde quer que ele esteja; podendo acrescentar ainda aquela literatura produzida por aqueles que são "cearenses por que querem". Nesse último quesito, inclui-se o próprio Teófilo. Nascido em Salvador, Bahia, no ano de 1853, Teófilo costumava afirmar que: "Sou cearense porque quero". E assim sendo, Rodolfo Teófilo acabou por se tornar um cearense dos mais bravos, determinados e cultos. Sua bibliografia é bastante relevante em quantidade e qualidade, abrangendo os mais variados campos do conhecimento.No que concerne aos romances que publicou, merecem destaque A Fome (1890), Os Brilhantes (1895), Maria Rita (1897) e O Paroara (1899).

Ao discorrer sobre o Naturalismo e a inspiração regional no Ceará, Alfredo Bosi, em História Concisa da Literatura Brasileira (1980) afirma:

Do Ceará, terra de Adolfo Caminha, também provieram outros naturalistas que dariam à região da seca e do cangaço uma fisionomia literária bem marcada e capaz de prolongamento tenazes até o romance moderno (...). A vivacidade desse contexto cultural permitiu virem à luz alguns romances regionais: (...); A Fome (1890), Os Brilhantes (1895) e O Paroara (1899), de Rodolfo Teófilo, livros atulhados do jargão científico do tempo, mas que valem como retorno literário ao pesadelo da seca e da imigração. (BOSI, 1980: 217-218).


O ensaio de Sânzio de Azevedo tomo como objeto de análise a segunda edição do romance Os Brilhantes, publicado em Fortaleza no ano de 1906. Conforme Azevedo, o referido romance trata: "...da história romanceada do criminoso Jesuíno Brilhante e de seu bando, cujas peripécias ficaram famosas, principalmente no Nordeste brasileiro (à época denominado Norte), na segunda metade do século XIX". O ensaio está organizado da seguinte forma: uma introdução na qual o autor teoriza sobre o Realismo e o Naturalismo p.07-24). Em seguida, discorre sobre o cangaço (p. 25-29). A partir da página 30, o pesquisador apresenta a obra, tecendo uma análise detalhada do romance, abordando todos os aspectos constituintes do texto literário de Rodolfo Teófilo (p. 30-80). Na sequência, há uma parte dedicada a animalização do homem, tomando por base teórica o texto A metáfora do corpo no romance naturalista (1973), de Sonia Brayner.

A recepção do livro pela crítica é analisada pelo pesquisador no espaço que vai da página 97 até a página 109. A história de Jesuíno Brilhante e as várias versões que existem para a mesma história também são abordadas no texto de Sânzio de Azevedo desde a página 111 até a 123. A crítica feita por José Veríssimo e as consequentes alterações feitas pelo autor no referido romance estão devidamente comentadas da página 125 até a 129.

Rodolfo Teófilo e a Saga de Jesuíno Brilhante (2013) é mais um trabalho de fôlego do pesquisador Sânzio de Azevedo, vindo confirmar a excelência das suas pesquisas e a dedicação que demonstra aos estudos da cultura cearense, especificamente aqueles ligados à literatura. Os pesquisadores agradecem.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

EIS O LIVRO DE MARTA, CARO LEITOR, ACEITAS?

 Em épocas de livros eletrônicos, nunca se publicou tanto no Brasil. Parece contraditório, uma vez que em cada cinco brasileiros, um é analfabeto funcional, constituindo 20,3% da população. Ou seja, com menos de quatro anos de estudo. Observadas as qualidades daquilo que se publica e daquilo que se lê; aí sim, o buraco é bem mais embaixo. Mas Rodrigo Marques é homem conhecedor do caminho das letras, sabendo trilhar como poucos os meandros não apenas da poesia, mas do romance, do cordel e do conto. Premiado várias vezes, Marques surge no universo da literatura brasileira a partir do lançamento de Fazendinha (2007). Muito bem recebido pela crítica especializada, Fazendinha se mostrou como um oásis em meio ao deserto das inutilidades “poéticas” publicadas aos borbotões. Novamente premiado em concurso literário, Rodrigo Marques traz agora a lume sua mais recente publicação: O Livro de Marta.
Sem preocupação com quantidade, o pequeno grande livro de Rodrigo Marques contém uns trinta poemas dos bons. Todos eles tendo Marta como leitmotiv. Mas afinal, quem é Marta? Isso o autor não confessa nem sob tortura. Mas o crítico, assim como a mulher, em tudo se mete. E eis que encontra Marta em tudo quanto é situação, cores e tons. Descobrimos, assim, que a linha (ou seria a vida?) de Marta é afiada, passada em esmeril, tal qual a faca só lâmina de João Cabral de Melo Neto, a navegar pelos rústicos mares sem abismos, pois abissal já o é a própria Marta. E não importa se Pablo Neruda nada escreveu para Marta. Marta não dá a mínima para tudo isso. Ao contrário, se deleita com uma taça do melhor dos vinhos, enquanto seu vestido se esvai e seu cheiro escapa do corpo. Quanto ao eu lírico esse se banha e escorre pelo ralo, sem direito a uma segunda chance. E é uma pena, que não consigamos ver o piercing de Marta brilhar na sua curva mais escura, embora o saibamos lá. Mas pelas palavras do poeta, quase sentimos seu gosto metalizado em nossas bocas e imaginamos Marta fazendo as unhas no salão mais caro. Mas afinal, quem é Marta? Uma passista de carnaval, um quadrúpede ou a mulher que bebe no bar ao lado do salão mais caro, enquanto a cada um de seus goles o chão afunda mais um pouco?
Ela é a Marta do poeta, como Aurélia e Lucíola o são de José. Como Beatrice o é de Dante, como Ofélia o é de Shakespeare, Heloísa de Abelardo, Isabeau de Navarre; assim como Isolda não é de Tristão, nem muito menos Guinevere de Lancelot. Marta é assim, essa incógnita, essa esfinge, esse enigma nada claro. Mas o livro não é de ninguém senão dela, que é citada pelo menos umas trinta vezes ao longo da obra, e é para ela que o livro é dedicado. Marta contém em si toda essa gama de desejos, insultos e tédios. Mas o tédio, diz-nos o poeta, já não é mais sinônimo de amor. Assim, só resta rasgar aqueles velhos trinta bilhetes escritos, mas jamais enviados à Marta. O mais importante agora é continuar a escrever bilhetes outros, novos. Bilhetes não têm corpos, suor, porta ou aspas, adverte-nos o poeta. Bilhetes são apenas ritmos de letras, continua. Mas para que constituir provas contra si?  A incapacidade de decifrar Marta pode ser fatal, pois nunca sabemos o outro lado da moldura. A diferença entre o que se esconde e o que se dá aos olhos. Assim sendo, corremos o ritmo, a estrada portátil, no mesmo espaço em que Marta prolonga o corpo ou liberta a lycra enrugada, travestindo-se em cada mulher da rua, dos sonhos, da academia, dos desejos (in)contidos, da praia, parada no semáforo ou a gemer na cama, a uivar na mata, enquanto seus olhos bombardeiam horizontes plenos de hesitação e desejo.
A chegada de O Livro de Marta ao mercado editorial vem apenas reforçar o que a crítica já sabia a respeito da qualidade literária das obras de Rodrigo Marques. Prenhe de poesia da melhor qualidade e eivada de apurado rigor literário, o poeta oferece sua obra a analise e ao deleite daqueles que ainda não perderam a capacidade de sonhar e de se deixarem envolver por uma literatura de refinada espécie. A literatura, sabemos, não muda o mundo, mas muda as pessoas. E se O Livro de Marta nada mudar no mundo, que fique a intenção provocadora do poeta de instigar a Marta que cada um de nós, homem ou mulher, mantém encalacrada nos mais recônditos escaninhos da nossa compleição humana.

Eis O Livro de Marta, caro leitor, aceitas? 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

ESCRITORES CEARENSES: MÚLTIPLOS OLHARES


É bastante comum vermos pesquisadores se debruçando sobre esse ou aquele autor alienígena, em detrimento de autores formadores da sua própria cultura. Nada contra, mas meu coração dá saltos quando vejo jovens pesquisadores, indo buscar na sua terra objetos de estudo muitas vezes esquecidos, relegados a um canto de memória de antigos mestres, exilados em prateleiras não mais visitadas das nossas bibliotecas, quiça desconhecidos.

E foi com grande satisfação que recebi o lançamento do livro Escritores Cearenses: Múltiplos Olhares (2013), organizado pelas escritoras Fernanda Maria Diniz da Silva e Jailene de Araújo Menezes. Minha satisfação talvez se justifique por defender aquela velha máxima de Tolstoi, quando diz: "Fale da tua aldeia e falarás do mundo". Isso, no entanto, quero deixar claro, não nos invalida de pesquisarmos autores outros. Eu mesmo não abro mão das minhas pesquisas sobre Samuel Beckett, Ernest Hemingway ou Wole Soyinka, entre outros. Não posso negar, porém, que meu coração parece bater mais forte, quando pesquiso sobre a poesia de Jáder de Carvalho ou a crônica de Margarida Saboia de Carvalho, por exemplo.


O livro, lançado durante o I Simpósio de Literatura Cearense, traz sete artigos, entre prosa e poesia, organizados da seguinte forma: Luzia-Homem: Aspectos regionais, naturalistas e românticos, da autoria de Fernanda Barbosa e Silva e Francisca Erik Larisse Nogueira Lima. O artigo de Gildênia Moura de Araújo Almeida, discorre sobre a obra A Divorciada, de Francisca Clotilde. Patativa do Assaré - o poeta popular é assinado por Avanúzia Ferreira Matias, enquanto Fernângela Diniz da Silva assumiu a responsabilidade de escrever sobre a literatura infanto-juvenil da escritora Rachel de Queiroz, enfatizando a obra O menino mágico. No que diz respeito à poesia, Marilde Alves da Silva dedicou seu artigo ao estudo da poesia do escritor Moreira Campos, tomando como seu objeto de análise o livro Momentos, de 1976. Jailene de Araújo Menezes, por sua vez, mergulhou fundo na poesia de Linhares Filho, assinando o artigo  A representação mítico-erótica do mar, na poética de Linhares filho. A poesia de Roberto Pontes surge na obra em questão com o artigo denominado A presença de eros em Memória Corporal, da autoria de Fernanda Maria Diniz da Silva.

Na apresentação da obra, as autoras deixam bastante claro que o objetivo de Escritores cearenses: múltiplos olhares "é valorizar a produção literária dos nossos renomados escritores e fomentar os estudos sobre a produção literária de autoria de cearenses, contribuindo, assim, com o estímulo ao conhecimento e à pesquisa dessa rica e variada produção bibliográfica (...)".

Os múltiplos olhares das autoras sobre os múltiplos autores escolhidos apontam para a diversidade de obras e autores à espera de trabalhos de fôlego, que estejam dispostos a explorar os meandros da literatura produzida na terra de Alencar. Nesse sentido, a obra que as pesquisadoras agora entregam ao público é, ao mesmo tempo nossa, da nossa aldeia, mas também do mundo, essa aldeia global, como bem pontificou Marshall McLuhan.