domingo, 5 de maio de 2019

O PRANTO DOS LIVROS, POR ANTONIO CANDIDO


Texto de 17 de janeiro de 1997, extraído de um dos quase cem cadernos deixados pelo autor de Formação da Literatura Brasileira



Foto: Cristiano Mascaro_2017

Morto, fechado no caixão, espero a vez de ser cremado. O mundo não existe mais para mim, mas continua sem mim. O tempo não se altera por causa da minha morte, as pessoas continuam a trabalhar e a passear, os amigos misturam alguma tristeza com as preocupações da hora e lembram de mim apenas por intervalos. Quando um encontra o outro começa o ritual do “veja só”, “que pena”, “ele estava bem quando o vi a última vez”, “também, já tinha idade”, “enfim, é o destino de todos”.

Os jornais darão  notícias misturadas de acertos e erros e haverá informações desencontradas, inclusive dúvida quanto à naturalidade. Era mineiro? Era carioca? Era paulista? É verdade que estudou na França? Ou foi na Suíça? O pai era rico? Publicou muitos livros de pequena tiragem na maioria esgotados. Teve importância como crítico durante alguns anos, mas estava superado havia tempo. Inclusive por seus ex-assistentes Fulano e Beltrano. Os alunos gostavam das aulas dele, porque tinha dotes de comunicador. Mas o que tinha de mais saliente era certa amenidade de convívio, pois sabia ser agradável com pobres e ricos. Isso, quando se conseguia encontrá-lo, porque era esquivo e preferia ficar só, principalmente mais para o fim da vida. Uns dizem que era estrangeirado, outros que pecava por nacionalismo. Era de esquerda mas meio incoerente e tolerante demais. Militava pouco e no PT funcionou sobretudo como medalhão. Aliás, há quem diga que teve jeito de medalhão desde moço. Muito convencional.  Mas é verdade que fugia da publicidade, recusava prêmios e medalhas quando podia e não gostava de homenagens. Contraditório, como toda a gente. O fato é que havia em torno dele muita onda, e chegou-se a inventar que era uma “unanimidade nacional”. No entanto, foi sempre atacado, em artigos, livros, declarações, e contra ele havia setores de má vontade, como é normal. Enfim, morreu. Já não era sem tempo e que a terra lhe seja leve.

Mas o que foi leve não foi a terra pesada, estímulo dos devaneios da vontade. Foi o fogo sutil, levíssimo, que consumiu a minha roupa, a minha calva, os meus sapatos, as minhas carnes insossas e os meus ossos frágeis. Graças a ele fui virando rapidamente cinza, posta a seguir num saquinho de plástico com o meu nome, a data da morte e a da cremação. Enquanto isso, havia outros seres que pensavam em mim com uma tristeza de amigos mudos: os livros.

De vários cantos, de vários modos, a minha carcaça que evitou a decomposição por meio da combustão  suscita o pesar dos milhares dos milhares de livros que foram meus e de meus pais, que conheciam o tato da minha mão, o cuidado do meu zelo, a atenção com que os limpava, mudava de lugar, encadernava, folheava, doava em blocos para serviço de outros. Livros que ficavam em nossa casa ou se espalhavam pelo mundo, na Faculdade de Poços, na de Araraquara, na Católica do Rio, na Unicamp, na USP, na Casa de Cultura de Santa Rita, na ex-Economia e Humanismo, além dos que foram furtados e sabe Deus onde estão - todos sentindo pena do amigo se desfazer em mero pó e lembrando os tempos em que viviam com ele, anos e anos a fio. Então, dos recantos onde estão, em estantes de ferro e de madeira, fechadas ou abertas, bem ou maltratados, usados ou esquecidos, eles hão de chorar lágrimas invisíveis de papel e de tinta, de cartonagem e percalina, de couro de porco e pelica, de couro da Rússia e marroquim, de pergaminho e pano. Será o pranto mudo dos livros pelo seu amigo pulverizado que os amou desde menino, que passou a vida tratando deles, escolhendo para eles o lugar certo, removendo-os, defendendo-os dos bichos e até os lendo. Não todos, porque uma vida não bastaria para isso e muitos estavam além da sua compreensão; mas milhares deles. Na verdade, ele os queria mais do que como simples leitura. Queria-os como esperança de saber, como companhia, como vista alegre, como pano de fundo da vida precária e sempre aquém. Por isso, porque os recolheu pelo que eram, os livros choram o amigo que atrasava pagamentos de aluguel para comprá-los, que roubava horas ao trabalho para procurá-los, onde quer que fosse: nas livrarias pequenas e grandes de Araraquara ou Catanduva, de Blumenau ou João Pessoa, de Nova York ou New Haven; nos sebos de São Paulo, do Rio, de Porto Alegre; nos buquinistas de Paris e nos alfarrabistas de Lisboa, por toda parte onde houvesse papel impresso à venda. O amigo que, não sendo Fênix, não renascerá das cinzas a que está sendo reduzido, ao contrário deles, que de algum modo viverão para sempre.

CANDIDO, Antonio. “O pranto dos livros”. In: Revista Piauí. N. 145, ano 13, outubro de 2018. P.50-51.


Mais: O "pranto mudo dos livros" de Antonio Candido.
https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2018/11/29/o-pranto-mudo-dos-livros-de-antonio-candido

sábado, 20 de abril de 2019

À CIDADE, DE MAILSON FURTADO


E a cidade, o que é? Para mim pode ser uma coisa, para o leitor, outra. Para um poeta, ainda outra e mais outra, dependendo de quem entrar na conversa. Cada olhar percebe a cidade de forma diferente. Muitas vezes é possível ver, na cidade, o que quase ninguém vê. Há, na cidade, o que se esconde e o que se dá aos olhos. E é assim que Marco Polo fala ao grande Kublai Khan das cidade que visitou, nas narrativas constituintes do livro As cidades invisíveis (1972), de Ítalo Calvino.

As cidades de Calvino têm nomes de mulheres. Cada uma de suas cidades possuem características que são apenas suas. Características que as tornam únicas, belas e invejáveis. A cidade é, na narrativa de Calvino, um símbolo que nos remete, como faz com o próprio autor, à reflexões, experiências e conjecturas. De todas as cidades constantes na referida narrativa, nos chama particular atenção a cidade de Tecla, que se constrói constantemente sem jamais se concluir, sendo esse seu projeto de existência.

Partimos das cidades invisíveis de Calvino, para apresentarmos uma breve análise da poesia que nos é apresentada pelo poeta Maílson Furtado (vencedor do Prêmio Jabuti de Poesia, de 2018) no seu À Cidade (2017). O livro está organizado em quatro partes, que podem ser compreendidas como quatro grandes poemas que se entrelaçam e dialogam em simbiose. A primeira parte chama-se “Presente” (p. 9 – 20), a segunda, “Pretérito” (p. 21 – 36), a terceira é denominada de “Pretérito mais-que-perfeito” (p. 37 – 50), enquanto a quarta parte chama-se “Futuro do pretérito” (p. 51 – 61). O livro traz um texto de Oswald Barroso (nas “orelhas”) e o posfácio “a cidade pelo “arquivo dos pés” (p. 63 – 69), de Décio Braúna. A última página do livro (p.70) traz os dados biobliográficos do autor.

A estrutura escolhida por Furtado para a organização do seu À Cidade conduz o leitor pelas ruas e pelo cotidiano de uma cidade que, assim como poderia ser Varjota, no interior do Ceará, poderia ser qualquer outra cidade (Campo Grande, Santa Cruz, Sinimbu...). Ao contrário do ocorre na narrativa de Calvino, a poesia de Maílson Furtado não parece tratar de nenhuma cidade invisível, mas de uma das muitas cidades observáveis no Brasil. Claro que a poesia em questão não trata das grades metrópoles, daquelas que engolem o ser humano e o cospe como se não fosse mais que uma bagaço, um nada. A poesia de Furtado, pelo contrário, deita olhos sobre as cidades que ainda acordam com o galo e dormem quando se apagam as luzes dos postes. A máxima “fale de sua aldeia”, de Tolstoi, é levada ao pé da letra pelo poeta cearense, quando traz para seus versos o velho rio Acaraú (“... e tudo vale para namorar o acaraú ...”), os meninos, os mosquitos, o quintal, os cachorros, as cacimbas, as cadeiras na calçada e todos os elementos que constituem a paisagem de uma pequena cidade de um interior qualquer, onde, como já havia dito Drummond, tudo passa devagar.

Os poemas que compõem a obra de Maílson Furtado são dedicados à cidade “e aos que nunca dedicarei nada”, dedicou o poeta. O uso dos tempos verbais como títulos de cada uma das quatro partes do livro servem como marcação da maneira como o tempo se dá na cidade, objeto da poesia do autor. Assim, “tudo sai”, “a noite vai”, “a noite adentra”, “o poste acende”, “noutro dia/vem outro sol”, “a cidade acorda”, “a manhã deságua”, “a vida segue”. 

E a cidade, o que é?

Maílson Furtado
A cidade é uma representação do abrigo, do abraço e do aconchego. Mas também pode ser a esfinge que, de forma diferente, observa o filho / morador e o viajante / forasteiro. Conhecê-la é também decifrá-la ou por ela ser devorado. O eu lírico da poesia de Maílson Furtado parece não correr o risco de ser engolido pela cidade, aparentando haver entre ambos uma certa cumplicidade. 

Como um imenso e belo monstro a se metamorfosear dia e noite, a cidade move-se lentamente, mas também descansa. Do topo de uma colina imaginária, o eu lírico observa sua transmutação. Às vezes desce, caminha por suas ruas, por seu dorso, brinca com os meninos, se lacera, se desvirgina, mas a cidade não se define.

Jáder de Carvalho, José Alcides Pinto e Francisco Carvalho são poetas cearenses/universais que, entre outros, também foram telúricos e cantaram a cidade, suas cidades, em versos de alta qualidade poética . Contudo, depois de um longo período de estagnação, sem que aparecesse uma grande poesia em terras de Alencar, eis que surgem os versos de Maílson Furtado que, tal qual um Marco Polo, apresenta aos leitores a cidade transformada em poesia. Para concebê-la, no entanto, é necessário acompanhar a imaginação do poeta e tirar os pés do lugar-comum, pois “... a cidade é uma fotografia / que nunca é a mesma / uma hoje / outra amanhã...”, tal qual Tecla, de Calvino. À Cidade (2017), de Maílson Furtado já pode ser considerado um acontecimento poético no âmbito da literatura brasileira. Da cidade, dela mesma, não sei.


Maílson Furtado, acompanhado dos poetas Alan Mendonça, Bruno Paulino, Dércio Braúna e Renato Pessoa, participa do trabalho intitulado Cinco inscrições da mortalidade (2018). Maílson Furtado também é autor de Sortimento (2012), Conto a Conto (2013), e Versos Pingados, de 2014.









domingo, 14 de abril de 2019

TEMPOS DE CIGARRO SEM FILTRO, DE JOSÉ MASCHIO


São muitos os aspectos que contribuem para que uma obra literária se mantenha em consonância com seu tempo. Depois de escrita, a obra ganha pernas e anda. Sai para a vida tal qual o filho que não criamos para nós, mas para o mundo. Assim, cada obra está dentro de um contexto sócio-histórico e seu nível de compreensão dependerá das potencialidades interpretativas do leitor.

Tempos de cigarro sem filtro (2017), de José Maschio, publicado pela editora Kan, surge num contexto histórico bastante caro para a sociedade brasileira. No ano que antecedeu sua publicação, uma clara ruptura democrática se deu no país, seguindo praticamente o mesmo modus operandi que implantou a ditadura no Brasil de 1964. Os resultados do golpe de 2016 ainda resvalam na sociedade brasileira, com instituições travadas, autoritarismo, perseguições, ataques à imprensa e desprezo pelos direitos humanos. Ao caos estabelecido se juntaram elementos novos, como a pós-verdade e as chamadas fake News. 

Em resumo, os “tempos de cigarro sem filtro” ameaçam voltar. Os personagens, no entanto, são outros. Já não se tem o “gordo ministro a anunciar o milagre econômico brasileiro” e nem o” rosto sombrio e sério do general Carrascoazul anunciando medidas contra terríveis terroristas e comunistas”. Corpos já não são encontrados no rio Paranapanema, mas os opositores são constantemente ameaçados com a ponta da praia. Impunes. Insolentes. Juízes sabem.

O romance de José Maschio está organizado em 31 capítulos e conta com uma breve apresentação (nas orelhas) de Luiz Taques. A linguagem é fluida e o texto, seguindo o estilo jornalístico, é constituído de períodos curtos. Dessa forma, o autor coloca em sua escritura a brevidade e a rapidez da comunicação, comuns aos tempos da repressão. O uso que Maschio faz da linguagem nos permite perceber aproximações com os grandes mestres da narrativa curta, como Ernest Hemingway, Dalton Trevisan e João Antonio. 

É por intermédio da vida do personagem Ruço (não Russo), que o narrador reconstrói um dos períodos mais violentos da vida nacional. Por sua narrativa, passam a selvageria do Estado contra aqueles que considera inimigos, a perseguição, a dor, a tortura, a perda, a morte. No período no qual a narrativa de Maschio se insere, lê-se Sete Palmos de Terra e um Caixão, de Josué de Castro. Na atual conjuntura, lê-se o “guru da Virgínia” e outras absurdetes (ou seriam “olavetes”?). Os desavisados  e mal intencionados falam, mesmo sem ter lido Michael Young, em meritocracia. Em “tempos de cigarro sem filtro” reina a ignorância. Sobre isso, lê-se:


A ignorância é a mãe de todas as misérias e mazelas do mundo. O pai tinha dito isso. Lembrava Ruço. E sentiu-se ignorante. Queria entender essa miséria toda, a contrastar com a beleza de cartão postal da cidade, mas não atinava uma explicação satisfatória. No Sul meninos branquelos, como ele tinha sido na infância, eram engraxates. Nos pardieiros, e Ruço já se enturmara, as prostitutas eram loiras, brancas (...), mas o que incomodava Ruço eram as meninas. À noite, elas apareciam pelos bares do centro, crianças ainda, loirinhas, lindas. A mendigar moedas e oferecer sexo barato (...). (MASCHIO, 2017:95)


O romance de José Maschio, registre-se, é ficção. Não é um romance-reportagem, nem muito menos um ensaio de sociologia. Tempos de cigarro sem filtro é ficção e o autor não pode ser "culpado" se aquilo que conta guarda semelhanças com nomes, pessoas ou acontecimentos reais. Qualquer aproximação é mera coincidência. Na narrativa, há um delegado que “prende e arrebenta” e que sonha com Brasília. “Era meticuloso. Não podia deixar brechas (...). Visitou o juiz. Judiciário sabujo. Pediu. Não pediu, mandou. Mandava como delegado. Imagina como deputado eleito?” (p.99). A ficção, prezado leitor, tem dessas coisas!

José Maschio
Em Tempos de cigarro sem filtro (2017), Ruço nada mais é do que uma pequena peça na grande “máquina de triturar carnes” do Sistema. Impedido de viver dignamente, “o máximo que Ruço sentia era rancor. Estava abraçado ao seu rancor” (p.122). Em João Antonio é Abraçado ao meu rancor, de 1986. Ruço, sabemos pelo narrador, era “afinado na arte de chutar tampinhas”. E eis mais um intertexto: "Afinação da arte de chutar tampinhas", conto de João Antonio do livro Malagueta, Perus e Bacanaço (1963).


Como dito, o livro de José Maschio foi publicado no ano de 2017, mas poderia ter sido publicado ontem. Os tempos de cigarro sem filtro que acreditávamos terem ido para sempre, ameaçam voltar com toda sua brutalidade. E já nos apavora, como diz a canção, “ver emergir o monstro da lagoa”. Neste contexto, muitos já se sentem como o personagem Polska, exilados dentro de seu próprio país. 

De atualidade surpreendente, a narrativa de José Maschio é leitura indispensável para se compreender aquilo que primeiro se dá como tragédia, mas que depois vem como farsa.