sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O QUE (RE)LER EM 2026

 


1. Educação e Felicidade

     Autor: Luiz Oswaldo Sant'Iago Moreira de Souza

     Editora: EdUECE




2. Andorinhando

   Autora: Valdenia Silva

   Editora: Radiadora


3. Aldeota

   Autor: Jáder de Carvalho

    Editora: UFC


4. Boceta encantada e outras historinhas

    Autora: Sarah Forte

    Editora: Patuá


5. Oswald de Andrade: mau selvagem

    Autor: Lira Neto

    Editora: Companhia das Letras


6. A Century of Fiction in The New Yorker (1925 - 2025)

    Editado por Deborah Treisman

    Editora: Alfred A. Knopf


7. Contos dos subúrbios distantes

    Autor: Shaun Tan

    Editora: DarkSide



8. Como ser um educador antirracista

    Autora: Bárbara Carine

    Editora: Planeta


9. Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior: 81 lições do método Sueli Carneiro

    Autora: Cidinha da Silva

    Editora: Rosa dos Tempos


10. Alucinação: minha vó costurou minha mãe uma mulher de costura

      Autor: Samuel Maciel Martins

      Editora: Aluá Sebo & Galeria



11. Hamnet: um romance sobre o luto, a peste e uma das maiores peças de todos os tempos

      Autora: Maggie O'Farrell

     Editora: Intrínseca 


12. A filosofia da música moderna

      Autor: Bob Dylan

      Editora: Companhia das Letras


13. Chomsky & Mujica: sobrevivendo ao século XXI

      Autor: Saúl Alvidrez

      Editora: Civilização Brasileira



14. Revolucionários da crítica: cinco críticos que mudaram o modo como lemos

      Autor: Terry Eagleton

      Editora: Unesp


15. Che Leitor

      Org. Biblioteca Nacional de la República Argentina

      Editora: Expressão Popular


16. Raoni: memórias do cacique

      Pesquisa e organização: Fernando Niemeyer

      Editora: Companhia das Letras


17. Toni at the Random: the iconic writer's legendary editorship

      Autora: Dana A. Williams

      Editora: Amistad



18. Slaves to Fashion: black dandysm and the styling of black diasporic identity

      Autora: Monica L. Miller

     Editora: Duke University Press


19. Um defeito de cor

      Autora: Ana Maria Gonçalves

      Editora: Record


20. Racismo algorítmico: inteligência artificial e discriminação nas redes digitais

      Autor: Tarcízio Silva

      Editora: SESC



21. Ruas biográficas

      Autor: Emmanuel Montenegro

      Editora: BPM

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Esculhambação é outra coisa!

 

Não deu no New York Times, mas saiu em todos os veículos da imprensa brasileira a frase: “Tem que organizar a casa. Está uma esculhambação”, que teria sido dita pelo deputado federal Arthur Lira (PP-AL) em um grupo de mensagens com integrantes de seu partido na Câmara, após a manutenção do mandato do deputado Glauber Braga. No Nordeste, a palavra “esculhambação” é bastante usada no sentido de “desorganização” e “confusão”. A maneira como boa parte dos adolescentes “organiza” seu quarto é, por exemplo, uma verdadeira “esculhambação”, com tudo espalhado por todos os lugares.  Quando você vai a um evento com lugar marcado e, chegando lá percebe que não há nenhum controle, com as pessoas sentando onde bem entendem, isso também pode ser considerado como exemplo de “esculhambação”.

O que tem ocorrido na Câmara dos Deputados, no entanto, está muito longe do que a palavra usada pelo poderoso parlamentar comporta, pois não se trata de mera “esculhambação”. Tramar para que parlamentares condenados pela justiça continuem no exercício dos seus mandatos, mesmo morando ou presos fora do país, não constitui “esculhambação”, mas um ataque frontal ao Estado democrático de Direito. Ordenar que a policia legislativa retire à força do plenário da Câmara um deputado de oposição, que tem reiteradas vezes denunciado os conchavos e os destinos dados às emendas parlamentares não é de bom tom. Também não é “esculhambação” parar as filmagens da Câmara e mandar a polícia retirar à força os jornalistas da “casa do povo”, coisa que não se via no Brasil há uns quarenta anos após o fim da ditadura. O nome disso é outra coisa, deputado. E de onde quer que esteja, o famigerado general Newton Cruz gargalha e se orgulha dos parlamentares que aí estão, pois tratam a imprensa tal e qual ele fazia.

A maior parte da população brasileira considera uma vergonha, e não uma “esculhambação”, o que tem acontecido diuturnamente no Congresso Nacional. Suspender a escolta policial de uma deputada ameaçada de morte, por exemplo, somente por ela tecer críticas ao líder da Casa, também nem de longe consiste em uma “esculhambação”, mas em um salve aos criminosos incomodados com o exercício da parlamentar, no caso a deputada Talíria Petrone. A quem interessa jogar a referida parlamentar aos leões como foi feito com Marielle Franco?

Não é preciso ser um gênio para perceber que o Congresso Nacional perdeu o rumo, navega à deriva e cada vez mais se distancia do povo. E se isso se dá é pela razão de nossos parlamentares terem se desvirtuado da sua missão principal, que é trabalhar pela melhoria das condições de vida do povo brasileiro, e não pelos seus interesses particulares. Deputadas e deputados se reunirem na calada da noite para aprovar o PL da Dosimetria, cujo objetivo principal é livrar da cadeia os bandidos que atentaram contra a democracia brasileira não é uma simples “esculhambação”. O nome disso é golpe continuado. É esfaquear o povo pelas costas, enquanto ele dorme. É minar as Instituições na tentativa de enfraquecer o sistema judicial do país. Isso, definitivamente, não é “esculhambação”. O nome disso é outra coisa. Infelizmente, o Congresso Nacional se tornou o inimigo público número um do povo brasileiro. E se perguntassem àquele ex-senador cearense o que ele acha do atual Congresso Nacional, talvez ele respondesse que: “não vale um cibazol”. 


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Não devo pensar em coisas ruins

 

O título do presente artigo é tomado de empréstimo do livro I must not think bad thoughts: Essays on American Empire, digital culture, posthuman porn, and sexual symbolism of Madonna’s big toe (2010), de Mark Dery que, por sua vez, tomou emprestado do disco More fun in the new world (1983), da banda de punk rock X. o referido livro foi traduzido para o português por Marcelo Duarte como Não devo pensar em coisas ruins: ensaios sobre o Império Americano, cultura digital, pornografia pós-humana e o simbolismo sexual do dedão da Madonna, também de 2010, publicado pela Editora Sulina. Os ensaios do referido crítico cultural, de teor irônico e bem humorados, desnudam a sociedade norte-americana, expondo suas chagas e contradições de maneira certeira e aprofundada, como poucos críticos da sua geração o fazem.

O livro de Dery me caiu às mãos (organizado por ele, já havia lido Flame wars: the discourse of cyberculture, de 1994, ainda sem tradução para o português brasileiro) em um momento em que reservei para mim dois dias sem pensar muito em coisas ruins, como a chacina do Rio de Janeiro, o PL daquele nobre parlamentar que tenta impedir a Policia Federal de investigar o crime organizado, os 284 Crimes Violentos Letais Intencionais – CVLI e as 41 mortes por intervenção policial ocorridas somente em outubro, no Ceará. Também me recusei a dedicar um fio de pensamento que fosse sobre se o cramunhão vai ser mantido em prisão domiciliar, preso em uma garrafa, mandado pra Papuda, Papudinha ou para a ilha de Lost. Muito “mais importante” foi ler e refletir sobre coisas como o simbolismo sexual do dedão da Madonna. Sem tempo pra pensar em coisa ruim!

Assim, larguei quase tudo (na verdade, deixei em stand by) e fui ler Mark Dery. Sinistro! Reli também Alucinação: minha vó costurou minha mãe uma mulher de costura (2023), livro de Samuel Maciel Martins, publicado pela Editora Aluá. Na sequência, reli Boceta encantada e outras historinhas (2023), livro de contos de Sarah Forte, publicado pela Editora Patuá. Lindezas!  Os poemas de Martins e os contos de Forte são belezas. E como bem nos dizem Jorge Mautner e Nelson Jacobina: “belezas são coisas acesas por dentro”. E para que as belezas não fossem apagadas, resolvi inundar o ambiente com música.  Assim, ouvi reiteradas vezes, na voz de Arrigo Barnabé, “Mal menor”, “Noite torta” e “De mais ninguém”. Na voz de Nina Simone, “To love somebody”, “Stars” e “Everything must change”. Nada de pensar em coisas (e pessoas) ruins ou “nos fatos que odiamos”, como diz a canção da banda X.

Ainda da série “Belezas são coisas acesas por dentro”, ouvi sem cessar a canção “Os passa vida”, de Osmar Júnior e Rambolde Campos, nas vozes de Nilson Chaves e Lucinha Bastos. Essa canção é de uma beleza monumental, pois contém na simplicidade da sua letra toda a complexidade de um belo poema: “Quando o sol chegou/Clareando o dia/Foi pra me socorrer da noite que eu vinha...”. De forma magistral, a composição dialoga com temas poéticos universais quando trata, por exemplo, do amor, da solidão e da saudade: “O que aperta o peito/É o tempo, é o cheiro/O amor é assim/Eu quis você pra mim/Eu quis você pra mim” ou “Eu te procurei/Te achei em minha solidão...” e “... Mandei a saudade de buscar/Pra perto de mim” e ainda: “...Um beijo no tempo segurei/E guardei pra você aqui”. A cor local também se mostra na tessitura da canção quando a cidade, que acredito deva ser Belém, surge nos versos dos poetas e dizem: “É que nessa cidade/As mangueiras falam sempre em ti/Na chuva da tarde, os passa vida/E é sempre assim”.

Como dois dias passam muito rápido, o livro de Mark Dery ainda está ali ouvindo essa nossa prosa e aguardando sua leitura ser concluída. De volta à realidade, vejo o noticiário e percebo que as coisas ruins nas quais me recusei a pensar, mesmo assim continuaram “pensando” em mim.