quarta-feira, 1 de março de 2017

CRAVOS, DE JÚLIA WÄHMANN

O que tem a ver um filhote de elefante, que pula de um trem suspenso, em movimento, com a solidão que dorme silenciosamente no coração humano, os movimentos da dança-teatro, de Pina Bausch e um personagem de David Bowie? Aparentemente, nada. Mas também pode ter tudo, dependendo de como um bom narrador ata tais fios.

Houve um tempo em que algumas pessoas acreditavam piamente, que diferentes formas de arte jamais poderiam habitar o mesmo espaço; devendo cada uma delas se manifestar conforme suas próprias delimitações. É claro que esse tipo de pensamento só se sustenta na cabeça daqueles que não conseguem pensar fora da caixa, ou seja, na cabeça daquelas pessoas que, como diz o poeta Alexander Pope: “nunca aprendem nada, pois entendem tudo muito depressa”. E, (in)felizmente, algumas coisas precisam ser apreciadas e lentamente mastigadas, para que só então possam ser deliciosamente deglutidas. Talvez esteja aí, uma das principais características de uma boa narrativa.

Refiro-me, especificamente, ao romance Cravos (2016), de Júlia Wähmann, publicado pela editora Record. Trata-se do primeiro romance da autora, a qual já havia publicado Diário de Moscou e André quer transar; os quais são do ano de 2015, publicados respectivamente pelas editoras Megamíni / 7Letras e Pipoca Press. Júlia Wähmann nasceu no ano de 1982, coincidentemente o ano de criação da peça Nelken (Cravos), de Pina Bausch.

A coreógrafa alemã Pina Bausch (1940–2009) é um dos principais nomes da dança-teatro (tanztheatre), tendo criado inúmeras peças, que contam histórias baseadas na vida cotidiana, na solidão; bem como nas relações que se dão entre o masculino e o feminino. É claro que o que dizemos é apenas uma brevíssima nota de rodapé ao trabalho de Bausch, tendo em vista que sua obra vai muito além de qualquer tentativa de rotulação ou enquadramento. E é a partir de determinados elementos constituintes da obra de Pina Bausch, que Júlia Wähmann elabora sua narrativa.

Não sabemos quem é exatamente a narradora do referido romance, mas sabemos que ela está na Alemanha e, entre idas e vindas de Wuppertal para Colônia, tomamos conhecimento da saudade que sente daqueles que ficaram no Brasil, assim como a angústia de coisas mal resolvidas. Há, na narrativa de Wähmann, a recorrente presença da solidão, de sentimentos estilhaçados e de algo que se ficou por dizer. Se a narrativa de Cravos fosse pautada apenas por essas questões existenciais, provavelmente o romance nada teria a acrescentar de novidade ao tripé amor, vida e morte; que serve de sustentação, de uma forma ou de outra, à literatura universal. A grande sacada de Wähmann, no entanto, é trazer para sua narrativa os movimentos observáveis na dança de pina Bausch. No caso, Cravos.

Cena da peça Cravos.
A predileção da autora pela peça Cravos acabou por aproximar dança e literatura; palavra e movimento. E se a narradora, citando Spinoza, pergunta “o que pode um corpo?” (p.39), poderíamos parafraseá-la, perguntando o que pode a palavra? Mas não é só Spinoza que passeia pela narrativa de Júlia Wähmann. No decorrer do seu texto, o leitor entra em contato como os diálogos propostos pela narrativa, quando é posto em contato com nomes da cultura mundial, que se apresentam como personagens de um grande painel em movimento. Ora, se a vida não é uma maravilhosa dança-teatro, o que é então? Assim sendo, o leitor encontra Raymond Queneau (p.47) e escuta Jards Macalé cantando “movimento dos barcos”. Relembra a canção popular “Alecrim dourado” e é sacudido pelo  vazio deixado por Pina Bausch e Michael Jackson (p.63). A morte aparece de inúmeras formas, mesmo que seja a morte de personagens fictícios, como o Major Tom (p. 69), o astronauta criado por David Bowie, e que aparece nas canções “Space Oddity”, “Ashes to ashes” e “Hallo Spaceboy”!

Cravos (1982), a peça de Pina Bausch, é o que serve de leitmotiv para a construção de Cravos, o romance de Júlia Wähmann. Contudo, outras peças da coreógrafa (logicamente, Pina Bausch é muito mais que uma coreógrafa!) alemã são referenciadas ao alongo da prosa de Wähmann. Ariem (1979), Ten Chi (2004) e Café Müller, de 1978, sendo esta considerada sua obra mais íntima, tida como uma metáfora da solidão e da fragilidade dos relacionamentos humanos.  

Mas é a imagem daqueles cravos tomando o palco, derramados pela narrativa de Wähmann, que invadem os olhos e a imaginação do leitor. É tudo tão vivo e forte, que quase se escuta a narradora parafrasear Bausch e dizer: “Você precisa se assustar”. E ousamos dizer que se a narrativa de Wähmann fosse uma pintura, muito dificilmente seria um dos azuis (ou o rosa) de Yves Klein, mas um Pollock, com certeza. Do meio da plantação de cravos, reverbera uma canção de George e Ira Gershwin. A narradora é tão minúscula perante a Catedral de Colônia! A narrativa segue, assim como segue um baile. E Colônia se torna para a narradora apenas “uma sala de espera úmida e descompassada para o próximo trem”. A narradora consegue um bilhete para a reprise de Nelken. Há cravos à venda. “Não há costura que te possa”, diz o Canto II, de Pele tecido (2010), de Ericson Pires. Segue o baile. Segue a narrativa.

Júlia Wähmann

A narradora encontra Dominique Mercy, que já não dança mais. Aceitar isso é tão difícil quanto amar um elefante ou ver todo ano Michael Jackson morrer de novo.  Cravos, peça e romance, nos impõem um questionamento que se resume na postura do bailarino frente ao vazio, mas que também o é, ao mesmo tempo, da angústia do homem frente aos desafios que lhes são impostos pela contemporaneidade. Na obra, o coreógrafo Merce Cunningham, citado por José Gil, diz: “Perante o vazio, [o bailarino] está só, de uma solidão que o arranca para fora de si. Está só e fora de si. O seu gesto vai na direção dos outros corpos. Como dançar esse gesto? Como fazer? Fazendo-o” (p.121). 

Cravos, o romance de Júlia Wähmann, é uma das mais belas narrativas publicadas no Brasil de 2016. Engana-se, no entanto, aquele leitor que ousar acreditar, que uma ou duas leituras poderão dar conta da simplicidade da narrativa em questão. Embora escrita de maneira bastante acessível, como deve ser toda boa literatura, a narrativa de Wähmann é repleta de informações da cultura mundial, o que exige do leitor diferentes aportes para uma efetiva compreensão do texto em questão. A narrativa de Wähmann também pode ser lida como um poema, mas, antes de tudo, como uma dança em todos os seus movimentos.  

domingo, 19 de fevereiro de 2017

PRÊMIO SESC/DF DE CRÔNICAS RUBEM BRAGA

A crônica é um mundo. Por suas linhas, construções e proposições é possível erigir inúmeros universos, paralelos ou não, capazes de trazer à tona a cotidianidade, as memórias e os lirismos que nos constituem enquanto seres humanos. Sem sombra de dúvida, Rubem Braga é, no Brasil, a principal referência quando se trata da boa e velha forma de discorrer sobre os mais variados assuntos de maneira leve e agradável. Estão aí os cronistas de viagem do período da conquista do Brasil, que não nos deixam mentir. Embora eles mentissem muito, digo, inventassem muito.

E eis que passado tanto tempo, aquela que já foi tida como “a prima pobre da literatura”, deixou de ser cativa dos jornais, passando a ocupar livros e, mais recentemente, as páginas da Internet. Nesse contexto, ressaltamos a importância dos concursos e prêmios que têm aberto espaço para a publicação do gênero crônica que, embora tenha sido perenizado por autores como Bandeira, Drummond, Braga, Lispector e Paulo Mendes Campos; por exemplo, ainda se ressente de uma compreensão crítica que o conceba como um tipo de escritura que vai muito além do “rés do chão”, expressão cunhada por Antonio Cândido, nosso crítico maior.

Dessa forma, é com grande satisfação que damos a conhecer a publicação da coletânea de crônicas trazidas a público pelo Serviço Social do Comércio do Distrito Federal – SESC/DF. Trata-se do Prêmio SESC de Crônicas – Rubem Braga, cuja publicação saiu no ano de 2016, como resultado do concurso realizado em 2015. O concurso premiou os três primeiros colocados. A coletânea, no entanto, contempla em sua publicação as quinze melhores crônicas inscritas. A banca responsável por julgar os trabalhos foi composta pelos seguintes nomes: José Santiago Naud, João Carlos Taveira, Rosângela Vieira Rocha, Roberto Klotz e Danilo Carlos Gomes (p. 69- 71). A edição é constituída de setenta e duas páginas, com apresentação do Presidente do Conselho Regional do SESC – DF, Adelmir Santana. O Prêmio é, obviamente, uma homenagem ao cronista Rubem Braga.

A crônica vencedora da referida edição chama-se “Óculos Ray-Ban” (p. 9 – 11), de Tiago Germano. “A maior distância do mundo fica entre duas estações” (p. 13 – 15), de Flávio de Sousa ficou em segundo lugar. Alexandre Arbex Valadares ocupa a terceira colocação com a crônica “Finados” (p. 17 – 19). Na sequência, tem-se “A igreja e o sobrado” (p. 20 – 23), de Carlos Carvalho; “Um galo que canta” (p. 25 – 27), de Ângela Gasparetto; “Memória de elefante em 10 dias” (p. 29 – 31), de Gisele Lourenço; “O primo sabichão” (p. 33 – 35), de Gustavo Albuquerque Machado; “Todas as manhãs do mundo” (p. 37 – 40), de Ana Paula Vieira de Moraes; “O mungunzá de Dona Vanda” (p. 41 – 43), de Edgar Borges; “Quem não tem gato... Caça com peixe” (p. 45 – 47), de Cácia Leal; “Os caminhos do meu pai” (p. 49 – 51), de Diana Alencar; “Janelas pintadas de azul” (p. 53 – 55), de Lila Maia; “Sobre milagres e espetáculos” (p. 57 – 59), de Karla Celene Campos; “Missioneiro Fake” (p. 61 – 63), de Athos Ronaldo Miralha da Cunha e “Não nasci comendo alface” (p. 65 – 67), de Ana Cristina Passarella Brêtas.  

As crônicas contempladas na edição 2015 do Prêmio SESC de Crônicas – Rubem Braga nos chamam atenção para a alta qualidade da crônica produzida no Brasil, a partir dos cronistas naturais dos mais diferentes pontos do país. Nos referidos textos, percebe-se a mestria na maneira como esses autores lidam com o fazer literário, trazendo para suas narrativas aspectos que são, ao mesmo tempo, tão locais quanto universais.

Assim sendo, ressaltamos mais uma vez a importância de iniciativas como a do SESC/DF, uma vez que contribuem para a democratização de autores e obras que precisam ser conhecidos, lidos e compartilhados cada vez mais.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

MENINAS, DO ZIRALDO

Ziraldo em Fortaleza em janeiro de 2017.
Foto: Geórgia Cavalcante Carvalho.
  Para Clarice Carvalho, que cresceu lendo Ziraldo.

Ziraldo é o responsável por ter, ao longo de toda sua vida, atiçado a imaginação de crianças de todas as idades mundo afora. Em uma ida aos seus lançamentos nos dias de hoje, percebe-se uma alegria geral naqueles que madrugam para conseguir uma senha para falar com ele por alguns minutos e sair de lá com uma bela dedicatória naquele livrinho companheiro e amigo de estimação. Mas não são apenas os pirralhos a madrugar, não. Há também menina, meninamoça, jovens, velhos e adultos. Em resumo: todo tipo de criança.


É enorme a contribuição de Ziraldo para o desenvolvimento da leitura no Brasil. Se cada criança, nos mais distantes municípios brasileiros, tivesse a felicidade de entrar em contato com um dos livros do Ziraldo, certamente que tudo por aqui seria muito diferente. Positivamente diferente. São incontáveis, infelizmente, as localidades que não possuem bibliotecas e que o acesso a leitura depende da boa vontade de um professor. Tamanho desrespeito resulta  no que temos visto no dia a dia, nos lares, nas ruas, nas redes sociais.

Mas o objetivo da presente resenha é trocarmos uma ou duas palavras sobre o mais recente lançamento do Ziraldo. Tratamos, obviamente, do livro Meninas, publicado no ano de 2016, pela editora Melhoramentos. O livro tem 45 páginas, com desenhos de Ziraldo e cores de Renato Aroeira. Para promover o lançamento do Meninas, Ziraldo tem viajado o Brasil, participando de tardes/noites de autógrafo em livrarias da rede Saraiva, por exemplo. Com sua presença, o “furdunço” é sempre o mesmo. Todos querem chegar perto do pai do Menino Maluquinho. Inclusive esse blogueiro que vos fala. Quando o vimos, teve até uma criança, já idosa, que perguntou ao Ziraldo, vejam vocês, se ele teria ali alguma coisa do Pasquim.

Na apresentação do livro Meninas, intitulada “Conversa de começo de livro”, Ziraldo explica como surgiu a ideia de escrever um livro sobre meninas. Ele afirma que, em um dos muitos encontros que promove com crianças e professores, uma menina o questionou da razão dele só escrever sobre meninos e nunca sobre meninas. Ziraldo respondeu, afirmando que isso se dava, tendo em vista ele entendia mais sobre meninos do que sobre meninas. Embora tenha fingido acreditar, é claro que a menina “perguntadeira” não se mostrou convencida da resposta dada, pedindo, mesmo assim, que o autor do Flicts (1969) escrevesse uma história sobre meninas. Como forma de atender a leitora maluquinha, Ziraldo escreveu Menina das Estrelas, publicado primeiramente no ano de 2007.

Partindo das observações de Alice, uma de suas netas, e da coleção de Alice no País das Maravilhas que ela possui, Ziraldo decidiu escrever um livro que pudesse “explicar a menina”. Contudo, tudo já foi dito sobre a menina, afirma Ziraldo: 

Tudo já foi dito sobre a menina, esse pequeno ser de tão curta permanência em nossas vidas que, ao final do seu tempo, se divide em duas e, juntas, seguem em frente para desmentir quem afirma que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. (ZIRALDO, 2016:05)

O lirismo observado na passagem citada é mantido ao longo de toda a narrativa de Meninas, constituindo um dos pontos altos de todo o livro. A história que Ziraldo nos conta, já de início é esclarecedora ao afirmar que: “O mundo é dos meninos. Mas não são eles que mandam no mundo”.

As histórias que Ziraldo nos conta, como o faz em Meninas, germinam nas nossas cabeças de criança e vão crescendo com a gente. Dessa forma, mesmo chegando ao final elas nunca terminam, pois são sempre um constante recomeçar; um eterno Era uma vez...


Em tempo: Clarice, minha menina, realizou o sonho de conhecer o Ziraldo. Ganhou até dedicatória.