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segunda-feira, 24 de maio de 2021

Bob Dylan aos 80

 

Maio já começa dar adeus. O mês se vai, mas ficam as tristezas acumuladas que começaram a se espalhar por aqui no começo do ano de 2020. Em meio a tanta tristeza e dor, uma pausa se faz necessária para comemorarmos o aniversário de 80 anos de Bob Dylan, um dos maiores poetas do século XX, cuja existência e contribuição às artes é imensurável.




Robert Allen Zimmerman nasceu no dia 24 de maio de 1941, adotando tempos depois o pseudônimo de Bob Dylan em homenagem ao poeta galês Dylan Thomas (1914 – 1953). Ao longo da sua carreira, Dylan recebeu todos os prêmios que um artista pode almejar, o que significa o reconhecimento de público e crítica pelo trabalho que desenvolveu em todas as áreas nas quais esteve, a saber, cinema, literatura, música, artes plásticas etc. No ano de 2016, o autor de Like a rolling stone foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura por ter, segundo a Academia sueca, “criado novas expressões poéticas dentro da enorme tradição da música americana”. Dylan é, continuou a Academia, “provavelmente o maior poeta vivo”. A decisão de premiar Dylan com o Nobel de Literatura foi pra lá de acertada. Não o fazer seria como ter a oportunidade de premiar Homero ou Walt Whitman e, simplesmente, ignorar.

Mas por qual razão, em meio a uma pandemia que devasta a terra, tecer loas a Bob Dylan? Numa resposta simples e rápida seria, basicamente, por que Bob Dylan importa. E importa em todos os sentidos que dizem respeito ao estar-no-mundo, como ser humano e como poeta comprometido com a condição humana. Assim, a canção de Dylan ultrapassou há tempos os limites da própria canção, atingindo o status de poesia, fazendo com que o autor de Tarântula (1971) se tornasse referência indispensável para a compreensão sócio-histórica, política e cultural do século XX, uma vez que sua poesia é toda ela permeada não apenas por lirismo, mas por temáticas mais cruas e ácidas que abordam os direitos civis, religião, política, direitos humanos, assim como variados aspectos dos movimentos de contracultura e além. Em outras palavras, a poesia de Bob Dylan tornou-se, pela qualidade que a engendra, uma arte atemporal e universal.

Bob Dylan é um poeta contemporâneo, e como tal mantém todos os seus sentidos voltados para a observação e apreensão daquilo que constitui e transforma o ser humano. Pois, como bem define Giorgio Agamben na obra O que é o contemporâneo? E outros ensaios (2009): “contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro. Todos os tempos são, para quem deles experimenta contemporaneidade, obscuros. Contemporâneo é, justamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente (...). Pode-se dizer contemporâneo apenas quem não se deixa cegar pelas luzes do século e consegue entrever nessas a parte da sombra, a sua íntima obscuridade (...). O contemporâneo é aquele que percebe o escuro do seu tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interpelá-lo, algo que, mais do que toda luz, dirige-se direta e singularmente a ele. Contemporâneo é aquele que recebe em pleno rosto o facho de trevas que provém do seu tempo”. Assim sendo, a contemporaneidade do pensamento poético de Bob Dylan pode ser notada já nas suas primeiras produções. Como admirador de Woody Guthrie (na guitarra de Guthrie estava escrito: “essa máquina mata fascistas”), Bob Dylan já sabia muito bem por quais caminhos sua poesia deveria seguir.

Em “Blowin’ in the Wind” (1963), por exemplo, o poeta faz ecoar uma pergunta que se mantém bastante atual, embora em contexto diferente. Diz (tradução livre): “...quantas pessoas ainda terão que morrer, para que ele perceba que já se matou demais?”. Em “The Times They Are a Changing” (1964), por sua vez, o poeta conclama todos a abrirem os olhos e ficarem atentos, pois “os tempos estão mudando, ou aprendemos a nadar ou afundaremos feito pedras”. Já em “Like a rolling stone” (1965) o questionamento é sobre aqueles que possuem tudo, mas que de repente perdem. E então? “Como é se sentir assim, sem destino, como uma pedra que rola?” Os aspectos surreais observáveis em “Mr. Tambourine man”, por seu turno, aproximam-se do que se vive hoje, no que concerne ao vazio, a insônia e ao cansaço dos dias, como se estivéssemos eternamente presos em um filme de Fellini. Tem-se: “... não estou dormindo e não há nenhum lugar onde eu possa ir, pois todos os meus sentidos foram destroçados...”.

Concluímos, retomando Agamben (2009), quando diz que o poeta, enquanto contemporâneo, é uma espécie de fratura que impede o tempo de compor-se e, simultaneamente, o sangue de suturar a quebra. O poeta – o contemporâneo – continua Agamben, deve manter fixo o olhar no seu tempo. Mas o que vê quem vê o seu tempo, o sorriso demente do século? A resposta, meu amigo, está logo ali, em cada verso da poética de Bob Dylan que, aos oitenta anos, ainda tem muito a nos dizer.

 

 

domingo, 16 de outubro de 2016

UM NOBEL PARA O POETA BOB DYLAN

Em diferentes regiões do Brasil se utiliza muito a lexia “demorô”, corruptela de “demorou”, para se referir a situações que, finalmente aconteceram, mas que deveriam ter acontecido bem antes. Embora se trate de uma expressão tipicamente brasileira, provavelmente outras línguas devam ter expressões que sirvam para a mesma situação. E se assim o for, boa parte do mundo disse “demorô”, hoje, quando Sara Daniues, secretária permanente da Academia Sueca, anunciou o nome de Bob Dylan, como o vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 2016. Para a referida Academia, o autor de “Like a Rolling Stone” mereceu o prêmio de 2016 “por ter criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição norte-americana da canção”.

A Academia sueca poderia ter dito “qualquer coisa”, como justificativa para premiar Dylan, pois tudo o que pudesse dizer resvalaria na constatação do óbvio, uma vez que a obra de Bob Dylan ultrapassa o campo meramente musical, se espalhando pelo campo da literatura propriamente dita. Em outras palavras, é simplório conceber as letras do referido artista como “letras”, simplesmente, pois Bob Dylan é, na verdade, um dos mais relevantes poetas do século XX, destilando sua poesia por meio da canção. Dessa maneira, assim como Chico Buarque e Belchior, Bob Dylan rompe os limites dos gêneros literários, produzindo letras que são menos letras, e mais poemas.

É claro que alguns pesquisadores, engessados que estão (ou “que são”?), ainda não conseguem (ou não querem) compreender as relações que se dão entre a música e a poesia. Para muitos, são coisas que não se pode misturar; sequer aproximar, tendo em vista letra de música ser algo que se encontra em um plano muito inferior ao da poesia. Dessa forma, a premiação de Bob Dylan vem mexer com posicionamentos antigos, sólidos e conservadores a esse respeito. De 2016 em diante, contudo, uma nova maneira de se conceber a poesia passa a ser indispensável, uma vez que Bob Dylan está agora, oficialmente, ao lado de T.S. Eliot, Yeats e Wislawa Szymborska; por exemplo.

Deixemos claro, no entanto, que não é um Nobel para Dylan que o torna um grande poeta. Na verdade, é exatamente o contrário. É a qualidade, o alcance e o reconhecimento da sua obra poética que culminou na premiação. Dylan não precisava de prêmio algum. No entanto, o reconhecimento de Bob Dylan como merecedor do prêmio Nobel de Literatura do ano de 2016 aponta também para uma, mesmo que seja aparente e momentânea, nova perspectiva da Academia sueca em relação a diferentes manifestações da literatura. Talvez fosse o momento do próprio Prêmio se reestruturar e admitir que existem muitas formas de representações artísticas que mereceriam receber um prêmio de tal envergadura, mas que simplesmente não cabem nas categorias estabelecidas pela Academia.

Ao optar por premiar Dylan, a Academia acaba por premiar indiretamente todos os trovadores, repentistas, folk singers, professores e artistas que têm insistido na luta em defesa de uma cultura que possa ser cada vez mais abrangente e inclusiva, independentemente de língua, rótulo ou gênero.

O Nobel para Bob Dylan acaba também por ser uma premiação aos poetas da Geração Beat, aos heróis conhecidos e anônimos da década de 60 e, especialmente, ao poeta e ativista Woody Guthrie, sem o qual, possivelmente, Robert Zimmerman não teria se tornado Bob Dylan. E, como bem afirmou Leonard Cohen: "dar um Nobel ao Bob Dylan é como dar uma medalha ao Everest por ele ser a montanha mais alta da Terra". Melhor dedução, impossível!

O prêmio Nobel para Bob Dylan “demorô”, mas veio. Com ele, o mestre de “Blowin in the Wind” e “The times they are a changing” coroa uma carreira de sucesso, ativismo e poesia que dificilmente veremos surgir nos próximos cem anos. Por essas e outras razões, nos alegramos por Bob Dylan, pois descobrimos, baby Blue, que nem tudo está perdido.

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