terça-feira, 10 de agosto de 2021

Carolina Maria de Jesus, presente!

 

O livro Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960), de Carolina Maria de Jesus (1914-1977), faz 60 anos em 2020. Observadora atenta da realidade nacional, Carolina tinha importantes percepções acerca da sociedade brasileira, especificamente, sobre a cidade de São Paulo, os políticos e a política. A primeira entrada no diário de Carolina data de 15 de julho. A última, de 1 de janeiro de 1960. Como registro da atualidade do seu trabalho, listamos 20 passagens retiradas do seu diário.

As citações (mantivemos a ortografia original) constam da edição de 2014, da editora Ática. Assim, fazemos a referência completa apenas na primeira citação. Nas demais, indicamos somente as páginas. Vejamos o que diz Carolina sobre:

 

O espaço

1.       “... eu classifico São Paulo assim: O Palácio, é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam lixo”. (JESUS, 2014, p. 32).

2.      : “... Havia pessoas que nos visitava e dizia: - Credo, para viver num lugar assim só os porcos. Isto aqui é o chiqueiro de São Paulo” (p.35)

3.      “... e quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo... Estou no quarto de despejo, e o que está no quarto de despejo ou queima-se ou joga-se no lixo” (p. 37).

4.      “Aquelas paisagens há de encantar os olhos dos visitantes de São Paulo, que ignoram que a cidade mais afamada da América do Sul está enferma. Com as suas ulceras. As favelas” (p.85). 

Os políticos

5.      “E falamos de políticos. Quando uma senhora perguntou-me o que acho do Carlos Lacerda, respondi concientemente:

- Muito inteligente. Mas não tem inducação. É um político de cortiço. Um agitador...” (p.15).

6.      “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, nas crianças” (p.29).

7.      “E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura – a fome” (p.32).

8.      “Eu quando estou com fome quero matar o Jânio, quero enforcar o Adhemar e queimar o Juscelino. As dificuldades corta o afeto do povo pelos políticos” (p.33).

9.      “... O que o senhor Juscelino tem te aproveitável é a voz. Parece um sabiá e a sua voz é agradável aos ouvidos. E agora, o sabiá está residindo na gaiola de ouro que é o Catete. Cuidado sabiá, para não perder esta gaiola, porque os gatos quando estão com fome contempla as aves nas gaiolas. E os favelados são os gatos. Tem fome” (p.35).

10.  “... Quando um político diz nos seus discursos que está ao lado do povo, que visa incluir-se na política para melhorar nossas condições de vida pedindo o nosso voto prometendo congelar os preços, já está ciente que abordando este grave problema ele vence nas urnas. Depois divorcia-se do povo. Olha o povo com os olhos semi-cerrados. Com um orgulho que fere a nossa sensibilidade” (p.38).

A política

 

11.  “... A democracia está perdendo os seus adeptos. No nosso paiz tudo está enfraquecendo. O dinheiro é fraco. A democracia é fraca e os políticos fraquíssimos. E tudo que está fraco, morre um dia” (p.39).

12.  “Quem deve dirigir é quem tem capacidade. Quem tem dó e amisade ao povo. Quem governa o nosso país é quem tem dinheiro, quem não sabe o que é fome, a dor, e a aflição do pobre (...). Precisamos livrar o paiz dos políticos açambarcadores” (p.39).

13.  “... De quatro em quatro anos muda-se os políticos e não soluciona a fome, que tem a sua matriz nas favelas e as sucursais nos lares dos operários” (p.40).

14.  “... Mas o povo não está interessado nas eleições, que é o cavalo de Troia que aparece de quatro em quatro anos” (p.43).

15.  “Os políticos só aparece aqui no quarto de despejo, nas épocas eleitorais” (p.45).

16.  “Vi os pobres sair chorando. E as lágrimas dos pobres comove os poetas. Não comove os poetas de salão. Mas os poetas do lixo, os idealistas das favelas, um expectador que assiste e observa as trajédias que os políticos representam em relação ao povo” (p.53).

17.  “O custo de vida faz o operário perder a simpatia pela democracia” (p.112).

18.  “... Quando eu fui almoçar fiquei nervosa porque não tinha mistura. Comecei a ficar nervosa. Vi um jornal com o retrato da deputada Conceição da Costa Neves, rasguei e puis no fogo. Nas epocas eleitoraes ela diz que luta por nós” (p.113).

19.  “O povo não sabe revoltar-se. Deviam ir no Palacio do Ibirapuera e na Assembleia e dar uma surra nestes políticos alinhavados que não sabem administrar o país” (p.129).

20.  “Você já viu um cão quando quer segurar a cauda com a boca e fica rodando sem pegá-la? É igual o governo do Juscelino” (p.134).

 

Uma das principais obras da literatura brasileira, Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus, constitui-se como leitura necessária não apenas para a compreensão do Brasil dos anos cinquenta, mas para o Brasil que se vê ainda hoje, imerso em contradições e desigualdades sociais extremas. Desta forma, em meio à liquidez do século XXI, a leitura da obra de Carolina Maria de Jesus impõe-se como indispensável e urgente, pois que é um continuado e lancinante grito de alerta e denúncia, que não pode ser silenciado.


Publicado originalmente em: https://www.brasil247.com/blog/carolina-maria-de-jesus-presente

 

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Bob Dylan aos 80

 

Maio já começa dar adeus. O mês se vai, mas ficam as tristezas acumuladas que começaram a se espalhar por aqui no começo do ano de 2020. Em meio a tanta tristeza e dor, uma pausa se faz necessária para comemorarmos o aniversário de 80 anos de Bob Dylan, um dos maiores poetas do século XX, cuja existência e contribuição às artes é imensurável.




Robert Allen Zimmerman nasceu no dia 24 de maio de 1941, adotando tempos depois o pseudônimo de Bob Dylan em homenagem ao poeta galês Dylan Thomas (1914 – 1953). Ao longo da sua carreira, Dylan recebeu todos os prêmios que um artista pode almejar, o que significa o reconhecimento de público e crítica pelo trabalho que desenvolveu em todas as áreas nas quais esteve, a saber, cinema, literatura, música, artes plásticas etc. No ano de 2016, o autor de Like a rolling stone foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura por ter, segundo a Academia sueca, “criado novas expressões poéticas dentro da enorme tradição da música americana”. Dylan é, continuou a Academia, “provavelmente o maior poeta vivo”. A decisão de premiar Dylan com o Nobel de Literatura foi pra lá de acertada. Não o fazer seria como ter a oportunidade de premiar Homero ou Walt Whitman e, simplesmente, ignorar.

Mas por qual razão, em meio a uma pandemia que devasta a terra, tecer loas a Bob Dylan? Numa resposta simples e rápida seria, basicamente, por que Bob Dylan importa. E importa em todos os sentidos que dizem respeito ao estar-no-mundo, como ser humano e como poeta comprometido com a condição humana. Assim, a canção de Dylan ultrapassou há tempos os limites da própria canção, atingindo o status de poesia, fazendo com que o autor de Tarântula (1971) se tornasse referência indispensável para a compreensão sócio-histórica, política e cultural do século XX, uma vez que sua poesia é toda ela permeada não apenas por lirismo, mas por temáticas mais cruas e ácidas que abordam os direitos civis, religião, política, direitos humanos, assim como variados aspectos dos movimentos de contracultura e além. Em outras palavras, a poesia de Bob Dylan tornou-se, pela qualidade que a engendra, uma arte atemporal e universal.

Bob Dylan é um poeta contemporâneo, e como tal mantém todos os seus sentidos voltados para a observação e apreensão daquilo que constitui e transforma o ser humano. Pois, como bem define Giorgio Agamben na obra O que é o contemporâneo? E outros ensaios (2009): “contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro. Todos os tempos são, para quem deles experimenta contemporaneidade, obscuros. Contemporâneo é, justamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente (...). Pode-se dizer contemporâneo apenas quem não se deixa cegar pelas luzes do século e consegue entrever nessas a parte da sombra, a sua íntima obscuridade (...). O contemporâneo é aquele que percebe o escuro do seu tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interpelá-lo, algo que, mais do que toda luz, dirige-se direta e singularmente a ele. Contemporâneo é aquele que recebe em pleno rosto o facho de trevas que provém do seu tempo”. Assim sendo, a contemporaneidade do pensamento poético de Bob Dylan pode ser notada já nas suas primeiras produções. Como admirador de Woody Guthrie (na guitarra de Guthrie estava escrito: “essa máquina mata fascistas”), Bob Dylan já sabia muito bem por quais caminhos sua poesia deveria seguir.

Em “Blowin’ in the Wind” (1963), por exemplo, o poeta faz ecoar uma pergunta que se mantém bastante atual, embora em contexto diferente. Diz (tradução livre): “...quantas pessoas ainda terão que morrer, para que ele perceba que já se matou demais?”. Em “The Times They Are a Changing” (1964), por sua vez, o poeta conclama todos a abrirem os olhos e ficarem atentos, pois “os tempos estão mudando, ou aprendemos a nadar ou afundaremos feito pedras”. Já em “Like a rolling stone” (1965) o questionamento é sobre aqueles que possuem tudo, mas que de repente perdem. E então? “Como é se sentir assim, sem destino, como uma pedra que rola?” Os aspectos surreais observáveis em “Mr. Tambourine man”, por seu turno, aproximam-se do que se vive hoje, no que concerne ao vazio, a insônia e ao cansaço dos dias, como se estivéssemos eternamente presos em um filme de Fellini. Tem-se: “... não estou dormindo e não há nenhum lugar onde eu possa ir, pois todos os meus sentidos foram destroçados...”.

Concluímos, retomando Agamben (2009), quando diz que o poeta, enquanto contemporâneo, é uma espécie de fratura que impede o tempo de compor-se e, simultaneamente, o sangue de suturar a quebra. O poeta – o contemporâneo – continua Agamben, deve manter fixo o olhar no seu tempo. Mas o que vê quem vê o seu tempo, o sorriso demente do século? A resposta, meu amigo, está logo ali, em cada verso da poética de Bob Dylan que, aos oitenta anos, ainda tem muito a nos dizer.

 

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

O QUE RE(LER) EM 2021

 



1. Redemoinho em dia quente

Jarid Arraes

Alfaguara



2. Diário da catástrofe brasileira: ano I: o inimaginável foi eleito

Ricardo Lísias

Record


3. Boa hora para lembrar de Vivi Bandoleiro

Luiz Taques

Maria Petrona



4. Água funda

Ruth Guimarães

34



5. O que ela sussurra

Noemi Jaffe

Companhia das Letras


6. Racismo estrutural

Silvio Almeida

Jandaíra



7. Conversas transversais com Yuri Firmeza

Org. Cecília Bedê

Circuito


8. Todas as cartas

Clarice Lispector

Rocco



9. Zoológicos humanos: gente em exibição na era do imperialismo

Sandra Sofia Machado Koutsoukos

UNICAMP


10. A peste

Albert Camus

Record



11. Um diário do ano da peste

Daniel Defoe

Artes e Ofícios


12. O templo

Stephen Spender

34



13. The catalogue of shipwrecked books

Edward Wilson-Lee

Scribner



14. Garota, mulher, outras

Bernardine Evaristo

Companhia das Letras


15. Kallocaína: romance do século XXI

Karin Boye

Carambaia 



16. Sister love: the Letters of Audre Lorde and Pat Parker 1974-1989

Julie R. Enszer

A Midsummer Night Press


17. Uma breve história das mentiras fascistas

Federico Finchelstein

Vestígio



18. Não digam que estamos mortos

Danez Smith

Bazar do tempo


19. The complete Works of Pat Parker

Julie R. Enszer

A Midsummer Night Press



20. The collected poems of Audre Lorde

Audre Lorde

W.W. Norton & Company


21. The selected Works of Audre Lorde

Org. Roxane Gay

W.W. Norton & Company



22. Armadilha da identidade: raça e classe nos dias de hoje

Asad Haider

Veneta



23. meu corpo minha casa

Rupi Kaur

Planeta


24. Solitário

Chaboutè

Pipoca e Nanquin


25. Kawabata/Mishima - Correspondência 1945-1970

Kawabata/Mishima

Estação Liberdade


26. Ricardo e Vânia

Chico Felitti

Todavia



27. Manual da demissão

Julia Julia Wähmann 

Record





28. Suíte Tóquio

Giovana Madalosso

Todavia



29. Herdeiras do Mar

Mary Lynn Bracht

Paralela



30. Are You My Mother?

Alison Bechdel

Mariner Books