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terça-feira, 26 de março de 2019

FRANCISCO CARVALHO E AS COISAS COMO AS COISAS NÃO SÃO

O poeta Francisco Carvalho, nascido em Russas (CE),  no ano de 1927, partiu para outras paragens no ano de 2013. Durante seus oitenta e seis anos de vida escreveu mais de trinta livros de poesia e alguns outros de exercícios literários. Passados quase cinco anos da sua morte, sua obra poética continua despertando interesse tanto do leitor comum quanto dos leitores especializados. Desse segundo grupo, cito especificamente os trabalhos Três dimensões da poética de Francisco Carvalho (1996), de Ana Vládia Mourão Aires e Francisco Carvalho: uma poesia de Tanatos e Eros (2000), de Maílma de Sousa. Mas ainda é muito pouco, quando levamos em consideração a amplitude poética da obra do autor, a qual se constitui como um verdadeiro argos de cem olhos no universo da literatura produzida em língua portuguesa.

A obra de Francisco Carvalho alcança a mesma qualidade poética daquela produzida por gigantes como T.S. Eliot, Seamus Heaney e Konstantinos Kavafis, por exemplo. Contudo, como se pode constatar, é mais fácil encontrar um livro do poeta grego Kavafis do que um Carvalho nas livrarias do Brasil, especificamente do Ceará. Isso não impede, no entanto, que a poesia de Francisco Carvalho se mantenha como uma das mais perfeitas representações da poesia em língua portuguesa, impactando aqueles que deitam olhos sobre seus poemas. Por outro lado, a ausência dos seus livros nas livrarias brasileiras impossibilita que mais leitores e pesquisadores possam se debruçar sobre tão rica obra.

O primeiro livro de Francisco Carvalho, Cristal da memória, foi publicado no ano de 1995. Desde lá, o poeta passou a publicar praticamente um livro  a cada ano. Embora alguns desses trabalhos ainda possam ser encontrados, outros já se tornaram raros, como é o caso de Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), Rosa geométrica (1990), Flauta de Barro (1992) e O tecedor e sua trama (1992), por exemplo.

As temáticas observáveis na poesia de Francisco Carvalho abarcam aspectos populares e eruditos, resultando num fazer poético de altíssimo nível literário. Os próprios títulos dos livros do poeta já podem ser considerados verdadeiros poemas. Como por exemplo: O silêncio é uma figura geométrica (s/d), Barca dos sentidos (1989), Girassóis de barro (1997), Romance da nuvem pássaro (1998) e A concha e o rumor (2000).



Como se iniciar na obra de Francisco Carvalho? Uma boa forma é se deixar abduzir pela leitura de Memórias do Espantalho – poemas escolhidos (2004), uma seleção feita pelo próprio autor, englobando poemas do livro Os mortos azuis, de 1971,  até Centauros urbanos, de 2003. Ao final da leitura, o leitor compreenderá, então, a razão de se afirmar que a obra de Francisco Carvalho se erige como uma obra poética de qualidade universal, prenhe de palavras, que pulsam no peito e escorrem pelas veias.


Disponível em: http://fdr.org.br/maracaja/ 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

COLAR DE PEDRAS FALSAS, DE FRANCISCO CARVALHO

Francisco Carvalho (1927-2013) é daqueles poetas que se inserem na amplitude da literatura produzida em língua portuguesa, tendo em vista a extensão e a qualidade da sua obra poética. Autor de mais de trinta livros, Carvalho soube como poucos cultivar a palavra, moldando-a a seu bel prazer. Como produzia muito, é bem possível que ainda surjam trabalhos inéditos do autor de Centauros urbanos (2003), o que em muito agradaria seus leitores e pesquisadores.

De todos os seus trabalhos, há um que é pouco conhecido, mas que nem por isso pode ser considerado menor. Trata-se do livro Colar de pedras falsas (2005), publicado pela editora Guararapes – EGM, de Jaboatão, Pernambuco. Durante as nossas pesquisas, não conseguimos localizar o livro no seu formato tradicional, se é que ele existe nesse formato. Explico: a versão que temos desse livro é uma espécie de “edição artesanal”,  de aproximadamente 6cm, tendo seus paratextos sido montados manualmente.




O corpo do livro é composto de um poema longo de 155 estrofes, impressas em uma folha de papel, respeitando o tamanho de 6cm. Cada página corresponde a uma dobradura dessa folha única. O poema se inicia com a estrofe que diz: “A leveza dos abutres / faz lembrar certos rodeios / de alguns próceres ilustres” e se conclui com: “ As cabras vão embora / fica na relva o perfume dos seios da pastora”. Registre-se que o referido trabalho não é mencionado em nenhuma das fontes que trazem a lista de obras do poeta. A única referência que conseguimos localizar diz respeito ao poema escrito por Horácio Dídimo, constante dos arquivos da Academia Cearense de Letras – ACL. Ei-lo:


Colar de pedras falsas  
                        Para Francisco Carvalho
                          Horácio Dídimo
                          Exercícios de admiração

Caro Francisco Carvalho,
Cordialmente agradeço
E confirmo o meu apreço
Por esse belo trabalho.

A poesia que produz
Tão primoroso adereço
Traz sempre um novo começo,
Nova cor e nova luz

Ao reler a sua obra
Acrescento este capítulo
Onde nada falta ou sobra:

As palavras são certeiras,
É falso apenas o título,

As pedras são verdadeiras. 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

ODE AO POETA JÁDER DE CARVALHO, POR FRANCISCO CARVALHO

Jáder de Carvalho nasceu no dia 29 de dezembro, na Serra do Estevão, em Quixadá, Ceará, no ano de 1901. É autor de poesias, romances e ensaios sociológicos. Jáder de Carvalho também é referências para o jornalismo brasileiro.

No ano da comemoração dos seus oitenta anos, o poeta Francisco Carvalho (1927 – 2013) lhe dedicou o texto intitulado Ode ao poeta Jáder de Carvalho, publicado em 1982, pela editora Terra do Sol.




Uma ode é um tipo de composição poética de caráter lírico, constituída de estrofes simétricas, podendo também ser entendida como uma celebração, uma homenagem. A ode com a qual Francisco Carvalho homenageia o autor de Aldeota (1963) é composta de vinte estrofes e é, hoje, uma obra extremamente rara, assim como parte da obra de Francisco Carvalho e quase toda a obra de Jáder de Carvalho.


Entre os grandes trabalhos produzidos por Jáder de Carvalho, elencamos: Água da fonte (1966), Cantos da morte (1967), Alma em trovas (1974), Rua da minha vida (1981) e Meu passo na rua alheia (1981). Jáder de Carvalho faleceu em Fortaleza no dia 07 de agosto de 1985. Sua obra, contudo, continua bastante atual, necessitando de uma reedição o quanto antes.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

POR QUE LER FRANCISCO CARVALHO

Vivemos um tempo preenchido pelo inútil, pelo descartável. A ignorância ganha os campos e, ser imbecil, parece ser normal. Entre numa livraria e dê uma olhada nos "mais vendidos", excetuando-se alguns, é lixo puro. Enquanto isso, Guy Debord (1931-1994) se remexe na tumba e Mario Vargas Llosa joga mais lenha na fogueira com o seu A civilização do espetáculo - uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura(2013).


Embora em cada esquina nasça um "poeta", poucos conseguem, para o bem da humanidade, sobreviver. Não sobrevivem por não terem absolutamente nada a dizer, por não namorarem a própria língua, deixar-lhes lamber o íntimo, o ser. Poetas que não dormem com a cultura, que não sabem tocar a vida como um homem deve saber acariciar o corpo de uma mulher não merecem a leitura de um verso. Afrontam Dante, Shakespeare, Virgílio, Drummond...

Outros poetas não estão na mídia, não frequentam festas literárias, não vão aos vazios "talk shows". Ao contrário, mantêm-se quase reclusos e, na "solidão" de suas bibliotecas redescobrem a máquina do mundo, a arte de cantar a vida, de elevar a alma. Poetas assim contam-se nos dedos das mãos. Francisco Carvalho era  um desses mágicos da escrita, um desses desbravadores das dores e das vidas do ser humano. Se tivesse produzido apenas A Concha e o Rumor (2000) ou seus Girassóis de Barro (1997)já seria consagrado como um dos maiores poetas de língua portuguesa. Não contente com isso, o velho Carvalho, como o vinho, melhorava a cada novo livro. O que dizer dos seus Centauros Urbanos (2003)? E seus Corvos de Alumínio (2007)?


Ler Francisco Carvalho é ler o que de melhor tem sido produzido na poesia desse país. É estar em contato com a sabedoria de um poeta que ao longo de toda sua obra poética provoca o pensar, a reflexão, o amor pela vida, pela cultura, pela erudição. Ler Francisco Carvalho é ler um mundo espreitado pela vida. A minha, a sua, a nossa mesma sempre diferente, vida.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

FRANCISCO CARVALHO: UM ENXADRISTA DA PALAVRA

O xadrez é um jogo que simula o conflito entre dois exércitos; cada qual representado por dezesseis peças que se movimentam sobre um tabuleiro de sessenta e quatro casas de duas cores alternadas. O enxadrista é, por sua vez, o jogador de xadrez.
Francisco Carvalho

Inúmeras semelhanças aproximam o xadrezista do poeta. Se o primeiro pode levar horas e horas até se decidir pela jogada ideal, o segundo também o faz na busca pela palavra perfeita. Lutar com palavras, diz Drummond, é a luta mais vã. E assim, o lutador/poeta luta mal rompe cada manhã. E, “longe do estéril turbilhão da rua”, o poeta escreve. “No aconchego do claustro, na paciência e no sossego”, “trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua”, como nos diz Bilac.

Certa vez perguntei ao poeta Francisco Carvalho como andava sua produção poética. E ele me respondeu: “continuo reescrevendo os mesmos poemas”. O que o poeta diz pode ser compreendido como a constante necessidade que todo grande poeta tem de, infinitamente, burilar sua poesia. Em um seminário, Rachel de Queiroz disse à platéia que ao acabar de escrever um livro e revisá-lo uma vez, não queria mais saber dele. A autora de O Memorial de Maria Moura sabia que se a obra fosse revisada outras vezes, já não seria aquela, mas outra.

Claros e escuros, os quadrados do tabuleiro do xadrez nos remetem ao claro enigma da poesia. Mulher experiente, a poesia não se entrega a qualquer um. É preciso saber tocá-la, amá-la, até convencê-la à completa entrega. Tarefa das mais delicadas, pois de início ela rejeitará, evitará e se esquivará até não mais resistir aos assédios do poeta. A conquista da palavra poética, no entanto, não se dá de forma definitiva. Ao enxadrista da palavra caberá a árdua missão de conquistar tal dama a cada novo dia, como se fosse a primeira vez. Assim, um grande poeta jamais deita seu rei. Ao contrário, reelabora estratégias e ousa novas jogadas para, no leito da poesia-mulher, recriar mundos, preencher solidões e reinventar vidas.


E é a maestria dos grandes poetas, que identificamos em Mortos não jogam xadrez e Haikalantos, obras de Francisco Carvalho, publicadas em 2008. Haikalantos é um neologismo que contempla a junção das palavras haicai (forma de poesia japonesa surgida no século XVI, composta de três versos, com cinco, sete e cinco sílabas) e acalanto ( cantiga de ninar): “A vida é um teorema/ o sonho começa e acaba/ nas entranhas do poema” e “A vida é um fardo/ para o bêbado/ ou para o bardo” e ainda: “Múmias de borboletas/ embalsamadas alçam vôo/ dentro das gavetas”.

Dividido em quatro partes, Mortos não jogam xadrez traz setenta e nove poemas, dedicados à memória de Blanchard Girão, Eduardo Campos, Gerardo Mello Mourão, João Clímaco Bezerra e Manoel de Oliveira Carvalho. Há, não se pode negar, um tom melancólico em quase todos os poemas. Embora o autor discorra acerca do amor, da memória, dos mitos, da realidade e da metapoesia; observa-se um maior destaque à Indesejada das gentes, Ela, a Moça Caetana, a Morte.

Ao dedicar o livro ao seu irmão e queridos amigos mortos, o poeta afirma: “A esses mortos recentes, uma palavra de saudade, nesta viagem sem volta à casa de areia da eternidade”. E assim, Ela passeia por vários poemas em Mortos não jogam xadrez, fazendo lembrar as palavras de Moreira Campos: “Antiquíssima, atual e eterna, com sua cara de máscara. Moldada em gesso? A consultar no pulso um relógio invisível”. Mas, conforme Ibsen, não se pode morrer na metade do quinto ato. “O amor é moeda falsa/ não vale o pulo de um gato/ mortos não jogam xadrez/ no meio do quinto ato”.

Em “Poema de aniversário”, o eu-lírico diz: “Estou numa faixa etária em que as pessoas costumam morrer” e “Aos oitenta anos não existem razões para uma pessoa ser otimista”. Mas afinal, o que é a morte? A morte, responde o poeta: “... é a esquina de uma rua chamada eternidade/ o leito seco de um rio que deságua nos túneis e embocaduras do mar”.

Exímio enxadrista na arte da palavra, Francisco Carvalho sabe muito bem como tratar do amor, da vida e da morte. Mas do que valem as palavras de um poeta no caótico mundo do “tudo pode”? Valem para cantar o amor ao ser amado. Valem para denunciar o terror “por mais que os versos sangrem”. Servem para “todas as filosofias que nos apunhalam pelas costas”. As palavras de um poeta servem para nos lembrar de que “sob o signo das eras, a vida é só uma para homens e feras”. E assim sendo, a poesia de Francisco Carvalho se mantém cada vez mais atual, mais viva e apurada.