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quinta-feira, 25 de junho de 2026

Fortaleza amada


Dizer que Fortaleza é uma lindeza é cair na armadilha de uma rima pra lá de pobre. Por outro lado, como dizer de maneira simples e direta que Fortaleza é uma lindeza banhada de sol e mar, que nos abraça com seus ventos e nos acaricia com suas brisas de fim de tarde? Fortaleza é assim, essa cidade-mulher que representa amor e liberdade. Mas como toda cidade, Fortaleza é constituída de paradoxos, belezas e mazelas. Colocar essas contradições no papel foi a maneira que a Universidade Federal do Ceará – UFC encontrou para homenagear a cidade e, como bem disse o reitor da Universidade, professor Custódio Almeida: “Fortaleza é uma cidade que se reconhece nos encontros”.


E é assim que acompanhamos as memórias de Edmilson Alves Maia Júnior, quando discorre em sua crônica “O descanso do semeador” (p.114-117) sobre o senhor Edenilson que, entre inúmeras ouras coisas, costumava alugar DVDs em uma conhecida locadora da Avenida Antonio Sales (quem nunca?). Com Sarah Silva Ipiranga e sua crônica “Verde-Marinho” (p.391-393) acompanhamos a autora que, vinda de outras plagas, travou uma incansável luta contra o sol da cidade até que, por fim, se rendeu aos seus afagos, e tudo indica que não consegue mais viver sem eles.


Assim sendo, a UFC abriu edital e 163 crônicas foram selecionadas e publicadas no livro Fortaleza Amada (2026), com organização de Francisco Silva Cavalcante Júnior. A obra, uma espécie de festschrift para Fortaleza, traz em suas crônicas o olhar de cada autor(a) sobre um detalhe, uma memória, um personagem ou um lugar de afeto da cidade. Ao longo da leitura vamos nos identificando, pelas linhas simples, breves e profundas do gênero crônica, com a história e o cotidiano de uma cidade que completa 300 anos, mas que ainda guarda em si a beleza, as dúvidas e os descontentamentos adolescentes.


Uma das melhores maneiras de conhecer uma cidade é caminhar por ela. Somente assim conseguimos descobrir o que não se mostra, mas que é sempre tão belo quanto o que nos é dado aos olhos. Andar, contudo, dá fome. E é por esse caminho que segue a crônica “Sonhos de padaria” (p. 42-45), de Ana Mary C. Cavalcante, que relembra seu caminhar pela cidade, comendo sonho de padaria. Para a cronista, “Fortaleza é uma metrópole que me serve café com pão, quentinhos. E sonhos de padaria. As coisas mais finas do mundo”. Embora minhas taxas de diabetes batam no teto, quem sou eu para discordar das delicias de um sonho de padaria? 


Fortaleza não é apenas sol e mar. Não é apenas Ceará e Fortaleza, pois amamos o Ferroviário. Fortaleza também é periferia, mangue, rock, maracatu, blues e lutas políticas, “tudo junto e misturado”. Sobre o mangue (a Fortaleza-mangue), a crônica de Hermínia Lima (p.191-193) é um grito de socorro pela vida da praia de Sabiaguaba, pois, como diz a cronista: “... há lutas que não podem ser adiadas. Há lugares que não podem ser perdidos”. Do outro lado da cidade, quem diria, roubaram o portão de alumínio e os números de ferro da casa da família do tradutor Odorico Leal, que nos traz os detalhes na crônica “cidade desaparecida” (p.338-339). Ri bastante, pois já tentaram levar o meu também. São todas essas coisas que nos tornam parte dessa cidade que, ao contrário de NY, sempre tira um cochilo depois do almoço e, sim, sempre dorme. A city that doesn’t sleep é para os fracos.


O livro, presente da UFC para Fortaleza, poderia ter 3 volumes e ainda seria pouco para tentar dar conta de tudo que nossa cidade é. Fortaleza sempre foi cantada em prosa e verso. Nesse sentido, a crônica talvez seja um dos gêneros preferidos de muitos daqueles e daquelas que registraram seu orgulho de amanhecer nesta cidade. E é sobre isso que discorre a crônica “Fortaleza, o que tu és?” (p.386-387), de Ronaldo Salgado, quando lista muitos dos nomes que por Fortaleza “clamam, declamam e cantam”. No feriado do aniversário de Fortaleza não sei o que abre e fecha, mas sei que vou ouvir Kátia Freitas e tomar uns bons drinks em agradecimento por ter nascido e continuar vivendo nessa cidade.   


terça-feira, 31 de julho de 2018

DE 1 TUDO, DE DERIBALDO SANTOS


A expressão “de um tudo” é bastante conhecida do povo brasileiro, significando a variedade e a miscelânea de coisas que conseguimos unir, independentemente, do local e da circunstância. Assim sendo, misturamos cores, frutas, estilos musicais, açaí com tapioca, chiclete com banana. Também misturamos escritas, leituras e literaturas. Essas misturas, guardadas as devidas proporções, das quais já nos falava Gilberto Freyre, nos encaminharam uma realidade cultural antropofágica que fincou suas raízes na cultura brasileira, como um todo, bem como na literatura, de maneira mais específica.

Dessa forma, a literatura brasileira acabou por assumir características que lhe são bastante peculiares, tornando-se assim, uma das mais bem elaboradas do mundo. Contudo, se nossa literatura ainda não se fez conhecer em outras paragens, deve ser devido ao descaso dos nossos sucessivos governantes, que insistem na manutenção do nosso eterno complexo de arlequim  de província, mergulhado numa subalternidade que nunca teve motivo de ser.

Mas nossos escritores saem para ver o mundo e, voltando, nos contam daquilo que viram, daquilo que os impactaram. Para tanto, alguns optam pelo romance, outras pelas narrativas breves, as imagens, o corpo, a cena. E de repente, aquilo que tanto nos pode parecer distante e alheio aos nossos olhos se transmuta em algo que nos é próximo, quase íntimo. E assim, percebemo-nos parte de um todo em consonância com o mundo, com o outro, com o de um tudo.

Foi provavelmente imbuído desse sentido, que o escritor Deribaldo Santos conseguiu capturar, por meio do seu texto, as inúmeras partes constituintes do ser humano, não importando onde esse ser humano vá, onde quer que ele esteja. Destarte, algumas das observações de Santos resultaram no livro intitulado De 1 tudo (2018), publicado pela editora Corsário. Trata-se de um livro que tem “de um tudo”, ou quase: metade do livro (12 textos, que vão da p.7 até a p. 49) são relatos de uma viagem que o autor fez ao Velho Mundo. E embora algumas vezes o autor trate seu texto como se um diário fosse, na verdade não o é, podendo ser melhor classificado como  “relatos de viagem” ou “crônicas de viagem”. Há, na verdade, uma mistura de gênero no texto que nos apresenta o autor. Daí o título do livro cair como uma luva para as narrativas que se apresentam. 

O título em si, por sua vez, já é um verdadeiro poema concreto: De 1 tudo. A segunda parte do livro, denominada de “O vento mudou...” (que vai da p.51 até a p. 85) é composta por sete textos. Nesse caso, reconhecemos esses textos como crônicas, uma vez que abordam o cotidiano, o tempo, assim como as observações do narrador a respeito do ambiente que o circunda.  Seja qual for a terminologia que possa ser usada para classificar os textos de Deribaldo Santos, em nada alteram a concepção poético-narrativa da sua obra, eivada de um humanismo simples e leve, que apenas os olhos maduros de um bom observador são capazes de colher.
Deribaldo Santos

O início do livro registra latitude e longitude 40º 24’ N/ 3º 42’ 2’’ W (p. 7). Ao nos encaminharmos para o seu final, somo avisados que o vento mudou, e tem-se, agora, latitude e longitude 03º 43’ 02’’ S/38º 32’ 35’’ W (os entendedores entenderão!). o livro é ilustrado com fotografias do autor, parentes e amigos. Ao final De 1 tudo, tem-se o texto “Ode à leitura: prefácios, posfácios, fortuna crítica: distúrbios ou devaneios” (p. 86-877), do poeta-editor Mardônio França. Lá, França discorre sobre o trabalho de Deribaldo Santos, dizendo que “ A literatura é feita por pessoas, sejam incríveis ou menores no ato de fazer o pão de cada dia”.

A abertura possibilitada pela narrativa de Deribaldo Santos a aproxima da literatura que tem sido produzida no país, permitindo ao leitor variadas interpretações. Trata-se de um texto que oscila entre o erudito e o popular, aproximando-se, por vezes, das narrativas dos cronistas de viagem, da poesia em prosa de base alencarina, bem como da narrativa do safado (sincero?) Bukowski. 


De leitura indispensável, De 1 tudo está rodando por aí, e o alcançará, caro leitor, não importando os braços e abraços das latitudes e  longitudes que te abrigam. Boa leitura!


terça-feira, 17 de outubro de 2017

PAPE SATÀN ALEPPE: CRÔNICAS DE UMA SOCIEDADE LÍQUIDA, DE UMBERTO ECO

Umberto Eco (1932 – 2016) é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores autores do século XX e, na mudança para o século XXI, manteve sua posição entre os grandes. Autores magistrais, como Eco, costumam se “aventurar” facilmente pelos mais variados campos do conhecimento, tanto na produção de textos de ficção quanto de não ficção. Basta darmos uma olhadinha básica na produção do autor de O nome da rosa (1980), para constatarmos a variedade da sua produção. Os homens, como sabemos, morrem. Contudo, suas obras permanecem.   Eco é desses.

Falamos aqui sobre a obra póstuma de Umberto Eco, especificamente do livro Pape Satàn Aleppe: cronache di uma societá liquida, o qual foi publicado originalmente no ano de 2016, na Itália, pela editora La nave di Teseo, tendo sido traduzido para o português brasileiro por Eliana Aguiar e publicado pela editora Record no ano de 2017, com o título Pape Satàn Aleppe – crônicas de uma sociedade líquida. O referido livro e mais o Come viaggiare com um salmone (“Como viajar com um salmão”, ainda sem tradução para o português brasileiro) chegaram às livrarias uma semana após a morte do autor.

Além da incontestável qualidade do texto de Eco, já nos chama de início a atenção o título que o autor escolheu para batizar seu trabalho. A primeira parte do título é uma reprodução da frase que é dita por Plutão ao notar a entrada do poeta Dante Alighieri e Virgílio no quarto círculo do inferno, registrado na Divina Comédia (Inferno, VII, I). Na introdução do livro Pape Satàn Aleppe, Umberto Eco ressalta que, embora muitos pesquisadores tenham tentado encontrar um sentido para a frase dita por Plutão, concluiu-se que não há nenhum sentido preciso para ela, contribuindo apenas para uma confusão de ideias. A outra parte do título,  por sua vez, é uma alusão à ideia de modernidade ou sociedade “líquida” desenvolvida pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925 – 2017). A união dessas duas expressões serviram muito bem ao tipo de texto, a crônica, assim como a profusão de temáticas abordadas por Eco ao longo do referido trabalho. Diz ele: “Achei, portanto, oportuno usá-las como título desta coletânea que, menos por culpa minha do que por culpa dos tempos, é desconexa, vai do galo ao asno - como diriam os franceses -  e reflete a natureza líquida destes quinze anos” (Eco, 2017, p.8).

Os quinze anos aos quais Eco se refere é uma alusão ao período no qual estão compreendidas as crônicas constantes de Pape Satàn Aleppe. São crônicas que foram selecionadas pelo autor, a partir daquelas que foram publicadas por ele na coluna La Bustina di Minerva, na revista L’Espresso, a qual começou a ser publicada ainda no ano de 1985. Algumas das crônicas desse período já tinham aparecido no seu Segundo diário mínimo, de 1992. Outras compuseram o livro La Bustina di Minerva, que cobriu as crônicas publicadas até o início do ano 2000. Outros textos também foram publicados em A passo di gambero, de 2006. Assim, pelos cálculos do próprio Eco, entre 2000 e 2015, calculando 26 Bustinas por ano, ele teria escrito aproximadamente quatrocentas crônicas, o que o levou a considerar a publicação da qual tratamos aqui.

O livro se inicia com uma crônica denominada de “a sociedade líquida”, na qual Eco discorre sobre as ideias de Bauman acerca daquilo que caracteriza uma sociedade líquida. No parágrafo final da crônica, Eco pergunta: “Existe um modo de sobreviver à liquidez?”. Responde ele: “Existe e é justamente perceber que vivemos numa sociedade líquida que, para ser compreendida e talvez superada, exige novos instrumentos. Mas o problema é que a política e grande parte da intelligentsia ainda não entenderam o alcance do fenômeno”. E conclui: “Por ora, Bauman continua a ser uma “vox clamantis in deserto”.

No que diz respeito à maneira como o  livro está estruturado, tem-se catorze blocos contendo, cada um, números variados de crônicas. Assim sendo, o primeiro bloco chama-se “A passo de caranguejo” (p.13) e contém cinco crônicas. Na sequência, tem-se: “Ser vistos” (p.27, seis crônicas), “Os velhos e os jovens” (p.43, onze crônicas), “On-line” (p.69, catorze crônicas), “Sobre celulares” (p.101, cinco crônicas), “Sobre as conspirações” (p.115, seis crônicas), “Sobre os mass media”(p. 131, vinte e cinco crônicas), “Várias formas de racismo” (p. 185, quinze crônicas), “Sobre o ódio e a morte” (p.221, quatro crônicas), “Entre religião e filosofia” (p.231, vinte crônicas), “A boa educação” (p.275, nove crônicas), “Sobre livros e outras coisas mais” (p.297, dezenove crônicas), “A quarta Roma” (p.339, dezoito crônicas), “Da estupidez à loucura” (p.379, dezoito crônicas).

Cada uma das crônicas constituintes da obra em questão trata, na maioria das vezes, de assuntos que costumam, por serem de característica fugaz, ser tratados por cronistas e estampadas em um cantinho qualquer dos jornais que ainda resistem ao completo desaparecimento. A crônica, na sua simplicidade e agudeza, tantas vezes considerada a "prima pobre da literatura", se apresenta como gênero ideal para a exposição não apenas do efêmero, mas do permanente, sendo espaço tanto para o popular quanto para o erudito. Em síntese, a crônica é capaz de abrigar todo e qualquer tipo de questionamento, expondo-o de maneira direta, clara, leve e objetiva. Consciente dessa questão, Umberto Eco discorre em Pape satàn aleppe: crônicas de uma sociedade líquida, sobre temáticas que tratam, por exemplo, da questão política da Itália sob o governo de Berlusconi, dos imigrantes que batem à porta da Europa, de Harry Potter, da religião, da "síndrome da selfie", do ser humano escravizado pelo aparelho de celular, dos programas estúpidos da televisão, de livros, e dos relacionamentos humanos, entre inúmeros outros assuntos recorrentes na sociedade líquida. 

Ao optar por tratar das questões do nosso tempo por intermédio do gênero crônica, Eco foi bastante assertivo, tendo em vista que a crônica, na sua essência, é aquele texto de caráter efêmero capaz de tecer como matéria de sua constituição, desde os assuntos mais simples e, aparentemente desinteressantes e banais até as mais aprofundadas reflexões político-existenciais. Ao ter feito tal opção, até mesmo por ser essa a exigência das Bustinas, Eco conseguiu atrair como leitores para seus textos, não apenas aqueles já conhecedores de outros trabalhos seus, mas novos e diferentes leitores capazes de, pela leveza do gênero  crônica, se aproximar de discussões de cunho político, religioso e cultural apresentadas pelo autor por meio de suas convidativas crônicas.


A obra de Umberto Eco ainda vai reverberar por muito tempo, uma vez que é ampla e diversa, sendo capaz de atrair a atenção de todos aqueles leitores interessados em tentar entender o outro, a vida, o mundo. Assim sendo, para aqueles que pretendem se iniciar na literatura de Umberto Eco, começar pelas crônicas de Pape Satàn Aleppe: crônicas de uma sociedade líquida é uma boa maneira de iniciação. Para aqueles que já o conhecem de outros textos, não se decepcionarão com o que ali está posto, pois as crônicas de Pape Satàn Aleppe nos ensinam "como viajar com Umberto eco", uma vez que lá há Umberto Eco para todos os gostos. 

Somente os grandes mestres alcançam tal feito. 

Boa leitura!

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O QUE APRENDI SENDO XINGADO NA INTERNET, DE LEONARDO SAKAMOTO

O ato de xingar é tão antigo quanto o ato de respirar, se alimentar ou beber água. O xingamento deve existir desde que o ser humano colocou os pés nesse planeta. Houve um tempo, inclusive, que xingar alguém foi considerado coisa comum, normal. “Normal”, é claro, do ponto de vista de quem xinga, pois para quem é xingado nada tem de “normal”, muito menos de aceitável. Houve também um tempo em que os xingados, geralmente as minorias, não tinham o direito de reclamar, nem que fosse apenas ao bispo (talvez fossem até xingados de novo), pois minoria tinha ficar calada e baixar a cabeça para tudo e para todos. Ainda bem, que não é mais assim.

Os tempos estão em constante mutação, como bem afirma Bob Dylan. Dessa forma, o que “há algum tempo era jovem e novo, hoje é antigo” e, como bem diz o poeta Belchior: “precisamos todos rejuvenescer”. Não rejuvenescer no corpo apenas, mas nas nossas cabeças e nos nossos corações, tendo em vista que existem inúmeros jovens, que são velhos de dar dó; enquanto muitos velhos são maravilhosamente jovens. Precisamos todos rejuvenescer, principalmente naquilo que diz respeito às nossas velhas opiniões formadas sobre tudo. Precisamos abrir nossas janelas da alma, para que somente dessa maneira consigamos ver a beleza da diversidade da qual se constitui o outro. Enquanto não conseguirmos colocar isso em prática, chafurdaremos eternamente na lama da nossa hipocrisia e na ignorância dos nossos preconceitos. Afinal, com bem afirma Sakamoto (2016:157), a ignorância é realmente um lugar quentinho.

E é sobre a estupidez humana, o prazer de xingar e destilar ódio por meio da Internet, entre outros assuntos, que trata o livro O que aprendi sendo xingado na Internet (2016), de Leonardo Sakamoto. O livro em questão foi publicado pela editora Leya e traz uma seleção de algumas das melhores crônicas escritas por Sakamoto, sendo algumas já publicadas em seu próprio blog. O livro tem cento e sessenta páginas e está organizado em doze partes, que se sucedem da seguinte forma: “Todos nós somos responsáveis” (p. 7-11), “O outro é um ilustre desconhecido” (p. 13- 26), “Somos educados a tomar partido” (p. 27-50), “Jornalistas não são jornalistas, leitores não são leitores” (p. 51-70), “Falta amor no mundo” (p. 71-88), “Falta interpretação de texto” (p. 89-104), “Falta Lexotan na água desse povo” (p. 105-116), “Boatos são eternos” (p.117-132), “Mais vale um tuíte atrasado do que um post mal apurado” (p. 133-146), “Odiar é fácil. Difícil é dialogar” (p. 141-146), “Por que devemos continuar resistindo” (p. 147-154) e “Epílogo” (p. 155- 158). O livro conta ainda com uma breve apresentação de Gregório Duvivier e abre com uma charge da Laerte.

Sakamoto procurou organizar o livro, reunindo sob títulos abrangentes, aquelas crônicas que, de alguma forma, mantivessem aproximações temáticas. Dessa forma, O que aprendi sendo xingado na Internet não tem como objetivo dar a palavra final sobre nenhum dos assuntos ali tratados, mas propor questionamentos e discussões acerca do atual clima de ódio que se destila nas redes sociais, a partir da situação sócio-política do Brasil, para que nós, leitores, não nos tornemos massa de manobra na rede.

A formação acadêmica e a experiência profissional de Leonardo Sakamoto permitem que ele discorra sobre os mais delicados assuntos, de forma bastante leve, como se exige de uma boa crônica. Não é, no entanto, a leveza do seu texto que o impede de meter o dedo na ferida da incompreensão, questionando, o tempo todo, a necessidade que sentem alguns em defender o indefensável, tentando empurrar goela abaixo dos incautos e desavisados uma visão de história e de política, que não condiz com a realidade da maioria, mas de uns poucos escolhidos. Através dos seus textos, o autor sempre apresenta mais de uma maneira de compreensão para um mesmo tema, desconsiderando completamente a possibilidade de defesa e manutenção de uma história única. Para tanto, um dos recursos mais eficazes observados na sua escrita é o uso da ironia, à qual recorre com bastante freqüência, usando-a na medida certa.

Leonardo Sakamoto
Os textos que compõem o livro em questão são resultados das preocupações do autor em relação às questões que dizem respeito à situação sócio-política do Brasil, assim como o comportamento dos internautas no que concerne às opiniões que emitem no ambiente virtual. Como há, na Internet, uma sensação de invisibilidade e, consequentemente, uma sensação de impunidade no que concerne ao que se diz nas redes sociais; as pessoas que tomam posicionamentos e mostram seus rostos, provando que existem na vida real e que pensam de maneira livre, acabam por se tornarem alvos fáceis para a imensa massa de agressores virtuais dispostos a impor seus dogmas, atacando aqueles que questionam ou, simplesmente, mostram que nada é absoluto.


Sakamoto é uma dessas figuras que carregam um alvo nas costas. E embora determinados xingamentos tenham deixado a Internet e o busquem pelas ruas, o autor não tem se deixado abater por questões tacanhas, defendo sempre o diálogo como forma de se chegar a um denominador comum. É claro que o fascismo que invade a web e bate na nossa porta não reconhece o outro e, consequentemente, ignora a importância de se dialogar. Por isso mesmo, toda e qualquer pessoa que passou, passe ou pretenda passar pelo menos perto de um computador tem a urgentíssima necessidade de se debruçar sobre os textos deste livro de Leonardo Sakamoto, como forma de apreender as maneiras mais básicas e elementares de sobreviver à Internet, o que também, sem dúvida alguma, o tornará uma pessoa melhor.

Leia também:

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br


segunda-feira, 15 de junho de 2015

CRÔNICAS ABSURDAS DE SEGUNDA

As segundas-feiras costumam ser dias horríveis para muitas pessoas. Principalmente para aquelas que adorariam que os domingos fossem mais longos e que o fim da noite jamais chegasse. Entre essas pessoas talvez esteja a figura do cronista de jornal, aquele que deve estar com seu texto prontinho para que, já no café da manhã da segunda-feira, o leitor possa se deleitar com as noticias trazidas pelo jornal. É claro que me refiro aqui, especificamente, àqueles leitores que ainda não abandonaram de todo sua relação com o folhetim impresso, não desconsiderando que o mesmo ocorre com o leitor que lê o jornal em outro tipo de suporte. Esse, assim como eu, provavelmente lê o que lhe interessa já na noite anterior.

O leitor, certamente, não sabe das peripécias e malabarismo que o cronista às vezes precisa fazer para entregar seu texto, mesmo em tempos de Internet. E, convenhamos, o leitor não dá a mínima pra isso. O cronista que se vire, pois para o leitor, é o resultado final que realmente interessa. Mas o jornal. Ah! O jornal! Houve um tempo em que o jornal que trazia a crônica de hoje, estaria embrulhando peixe amanhã. Os tempos mudaram e, hoje, poucas são as pessoas que comeriam peixe embrulhado em jornal. Mas para onde vai o jornal que carrega aquela crônica que levou um bom tempo para ser escrita? Vai para os confins da rede e, provavelmente, para as nuvens. E, como se diz no interior, a nuvem é bem aí!

Raymundo Netto
Como nem todo mundo acessa a web e nem sabe o que é essa tal de nuvem, é sempre bom registrar o que se escreve naquele negócio chamado livro. E é exatamente isso que fez o escritor Raymundo Netto ao publicar uma seleção das crônicas que, entre os anos de 2007 e 2010, escreveu para o jornal O Povo. Conforme o próprio autor: “A maior parte dessas crônicas se desenvolvem a partir de “encontros” com escritores e personalidades cearenses vivos ou mortos – em literatura isso não faz muita diferença -, em um exercício intertextual, contextualizados com acontecimentos na cidade de Fortaleza, palco que serve de frigideira para a maioria dessa omelete”.

A ideia de Raymundo Netto em escrever suas crônicas a partir de “encontros” com escritores e personalidades vivos ou mortos da cena fortalezense, faz com que o leitor, juntamente com o narrador, revisite a Fortaleza, essa cidade que tanto assombra quanto seduz. Essa mesma cidade quase engolida pelos milhares de buracos que invadem suas ruas, devido a incompetência de seus gestores e pelo seu povo entregue à própria sorte. A cidade vista pelos olhos (verdes?) de Raymundo Netto é a “prima pobre” da Paris vista pelos olhos miúdos de Woody Allen, em seu filme Meia-noite em Paris (2011). E aqui tomo a liberdade de apontar uma aproximação da obra de Netto com a de Allen, no que concerne a uma observável exaltação do passado em relação ao presente. Sobre a comédia romântica de Allen, observemos uma das sinopses disponibilizadas na Internet:

Gil (Owen Wilson) é um escritor e roteirista americano que vai com a noiva Inez e a família dela à Paris, cidade que idolatra. Ele realiza vários passeios noturnos e sozinho, quando descobre que, surpreendentemente, ao badalar da meia-noite, é transportado para a Paris de 1920, época e lugar que considera os melhores de todos. Nessas "viagens", Gil vai a várias festas onde conhece inúmeros intelectuais e artistas que admira e que frequentavam a cidade-luz naquela época. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Salvador Dali dentre outros. Até que tenta acabar o seu romance com Inez, pois se apaixonou por Adriana (Marion Cotillard), uma bela moça do passado, e é forçado a confrontar a ilusão de que uma vida diferente (a "época de ouro" francesa) é melhor do que a atualidade.

O narrador de Raymundo Netto seria o nosso Gil, um flâneur a caminhar com atenção pelos mais inusitados espaços da cidade. Nas caminhadas, o narrador encontra e conversa com Rachel de Queiroz, Francisco Carvalho (Que poeta maravilhoso!), Ana Miranda e Mário Gomes; entre inúmeros outros. O resultado dessas conversas e andanças é o livro Crônicas absurdas de segunda (2015), uma vez que o referido cronista escrevia para o jornal exatamente às segundas. Trata-se de uma belíssima edição, publicada pelas edições Demócrito Rocha, composta de trinta e nove crônicas, sendo três inéditas. Há três textos introdutórios, sendo “Crônicas absurdas”, de Ana Miranda, “Crônicas”, de Sânzio de Azevedo e “Duas palavras”, do próprio Raymundo Netto explicando a origem, a construção e os resultados do projeto que acabou por gerar a obra em questão. O livro traz ainda um “posfácio” escrito por Pedro salgueiro, denominado de “Um dândi pós-moderno”, além da biografia do autor, bem como as referências bibliográficas.

A lexia “absurda”, no título da obra de Raymundo Netto, acaba por nos remeter ao Mito de Sísifo - Ensaio sobre o absurdo (1941), de Albert Camus (1913 -1960); bem como ao teatro do absurdo, de Samuel Beckett (1906 – 1989); especificamente sua peça Esperando Godot, de 1952. Embora sejam “absurdos” diferentes, as crônicas de Raymundo Netto acabam por dialogar entre si e com o outro, quando, de uma forma ou outra, discorrem sobre a própria condição humana, tal qual ocorre em Camus e Beckett. A série de crônicas que Netto aqui apresenta, afirma Ana Miranda, tem uma linha mestra, ou seja, é uma agenda de encontros com fantasmas. De repente o cronista se depara com algum autor de livros que ele mesmo leu, e não esqueceu. Os seus fantasmas literários tomam corpo e vida, conversam, zombam, tresvariam, surpreendem e nos fazem rir, mas às vezes de olhos marejados. Há algo mais humano, pergunto, e ao mesmo tempo mais absurdo?

Sobre o narrador de Crônicas absurdas de segunda (2015), Ana Miranda diz:

O narrador me faz lembrar um senhor de chapéu coco e fraque, muito elegante, cortês. Entusiasmado e fervoroso, vaga pelas ruas a olhar tudo e conversar com quem aparece ali. Gosta de conversa. Um narrador carregado de sentimentos, uma afetividade à flor da pele, e um pouquinho de malícia. Fala num tom de certo gracejo inocente, aproveitando todos os momentos para chistes e improvisos. É quase o mesmo narrador do primeiro livro de Netto, Um conto do passado: cadeiras na calçada, romance preciso e admirável, com jeito de crônica, no qual, enquanto se passa uma história de amor, a cidade vai se mostrando e se transformando.

O “se mostrar” e o “se transformar” da cidade, observados pela autora de Semíramis (2014), no romance de Raymundo Netto, também é facilmente identificável na sua crônica. Essa transformação que se dá com a cidade, também se dá com seus habitantes-personagens em uma espécie de simbiose. E assim também o é na relação da personagem de Owen Wilson com a Paris dos anos 20, no Meia-noite em Paris.

Revisitar Fortaleza é sempre um convite irrecusável. Mais uma vez, e com bastante esmero, o escritor Raymundo Netto nos lança o convite a partir das suas Crônicas absurdas de segunda (a nosso ver, crônicas de primeira), tomando ruas, abrindo portas e apresentando gente. 
Que a cidade nos seja tão leve quanto uma crônica 'absurda', de Raymundo Netto!