sábado, 15 de março de 2014

A MEDULA DO POEMA

Costuma-se dizer que um bom livro é aquele que, sozinho, consegue ficar de pé. É claro que isso não procede, sendo apenas mais uma das inúmeras besteiras ditas abaixo da linha do Equador, por desocupados de marca maior. Se assim o fosse, não receberiam créditos nenhum dos livros de Mário Quintana, Bartolomeu Campos de Queirós ou Manoel de Barros. O lugar estaria assegurado a uns poucos. Entre eles, Viva o Povo Brasileiro (1984), de João Ubaldo Ribeiro e o volume único de Os Donos do Poder (1958), de Raymundo Faoro, para ficarmos apenas em alguns.

Digo isso por ter lido recentemente, o livro A desmedula da seta (2011), de autoria do poeta Alan Mendonça. O livro é fininho e, se apenas isso contasse, não valeria de muita coisa; uma vez que não consegue ficar de pé. O que realmente vale em uma obra é o que se diz e o como se diz. Em outros termos, é o miolo o que interessa, o cerne da palavra. No caso de Alan Mendonça, a medula do poema. E o autor de Varandas (2004) sabe muito bem como dissecar a palavra, costurar silêncios e desmedular a rigidez da seta. 

Vencedor de inúmeros prêmios literários, Mendonça já é reconhecidamente um dos principais nomes da cultura cearense; uma vez que transita com enorme facilidade pelos campos da arte-educação, da composição musical, pelo teatro, pela crônica e pelo conto. A obra da qual tratamos aqui, foi vencedora do Prêmio Criação Literária, da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, no ano de 2009. Publicado pelo selo Caixeiro Viajante de Leitura, o livro conta com o auxílio luxuoso do prefácio de Jorge Pieiro,  apresentação de Pedro Salgueiro e ilustrações de Yuri Yamamoto. O livro já nos cativa e nos instiga a partir do seu título A desmedula da seta. E assim sendo, numa tentativa de compreendermos o sugestivo título, somos levados mais do que imediato a buscarmos não a significação da "desmedula", mas a compreensão da definição do próprio termo  "medula". Nesse caso, nada como um bom dicionário para não nos deixar cair na tentação das armadilhas lexicais tão abundantes na língua dos homens.


E eis que o dicionário Houaiss (2004) nos diz que, em sentido figurado, a medula é a parte mais interna ou central; o âmago. E ao apreendermos o significado (na verdade, um dos) do termo "medula"; facilmente inferimos as possíveis significações contidas no termo "desmedula", utilizado pelo poeta. Desmedular, por sua vez, pode ser compreendido como o ato de retirar a medula. O termo "seta", por sua vez, pode significar flecha. Pode, no entanto, também significar rumo. Dessa forma, numa leitura particularmente nossa,  "a desmedula da seta"  pode significar, por exemplo, a capacidade de se aproveitar ao máximo aquilo que, de uma forma ou outra, nos é oferecido. Podendo significar ainda, a desconstrução de um rumo, de um caminho/destino previamente traçado. "Desmedular a seta" também pode ser compreendido como um indicativo do desejo de explorar e "sorver" o poema em uma tentativa de compreendê-lo no seu todo. Deixamos claro, no entanto, que essas são apenas umas poucas tentativas de análise, levando-se em consideração a abertura proposta por toda e qualquer obra literária.

O pequeno-grande livro de Alan Mendonça traz cinquenta e dois poemas, abordando os mais variados assuntos acerca do cotidiano. A linguagem do poeta é lírica, não abandonando, contudo, a crítica social e, vez ou outra, a metapoesia. "No meio das chuvas" (p.13) nos diz o poeta: " Que a poesia se desfaça das sombrinhas e viva no meio das chuvas". Sobre costurar silêncios, o poeta afirma em "Das cartas em branco para Maria do Monte" (p.17): "Ainda era princípio...manhãzinha.../ainda dormia a não ter com as horas a última palavra não dita...". Sobre lembranças e memórias, tem-se "Da medula da lembrança" (p.15): "O trágico vazio da espera/a medula das lembranças/a salpicar imagens/no muro caraquento da memória". Em "Sapiens" (p.19), a poesia de Alan Mendonça dialoga com a poesia de Manuel Bandeira (1886-1968), especificamente com o poema "O bicho". Vejamos: "Um cachorro chafurda um lixo/a procurar um livro/um homem chafurda um mundo a procurar um osso. Os dois se cruzam em uma esquina e não se reconhecem". A ironia que tece o poema de Bandeira é semelhante àquela que recobre o poema de Mendonça.

No que diz respeito às temáticas presentes na obra em questão, o autor não se furta aos temas mais recorrentes na poesia universal. Dessa forma, o poeta constrói  metapoemas (p.13, p.14, p.20, p.22); fala sobre a rua (p.26, p.),a lua (p.27, ),o homem (p.11, p.34), a guerra (p.14) e o amor (p.65, p.66); para ficarmos apenas em alguns exemplos. Modernista, a poesia de Alan Mendonça não segue nenhuma forma fixa. Ao contrário, o poeta fica bastante à vontade para estruturar sua poesia da maneira que bem desejar. Dessa forma, surgem poemas minimalistas, bem como poemas inconclusos; ou como prefere o autor, poema em construção. Além disso, por ser compositor, percebe-se a relação entre o texto poético de Alan Mendonça e suas letras de música (textos não menos poéticos), constituindo o que se deve compreender por melopoética (do grego, melos = canto + poética), terminologia essa cunhada por Steven Paul Scher (1936-2004). Um exemplo, é o poema "matriz" (p.74), musicado por Liduíno Pitombeira. Diz o poema: "Missa na matriz/imenso mundo a girar/bola de meia/bola de meia/café com queijo/molhado pão/benção de pai e de mãe/tantas e tantas tias/e o amor com um cheiro de lá-de-casa".

Consciente de que "a vida é curta/e o dia um diamante/que a loucura é sadia/e a lucidez perigosa", Alan Mendonça não nos parece ser daqueles poetas que dormem, como se não dormissem embaixo de uma pedra. Ao contrário,alerta, segue construindo seus poemas, pois bem o sabe, como afirma Manoel de Barros, que "poesia é voar fora da asa". Por isso e por muito mais, a poesia de Alan Mendonça está de pé, pedindo passagem e demarcando território no multifacetado universo da literatura brasileira.



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